W. E. B. Du Bois e a disputa pela verdade histórica nos Estados Unidos

Imagem: WikiCommons

Por W. E. B. Du Bois

“Todo o desenvolvimento da Reconstrução foi sobretudo um desenvolvimento econômico, mas não foi escrita nenhuma história econômica ou material adequado a respeito dela. A Reconstrução foi considerada assunto puramente político – e de política, naturalmente, como algo divorciado da indústria.1

Tudo isso está refletido nos livros didáticos da época e nas enciclopédias, até chegarmos ao ponto em que não podemos usar nossas experiências durante e após a Guerra Civil para a elevação e o esclarecimento da humanidade. Estragamos e distorcemos a posição do historiador. Se quisermos, no futuro, não apenas com relação a essa questão, mas com relação a todos os problemas sociais, ser capazes de usar a experiência humana para orientar a humanidade, temos que distinguir claramente entre fato e desejo.  

Em primeiro lugar, alguém em cada época deve esclarecer os fatos com total desconsideração de seus próprios anseios, desejos e crenças. O que temos de saber, na medida do possível, são as coisas que realmente aconteceram no mundo. Então, com tudo isso claro e disponível a todos os leitores, o filósofo e o profeta têm a chance de interpretar esses fatos; mas o historiador não tem o direito de, se passando por cientista, ocultar ou distorcer os fatos; e até que façamos a distinção entre essas duas funções do cronista da ação humana, facilitaremos que um mundo confuso, por pura ignorância, cometa o mesmo erro dez vezes.  

No estudo da história, é surpreendente a recorrência da ideia de que o mal deve ser esquecido, distorcido, ignorado. Não devemos nos lembrar que Daniel Webster se embriagava, apenas lembrar que ele era um esplêndido advogado constitucionalista. Devemos esquecer que George Washington era proprietário de escravos, ou que Thomas Jefferson teve filhos mulatos, ou que Alexander Hamilton tinha sangue negro, e simplesmente lembrar as coisas que consideramos inspiradoras e dignas de crédito. Claro, o problema dessa filosofia é que a história perde seu valor como incentivo e exemplo; ela pinta homens perfeitos e nações nobres, mas não diz a verdade.  

Ninguém que leia a história dos Estados Unidos entre 1850 e 1860 pode ter a menor dúvida de que a escravidão dos negros foi a causa da Guerra Civil, e, no entanto, na época e desde então, aprendemos que uma grande nação assassinou milhares e destruiu milhões por causa de doutrinas abstratas sobre a natureza da União Federal. Uma vez que a postura da nação em relação aos direitos dos estados foi revolucionada pelo desenvolvimento do governo central desde a guerra, todo o argumento se torna um surpreendente reductio ad absurdum, deixando-nos aparentemente sem nenhuma causa para a Guerra Civil, exceto a recente reiteração de declarações que tornam os grandes homens públicos, de um lado, tacanhos, fanáticos hipócritas e mentirosos, enquanto os líderes, do outro lado, eram extraordinários e inigualáveis em beleza, altruísmo e justiça.  

Nem um único grande líder da nação durante a Guerra Civil e a Reconstrução escapou de ataques e calúnias. As magníficas figuras de Charles Sumner e Thaddeus Stevens foram manchadas de forma quase irreconhecível. Temos bajulado e lisonjeado o Sul e difamado o Norte, porque o Sul está determinado a reescrever a história da escravidão, e o Norte não está interessado em sua história, e sim em riqueza. 

Essa, portanto, é a base bibliográfica a partir da qual hoje julgamos a Reconstrução. Para pintar o Sul como um mártir de um destino inevitável, para fazer do Norte o emancipador magnânimo e para ridicularizar o negro como a piada impossível em todo esse desenvolvimento, em cinquenta anos, por meio de calúnias, insinuações e silêncio, distorcemos e obliteramos tão completamente a história do negro na América e sua relação com seu trabalho e com seu governo que hoje ela é quase desconhecida. Isso pode ser um bom romance, mas não é ciência. Pode ser inspirador, mas certamente não é a verdade. Além do mais, é perigoso. Não é apenas parte da base de nossa atual desordem e perda de ideais democráticos; mais do que isso, levou o mundo a abraçar e adorar a barreira de cor como salvação social e está ajudando a dispor a humanidade em fileiras de ódio e desprezo mútuos, convocada por um mito barato e falso.  

