Mostra na Cinemateca Brasileira reúne filmes e debates sobre a crise do trabalho contemporâneo, com participação de autores da Boitempo  

Ao final deste post, reunimos ainda três sugestões de leitura – com trechos e breves apresentações de obras dos autores convidados – para quem quiser se preparar para os debates. 

Mas, antes, apresentamos o texto curatorial da mostra, assinado por Roberto Gervitz1

“(…) se os jovens, homens e mulheres, tiverem sorte, 
o seu trabalho será precário. Se tiverem privilégio, 
serão servos. Porque pior do que a servidão, 
é o desemprego completo.” 

 – Ricardo Antunes 

TRABALHO EM TRANSE, título desta mostra, parodia e homenageia o cineasta Glauber Rocha em seu clássico e profético Terra em Transe. No filme, ele refletiu a voragem das trágicas contradições sociais e políticas que tomaram o imaginário país sul-americano de Eldorado (poderia até mesmo ser o Brasil…) nos conturbados anos 1960. 

Naquela mesma década, vinte anos após o término da Segunda Guerra Mundial, iniciavam-se importantes transformações em nível global como resposta a uma nova crise do capitalismo – transformações que aterrissariam de forma mais decisiva no Brasil apenas no início dos anos 1980. 

Ricardo Antunes, autor da citação que abre este texto, costuma dizer que, se Charlie Chaplin fosse filmar Tempos Modernos hoje, certamente não utilizaria como cenário a linha de montagem fordista das décadas de 1920 e 1930, mas sim a de uma fábrica de celulares. 

Do ponto de vista cinematográfico, haveria aí uma perda significativa: as linhas de produção ditas pós-industriais pouco oferecem em termos visuais e, ao mesmo tempo, prescindem cada vez mais do trabalho vivo. Um operário ativo no século XX descreveu a sensação de entrar, já neste século, em uma fábrica como a de um espaço inóspito, ocupado por gigantescos equipamentos robotizados, onde os poucos trabalhadores presentes parecem técnicos liliputianos. 

Vivemos uma época de devastação de um tipo de trabalho que muitos de nós conhecemos – e que, embora marcado por constrangimentos e alienação, era também regulamentado por legislações conquistadas ao longo de dois séculos de lutas sindicais e movimentos de esquerda. 

O avanço tecnológico das forças produtivas, especialmente a partir da segunda metade do século XX, trouxe consigo profundas transformações na vida dos trabalhadores. Nos países do Sul global, direitos foram progressivamente desmantelados, o desemprego cresceu de forma brutal e, com a atomização dos indivíduos – agora convertidos em “empreendedores de si mesmos” –, o movimento sindical viu suas bases se esgarçarem. 

Os laços de solidariedade construídos no interior das fábricas tornaram-se cada vez mais raros diante da precarização e da intermitência do trabalho. Abre-se, assim, um novo desafio para aqueles que pretendem se organizar e reverter um quadro cada vez mais sombrio. 

Esta nova etapa histórica, hegemonizada pelo capital financeiro e suas crises recorrentes, segue lançando milhões de pessoas a um futuro sem horizonte, oferecendo como alternativa serviços ocasionais, condições de trabalho há poucos anos inconcebíveis e remuneração extremamente baixa. Direitos previdenciários e de saúde foram, em grande medida, suprimidos. 

O quadro geral revela uma classe trabalhadora mais complexa e fragmentada. Se, no passado, ela era predominantemente masculina e segmentada entre qualificados e não qualificados, hoje é atravessada por marcadores de gênero, raça e migração, com presença decisiva de mulheres, trabalhadores negros, indígenas e imigrantes. 

E, no entanto, ao contrário do que previram certos diagnósticos, o trabalho não desapareceu. Ele segue sendo fonte central de valor – ainda que em condições cada vez mais desumanas. 

A seleção de filmes – entre ficções e documentários – desta mostra oferece a oportunidade de refletir sobre essas transformações profundas que, em poucas décadas, alteraram a própria experiência da vida social. Por meio de realizadores de diferentes partes do mundo, veteranos e novos, e de suas distintas propostas estéticas, somos convidados a observar processos que a própria aceleração do tempo tende a fragmentar. 

