Relembrar Postone: uma questão de tempo
Por Natan Oliveira
Completam-se oito anos do falecimento de Moishe Postone, no dia 19 de março, em Chicago. Historiador e professor, Postone nasceu em 1942, em Edmonton, no oeste do Canadá, no seio de uma família judia. Era filho de uma mãe ucraniana e de um pai lituano, ambos emigrados da Europa Oriental.1
Postone formou-se em bioquímica em 1963, na Universidade de Chicago mas logo migrou para a História, com a ajuda de William McNeill, transferindo para esse campo a bolsa que havia obtido em química. Especializou-se, então, em história intelectual da Europa moderna, tendo Leonard Krieger como principal orientador. Em 1969, após ser admitido nos exames de qualificação, mudou-se para Nova York com a intenção de redigir sua dissertação enquanto lecionava em tempo parcial na Ramapo College of New Jersey. Pouco depois, porém, acabaria se mudando para Munique, onde seguiu em contato com um grupo de judeus política e culturalmente radicalizados, com os quais se envolveria brevemente, adotando sempre uma postura crítica.2
Naquele período, Postone via nos movimentos de esquerda – especialmente os de Chicago – uma marca muito forte de positivismo, algo que sempre o incomodou e fez com que mantivesse certa distância. Chegou mesmo a considerar que algumas críticas conservadoras da modernidade conseguiam captar certos problemas histórico-sociais de forma mais ampla do que o marxismo com o qual tivera contato. Sua relação com Marx começa, entretanto, a mudar quando toma conhecimento dos Manuscritos econômico-filosóficos, cuja recepção nos Estados Unidos era particularmente intensa em meados da década de 1960.
Após uma ocupação estudantil na Universidade de Chicago, em 1969, os estudantes que haviam participado do movimento se dividiram em vários grupos de leitura. Um deles era dedicado a “Hegel e Marx”, e foi nele que Postone descobriu pela primeira vez o livro seminal de Lukács, História e consciência de classe – até então praticamente desconhecido nos Estados Unidos, já que sua tradução para o inglês só apareceria em 1971.3A obra do jovem Lukács constituiu, nas palavras do próprio Postone, uma “verdadeira revelação”: abriu-lhe a possibilidade de compreender que as categorias de Marxcomo formas do ser social , ao mesmo tempo objetivas e subjetivas.
Foi também mais ou menos nesse período que Postone teve contato com os Grundrisse de Marx, primeiro por meio de uma tradução inglesa parcial apresentada por David McLellan e, em seguida, pela tradução integral de Martin Nicolaus, publicada em 1973. A partir de um artigo “The Unknown Marx” (“O Marx desconhecido”) de Nicolaus (1968) intitulado The Unknown Marx , Postone interessou-se pelos Grundrisse e viu nela a possibilidade de compreender a teoria de Marx de maneira muito diferente daquela que predominava no marxismo com o qual tivera contato . Em 1974, em colaboração com Helmut Reinicke, escreveu o ensaio On Nicolaus, publicado na Telos, no qual apresentava uma primeira formulação de sua leitura dos Grundrisse.4
Sob o impacto dessa descoberta, passou a considerar a possibilidade de escrever uma tese de doutorado sobre Marx à luz desse livro. Foi então que um de seus orientadores, Gerhard Meyer, sugeriu que se mudasse para Frankfurt, onde, segundo acreditava, poderia encontrar uma discussão mais qualificada. E assim foi feito. Durante sua permanência na cidade, Postone colaborou com Oskar Negt, Jürgen Ritsert, Gerhard Brandt e Iring Fetscher, que viria a ser seu orientador principal do doutorado. O ambiente intelectual de Frankfurt encontrava-se particularmente efervescente entre os anos 1960 e 1970: além dos movimentos políticos da esquerda alemã, havia o legado da Escola de Frankfurt, ainda marcado pela reverberação dos seminários de Adorno, ao mesmo tempo em que se desenvolviam as bases teóricas da chamada Nova Leitura de Marx (Neue Marx-Lektüre) com os trabalhos de Hans-Georg Backhaus, Helmut Reichelt e Alfred Schmidt.5
Nesse contexto, esses autores procuraram reconstruir a lógica das categorias de O capital, em oposição tanto ao marxismo da II Internacional quanto ao marxismo soviético posteriorenfatizando a centralidade da crítica da forma-valor na crítica da economia política de Marx e o caráter historicamente específico das categorias econômicas.6 Em outras palavras, Marx deixava de ser visto como um economista político crítico para ser recuperado como um crítico da economia política. Sua teoria do valor não aparecia mais como uma versão radicalizada da teoria ricardiana, mas como crítica da forma social do trabalho no capitalismo.
Sob a influência desse contexto, e após cerca de dez anos de elaboração, no final de 1982 Postone concluiu sua tese de doutorado em ciência política e sociologia sob orientação de Iring Fetscher, intitulada O presente como necessidade: para uma reinterpretação da crítica marxiana do trabalho e do tempo.7 Durante mais de uma década ele continuaria trabalhando esse material, expandindo e desenvolvendo suas teses fundamentais até apresentar, em 1993, seu livro Time, Labor, and Social Domination (Tempo, trabalho e dominação social), premiado em 1996 pela Associação Americana de Sociologia na categoria “teoria” e cuja tradução chegou ao Brasil pela Boitempo, em 2014.8 Desde seu lançamento, a obra alimentou uma série de debates e controvérsias, como se pode observar, entre outros lugares, na edição especial da Historical Materialism, em 2004, cerca de uma década após o lançamento do livro.9
Que horas são, Postone?