Quase todos os livros recentes sobre a Reconstrução concordam entre si ao descartar os relatórios do governo e substituí-los por uma seleção de diários, cartas e fofocas. No entanto, os registros do governo são uma fonte histórica de autenticidade ampla e inigualável. Há o relatório da seleta Comissão dos Quinze, que investigou meticulosamente a situação em todo o Sul e convocou homens de todos os tipos e condições para testemunhar; há o relatório de Carl Schurz e os doze volumes de relatórios feitos sobre a conspiração da Ku Klux; e, acima de tudo, o Congressional Globe. Ninguém que não tenha lido página por página o Congressional Globe, especialmente as sessões do 39o Congresso, pode ter alguma ideia dos problemas da Reconstrução enfrentados pelos Estados Unidos em 1865-1866. Há também os relatórios do Bureau dos Libertos, os relatórios executivos e outros relatórios documentais de funcionários do governo, especialmente nos Departamentos de Guerra e do Tesouro, que dão ao historiador a única base sobre a qual ele pode construir um quadro real e verdadeiro. Há alguns historiadores que não tentaram falsificar deliberadamente o quadro: brancos do Sul, como Frances Butler Leigh e Susan Smedes; historiadores do Norte, como McPherson, Oberholtzer, Nicolay e Hay. Há viajantes estrangeiros como sir George Campbell, Georges Clemenceau e Robert Somers. Há as memórias pessoais de Augustus Beard, George Julian, George F. Hoar, Carl Schurz e John Sherman. Há o trabalho inestimável de Edward McPherson e os estudos mais recentes de Paul Haworth, A. A. Taylor e Charles Wesley. Beale simplesmente não leva em conta os negros no ano crítico de 1866.  

Algumas monografias merecem todos os elogios, como as de Hendricks e Pierce. O trabalho de Flack é preconceituoso, mas baseado em pesquisa. A defesa do regime carpetbag por Tourgee e Allen, Powell Clayton, Holden e Warmoth são antídotos dignos para certos escritores.  

As biografias de Stevens e de Sumner são reveladoras, mesmo quando ligeiramente apologéticas por causa do negro; enquanto as de Andrew Johnson começam a sofrer com escritores que tentam provar quão raramente ele se embriagava, e consideram isso importante. Deve-se notar que, como fontes deste trabalho, dependi muito de material secundário; das histórias da Reconstrução nos estados, escritas principalmente por aqueles que estavam convencidos, antes de começarem a escrever, de que o negro era incapaz de governar ou de se tornar parte integrante de um Estado civilizado. As histórias mais justas não tentaram ocultar os fatos; em outros casos, o negro foi amplamente ignorado, enquanto em outros, ainda, ele foi ridicularizado e difamado. Se eu tivesse tido tempo, dinheiro e oportunidade de voltar às fontes originais em todos os casos, não há dúvida de que o peso deste trabalho teria sido muito fortalecido e, como acredito firmemente, o caso do negro teria sido apresentado de forma mais convincente.  

Diversos volumes de documentos nas grandes bibliotecas, como os documentos de Johnson na Biblioteca do Congresso, os manuscritos de Sumner em Harvard, a correspondência de Schurz, os documentos de Wells, os documentos de Chase, as coleções de Fessenden e Greeley, os documentos de McCulloch, McPherson, Sherman, Stevens e Trumbull, todos devem ser de grande interesse para os historiadores do negro americano. Não tive tempo nem oportunidade de examiná-los, e a maioria dos que já o fizeram tinha pouco interesse no povo negro.  

Há excelentes trabalhos feitos por negros a respeito de sua própria história e em sua própria defesa. São trabalhos que sofrem, é claro, de um partidarismo natural e da necessidade de provar um ponto diante de um coro de ataques injustos. Os melhores trabalhos também sofrem com o fato de que os negros enfrentam entraves para alcançar o público leitor. Mas isso se aplica igualmente a escritores brancos como Skaggs e Bancroft, que não conseguiram editoras de primeira linha porque estavam dizendo algo que não agradava à nação. 

Os historiadores negros começaram com autobiografias e memórias. Os historiadores mais antigos foram George W. Williams e Joseph T. Wilson; a nova escola de historiadores é liderada por Carter G. Woodson; e muito me ajudaram as teses não publicadas de quatro dos mais jovens estudantes negros. É lamentável que, enquanto muitos jovens sulistas brancos conseguem financiamento para atacar e ridicularizar o negro e seus amigos, é quase impossível para os estudantes negros de primeira linha ter uma chance de pesquisar ou de publicar seus trabalhos. 

