As sequências brasileiras de “A voz de Deus”: notas sobre o filme de Miguel Antunes Ramos

Imagem: Divulgação

por André Castro1

Os fins de um sonho 

Miguel Antunes Ramos decidiu não narrar seu documentário. Sem que nunca conheçamos sua voz, é no próprio corte do filme que escutamos suas ideias. As sequências que montam A voz de Deus são a linguagem própria do diretor que prefere não aparecer, mostrando-se somente nas movimentações da câmera e como um fantasma de quem, em raras ocasiões, os verdadeiros personagens não conseguem desviar a mirada. Talvez nossa primeira surpresa seja o tempo que o documentarista se deteve acompanhando os dois jovens pregadores que retrata. As imagens começam na adolescência do primeiro menino, Daniel Pentecoste, e na infância do segundo, João Vitor Ota, indo até a vida adulta do primeiro e a adolescência do segundo. O acompanhamento que o diretor faz aos meninos é íntimo, e é isso que lhe interessa; os acontecimentos que se passam no Brasil, como as eleições de 2018, são pano de fundo que influencia a vida privada das famílias, mas não as determina.

Primeiro somos apresentados a Daniel Pentecoste. Uma seleção de grandes momentos o mostra no auge da sua carreira de pregador mirim. Vemos o menino em grandes igrejas e emissoras de televisão. Assistimos também a trechos dos DVDs de suas pregações, que eram vendidos. Então chegamos à casa do Daniel, já com seus 16 anos: ele desce as escadas para o subsolo de um prédio; entramos em um quartinho com duas camas e uma cozinha. Ele se antecipa, dizendo que arrumou o local para a chegada da equipe e que é muito simples, “só para dormir mesmo”. Tudo meio improvisado; ternos no cabide pendendo do teto acima da cama do pai, móveis tentando segurar todos os pertences. Ele tem o cabelo cortado e bem penteado em um topete de pregador, como se nos dias anteriores à visita da equipe de filmagem tivesse deixado na régua, preparando sua imagem. O cabelo parece ainda molhado, talvez pelo brilho do gel que segura o penteado, quase que milimetricamente colocado para ter o caimento perfeito. 

Em certo momento Daniel coloca para tocar uma gravação antiga de suas pregações na TV e ri enquanto assiste. Seu pai, ao fundo, usa o celular sentado à mesa. Com as mãos no rosto, como quem sente angústia e tenta tirá-la da cabeça, esfrega a palma entre a testa e a boca, buscando onde agarrar a miserável; olha para o nada. Logo chegamos mais perto desse pai, sem saber seu nome, e ele começa a narrar sua situação: quando Daniel ainda era criança, eles escutavam muitas promessas de que o menino ia ser um pregador internacional, de que ia rodar o mundo. Ele era capaz de empreender aquilo que se entende como a imagem de um pregador bem-sucedido, que é requerido por igrejas em todo o mundo e anuncia o evangelho. As portas do futuro estavam abertas, e a vida caminhava para algum lugar. Mas as promessas não se concretizaram, e eles foram se desiludindo. Segundo suas palavras, foram “caindo na realidade” de que as coisas não iam virar, mas seguem “esperando acontecer pela vontade de Deus, mesmo porque se fosse pela nossa vontade, estava lá em cima. Muitos subiram”. O pai logo é rebatido pelo filho, que reafirma que não faz aquilo por dinheiro ou fama e que vai seguir pregando porque é nisso que acredita. Contrapõem-se as expectativas do pai de ascender socialmente (o que não significa meramente ganhar dinheiro, mas ganhar um lugar entre os grandes nomes do mundo evangélico, como muitos fizeram) e a visão romântica do jovem pregador, que não vê nessas conquistas terrenas o sentido da sua vocação, e por isso segue pregando. Porque de fato elas não chegaram. 

