Aprender a sustentar o calor: leitura e formação crítica em “O capital”
Imagem: Wikimedia Commons
Por Gabriel Teles
“Não há estrada real para a ciência, e apenas aqueles que não temem fatigar-se a escalar seus cumes luminosos têm chance de chegar às suas cimeiras”.
— Prefácio a segunda edição francesa de O capital
Ernst Bloch observa, ao falar da leitura de Hegel, que o suave e o habitual raramente deixam marcas duradouras no mundo. O pensamento que passa sem incômodo, que se deixa segurar com facilidade, não transforma quem o atravessa. Há frases, diz Bloch, que são como copos cheios de bebida forte e fervente, sem alça por onde se possa segurá-los1. Não se trata de um obstáculo acidental, mas de uma exigência imposta pela própria matéria do pensamento. Essa imagem oferece uma chave decisiva para pensar a experiência de leitura de O capital e, mais ainda, a forma de formação crítica que esse livro pressupõe e produz.
Ler Marx não é uma operação tranquila. Desde as primeiras páginas, o leitor se depara com conceitos que resistem à apreensão imediata e recusam a familiaridade. Mercadoria, valor, trabalho, mais-valor não se apresentam como definições prontas, mas como processos que se desdobram, se tensionam e se transformam ao longo da exposição. O desconforto que acompanha essa leitura não decorre de um estilo obscuro ou de um excesso de erudição, mas da natureza do que é pensado. O capital não é uma coisa estável, mas uma relação social em movimento, atravessada por contradições reais. Pensar esse objeto exige conceitos que permaneçam quentes, isto é, conceitos que não se deixem esfriar em fórmulas fixas.
Essa exigência está diretamente ligada à forma de exposição adotada por Marx. O capital não apresenta resultados acabados, mas reconstrói conceitualmente o movimento real do capital, obrigando o leitor a acompanhar suas mediações, recuos e inversões. A dificuldade da leitura não decorre de uma opção estilística, mas da tentativa de fazer com que o conceito se mova no mesmo ritmo contraditório do objeto. A exposição dialética não simplifica o real para torná-lo acessível, mas complexifica o pensamento para torná-lo adequado. Ler Marx é, assim, submeter-se a um método que não poupa o leitor — justamente porque não poupa o próprio objeto analisado.
A dificuldade de O capital é, nesse sentido, constitutiva. Ela não deve ser superada rapidamente, mas atravessada. A compreensão não se oferece no ponto de partida, nem se entrega de uma vez. Ela se forma no tempo da leitura, muitas vezes de modo retrospectivo, quando o leitor percebe que aquilo que parecia obscuro no início só ganha sentido depois de um percurso mais longo. Ler Marx implica aceitar que o entendimento não coincide com o primeiro contato, que o erro faz parte do processo e que a releitura não é um retorno redundante, mas uma etapa necessária da formação do conceito.
Essa experiência entra em tensão direta com as formas contemporâneas de formação intelectual, marcadas pela exigência de rapidez, clareza imediata e operacionalidade. No espaço universitário, aprender costuma significar dominar conteúdos, extrair informações e produzir sínteses eficientes. O capital interrompe esse ritmo. Ele exige tempo, paciência e disposição para permanecer na incerteza. Sustentar o calor dos conceitos significa resistir à tentação de resolvê-los cedo demais, de transformá-los em esquemas seguros ou de neutralizar sua força crítica em resumos funcionais.
Nesse sentido, O capital não apenas desacelera o ritmo da leitura, mas entra em choque com uma forma social específica de produção do saber. A exigência de clareza imediata, aplicabilidade rápida e síntese eficiente corresponde à lógica de produtividade que atravessa a universidade contemporânea. A leitura de Marx se torna incômoda porque suspende esse circuito, recusando-se a converter conceitos em ferramentas prontas. Sustentar o calor passa a significar também resistir à transformação do pensamento crítico em “capital acadêmico” imediatamente mobilizável.