Tempo, trabalho e dominação social inicia precisamente com uma crítica aos pressupostos fundamentais daquilo que Postone denomina “marxismo tradicional”. Em sua interpretação, esse termo não designa uma tendência histórica específica do marxismo, mas um conjunto relativamente amplo de abordagens teóricas que, apesar de suas diferenças, compartilham alguns pressupostos básicos acerca da sociedade capitalista e da própria crítica de Marx.10
Entre esses pressupostos encontra-se, em primeiro lugar, a tendência a analisar o capitalismo “a partir do ponto de vista do trabalho”. Nessa perspectiva, a sociedade capitalista é caracterizada sobretudo pela propriedade privada dos meios de produção e por uma economia regulada pelo mercado, ao passo que a crítica social tende a assumir implicitamente o trabalho como fundamento positivo da vida social. As relações de dominação aparecem então primordialmente em termos de dominação e exploração de classe, compreendidas como formas de apropriação desigual do excedente social. Ao mesmo tempo, a análise desloca seu foco para o modo de distribuição da riqueza, em detrimento do modo de produção, deixando em segundo plano as formas sociais específicas que estruturam o capitalismo enquanto tal.
É justamente esse horizonte interpretativo que Postone procura colocar em questão. Uma de suas teses centrais consiste em mostrar que grande parte da tradição marxista acabou por atribuir a Marx uma teoria que projeta categorias historicamente específicas do capitalismo como características universais da vida social.
Segundo Postone, no núcleo do chamado marxismo tradicional encontra-se uma concepção trans-histórica do trabalho,entendido simplesmente como uma atividade social orientada a fins que medeia a relação entre os seres humanos e a natureza por meio da produção de bens destinados à satisfação de necessidades determinadas. Desse modo, o trabalho passa a ser concebido como fundamento de toda a vida social, elemento constitutivo do mundo social e fonte última de toda a riqueza. Para Postone, entretanto, essa interpretação projeta de maneira trans-histórica determinações que Marx teria analisado como historicamente específicas ao trabalho na sociedade capitalista. Uma consequência importante dessa leitura é que o socialismo tende então a ser concebido, no interior do marxismo tradicional, sobretudo como propriedade coletiva dos meios de produção combinada com planejamento econômico em uma sociedade industrializada. É a partir dessa consideração, inclusive, que Postone também pretende esboçar as linhas gerais de uma crítica do socialismo real.11
É contra essa maneira de compreender a teoria de Marx que Postone procura reconstruir o sentido da crítica da economia política. Para ele, as considerações esboçadas nos Grundrisse já indicam que a teoria madura de Marx está voltada para o desenvolvimento de categorias historicamente específicas à sociedade capitalista e, portanto, uma crítica ao próprio modo de produção capitalista. É nesse sentido que Marx estabelece a especificidade histórica da mercadoria ao expor seu duplo caráter como produto de trabalho concreto e trabalho abstrato, bem como ao conceber o valor como uma forma historicamente específica de riqueza – forma que, por sua vez, pressupõe um tipo igualmente específico de trabalho. O valor, portanto, não se refere simplesmente à riqueza em geral, mas a uma forma de riqueza cuja particularidade reside em sua determinação temporal: ele é medido por “tempo abstrato”, isto é, por uma forma de tempo socialmente constituída e historicamente específica.
A partir dessa leitura, Postone sustenta que a teoria de Marx não oferece uma crítica a partir do ponto de vista do trabalho, mas antes uma crítica do trabalho no capitalismo. Na sociedade capitalista, as relações sociais são mediadas pelo trabalho abstrato que se estabelece através da troca de mercadorias.12 Essa mediação engendra uma forma específica de dominação social, caracterizada por uma compulsão estrutural impessoal que se impõe aos indivíduos. Em outras palavras, o trabalho aqui, longe de constituir o fundamento emancipatório da sociedade, torna-se ele mesmo o objeto da crítica. É nesse horizonte que a análise da mercadoria e do capital deve ser compreendida: como investigação das relações sociais fundamentais que estruturam essa forma histórica de sociedade e da forma abstrata e impessoal de dominação que lhes é intrínseca.
O ponto decisivo da interpretação de Postone consiste em compreender a categoria de capital como essencialmente temporal. A partir dela, torna-se possível delinear um processo historicamente dinâmico que distingue e especifica o capitalismo como uma forma singular de vida social – aquilo que constitui, em última instância, o núcleo mesmo do mundo moderno.
É nesse contexto que Postone enfatiza também a especificidade histórica do tempo no capitalismo ou, mais precisamente, dos aspectos temporais do trabalho nessa forma de sociedade. Em sua reinterpretação, uma lógica da história só pode ser considerada imanente à formação social capitalista, e não à história humana como um todo. Segundo ele, a teoria crítica social madura de Marx não hipostasia a história como força motora universal de todas as sociedades, nem pressupõe a existência generalizada de uma dinâmica direcional da história. Ao contrário, Marx procuraria explicar por que a sociedade moderna apresenta justamente esse tipo de dinâmica direcional contínua, vinculando-a a determinadas formas sociais historicamente constituídas pelo trabalho em um processo de alienação.