O pai então vai a uma dessas lojas típicas da quebrada que imprimem fotos, fazem “10 currículos + envelope por R$ 7,50”, tiram fotos 3×4, vendem cordas de violão, cabos de som, fones de ouvido. Na estante vertical da lojinha, um adesivo: ADORO DEUS. Em um só tempo, gesto marketeiro para angariar clientes que se identificam com essa prática de fé e o anúncio da fé, demonstrando em poucas palavras a filiação religiosa do trabalhador e a vinculação de seu “negócio” ao universo simbólico do evangelicalismo. Racionalidade instrumental e imaginação utópica. O pai de Daniel explica a situação ao trabalhador da vendinha. A venda dos DVDs do pregador mirim e da sua irmã, que era cantora mirim, davam o sustento para a família sobreviver. Mas com o passar dos anos e a chegada da adolescência, as pessoas não deram mais valor para essas mercadorias; não compravam mais e, por isso, a família teve que procurar outro caminho. Trabalhar em outras coisas. Então ficamos sabendo do motivo da sua ida ao comércio: o pai foi buscar as mídias originais das pregações que ficavam lá, agora para guardar em casa como memória. Encerra-se, desse modo, a parceria que pode ter durado anos entre dois empreendedores, o pai que agenciava seus filhos e vendia suas gravações, e o rapaz que faz tudo para conseguir uma grana, inclusive cópias de DVDs e impressão de capas. O pai retoma as mídias originais das gravações que o profissional guardava com muito zelo, esperando o próximo pedido de nova tiragem, e revisa tudo deles que possa ter sobrado na loja. Os dois se admiram pelo tempo que passou e procuram uma pregação específica, de quando o menino tinha 7 anos. O vendedor logo a reproduz enquanto o pai reafirma que segue acreditando na honra de Deus em dar valor a quem trabalha pelo seu reino. Na tela aparece Daniel, com terno branco, tentando imitar uma voz de pregador pentecostal, claramente sem conseguir completamente, mas demonstrando seu intento. Segundo o pai, aquela pregação ainda vendia entre as “irmãzinhas” – senhoras de idade que ainda consomem a velha mídia física, e por isso deveriam ser feitas outras cópias. 

Os antigos planos, sonhos de ascender economicamente e socialmente dentro do universo das igrejas, sem muita ligação específica com qualquer denominação, que era mediado pela capacidade de vender DVDs e CDs que davam visibilidade a Daniel e sustento a sua família, se desfaziam junto com o interesse por essas mercadorias artesanais que nasciam da identificação do jovem pregador enquanto milagre de Deus. A capacidade de uma criança tão pequena ter tanto discernimento para anunciar a palavra de Deus só poderia ser um dom que o próprio Deus liberou para que ele fosse uma bênção na vida das pessoas. Ao final do culto, depois de se impressionar com o que Deus pode falar dessa pequena pessoa, é possível comprar essas mercadorias e, além de ajudar o ministério desse abençoado, também abençoar a vida de quem se presenteia com a mídia. Ao passo que a infância vai perdendo suas características e a adolescência vai se montando na imagem de Daniel, ele deixa de ter tanto apelo, não é mais tão impressionante; pari passu a própria forma de consumir produtos culturais foi transformada pela internet. Os dvdplayers vão se tornando velharia, enquanto os computadores e celulares fazem brilhar os olhos de todos os ávidos consumidores que somos. Todos sofrem o baque, as grandes e poderosíssimas indústrias da música não sabiam o que fazer além das famosas campanhas contra a pirataria. O pequeno produtor, trabalhador precarizado e lateral da indústria, teve que aceitar a mudança de mercado calado. A boquinha que o livrara do mundo do trabalho foi fechada. Depois de anos, o pai enfim aceitava que não tinha mais o que fazer. Entre as duas cenas, a da casa “só para dormir” no subsolo e o resgate das mídias originais, há uma passagem de 2 anos (entre os 16 e 18 anos de Daniel). Não somos informados do ano dos acontecimentos, somente de sua idade no momento. Mais uma das faces do interesse peculiar e acertado do diretor em olhar para a interioridade da vida dos pregadores. Só nos damos conta dessa passagem de tempo depois. A vida já tinha mudado – e muito. E o pai havia passado todo esse tempo para aceitar o feito de que aquele velho sonho não tinha mais espaço para sua imaginação. 

Nessa passagem de tempo entre os 16 e 18 anos de Daniel, em que o pai digere a desilusão de não ter conseguido “chegar no topo”, aparece um novo projeto: Bolsonaro. Ele veste a camisa com dizeres “é melhor Jair se acostumando” e sai na rua para distribuir santinhos da candidata distrital de direita, já que vive em Brasília, e do mito. Com muita razão o documentário não se perde na figura nacional, que permanece como uma palavra que é dita pela televisão e nos ambientes como a igreja, mesmo que de forma cifrada. 