O erro do leitor, longe de ser um simples equívoco, desempenha aqui um papel formativo. Tomar valor como preço, entender o trabalho abstrato como mera generalização empírica ou reduzir o fetichismo a uma ilusão subjetiva são desvios frequentes e compreensíveis. Eles correspondem à maneira como as relações sociais se apresentam na experiência cotidiana. A leitura de Marx não evita esses enganos, mas os incorpora como momentos do processo crítico. Ao confrontar o leitor com suas próprias categorias espontâneas, O capital transforma o erro em ponto de passagem, em ocasião para deslocar o olhar e refazer o percurso conceitual.
Sustentar o calor é, portanto, uma prática formativa. Não se trata apenas de compreender um livro difícil, mas de submeter o próprio modo de pensar a uma prova de resistência. A leitura de O capital desorganiza hábitos intelectuais, suspende evidências e exige uma atenção prolongada ao movimento interno dos conceitos. Nesse processo, o leitor não acumula simplesmente um saber sobre o capitalismo, mas se forma como sujeito crítico, capaz de perceber a instabilidade e a historicidade das formas sociais que o cercam.
Há, nessa experiência, uma dimensão temporal decisiva. Ler Marx é aceitar um tempo mais lento, no qual a compreensão se constrói por aproximações sucessivas e no qual a paciência não é virtude moral, mas condição cognitiva. Esse desacordo com o tempo dominante não é um efeito colateral da leitura, mas parte de sua potência crítica. Ao exigir demora, o livro cria um espaço de suspensão no qual o pensamento pode se deslocar das evidências imediatas.
Essa dimensão temporal não diz respeito apenas ao tempo da leitura, mas ao tempo histórico do próprio leitor. Sustentar o calor dos conceitos hoje implica confrontá-los com formas de abstração social ainda mais intensificadas do que aquelas analisadas por Marx. Financeirização, plataformização e mediações digitais ampliam o alcance do fetichismo e tornam ainda mais opaca a experiência cotidiana das relações sociais. É também por isso que os conceitos não esfriam. Eles continuam a queimar porque o mundo que pretendem explicar segue em combustão.
A formação crítica que emerge dessa leitura não conduz à adaptação, mas a um processo de desajuste. O leitor aprende a estranhar aquilo que parecia natural, a reconhecer a historicidade do salário, da mercadoria e do trabalho, a perceber a violência social inscrita em formas aparentemente neutras. O calor do conceito não é apenas intelectual, mas histórico. Ele queima porque toca em relações ainda vivas, em conflitos não resolvidos, em estruturas que continuam a organizar a vida social contemporânea.
Enquanto as condições históricas que Marx desvendou continuarem a estruturar o mundo social, o pensamento que delas emerge não poderá ser declarado obsoleto. Como formulou Sartre, o marxismo permanece um horizonte teórico insuperável do nosso tempo, precisamente porque o mundo que o produziu segue em operação. O capital continua, assim, a exigir leitores dispostos a enfrentar suas tensões, a sustentar o incômodo e a reconhecer que a formação crítica implica atravessamentos e fraturas. Ler Marx significa submeter o pensamento a uma prova que não oferece conforto interpretativo, mas deslocamento e transformação. O que se consolida ao final não é apenas o domínio de um arcabouço teórico, mas a incorporação de uma postura intelectual que assume o risco do presente e recusa qualquer conciliação com a suavidade do pensamento.
Notas
- BLOCH, Ernst. Sujeto-Objeto: el pensamiento de Hegel. Tradução de Wenceslao Roces. México, D.F.: Fondo de Cultura Económica, 1983. 491 p. ↩︎
***
Gabriel Teles é doutor em Sociologia pela USP e professor e pós-doutorando na UnB.
ÚLTIMOS DIAS DA PROMOÇÃO!
Até 21 de março de 2026, aproveite descontos para ampliar sua biblioteca e mergulhar nos estudos marxistas
CONHEÇA A COLEÇÃO MARX-ENGELS
Empenhada há três décadas em traduzir as obras de Marx e Engels, com rigor acadêmico e editorial, e sempre a partir dos manuscritos originais, a Boitempo conta hoje com mais de trinta volumes dos dois autores publicados, além de dezenas de livros dedicados ao estudo da teoria marxista. Em 2025, a Coleção Marx-Engels ganhará mais dois volumes: Do socialismo utópico ao socialismo científico, de Friedrich Engels, e o primeiro tomo das Teorias do mais-valor, obra inacabada de Karl Marx que foi por muitos considerada como o Livro IV de O capital.