Os filmes percorrem o declínio das fábricas fordistas e tayloristas e das últimas grandes mobilizações sindicais, atravessam a devastação desse mundo e acompanham a passagem pela desorientação, pela precarização e pelo isolamento dos indivíduos – até chegar às formas contemporâneas de semiescravidão, frequentemente naturalizadas por Estados e sociedades. 

E, embora o cinema tenha registrado parcamente as novas mobilizações contra este estado de coisas, contaremos com as reflexões de três dos mais importantes intelectuais brasileiros: Paulo Arantes, Ricardo Antunes e Ruy Braga, pensadores críticos do capitalismo e do mundo do trabalho. 

Paulo Arantes 

Refletindo sobre as manifestações de junho de 2013, o extermínio colonial, a economia de guerra, a indústria dos presídios, as UPPs, o trabalho nos campos de concentração, as revoltas nos guetos, o golpe militar de 64, Paulo Arantes enfrenta neste livro o ambicioso desafio de pensar a experiência da história em uma era de expectativas decrescentes. 

Se a esquerda intelectual brasileira pretende mesmo algum dia despertar do coma profundo em que se encontra”, provoca Arantes, “creio que a primeira providencia seria repassar os grandes lugares-comuns de nossa tradição crítica por um prisma teórico e político à altura da ruptura de época que estamos atravessando as cegas”. 

Trecho do livro 

“A exceção de hoje confunde-se com o próprio governo. Um emaranhado de violações ad hoc, estritamente administrativo. Um sistema de ritual de comandos indevassáveis, como vimos, se fui convincente, a racionalidade política que hoje governa o mundo – como outrora o sistema de racionalizações idealizado por Max Weber – é bem outra. Nela se exprime uma outra razão, uma Razão Pacificadora, sendo o seu governo, por isso meesmo, um governo armado, em todos os sentidos. Uma Razão Humanitária, como prefere dizer Didier Fassin, centrada, porém, nessa denominação, no governo das vidas precárias, vai se expandindo pelo conjunto da vida social, que por sua vez se apresenta cada vez mais como um cenário de traumatismos e reparações” 

Ricardo Antunes 

Ruy Braga 

Como compreender o comportamento político dos trabalhadores racializados nos Estados Unidos? E dos trabalhadores brancos que vivem em pequenas cidades rurais? A eleição de Donald Trump, em 2016, pode ser interpretada apenas como resultado de uma classe trabalhadora branca ressentida e empobrecida? A angústia do precariado, nova obra do sociólogo Ruy Braga, é fruto de uma pesquisa de campo em pequenas cidades rurais nos Montes Apalaches, região que concentra historicamente a pobreza branca nos Estados Unidos. O estudo coloca à prova a hipótese da eleição de Trump partindo de uma problematização teórica inspirada nos marxismos negro e latino-americano. 

Trecho do livro 

“Em resumo, o senso comum liberal propôs interpretar o trumpismo por meio do ódio à igualdade social gerado pela perda dos privilégios da branquitude, da masculinidade e do nativismo. Trata-se de um diagnóstico concentrado na manipulação política daqueles que se veem acuados pelo progresso do reconhecimento dos grupos historicamente oprimidos.Esse tipo de diagnóstico condensa dois contratempos frequentes nos estudos sobre a classe trabalhadora branca. Por um lado, percebemos a substancialização da classe, isto é, a atribuição a priori de certas características comportamentais a um agregado de indivíduos. Por outro, verificamos a alienação da classe, ou seja, sua manipulação por interesses alheios. Amiúde, as opiniões dos trabalhadores brancos a respeito de sua própria dominação desaparecem dessas análises.” 

Serviço 

📍 Cinemateca Brasileira 
📅 1 a 5 de abril 
🎟️ Entrada gratuita (retirada de ingressos 1h antes de cada sessão) 

Nota editorial
Durante março-abril de 2026, o blog esteve sob responsabilidade de Camila Góes (edição interina).

Notas

  1. Diretor e roteirista, formado em ciências sociais pela USP, ingressou no cinema em meados da década de 1970, realizando trabalhos de forte cunho político. Dirigiu, entre outros, os documentários Greve geral (1976), A história dos ganha-pouco (1977), e codirigiu com Sérgio Toledo Braços cruzados, máquinas paradas (1979). ↩︎

Conheça alguns títulos da coleção Estado de Sítio, coordenada por Paulo Arantes:


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