Nesse quadro, Postone sugere que o movimento histórico do capitalismo é estruturado por duas formas de temporalidade: o “tempo abstrato” e o “tempo histórico”, sendo este último uma forma específica de “tempo concreto” no capitalismo. O tempo concreto se refere aos diversos tempos que são função de eventos e atividades: ciclos naturais, ritmos da vida humana, tarefas e processos determinados, cuja medição envolvia padrões variáveis. Já o tempo abstrato diz respeito a um tempo uniforme, contínuo, homogêneo e vazio, independente de eventos e processos particulares. Nesse caso, os acontecimentos se dão no interior do tempo entendido como um quadro independente – um tempo matemático, divisível em unidades iguais, constantes e desprovidas de qualidade. Postone procura mostrar como, com a constituição e o desenvolvimento da sociedade capitalista, o tempo concreto foi progressivamente subordinado ou suplantado pelo tempo abstrato como forma dominante de temporalidade.
À medida que a forma-mercadoria se torna gradualmente a forma estruturante dominante da vida social, o tempo abstrato se torna cada vez mais uma exigência ligada à regulação temporal do trabalho, de modo que as horas iguais passam a adquirir significado social para a organização da vida coletiva e a marcação do tempo pelo relógio mecânico assume predominância. O tempo abstrato constitui uma norma social para as atividades, particularmente para o trabalho. Com isso, observa Postone, a oposição entre trabalho concreto e trabalho abstrato não se refere apenas a dois modos de medição do tempo, mas a duas formas do tempo. A sociedade capitalista constitui, portanto, uma forma particular de tempo concreto, ao lado do tempo abstrato.
Essa oposição temporal no capitalismo engendra uma dinâmica histórica fundada na interação entre as duas dimensões da mercadoria: riqueza material (valor de uso) e valor. É por meio dessa interação que Postone procura explicar o caráter direcional da modernidade capitalista. Ao acompanhar a trajetória da produção, ele mostra que a busca imanente do capital pelo aumento do mais-valor relativo impulsiona elevações contínuas da produtividade. Mas esse movimento só se deixa apreender adequadamente quando se distingue riqueza material e valor. O aumento da produtividade amplia a massa de bens produzidos em um mesmo intervalo cronológico, mas não eleva, por si só, o valor total produzido nessa mesma unidade de tempo abstrato. O que se altera é a determinação do tempo de trabalho socialmente necessário. A hora constante permanece como medida abstrata do valor; o que muda é seu conteúdo social. Cada unidade de tempo passa então a condensar um novo nível de produtividade e exige, por isso mesmo, um novo patamar de desempenho para que o trabalho concreto seja reconhecido como socialmente válido.
É precisamente esse nexo entre transformação e reconstituição que define a dinâmica do capital seu traço mais característico: cada novo patamar de produtividade é absorvido como nova norma geral. O que surgia como ganho passa à condição de exigência; o avanço comparece como pressuposto; a transformação do processo de trabalho reaparece como condição para a reprodução da mesma necessidade social. O capitalismo não é, assim, apenas uma sociedade em movimento, mas uma sociedade cuja mudança reconstitui incessantemente a compulsão abstrata que a governa. Sua historicidade consiste precisamente nisso: em fazer da transformação contínua o modo de reprodução de sua própria necessidade interna. De fato, a dinâmica direcional do capital, com sua necessidade crescente de expansão governada por um regime temporal, compele e constrange estruturalmente os produtores. É também nesse sentido que se pode falar aqui em uma dominação pelo tempo.
É nessa chave, aliás, que a metáfora do efeito esteira (treadmill effect) proposta por Postone adquire toda a sua força. Corre-se cada vez mais depressa, elevam-se continuamente os níveis de produtividade, revolucionam-se os meios de produção, e, ainda assim, a medida temporal abstrata do valor é incessantemente recomposta. Esse movimento real não conduz por si mesmo para fora da forma social que o engendra, apesar de colocar essa possibilidade. Ao contrário, reproduz essa forma por meio da própria transformação. Por isso, a dinâmica do capital é ao mesmo tempo histórica e recorrente: histórica, porque transforma sem cessar a base material da vida social; recorrente, porque essa transformação recompõe continuamente a centralidade do tempo de trabalho abstrato. É uma corrida cada vez mais veloz, porém, sem sair do lugar.
Mas é também aí que se anuncia uma de suas tensões mais profundas, já que o desenvolvimento das forças produtivas e dos saberes sociais gerais tende a reduzir a centralidade do trabalho humano imediato do ponto de vista da produção de riqueza material, embora a valorização, cuja medida permanece sendo o tempo abstrato, continue a exigi-lo como seu fundamento – processo denominado por Postone de “anacronismo do valor”. A modernidade capitalista aparece, assim, como uma forma de vida em que o novo se produz sem cessar, mas sob a forma da reprodução ampliada da mesma dominação abstrata.
Recalibrando os ponteiros do relógio de Postone
Não foram poucas as objeções dirigidas a Tempo, trabalho e dominação social, e muitas delas recaem justamente sobre alguns dos pontos centrais da reconstrução proposta por Postone. O debate travado em 2004 nas páginas da Historical Materialism é particularmente esclarecedor nesse sentido.13 Entre as críticas então formuladas, destacam-se as relativas à caracterização do capital como sujeito histórico, ao lugar da agência emancipatória e das lutas de classes e, sobretudo, à própria concepção de tempo.