A casa e a igreja2 

Há uma sobreposição de planos entre a casa e a igreja que se monta na quantidade de pessoas que compõem as cenas. Se nas casas dos pregadores quase sempre temos uma única pessoa em cena, ocupando boa parte dos planos, quando estamos nas igrejas, temos mais pessoas em cena. O diretor não se ocupa de lentes grande-angulares; as objetivas sempre têm uma distorção focal característica de médio-angulares. Dentro das pequenas casas em que vivem nossos sujeitos, o que cabe à câmera é dar close-up nos indivíduos, às vezes indo de um a outro, às vezes em planos regulares. Nos espaços mais amplos das igrejas, podemos ver mais desses sujeitos e também sua relação com as outras pessoas. As relações e os modos de compor a sociabilidade são construídos entre esse espaço privado da casa-dormitório-autoconstruída e os ambientes comunitários das igrejas.

Eu prefiro adorar

Somos apresentados ao segundo menino, pregador mirim então no auge da sua carreira, enquanto acompanhamos Daniel Pentecoste visitar uma antiga conhecida sua, a Gideõezinhos. O ministério Gideões Missionários da Última Hora é uma conferência anual nacionalmente conhecida que reúne nomes significativos do campo pentecostal brasileiro; esta, em específico, era a versão para pregadores mirins, na qual Daniel tivera muito espaço e relevância no passado. Daniel e João Vitor são convidados ao púlpito juntos, e o pastor responsável diz que a vida do segundo menino era a resposta de Deus de que Ele não abandona aquele ministério. Daniel cresceu, já não era mais consumível; agora havia um novo vaso para o oleiro seguir trabalhando. Daniel é convidado a orar por João Vitor, em uma situação quase de passagem de bastão. A partir daí começamos a conhecer a vida de João Vitor e de sua família: pai, mãe, irmão e irmã. Filho do meio, ele havia ficado famoso ainda aos 4 anos de idade, e rodava o Brasil pregando.

Em certo momento estamos em sua casa. No lado direito do plano, João Vitor Ota olha a si mesmo pelo espelho e arruma seu topete com um secador de cabelo, utensílio necessário para montar o topete de pregador que ele quer ter. Na parte esquerda, um sofá cheio de mercadorias, roupas embaladas – e seu pai sentado, olhando o celular. Estão fazendo conteúdo para as redes sociais, em especial o Instagram, anunciando a sua lojinha de roupas. Quase no centro do plano, pregada na parede, em lugar de destaque na casa e na imagem, uma placa conferida pelo YouTube a todos os seus produtores que ultrapassam os 100 mil inscritos. É o canal do João Vitor, que com suas pregações lhe deu visibilidade e audiência. Ele se tornou um dos maiores pregadores mirins do Brasil por um tempo, como Daniel o fora, mas com as mudanças que a rede mundial de computadores gerou no mercado audiovisual, a sua fama não reverteu na venda de DVDs ou CDs, apenas em muitos números nas suas redes sociais. Nessa cena, Vitor já é um adolescente, e o auge da sua fama como pregador mirim já começa a ser memória. Mas os seguidores seguem lá, e para tentar fazer transformar esses números em saldo no banco, a família tenta vender roupas. Tentam vender tanto nas agendas que João segue fazendo quanto na internet. O pai comenta que ganha muito pouco na venda de cada peça, 10 de uma, 30 da outra: “não ganha nada, tendeu? ganha bem pouquinho”. Então o jovem pregador diz: 

“Tem que fazer tudo com calma. a gente está cansado, trabalha, trabalha, trabalha. acontece nada. uma hora vai acontecer.”

Uma resposta para seu pai e para ele mesmo. Uma hora vai acontecer. Nosso esforço, nossa labuta, nosso suor e sangue derramado todos os dias vão resultar em uma coisa que não sabemos nem vemos, mas esperamos. É a esperança que o pai do Daniel testemunha a falência, subir, como muitos fizeram. Mas aqui ela tá em ação. Viva como a própria Família Ota que segue crendo que sua hora vai chegar. E por isso tem que se seguir tentando, buscando as formas como essa hora pode ser organizada e fazer com que isso aconteça. Trabalha, trabalha, trabalha. Como diz o próprio pai do João Vitor a todo tempo: “Quem não é rico tem que trabalhar.”