Escrevo, portanto, em um campo devastado pela paixão e pela crença. Como negro, naturalmente não posso escrever sem acreditar na humanidade essencial dos negros, em sua capacidade de se educarem, de realizarem o trabalho do mundo moderno, de ocuparem seu lugar como cidadãos iguais aos outros. Não posso, nem por um momento, concordar com essa doutrina bizarra da raça que concebe a maioria dos homens como inferiores a poucos. Como estudante da ciência, que também sou, quero ser justo, objetivo e criterioso; não deixar que nenhum insulto e crueldade intoleráveis me façam deixar de simpatizar com as fragilidades e contradições humanas, no eterno paradoxo do bem e do mal. Mesmo armado e advertido por tudo isso, e fortalecido por um longo estudo dos fatos, chego ao final deste texto literalmente atônito com o que os historiadores americanos fizeram com esse campo. 

Qual é o objetivo de escrever a história da Reconstrução? É apagar a desgraça de um povo que lutou para transformar os negros em escravos? É mostrar que o Norte tinha motivos mais elevados do que libertar os negros? É provar que os negros eram anjos negros? Não, é simplesmente estabelecer a Verdade, sobre a qual a Justiça no futuro poderá ser construída. Jamais teremos uma ciência da história até que tenhamos em nossas faculdades homens que considerem a verdade mais importante do que a defesa da raça branca e que não incentivem deliberadamente os alunos a reunir material de tese a fim de sustentar um preconceito ou reforçar uma mentira.  

Três quartos do testemunho contra o negro na Reconstrução se baseiam em evidências não fundamentadas de homens que odiavam e desprezavam os negros e consideravam ser atos de lealdade ao sangue, de patriotismo e de tributo filial aos pais mentir, roubar ou matar para desacreditar esse povo negro. Esse pode ser um resultado natural quando um povo foi humilhado, empobrecido e degradado em sua própria vida; mas o que é inconcebível é que outra geração e outro grupo considerem esse testemunho como verdade científica, quando ele é contradito pela lógica e pelos fatos. Este capítulo, portanto, que em tese deveria ser um levantamento de livros e fontes, torna- -se, por pura necessidade, uma denúncia contra os historiadores americanos e uma acusação de seus ideais. Com uma determinação sem paralelo na ciência, a massa de escritores americanos começou a distorcer os fatos do maior período crítico da história americana, de modo a provar que o certo está errado e o errado está certo. Não estou suficientemente familiarizado com o vasto campo da história humana para me pronunciar sobre a culpa relativa desses e de historiadores de outras épocas e campos; mas digo que, se a história do passado foi escrita da mesma forma, ela é inútil como ciência e enganosa como ética. Ela apenas mostra que, com suficiente consenso geral e determinação por parte das classes dominantes, a verdade da história pode ser totalmente distorcida, contradita e alterada para qualquer conto de fadas conveniente que desejarem os senhores dos homens. 

Não posso acreditar que uma mente imparcial, com um ideal de verdade e de julgamento científico, possa ler os fatos claros e autênticos de nossa história, entre 1860 e 1880, e chegar a conclusões diferentes, em essência, das minhas; e, no entanto, estou praticamente sozinho nessa interpretação. Tanto é assim que a própria consistência dos meus fatos me faria hesitar, se eu não enxergasse razões evidentes. Subtraia de Burgess sua crença de que somente os brancos podem governar, e ele estará essencialmente de acordo comigo. Lembremos que Rhodes era um empresário sem formação alguma, que contratou funcionários para encontrar os fatos de que precisava para sustentar sua tese, e nos convenceremos de que o mesmo trabalho e os mesmos recursos poderiam com facilidade produzir resultados completamente opostos. 

Um fato, e apenas um, explica a atitude da maioria dos escritores recentes em relação à Reconstrução: eles não conseguem conceber os negros como homens; em sua mente, a palavra “negro” conota “inferioridade” e “estupidez”, atenuadas apenas por altivez e humor irracionais. Suponha que os escravos de 1860 fossem brancos. Stevens teria sido um grande estadista, Sumner um grande democrata e Schurz um profeta perspicaz, em uma poderosa revolução da humanidade que se levantava. A ignorância e a pobreza teriam sido facilmente explicadas pela história, e as demandas por terras e pelo direito de voto teriam sido justificadas como o direito inato dos homens livres naturais. 