É a partir desse último ponto que convém avançar. Como o eixo condutor aqui é o tratamento do tempo em Postone, importa seguir duas dificuldades que delas emergem.14 A primeira diz respeito ao fato de que, embora a análise ressalte a especificidade histórica da temporalidade capitalista, ela deixa relativamente pouco elaboradas tanto a relação com as temporalidades pré-capitalistas quanto a constituição histórica dessa própria forma temporal. Postone reconhece, sem dúvida, a existência de tempos concretos anteriores e sua subordinação progressiva ao tempo abstrato dominante. Ainda assim, esse reconhecimento permanece sobretudo a serviço da caracterização contrastiva da modernidade capitalista, sem se converter inteiramente numa elaboração sistemática das mediações, passagens e reconfigurações por meio das quais essa subordinação se efetiva.
A segunda dificuldade, estreitamente ligada à anterior, diz respeito à elaboração ainda insuficiente da espacialidade própria do capital, isto é, da produção do espaço social no qual aquela lógica temporal abstrata não apenas se institui, mas adquire efetividade. A questão não é exterior ao problema do tempo. Se a temporalidade abstrata deve se impor socialmente como norma, isso só pode ocorrer por meio de mediações materiais, institucionais e territoriais determinadas. A própria pluralidade das temporalidades que atravessam a sociedade capitalista aponta nessa direção. O tempo da produção, o tempo da circulação, os ritmos da realização do valor e as diferentes cadências da reprodução social não coincidem plenamente entre si; articulam-se antes de maneira tensa, desigual e frequentemente descontínua. É justamente essa articulação problemática que exige dispositivos espaciais específicos de coordenação, aceleração, fixação e redistribuição. Por isso, se o capital constitui uma forma de dominação abstrata e impessoal, ele não opera apenas como medida temporal e dinâmica direcional: precisa também organizar territorialmente sua própria reprodução, reconfigurando distâncias, fluxos e escalas, circuitos de circulação e formas de urbanização. Quando isso permanece em segundo plano, enfraquece-se também a apreensão da espessura material das mediações pelas quais essa dominação se realiza, assim como das tensões sociais, das agências e dos corpos que nela se inscrevem.
A força da argumentação de Postone reside, sem dúvida, em recusar a projeção, sobre a história humana em geral, da dinâmica direcional própria da modernidade capitalista. Sua análise tem razão ao insistir que não há uma lógica imanente da história como tal, válida indistintamente para todas as formações sociais, mas uma dinâmica histórica específica, socialmente constituída, própria do capitalismo. Ainda assim, é precisamente nesse gesto que se anuncia também um limite: ao rejeitar de maneira tão enfática toda dimensão transistórica da temporalidade, a análise estreita em excesso o horizonte no interior do qual a própria especificidade histórica do capital pode ser pensada. Se o tempo histórico moderno é uma forma determinada e socialmente produzida de temporalidade, sua emergência não pode ser compreendida apenas a partir do movimento já desenvolvido das categorias capitalistas.15 Torna-se necessário pensar também os limiares, as passagens e as mediações pelas quais uma temporalidade dessa natureza se constitui historicamente. Sem algum momento de transistoricidade torna-se mais difícil explicar como uma forma de vida social cede lugar a outra e como a temporalidade abstrata se impõe sobre ritmos sociais anteriores. O problema nãose limita à transição entre temporalidades distintas: manifesta-se também no interior do capitalismo, quando a unidade entre tempo abstrato e tempo histórico aparece de maneira excessivamente homogênea,. A crítica ganha, assim, em pureza categorial, mas perde parte de sua força quando se trata de apreender historicamente a constituição do próprio objeto e a heterogeneidade concreta de seus ritmos.
É nesse ponto que a questão do espaço se impõe com mais nitidez. O capitalismo não é apenas uma lógica temporal abstrata, mas um processo histórico real de imposição e universalização de uma forma social determinada, e esse processo supõe a reorganização contínua das condições espaciais da reprodução social capitalista. A supressão de barreiras ao tráfego, ao intercâmbio e à circulação, a redução das distâncias práticas entre os diferentes pontos do mercado, a aceleração dos transportes e das comunicações e a constituição de circuitos articulados segundo determinados ritmos espaço-temporais: tudo isso pertence à própria efetividade da valorização.
A velha fórmula da “maior destruição do espaço pelo tempo” apreende apenas um lado do problema.16 O capital não pode abolir o espaço: para reduzir o tempo de circulação, precisa antes produzi-lo e reorganizá-lo segundo suas próprias exigências. Precisa abrir rotas, integrar territórios, concentrar infraestruturas, agrupar e redistribuir contingentes populacionais, hierarquizar regiões, deslocar fronteiras produtivas, fixar redes de transporte e abastecimento, explorar geografias estratégicas etc. A espacialidade do capital não é, portanto, mero cenário externo ou pressuposto indiferente, mas uma determinação constitutiva da forma social capitalista, internamente articulada à sua lógica temporal.
Vista por esse ângulo, a crítica da temporalidade capitalista exige uma elaboração crítica correspondente da produção social do espaço. A dominação abstrata não se exerce apenas pela medida do tempo de trabalho ou pela compulsão à produtividade crescente; ela se efetiva também na produção de formas espaciais adequadas à circulação mercantil, à reprodução da força de trabalho e à ampliação da acumulação de capital. A urbanização moderna, por exemplo, não constitui apenas um efeito lateral do desenvolvimento capitalista, mas um de seus meios privilegiados de realização. Quando esse momento espacial não é tematizado com suficiente densidade, a dominação abstrata do valor corre o risco de aparecer como se sua efetividade pudesse ser compreendida quase inteiramente a partir de sua forma lógica. O capital, no entanto, só existe enquanto processo social objetivado, isto é, também enquanto produção espaço-temporal. A temporalidade do capital só se realiza se espacializando. Sem essa dimensão, a crítica tende a privilegiar a lógica temporal da dominação sem apreender, com a mesma nitidez, as formas concretas pelas quais ela ganha corpo, se sedimenta e se reproduz na espessura material da vida social.17 Talvez seja justamente por isso que, levada às últimas consequências, a questão formulada por Postone exija um deslocamento: não apenas Tempo, trabalho e dominação social, mas Espaço-tempo, trabalho e dominação social.