Na economia psíquica desses sujeitos, eles já venceram. A fé não opera como uma aposta em um futuro incerto, mas como uma organização racionalizável imediata no presente: ela lhes confere o acesso a uma dignidade, a uma “casa” espiritual e a um status de sujeito que a realidade material brasileira lhes nega sistematicamente. Essa hora que, em algum momento, vai chegar e as coisas vão acontecer é uma presença real que está por detrás do próprio trabalho: trabalha, trabalha. Fé como práxis. Ao mesmo tempo, essa vitória antecipada pela imaginação religiosa colide frontalmente com a brutalidade do real. Não por acaso, o filme termina com João Vitor Ota em cima de um touro mecânico, segurando-se, batalhando, lutando. Os personagens estão montados em uma estrutura de força bruta — mercado precarizado, dívida que se contrai para sobreviver, a necessidade de performance para tentar extrair algo para si e os seus, condição contínua que chamamos Brasil — da qual não podem descer sem se quebrar. A luta dos sobreviventes ao Brasil e a fé que dá razão para sua luta e também para sua sujeição à dominação abstrata do capital.

No meio da sala improvisada em estúdio de divulgação, João Vitor grava mais um vídeo, anunciando que vai pregar em mais uma igreja. Sua agenda ainda está quente. Acompanhamos, em uma van com toda a família, o caminho para uma dessas agendas. Na estrada ele grava um vídeo anunciando que está chegando no evento, no evento ele grava uma palavra de Deus para seus seguidores, provavelmente no Instagram. Grava todo o tempo, trabalhando, as palavras de bênção que Deus tem para seus seguidores. Chegamos mais uma vez no nosso confronto entre racionalidade instrumental e imaginação utópica, tudo junto e misturado na rotina do pregador mirim. 

Poderíamos dizer, sem muito espaço para controvérsias, que A voz de Deus acontece em algumas passagens que montam uma sequência de sobreposições entre as imagens da fé e as agruras da vida. Estas que são por vezes distanciadas pelos modos próprios do discurso da fé, mas que são sua razão interior, são colocadas lado a lado. Em certo momento, de revelação incomum do mundo evangélico, Miguel nos mostra João Vitor Ota pregando, e ao terminar a pregação, começamos a escutar um louvor, cantado por sua mãe. Então vamos para os dias da semana, Vitor na escola e o pai em um dos seus trabalhos, até que no domingo voltamos ao culto, seu pai, que na semana consertava pneus velhos, falava com autoridade no púlpito das igrejas. Durante a semana foi o louvor que ficou como pano de fundo da própria luta diária, no domingo ela se solidifica na positivação infinitesimal que a própria fé lança os dilemas no moinho redentivo da ação de Deus. No louvor cantamos: “Questiona ou adora?” Em face aos problemas da vida, as lutas e batalhas que cada um vai encarar de uma forma própria, pode-se colocar em xeque a própria fé, a força de Deus e o propósito dele para sua vida, questionar,“Se ele nada fizer, me mostre a sua fé”, é nesse momento da prova que se tem que demonstrar a fé, entender que tudo isso é uma passagem que o melhor de Deus está por vir, e assim, adorá-lo, pois Ele é soberano e irá nos abençoar na hora certa. . A resposta do crente é a que canta o próprio Ota, com toda a voz, o fôlego e a força: 

Eu prefiro adorar
Se Ele nada fizer, eu uso a minha fé
Eu prefiro adorar

Fica em cena o próprio ato da adoração enquanto último recurso de dignidade. Se a promessa de ascensão social falhou e o mercado gospel se fechou, o ato de “apenas adorar” restaura, momentaneamente, o sentido da vida que a rotina de trabalho exaustivo destrói. Mas essa adoração não resolve o problema, somente dá sentido à sobrevivência face a ele. Nessas sequências, propriamente brasileiras, A Voz de Deus dá um passo no cinema que qualquer um que quiser pensar no problema da identificação crítica do evangelicalismo terá que refazer na sua própria área.