Mas Burgess era um proprietário de escravos, Dunning, um copperhead, e Rhodes, um explorador de trabalho assalariado. Aparentemente, nenhum deles jamais conheceu um negro culto, dinâmico e competente. Em torno desses pensadores impressionantes, reuniram-se os jovens estudantes do Sul do pós-guerra. Eles haviam nascido e crescido no período mais amargo de ódio, medo e desprezo racial do Sul. Suas reações instintivas foram confirmadas e incentivadas nas melhores universidades americanas. Sua erudição, no que se refere aos negros, tornou-se surda, muda e cega. A evidência mais nítida da capacidade, do trabalho, da honestidade, da paciência, do aprendizado e da eficiência dos negros foi distorcida em astúcia, trabalho bruto, evasão perspicaz, covardia e imitação – um esforço estúpido para transcender a lei da natureza.  

Durante aqueles sete anos místicos entre a “Volta ao Círculo” de Johnson e o Pânico de 1873, a maioria dos americanos pensantes do Norte acreditava na igualdade humana dos negros. Eles agiram de acordo com essa crença com uma determinação clara e uma lógica minuciosa, totalmente incompreensíveis para uma época como a nossa, que não compartilha dessa fé humana; e para os brancos do Sul, esse período só pode ser explicado por vingança e ódio deliberados.  

O Pânico de 1873 trouxe uma súbita desilusão em relação às iniciativas empresariais, à organização econômica, às crenças religiosas e aos padrões políticos. Uma enxurrada de apelos do Sul branco reforçou essa reação – apelos não mais com a arrogância da oligarquia escravocrata, mas com os anais simples e comoventes da situação difícil de um povo conquistado. O subsequente rebote emocional e intelectual da nação tornou quase inconcebível, em 1876, que dez anos antes a maioria dos homens tivesse acreditado na igualdade humana.  

Presumindo, portanto, como axiomática a infinita inferioridade da raça negra, esses novos historiadores, em sua maioria sulistas e alguns nortistas que simpatizavam profundamente com o Sul, interpretaram mal, distorceram e até mesmo ignoraram de modo deliberado qualquer fato que desafiasse ou contradissesse essa suposição. Se o negro era reconhecidamente sub-humano, qual a necessidade de perder tempo se aprofundando em sua história da Reconstrução? Por consequência, os historiadores da Reconstrução, com poucas exceções, ignoram o negro da forma mais completa possível, deixando o leitor se perguntando por que um elemento aparentemente tão insignificante preencheu todo o quadro sulista da época. A única desculpa real para essa postura é a lealdade a uma causa perdida, a reverência a pais corajosos e mães e irmãs sofredoras, e a fidelidade aos ideais de um clã e de uma classe. Mas, na propaganda contra o negro desde a Emancipação neste país, enfrentamos um dos esforços mais estupendos que o mundo já viu para desqualificar seres humanos, um esforço que envolve universidades, história, ciência e toda vida social e religiosa. 


O drama mais grandioso dos últimos mil anos da história humana foi o transporte de 10 milhões de seres humanos da beleza negra de seu continente- -mãe para o recém-descoberto Eldorado do Ocidente. Eles desceram ao inferno e, no terceiro século, ressuscitaram dos mortos, no melhor esforço que este mundo já viu para alcançar a democracia para milhões de trabalhadores. Foi uma tragédia que ofuscou a dos gregos; foi um levante da humanidade como a Reforma e a Revolução Francesa. No entanto, somos cegos e guiados por cegos. Não identificamos nesse drama nenhuma parte de nosso movimento dos trabalhadores, de nosso triunfo industrial, de nossa experiência religiosa. Diante dos olhos embotados de dez gerações de 10 milhões de crianças, ele é ridicularizado e cuspido; uma degradação da mãe eterna; um escárnio ao esforço humano; uma distorção deliberada e meticulosa por meio da ambição e da artimanha. E por quê? Porque em uma época em que a mente humana aspirava a uma ciência da ação humana, uma história e uma psicologia sobre o poderoso esforço do mais esplêndido século, tombamos sob a liderança daqueles que negociariam a verdade do passado para selar a paz no presente e orientar a política no futuro. 