Considerações finais
Sem dúvida, ao reconhecer a centralidade do tempo na teoria de Marx, Postone ofereceu uma contribuição decisiva para a compreensão marxiana da temporalidade capitalista e deslocou de maneira fecunda uma série de reflexões sobre a história, abrindo problemas que seguem exigindo elaboração. Ao mesmo tempo, ilumina a importância de considerar a dimensão do tempo e sua função na vida social contemporânea, especialmente, em face das lutas sociais e políticas em torno da vida além do trabalho. Ainda que se possa discordar de aspectos importantes de suas análises, sua obra indicou caminhos para renovar a teoria crítica e a interpretação de Marx, seja por formular questões incômodas, seja por explorar terrenos até então pouco percorridos.
Mas talvez o ponto decisivo esteja justamente aí: ir além de Postone não significa contorná-lo, e sim levar adiante, em outra direção, algumas das tensões que sua própria obra tornou visíveis. Não parece casual que, em seus últimos anos, ele estivesse justamente trabalhando em um guia de leitura de O capital: sinal de que o retorno a Marx permanecia, para ele, um exercício contínuo. Relembrar Postone, hoje, é uma das condições para criticá-lo à altura. Fica, então, o convite à (re)leitura de sua obra.
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___________. Conversa com Moishe Postone. [Entrevista concedida a] Henrique Pereira Braga. Verinotio: Revista on-line de Filosofia e Ciências Humanas, ano 11, n. 22, p. 89-99, out. 2016. Disponível em: https://www.verinotio.org/sistema/index.php/verinotio/article/view/337. Acesso em: 15 mar. 2026.
___________. That capital has limits does not mean that it will collapse. [Entrevista concedida a] Agon Hamza e Frank Ruda. Crisis & Critique, v. 3, n. 3, p. 503-517, 2016. Disponível em: https://www.crisiscritique.org/storage/app/media/2016-11-16/interview-agon-hamza-and-frank-ruda.pdf. Acesso em: 15 mar. 2026.
___________. Crítica e dogmatismo. [Entrevista concedida a] Anej Korsika. Tradução de Aukai Leisner. LavraPalavra, 7 ago. 2017. Disponível em: https://www.lavrapalavra.com/2017/08/07/entrevista-com-moishe-postone-critica-e-dogmatismo/. Acesso em: 15 mar. 2026.
___________. Critique and dogmatism. [Entrevista concedida a] Anej Korsika. LeftEast, 4 abr. 2018. Disponível em: https://lefteast.org/interview-with-moishe-postone-critique-and-dogmatism/. Acesso em: 15 mar. 2026.
___________. Entrevista com Moishe Postone. [Entrevista concedida a] Agon Hamza e Frank Ruda. Sinal de Menos, n. 13, p. 10-31, mar. 2019.
___________. Antissemitismo e nacional-socialismo: escritos sobre a questão judaica. Rio de Janeiro: Consequência, 2021.
___________. Crisis y crítica: entrevista con Moishe Postone. [Entrevista concedida a] Ana Carolina Gonçalves Leite e Daniel Manzione Giavarotti. Tradução de Daniel Maggi. Bajo el Volcán. Revista del Posgrado de Sociología. BUAP, v. 2, n. 4, p. 45-71, maio/out. 2021.
___________. Outros tempos exigem outros conceitos: Jochen Baumann conversa com Moishe Postone sobre a atualidade da teoria crítica. Tradução de Marcos Barreira. Em Pauta: teoria social e realidade contemporânea, v. 22, n. 57, p. 193-199, dez. 2024. Especial. (Originalmente publicado em Jungle World, n. 21, 1999).
POSTONE, Moishe; REINICKE, Helmut. On Nicolaus’ “Introduction” to the Grundrisse. Telos, n. 22, p. 130-148, inverno 1974-1975.
POSTONE, Moishe; HAROOTUNIAN, Harry. Exigency of time: a conversation with Harry Harootunian and Moishe Postone. [Entrevista concedida a] Joyce C. H. Liu et al. Concentric: Literary and Cultural Studies, v. 38, n. 2, p. 7-43, set. 2012.
PRADO, Eleutério F. S. Valor e capital em Moishe Postone. O Olho da História, n. 22, abr. 2016a.
___________. Valor, capital e luta de classes em Moishe Postone. Verinotio: Revista on-line de Filosofia e Ciências Humanas, n. 22, p. 5-21, out. 2016b.
REICHELT, Helmut. Neue Marx-Lektüre. Zur Kritik sozialwissenschaftlicher Logik. Hamburg: VSA-Verlag, 2008.
___________. Sobre a estrutura lógica do conceito de capital em Karl Marx. Tradução de Nélio Schneider. Campinas: Editora da Unicamp, 2013.
SARTORI, Andrew. Remembering Moishe Postone II. Critical Historical Studies, v. 5, n. 2, p. 165-168, outono 2018.
SEWELL JR., William H. Remembering Moishe Postone. Critical Historical Studies, v. 5, n. 2, p. 155-164, outono 2018.