Entre a utopia da migração e da vitória

O pai do Victor Ota fala com um pastor brasileiro que vive nos EUA em chamada de vídeo. Ele está sentado no sofá da sua casa. O pastor não deu muita bola para ele, que ligou para parabenizar o casamento da filha do migrante. Mas se nota um interesse a mais na chamada. Ele fala que o filho dele, o João Vitor, sonha em estudar em Harvard e pergunta se fica perto de onde ele está. “Tem aquela história do sonho americano, né?” Na cena anterior o João Vitor e seu irmão estavam tendo uma aula de inglês online, sem muito sucesso. O pastor também não parece acreditar muito na ideia de que ele possa ir estudar em Harvard, diz que está perto, em Malden, um dos pólos da imigração brasileira nos EUA. Nesse momento encontramos uma interseção entre as duas utopias que movem a América Latina: a vitória e a migração. A expectativa de conseguir subir e a imagem de um país com melhores oportunidades onde se poderia viver melhor com o fruto do seu trabalho. Tudo travado, seja pelo cada vez mais acirrado mercado, caminhando para o acirramento armado por todos os lados, seja pela política anti-imigrantes que está fechando as fronteiras e expulsando massivamente os migrantes. De todos os modos, ficamos entre o sonho de uma vida melhor e a força bruta de um mundo sem espaços para ninguém. 

Essa utopia da migração é a positivação da própria barreira posta nas sociedade latino americanas onde se tornou claro que a melhora da vida não é algo viável, somente com muita fé para crer que se pode virar o jogo, destituindo qualquer espaço social para a velha ideia de integração, resta a fuga dessa própria realidade conflagrada que só garante a espoliação e o trabalho sem fim, trabalha trabalha trabalha, mas uma hora vai acontecer. Acontecendo ou não, essa hora messiânica onde o jogo vira, o importante é fazê-la presente enquanto se trabalha, trabalha, trabalha, ou abrir mão de uma vez e ver-se cruzar a fronteira sul junto com guatemaltecos e venezuelanos. 

Adendo em uma pregação de João Vitor Ota 

Saímos da câmera de Miguel Antunes Ramos, mas sem perder de vista esses dois meninos, mais especificamente o mais jovem. Uma das suas pregações mais famosas na internet dá corpo discursivo àquilo que temos encontrado na forma cinematográfica. A pregação faz parte de uma das agendas que compõem o período em que o diretor acompanhou o pregador mirim.  

O galpão está cheio. Apesar de bem pintado, se vê que a estrutura do prédio é meio adaptada. É uma chácara, e o ambiente onde acontece a vigília realmente parece um estábulo reformado. Mas não é qualquer evento, é a famosa Vigília do Bom Samaritano, ministério que gerencia uma comunidade terapêutica e todo primeiro sábado do mês organiza essa Vigília que sempre lota. Por isso João Vitor começa a pregação agradecendo a oportunidade, que era um sonho poder pregar naquele espaço em que Deus tanto atua. Atrás dele, como em um bom templo pentecostal brasileiro, fileira de pessoas, “importantes”, e ao centro o Pastor Moisés Martins que toca a obra. 

Como de praxe, ele começa dando o versículo bíblico, base da argumentação que vai desenvolver. Êxodo 22, passagem do sacrifício de Isaque. Narrando a conhecida história e em cada  momento possível vai costurando alegorias que transportam o sentido da história à realidade de cada um. A primeira lição que ele retira do texto é que Deus manda Abraão ir a um lugar cujo trajeto demorava três dias. “Ao terceiro dia levantou Abraão os seus olhos…”(Gênesis 22:4a), então Deus propositalmente dá um tempo (os três dias) entre o pedido e o ato. Assim, Ele nunca pede algo sem dar tempo para você pensar no que está fazendo. A obediência real não é impulsiva, é consciente. Além disso, se Deus deu o projeto, Deus está envolvido nele; projetos com Deus tendem a subir, projetos sem Deus caem. Existe uma inteligência sendo articulada, que consegue extrair de pouquíssimos versículos bíblicos dezenas de ideias e anúncios, esperanças e mandos do Senhor. 