Leem-se com grande desespero os fatos mais verdadeiros e profundos da Reconstrução. É ao mesmo tempo tão simples e humano, e ainda assim tão fútil. Não há vilão, nem idiota, nem santo. Há apenas homens; homens que anseiam por conforto e poder, homens que conhecem a carência e a fome, homens que rastejaram. Todos eles sonham e se empenham com o êxtase do medo e a tensão do esforço, hesitando entre a esperança e o ódio. No entanto, o mundo rico é amplo o suficiente para todos, quer todos, precisa de todos. Um gesto tão sutil, uma palavra, poderia colocar a contenda em ordem, não com pleno contentamento, mas com alvorada cada vez maior de realização. Em vez disso, ruge o estrondo do inferno e, depois de seu turbilhão, um professor senta-se nos salões acadêmicos, instruído na tradição de seus olmos e de seus anciãos. Ele olha para o rosto levantado da juventude e nele a juventude vê a forma paramentada da sabedoria e ouve a voz de Deus. Com cinismo, zomba dos “chinas” [chinks] e dos “crioulos”. Diz que a nação “mudou seus pontos de vista a respeito da relação política entre as raças e, finalmente, aceitou na prática as ideias do Sul sobre essa questão. Os homens brancos do Sul não precisam mais temer que o Partido Republicano, ou as administrações republicanas, se entreguem de novo à vã imaginação da igualdade política do homem”2.  

Neste instante, na África, um dorso negro se avermelha com o sangue do açoite; na Índia, uma garota marrom é estuprada; na China, um coolie morre de fome; no Alabama, sete negrinhos são mais do que linchados; enquanto em Londres, os membros brancos de uma prostituta são expostos com joias e seda. As chamas de assassinatos por ciúmes varrem a Terra, enquanto cérebros de crianças pequenas mancham as colinas.  

Essa é a educação no ano 1935 de Cristo; essa é a ciência social moderna e exata; esse é o curso universitário de “História 12” estabelecido pelo Senatus academicus; ad quos hae literae pervenerint: Salutem in Domino, sempeternam!3 

  Na Babilônia, sombria Babilônia  

Quem recebe o salário da vergonha?  

O escriba e o cantor, um a um,  

Que labutam por ouro e fama.  

Eles se curvam ao humor de seus senhores;  

O sangue na pena  

Destina suas almas à servidão – 

 Sim! e as almas dos homens.  

George Sterling4″ 


Reconstrução negra: ensaio para uma história do papel desempenhado pelo povo negro na tentativa de reconstruir a democracia na América, 1860-1880, de W. E. B. Du Bois
A obra mais madura de W. E. B. Du Bois ganha sua primeira tradução para o português. Reconstrução negra revisita um momento decisivo da história estadunidense: o pós-abolição e pós-guerra civil nos Estados Unidos – um dos períodos mais radicais da história do país, que não à toa foi sujeito a um violento processo de apagamento.

Du Bois interpreta a Guerra Civil como uma revolução social que derrubou o sistema escravista do Estado confederado, abrindo caminho para uma democracia efetiva a ser construída pelos de baixo. Além de recuperar a riqueza política dessa experiência, o livro trata também da “contrarrevolução dos proprietários” que enterrou esse projeto, lançando as bases para uma nova forma de servidão sob a “ditadura do capital”. “Du Bois explora, em várias dimensões e eventos, como a Reconstrução Negra foi combatida, com armas e crimes de toda sorte, por movimentos e milícias civis de supremacistas brancos a partir dos quais se formaria, entre outros, a Ku Klux Klan”, escrevem Matheus Gato e Sávio Cavalcante na apresentação à edição brasileira.  

“Reconstrução negra é – e provavelmente continuará sendo – um dos melhores livros de história já escritos. É também o ponto culminante da obra de W. E. B. Du Bois e o prenúncio da surpreendente radicalização política de seus últimos anos. Suas mais de 700 páginas encarnam uma maestria de detalhes que só poderia ter sido obra de uma vida inteira.”
— C. L. R. James, autor de Os jacobinos negros


Notas

  1. The Economic History of the South, de Emory Q. Hawk (Nova York, Prentice-Hall, 1934), é apenas uma compilação de relatórios censitários e convencionalidades. ↩︎
  2. John William Burgess, Reconstruction and the Constitution, cit., p. 298. ↩︎
  3. A frase em latim é uma saudação utilizada em correspondências formais, especialmente em cartas dirigidas a instituições acadêmicas ou religiosas: “Ao senado acadêmico, a quem esta carta chegar: Saudações eternas em nome do Senhor!”. (N.E.) ↩︎




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