___________. The temporalities of capitalism. Socio-Economic Review, v. 6, n. 3, p. 517-537, jul. 2008.
SILVA, Gerson dos Santos. Crítica do valor e dominação social em Moishe Postone: prolegômenos para repensar a crítica da economia política de Karl Marx. Em Pauta, v. 14, n. 37, p. 17-39, 2016.
SIQUEIRA, Álvaro Martins. Um breve estudo sobre a dominação temporal do capital a partir da concepção de Moishe Postone. In: ENCONTRO INTERNACIONAL MARX E O MARXISMO, 9., 2021, Niterói. Anais […]. Niterói: NIEP-Marx/UFF, 2021. p. 1-21. Disponível em: https://www.niepmarx.blog.br/MM/MM2021/AnaisMM2021/MC11_1.pdf. Acesso em: 15 mar. 2026.
VAZ, André. Pachukanis, Lukács e Postone: um contraste entre concepções de uma sociedade pós-capitalista. Revista Direito e Práxis, v. 14, n. 1, p. 89-111, 2023.
VIEIRA, Zaira. [Resenha de]: POSTONE, Moishe. Tempo, trabalho e dominação social: uma reinterpretação da teoria crítica de Marx. São Paulo: Boitempo, 2014. Crítica Marxista, n. 41, p. 161-165, 2015.
___________. As novas leituras de Marx e um velho problema da economia política. Sociologias, v. 20, n. 47, p. 276-306, 2018.
VIVANCO, Ángel. De la inmanencia a la exterioridad: Moishe Postone y la superación revolucionaria del capitalismo. Izquierdas, n. 51, p. 1-25, out. 2022.
XIMENES, Olavo. Moishe Postone’s critical theory: a tribute. Dissonância: Revista de Teoria Crítica, v. 8, e2024005, 2024.
___________. A teoria crítica de Postone e os Grundrisse de Karl Marx: apontamentos. Limiar, v. 4, n. 7, p. 15-32, 1. sem. 2017.
ZARETSKY, Eli. A Marx for our time? Moishe Postone’s reading of Capital. [Resenha de]: POSTONE, Moishe. Time, labor and social domination: a reinterpretation of Marx’s critical theory. Philosophy & Social Criticism, v. 22, n. 2, p. 109-116, mar. 1996.
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Natan Oliveira é carioca, mestrando em Filosofia na Universidade de Brasília (UnB), onde desenvolve pesquisa sobre Hegel, dialética e os pressupostos epistemológicos da física newtoniana. É bacharel em Física pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Integra o NIEP-Marx/UFF e o GEPOC/UFF, coordena o Centro de Formação, onde oferece cursos livres, e colabora com o podcast Ontocast. Tem experiência em divulgação científica e atuou como educador popular em cursinhos pré-universitários populares. Atualmente, realiza também pesquisa sobre tempo, crise da soberania e política contemporânea em época de catástrofes, junto ao projeto After Order do Instituto Alameda.
Notas
- As informações biográficas sobre Postone mobilizadas neste texto foram retiradas de suas entrevistas e de memoriais publicados por amigos e colaboradores: POSTONE (2009; 2016; 2017; 2018; 2019; 2021; 2024); MURRAY (2018), SARTORI (2018) e SEWELL JR. (2018). A esse conjunto soma-se, como apoio documental, o Moishe Postone Legacy Project, iniciativa voltada à preservação e difusão de seu legado intelectual, que disponibiliza uma bibliografia de seus trabalhos e entrevistas, bem como informações sobre seu arquivo na Universidade de Chicago. ↩︎
- Postone relatou, em entrevistas, que, ao final dos anos 1960, esteve envolvido em movimentos de esquerda em Chicago, entre os quais figurava também a esquerda judaica, vínculo que se prolongaria em sua passagem pela Alemanha. Chamava-lhe atenção, além disso, a incompreensão da esquerda diante da especificidade histórica do nazismo, o que ajuda a situar seu interesse posterior pelo problema do antissemitismo, tema ao qual dedicou trabalhos específicos (POSTONE, 2021) e que não detalharemos aqui. ↩︎
- Publicado originalmente em alemão em 1923, História e consciência de classe (Geschichte und Klassenbewusstsein) foi traduzido para o inglês por Rodney Livingstone e publicado em 1971 pela Merlin Press como History and Class Consciousness: Studies in Marxist Dialectics. ↩︎
- Para as referências aos artigos mencionados no corpo do texto, cf. NICOLAUS (1968) e POSTONE; REINICKE (1974). Em entrevista concedida a Henrique Braga, realizada em agosto de 2015, Postone relata que o artigo publicado na Telos sofreu cortes editoriais promovidos por Paul Piccone sem retorno prévio aos autores, circunstância que, segundo ele, comprometeu a forma final do texto e repercutiu em sua recepção crítica posterior (POSTONE, 2016, p. 92). ↩︎
- A constituição teórica da chamada Neue Marx-Lektüre costuma ser situada na passagem dos anos 1960 aos 1970, especialmente a partir de “Zur Dialektik der Wertform” (“Sobre a dialética da forma-valor”) de Hans-Georg Backhaus, pesquisa concluída em 1968 e publicada em 1969, de Zur logischen Struktur des Kapitalbegriffs bei Karl Marx (Sobre a estrutura lógica do conceito de capital em Karl Marx) de Helmut Reichelt, publicado em 1970 (REICHELT, 2013), e de “Zum Erkenntnisbegriff der Kritik der politischen Ökonomie” (“Sobre o conceito de conhecimento na crítica da economia política”), de Alfred Schmidt, publicado em 1968 após a ocasião de celebração do centenário de O capital. Para uma reconstrução mais detida do contexto histórico e teórico dessa corrente, cf. REICHELT (2008), BELLOFIORE; REDOLFI RIVA (2015) e BARREIRA (2022). Alguns de seus textos centrais vêm saindo recentemente em publicação inédita no Brasil, cf. GUERRA; CATALANI et al (2026). ↩︎