“…e viu o lugar de longe” (Gênesis 22:4b): a segunda articulação é que Abraão levanta os olhos e vê o local do sacrifício à distância. Desse modo, antes de viver a promessa ou o livramento, é necessário vê-los pela fé. O problema do crente moderno é contar o que não viu. Abraão precisou visualizar o livramento antes de ele acontecer. O crente precisa “ver” a providência divina antes mesmo de chegar lá.

“E disse Abraão a seus moços: Ficai-vos aqui com o jumento, e eu e o moço iremos até ali; e havendo adorado, tornaremos a vós.” (Gênesis 22:5) Abraão ordena que os servos e o jumento fiquem na base do monte enquanto ele e Isaque sobem para adorar. O pregador transforma o “jumento” em uma metáfora para tudo o que é carnal e terreno. O Jumento é o dinheiro, a fama, o “nome”, a vontade da carne. Para “subir” espiritualmente e adorar a Deus de verdade, o “jumento” (materialismo e ego) tem que ficar para trás. Ele usa a frase de efeito: “Quer subir? O jumento vai ter que ficar.” Você não pode levar comportamentos mundanos para um lugar de adoração profunda. E a igreja vai aos gritos, glória a Deus e aleluia. 

“E disse: Toma agora o teu filho, o teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá, e oferece-o ali em holocausto…” (Gênesis 22:2). Isaque era o filho da promessa, tudo o que Abraão tinha. Isaque representa o chamado, o dom e o ministério que Deus deu ao crente. Assim como Isaque era precioso e não podia ser negociado, o crente não pode “vender”, “trocar” ou “emprestar” seu chamado e seus dons. O que Deus dá é inegociável. 

“E edificou Abraão ali um altar e pôs em ordem a lenha, e amarrou a Isaque seu filho, e deitou-o sobre o altar em cima da lenha” (Gênesis 22:9). Abraão amarra Isaque e o coloca sobre a lenha no altar. Estar “amarrado” geralmente é visto como algo ruim (prisão), mas neste contexto do pregador é ressignificado como estar preso ao propósito. O crente deve estar “amarrado no altar”. O altar não distancia o homem de Deus, ele aproxima. O que distancia é o pecado (mentira, adultério, fornicação). Estar preso ao altar é estar no lugar certo de sacrifício e entrega. É estar amarrado a Deus na entrega, na disposição de fazer seu propósito. 

“Mas o anjo do Senhor lhe bradou desde os céus, e disse: Abraão, Abraão! […] Não estendas a tua mão sobre o moço…” (Gênesis 22:11-12). Deus impede o sacrifício no último segundo e provê um carneiro; ocorre uma Teofania (aparição de Deus/Anjo do Senhor). O livramento (o carneiro) só aparece depois que a intenção do coração é provada e o “jumento” foi deixado para trás e tudo o que você tem de mais precioso (seu dom) está amarrado ao altar. Quando você estiver amarrado ao altar, com tudo que você tem e é, Deus não vai enviar Miguel ou Gabriel para lutar as batalhas do crente fiel; o próprio Deus descerá para tratar com o inimigo. A “boa notícia” (o carneiro/livramento) vem apenas após a disposição total de sacrificar o que se tem de mais precioso. O pequeno pregador encerra dizendo que a verdadeira identidade de crente não é carregar uma Bíblia, mas a renúncia. Quem sacrifica suas vontades carnais (deixa o jumento), sobe o monte e se amarra ao altar, sai do culto cheio da presença de Deus e com a garantia de que Deus lutará suas guerras pessoalmente.

A cada passagem do texto, ele articula livremente uma sabedoria. Não carece de nenhuma capacidade exegética que quer retirar do texto sua verdade última, mas de uma imaginação da fé que acredita fielmente que o texto é, em si, uma força sobrenatural. Por isso se lê o texto em pé, antes da pregação, com a reverência que se deve ter. No filme vemos cenas do João Vitor lendo a Bíblia antes das pregações. É a sua intuição imaginativa que deduz o anúncio da mensagem a partir dos dados brutos das palavras, tendo como mediação a própria vida e a imaginação religiosa evangélica. Ao passo que cada derivação argumentativa é retirada das passagens bíblicas, ele vai amontoando uma rede de ideias que vão subindo, até o clímax final, onde todos levantam e dão glória a Deus. A capacidade imaginativa de que se carece para efetivar isso é exatamente o brilho que nasce nos olhos dos adultos que veem uma criança falar com tanta unção. Não é nada fácil retirar desse sombrio texto bíblico, onde Deus pede a seu servo a morte do seu filho por pura vontade, o arsenal de símbolos que dá razão para a luta diária de sobrevivência. Se amarre no altar, pois assim Deus estará com você.

