Um manual para conhecer Walter Benjamin

por Jeanne Marie Gagnebien

Nesta introdução à vida e ao pensamento de Walter Benjamin, Fabio M. Querido parte da recepção do autora partir dos anos 1970, quando, citando Terry Eagleton, houve certa tendência a minimizar a importância domarxismo na obra do filósofo para acomodá-lo ao establishment acadêmico. Do lado oposto, o dos amigos comunistas – sobretudo Bertolt Brecht e Asja Lacis –, a obra de juventude de Benjamin foi pouco lida ou negligenciada, porque, sendo às vezes bastante hermética, por assim dizer, ela atrapalharia o lado mais engajado de seus textos.

Querido diferencia com razão a diversidade e a amplitude do pensamento de Benjamin, que o tornam ao mesmo tempo inclassificável e sedutor, da pecha de incoerência ou mesmo de contradição. Nesse percurso, procura seguir um “fio vermelho” na obra labiríntica de Benjamin, “um pensamento destrutivamente produtivo”.

Podemos distinguir, então, três camadas de reflexão: a primeira é a insistência muito justa e muito bem
documentada na relação de Walter Benjamin com a história de seu tempo, com a construção e a destruição da República de Weimar, com a ascensão do nazismo – e em especial as dificuldades dos movimentos de esquerda de resistir a essa ascensão. Nesse ponto, a maior contribuição de Querido consiste na descrição detalhada e fina desses tempos sombrios, que Benjamin atravessa com uma lucidez rara, capaz de, aliás, explicar em parte suas hesitações e sua dupla recusa: não ingressar no Partido Comunista nem emigrar para a Palestina.

A segunda camada, consequência da primeira, consiste em mostrar que o pensamento de Benjamin não pode ser tranquilo e sistemático pela falta de carreira estável, já que as portas da academia lhe foram fechadas – lembrando que, mesmo que sua tese de habilitação (o famoso livro sobre o drama barroco) tivesse sido aceita, ele acabaria expulso por ser judeu. Assim, Benjamin se torna um intelectual itinerante e crítico, sobrevivendo com dificuldade nos lugares mais baratos, ilhas paradisíacas à época desconhecidas, quartos parisienses com calefação deficiente, um intelectual e jornalista literário tentando sempre ganhar algum dinheiro por alguma publicação sobre assuntos diversos.

Enfim, a terceira camada, fundamental, me parece consistir em, nas pegadas das leituras de Michael Löwy, mostrar como um marxismo pouco ortodoxo e um judaísmo messiânico podem convergir na obra benjaminiana por serem, ambos, pensamentos da liberdade. Hoje, mais que nunca, essa convergência mereceser lembrada e celebrada.

*** Jeanne Marie Gagnebien é professora titular da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e livre-docente pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Muito comentado e pouco compreendido, Walter Benjamin ganha, pela primeira vez, uma espécie de manual para não iniciados. Escrito por Fabio Mascaro Querido, autor Lugar periférico, ideias modernasWalter Benjamin: uma introdução apresenta um Benjamin que sempre teve no horizonte a questão política e o contexto em que transitava, inclusive as inúmeras transformações históricas e culturais da Europa no século XX. 

Neste livro Querido segue um “fio vermelho” que atravessa a obra de Benjamin, revelando a unidade profunda de um pensamento ao mesmo tempo experimental e radical. O leitor tem em mãos um retrato sucinto de um intelectual difícil de definir, mas marcado por uma coerência fundamental: a crítica ao capitalismo moderno nas mais diversas frentes – econômica, social, cultural e mesmo ecológica. 

“Personagem fascinante, às vezes desconcertante, outras excessivamente hermético, em alguns momentos aparentemente contraditório, mas sempre movido por uma força intelectual destrutivamente produtiva que percorre os distintos momentos de seu itinerário”, escreve Querido.  

“O início dos anos 1930 marcou uma virada decisiva na história alemã, europeia e, de certa forma, global. E, como não poderia deixar de ser, também na vida de Benjamin. A República de Weimar, na Alemanha, que desde o fim da Primeira Guerra Mundial sustentava-se por um fio, finalmente acabou em 1933, quando Adolf Hitler e os nazistas ascenderam ao poder. Para Benjamin, era demais. Já antes da vitória nazista, sua situação era financeiramente desesperadora. Não por acaso, nesse momento ele cogitou o suicídio. Seria a primeira vez, mas não a última, que consideraria seriamente tal possibilidade. Em carta de abril de 1931 destinada a Scholem, ele escreve a propósito de si mesmo: ‘Um náufrago que flutua em cima de um destroço, enquanto sobe para o topo do mastro que já está em pedaços. Mas ele tem chances de fazer um sinal de lá para que o salvem’. Daí em diante, ele faria vários sinais em busca de alguma salvação”. 

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O capitalismo como religião, de Walter Benjamin
O capitalismo como religião apresenta uma série de ensaios do filósofo Walter Benjamin, organizado e introduzido pelo sociólogo Michael Löwy. O livro traz textos surpreendentes, em particular os ditos de juventude, que vêm à tona com a liberação da obra benjaminiana para o domínio público. Löwy reuniu escritos de Benjamin inéditos em português ou difíceis de consultar, que contêm, em graus variados, uma crítica radical da civilização capitalista-industrial moderna.

Ensaios sobre Brecht, de Walter Benjamin
Ensaios sobre Brecht estabelece um diálogo extremamente atual entre duas grandes mentes do século XX – dois exilados, dois alemães – ao apresentar uma rica coletânea de escritos de Walter Benjamin, produzidos entre 1930 e 1939, sobre a obra dramática e poética de seu amigo e tutor, Bertolt Brecht. Brecht e Benjamin se conheceram no final da década de 1920, na Alemanha. Ambos marxistas, comprometidos com o potencial emancipatório das práticas culturais, divergiram e concordaram em tópicos tão variados como o fascismo e a obra de Franz Kafka.

Walter Benjamin: aviso de incêndio, de Michael Löwy
Um dos principais estudiosos da obra de Walter Benjamin, Michael Löwy analisa em Aviso de incêndio um dos textos mais enigmáticos e rico de significados desse autor: as suas teses sobre o conceito de história. Para Löwy, Benjamin é mais do que um historiador da cultura, um filósofo – pela forma com que articulou na sua visão arte, política e teologia, criando uma nova visão da história. Analisando tese a tese, Löwy destrincha, de forma clara e erudita, as ideias, polêmicas, confrontos e ideais por detrás das proposições de Benjamin.



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