- Essa seria, para Postone, uma chave de leitura decisiva, não apenas por abrir a possibilidade de uma crítica mais robusta da sociedade capitalista, mas também por permitir apresentar a própria possibilidade dessa crítica do ponto de vista da crítica de Marx, aspecto que ele designa como uma “epistemologia social autorreflexiva” (POSTONE, 2014, p. 296). Vale notar, além disso, que Postone é frequentemente situado no campo da Wertkritik, em razão de suas críticas ao trabalho. Consideramos, contudo, que, apesar de alguns pontos convergentes, trata-se de propostas distintas e paralelas. Para algumas divergências entre Postone e a principal figura da Wertkritik, Robert Kurz, veja HOMS (2014). ↩︎
- Uma primeira versão desse material foi publicada por Postone em 1978, no artigo “Necessity, Labor, and Time: A Reinterpretation of the Marxian Critique of Capitalism” (POSTONE, 1978); sua tradução para o português encontra-se em GUERRA; CATALANI et al (2026, p. 303-358). ↩︎
- Segundo a bibliografia oficial do Moishe Postone Legacy Project, o livro Time, Labor, and Social Domination foi traduzido, em ordem cronológica, para o alemão (Ça Ira Verlag, 2003), o espanhol (Marcial Pons, 2006), o francês (Fayard/1001Nuits, 2009), o japonês (Chikuma Shobo Publishing Co., 2012) e o chinês (Peking University Press, 2019). ↩︎
- De fato, o dossiê publicado pela Historical Materialism, vol. 12, n. 3, em 2004, foi um marco importante na recepção internacional da obra. Nele, além da contribuição do próprio Postone, encontram-se intervenções de Robert Albritton, Christopher Arthur, Werner Bonefeld, Joseph Fracchia, Peter Hudis, Geoffrey Kay, James Mott, David McNally, Karen Miller, Michael Neary e Marcel Stoetzler. Cumpre lembrar também das diversas resenhas publicadas por ocasião do lançamento do livro: MCLELLAN (1993), JAY (1993), JESSOP (1994), FRACCHIA (1995), FEENBERG (1996), ZARETSKY (1996) e ANTONIO (1996). No cenário internacional, merecem ainda ser mencionados, entre outros, SEWELL JR. (2008), BONEFELD (2010), FUENTES (2010), GONZÁLEZ RÚA (2013), HOMS (2014), O’KANE (2018; 2021; 2024), HULLOT-KENTOR (2021), MARTÍN (2021), MURTHY (2022) e VIVANCO (2022). Também no Brasil, a obra de Postone passou a receber uma recepção significativa, como mostram, entre outros, os seguintes trabalhos: CAMARGO (2013), BRAGA (2015), DUAYER; ARAUJO (2015; 2020; 2022), VIEIRA (2015), SILVA (2016), XIMENES (2017), BRAGA; KAWAHARA (2021), SIQUEIRA (2021), ARAUJO (2022; 2024) e VAZ (2023). ↩︎
- Entre alguns autores que ilustram aquilo que Postone caracteriza como parte do “marxismo tradicional” podem ser mencionados Maurice Dobb, Paul Sweezy, Ronald Meek, Friedrich Pollock e Jürgen Habermas. ↩︎
- Vale notar que Postone pretendia que sua reinterpretação oferecesse a base para uma teoria crítica capaz não apenas de esclarecer a natureza e a dinâmica da sociedade capitalista contemporânea, mas também de servir como ponto de partida para uma análise do “socialismo realmente existente” que era, segundo ele, “uma forma alternativa (e fracassada) de acumulação de capital — e não como uma forma de sociedade que representou, ainda que imperfeitamente, a negação histórica do capitalismo” (POSTONE, 2014, p. 21). ↩︎
- Um trecho de Marx que pode sustentar essa apreciação crítica de Postone com mais nitidez encontra-se em Para a crítica da economia política (MARX, 2024, p. 36-37). Ao contrastar a mediação social entre os produtores na Idade Média com a forma especificamente capitalista, Marx observa que, na formação social anterior, o “laço social é constituído aqui [na Idade Média] pelos trabalhos determinados dos indivíduos em sua forma natural, ou seja, pela especificidade e não pela generalidade”, ao passo que, no capitalismo, “o trabalho representado pelo valor de troca é pressuposto como trabalho do indivíduo isolado. Ele se torna social ao assumir a forma de seu oposto imediato, a forma da generalidade abstrata”. Em termos breves, isso significa que, enquanto em formações sociais anteriores o trabalho concreto era imediatamente social, no capitalismo o trabalho dos indivíduos adquire um caráter duplo: permanece trabalho específico e concreto, mas só se torna social ao assumir também a forma do trabalho abstrato; é nesse sentido que este último constitui uma mediação social historicamente específica. ↩︎
- Com efeito, a recepção brasileira de Postone também foi marcada por momentos críticos bastante acentuados, como mostram, entre outros, os seguintes trabalhos: MEDEIROS (2015), PRADO (2016a; 2016b), CARCANHOLO (2017), VIEIRA (2018), PEREIRA (2020), AUGUSTO (2023) e, de modo especialmente severo, a dissertação de GAUNA (2024). ↩︎