Essa imaginação radical do pequeno pregador só tem sentido porque ela dialoga fundamentalmente com a imaginação de cada um que lhe dava atenção e agradecia a Deus pela sua vida. E ele sabe muito bem disso. Não só sabe como consegue operar toda a rede simbólica que organiza a prática da fé daqueles que estão lá, a ponto de alcançar o que todo pregador busca: a sensação da presença. Nos segundos finais da sua fala, as pessoas ficaram de pé, como quem entende que existe alguma autoridade presente e, por isso, há de se ter respeito e reverência. É a presença de Deus. O criador do universo que é seu companheiro na luta diária; sua entrega a ele, estando amarrado no altar, é ao mesmo tempo o seu fortalecimento, certeza de que não anda sozinho e, assim, mesmo que a vitória não chegue agora, você prefere adorar. Nessa tortuosa via vão se formando os sujeitos que creem, entre a força bruta da vida, que impõe uma racionalidade instrumental do próximo passo necessário para a sobrevivência, e a razão que se produz no interior desse próprio ato, imaginação utópica da fé que encontra nele algo do divino. Criação e destruição. Altos e baixos que dão forma aos modos de sobrevivência de um Brasil do qual Miguel Antunes Ramos nos dá testemunho.


Notas

  1. Em algum sentido, diversas ideias que percorrem o texto não são minhas, mas se fizeram em uma conversa que foi efetuado sobre o filme no seminário Dialética do Brasil avivado, que contava com a presença de André Kanasiro, Jayder Roger, João Marcos Duarte, Silvio Rosa, Ygor Ricardo e Samuel d’Araújo. ↩︎
  2. Devo esse argumento a André Kanasiro. ↩︎

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André Castro nasceu em Pernambuco, mas cresceu na Bahia. Graduado em Teologia (FLAM) e mestre em Ciências da Religião (UMESP), atua como editor e colunista na Revista Zelota. É autor de A luta que há nos deuses (Machado, 2024) e Breve história da teologia da libertação protestante (Recriar, 2022). Pesquisa os nexos entre imaginação religiosa e processo social na América Latina entre a Teologia da Libertação e o Brasil avivado.


Lançamento do dossiê Religião e política não se misturam, da revista Margem Esquerda #44. Debate com Ana Carolina Marsicano, Carly Machado, Tabata Tesser e Vítor Queiroz. Mediação de André Castro.


Nos últimos anos, o tema da religião tem comparecido cada vez mais nos discursos de esquerda, seja como enigma, lamentação ou bode expiatório – ou, ainda, pelas suas afinidades eletivas com os traços apocalípticos da conjuntura global. Partindo do mote durkheimiano de que “a religião é coisa eminentemente social”, o dossiê de capa desta Margem Esquerda investiga o fenômeno religioso e sua relação com a política no Brasil para além dos chavões e lugares comuns condescendentes. Organizada por Carly Machado, a seleção traz um rico mosaico de textos que abrangem a alarmante ascensão da extrema-direita católica no judiciário, a questão do movimento negro evangélico, a relação entre religião e o debate sobre as fake news, a retórica salvacionista dirigida contra as mulheres evangélicas e até a influência do papado sobre a política doméstica.

A entrevistada da edição é a cientista social Maria Lygia Quartim de Moraes, figura importante do marxismo feminista brasileiro. Em seu tom caracteristicamente ácido e bem humorado, ela repassa sua intensa trajetória política e intelectual e não mede palavras para comentar os impasses e desafios da esquerda no Brasil. A edição ainda traz artigos de fôlego sobre Malcolm X, Clóvis Moura, Fredric Jameson, Paulo Arantes e Antonio Candido, além de um erudito roteiro de estudos sobre Luís de Camões elaborado por ninguém menos que José Paulo Netto. Na seção de homenagens, prestamos tributo a Beatriz Sarlo, Michael Burawoy e Paula Vaz de Almeida. O artista convidado desta edição é Sérgio Romagnolo; a poesia é de Amiri Baraka.


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