- A argumentação desenvolvida a seguir encontra alguma inspiração nas reflexões críticas propostas por MILLER (2004), ACHA (2021) e LANGE (2021). Esta última pontua de maneira particularmente precisa a questão que estará em jogo adiante, ao observar que “parece que as teorizações [de Postone] sobre conceitos como espaço e tempo histórico não receberam o tratamento analítico necessário para tal empreitada.” (LANGE, 2021, p. 156, tradução nossa). Ao nosso ver, Omar Acha observa corretamente que a ênfase de Postone na lógica abstrata do valor tende a negligenciar a heterogeneidade das experiências históricas concretas que coexistem com o capitalismo e que, embora lhe sejam subordinadas, não se deixam reduzir inteiramente à sua lógica. Acha atribui esse traço à dívida de Postone com uma certa “monotemporalidade hegeliana”. Consideramos, no entanto, que a estrutura temporal hegeliana pode ser interpretada de outra maneira, como sugere ARANTES (2000), o que abre espaço para uma investigação mais sensível às temporalidades múltiplas que resistem ou excedem à lógica do valor, esforço que também encontrou formulações importantes no interior da tradição marxista, como mostram as reflexões de Walter Benjamin e Ernst Bloch ↩︎
- Nesse sentido, se acompanhamos a bibliografia crítica sobre Postone (cf. notas 9 e 13), cuja pertinência ainda cabe avaliar, talvez se possa dizer que suas reflexões apresentam um certo “problema das condições de fronteira” do capitalismo, já que tanto sua gênese quanto sua ultrapassagem não se encontram plenamente equacionadas em sua reconstrução teórica, a despeito da força de sua argumentação em outros aspectos. ↩︎
- A “maior destruição do espaço pelo tempo” é uma expressão empregada por Marx nos Grundrisse, no contexto de suas considerações sobre a relação entre o tempo de produção e o tempo de circulação do capital (MARX, 2011, p. 445), e que se tornou clássica na geografia marxista. A pouca ênfase conferida à dimensão espacial em Postone talvez decorra, ao menos em parte, da centralidade atribuída ao livro I de O capital em sua reconstrução da teoria de Marx, em detrimento dos momentos analíticos desenvolvidos nos livros II e III. Devo a Débora Cunha a observação desse ponto sensível na argumentação de Postone. ↩︎
- Por essa razão, pode-se sugerir que escapem a Postone certas determinações fundamentais que materializam a dominação abstrata e impessoal do valor/capital e que constituem também momentos seus. Não se trata apenas de uma “violência abstrata”, isto é, dos imperativos estruturais do capital, mas igualmente das formas concretas de exploração e de violência próprias da socialização capitalista, enquanto sede material da mediação do valor. Estão em jogo, aqui, desde processos de expropriação das condições objetivas de trabalho e de disciplinamento dos corpos até as forças repressivas e militarizadas do Estado postas a serviço do capital.
↩︎
Em Tempo, trabalho e dominação social, Moishe Postone, professor de história moderna da Universidade de Chicago, propõe uma reinterpretação fundamental da teoria crítica de Marx. Fortemente influenciado pela Escola de Frankfurt e inserido em uma das tradições mais radicais e contemporâneas do marxismo, Postone analisa o capitalismo, antes de tudo, como uma forma de vida.
Escrito na década de 1990, esse livro inaugurou uma nova frente nos estudos marxistas, tão polêmica quanto necessária. As teses de Postone relacionam a forma do crescimento econômico e a estrutura do trabalho social na sociedade moderna com a alienação e a dominação presentes no coração do capitalismo.
Suas análises abriram caminhos para a renovação dos debates no interior do marxismo, o que torna esse livro leitura obrigatória, inclusive para os que defendem uma perspectiva diferente sobre a dinâmica capitalista. Em 1996, Tempo, trabalho e dominação social recebeu o prêmio de melhor obra teórica da American Sociological Association e, desde então, tem sido lançado em diversos países, como Alemanha, França, Espanha e Japão, entre outros. A edição brasileira conta com um Prefácio inédito do autor. Elaborando conceitos destinados a apreender o caráter essencial e o desenvolvimento histórico da sociedade moderna e a superar a conhecida divisão entre estrutura e ação, significado e vida material, o autor questiona muitos dos pressupostos marxistas tradicionais e oferece novas interpretações dos argumentos centrais de Marx. Esses conceitos o levaram a uma análise original da natureza e dos problemas do capitalismo e fornecem a base para uma crítica do “socialismo realmente existente”.
De acordo com Postone, Marx identifica o núcleo do sistema capitalista com uma forma impessoal de dominação social gerada pelo próprio trabalho e não simplesmente com mecanismos de mercado e propriedade privada. O trabalho proletário e o processo de produção industrial são caracterizados como expressões de dominação, e não como meios de emancipação humana. Essa reinterpretação gera uma análise crítica do caráter historicamente dinâmico da vida social moderna. “Nessa óptica, a mera substituição da propriedade privada dos meios de produção pela estatal não podia produzir a superação do capitalismo. Para superá-lo, na perspectiva trazida à luz por Postone, é preciso superar o próprio valor-trabalho como regulador social ou, o que é o mesmo, abolir o trabalho alienado. Nessa leitura o advento do socialismo sempre exigiu, segundo o próprio Marx, a eliminação da forma mercadoria e, portanto, da forma dinheiro”, afirma Eleutério Prado, no texto de orelha.
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