Enquanto esses lançamentos históricos não chegam, conheça o catálogo de obras já publicadas pela coleção – algumas das nossas edições foram reconhecidas como as melhores do mundo por Gerald Hubmann, ex-diretor da MEGA (Marx-Engels-Gesamtausgabe, instituição detentora dos manuscritos dos autores).



O capital [livros I, II e III], de Karl Marx
Em 2011, a Boitempo deu início a uma de suas maiores empreitadas editoriais: a tradução completa de O capital, a principal obra de maturidade de Karl Marx. Em março de 2013, em meio ao projeto MARX: a criação destruidora, um conjunto de eventos que reuniu milhares de pessoas para debater a atualidade de seu pensamento, foi lançado o primeiro livro, O processo de produção do capital. A tradução de Rubens Enderle, vencedora do prêmio Jabuti 2014, foi a primeira realizada no Brasil a partir do texto preparado no âmbito da Marx-Engels Gesamtausgabe (MEGA2). Além dos prefácios elaborados por Marx e Engels para as diversas edições da obra e notas, a edição da Boitempo conta ainda com extenso aparato crítico.
Aproveite os combos promocionais.
Manuscritos econômico-filosóficos, de Karl Marx
Publicados apenas após sua morte, estes manuscritos foram escritos em 1844, quando Marx tinha apenas 26 anos. Neles, o filósofo alemão desenhou a crítica ética e política ao capitalismo, explorando a desvalorização humana em prol da mercadoria. Embora esboços, revelam a raiz da teoria do mais-valor.
Para a crítica da economia política, de Karl Marx
Publicada em 1859, esta é a primeira tentativa de Marx de publicar de maneira sistemática sua crítica da economia política. Trata-se do único volume que efetivamente veio à luz numa série prevista de seis livros. Oito anos depois, remodelado o projeto inicial, a concepção ganharia corpo na principal obra do autor, O capital, publicada em 1867. Para a crítica delineia os conceitos equivalentes ao que depois comporia a Seção I da obra-prima do filósofo alemão.
Grundrisse, de Karl Marx
Estes manuscritos, em tradução rigorosa feita diretamente dos originais em alemão, revelam a gênese da crítica do pai do socialismo científico à economia política. Escritos entre 1857 e 1858, são uma oportunidade ímpar para compreender, detalhadamente, o laboratório de estudos do renomado teórico.
Resumo de O capital, de Friedrich Engels
Mais de 150 anos após sua publicação, a obra-prima de Karl Marx continua suscitando debates acalorados. Friedrich Engels, o principal parceiro intelectual de Marx, buscou durante muitos anos de sua vida divulgá-la e publicá-la em outras línguas, além de ter sido o principal editor e organizador dos livros 2 e 3. Este livro traz um conjunto de resenhas feitas por Engels logo após o lançamento do primeiro volume de O capital, além de um manuscrito que o resume, uma espécie de guia para entender a obra, publicado pela primeira vez em português.
Manifesto comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels
No final de fevereiro de 1848, foi publicado em Londres um pequeno panfleto que acabaria por se tornar o documento político mais importante de todos os tempos. Passado mais de um século e meio, a atualidade e o vigor deste texto continuam reconhecidos por intelectuais das mais diversas correntes de pensamento.
O 18 de brumário de Luís Bonaparte, de Karl Marx
Nesta célebre análise sobre o processo que levou da Revolução de 1848 para o golpe de Estado de 1851 na França, o filósofo alemão desenvolve o estudo do papel da luta de classes como força motriz da história e aprofunda sua teoria do Estado, sobretudo demonstrando que todas as revoluções burguesas apenas aperfeiçoaram a máquina estatal para oprimir as classes. Embasado por essa observação, Marx propõe, pela primeira vez, a tese de que o proletariado não deve assumir o aparato existente, mas desmanchá-lo.
A sagrada família, de Karl Marx e Friedrich Engels
Edição esmerada de um trabalho seminal dos dois pensadores, introduzindo conceitos revolucionários como “consciência de classe” e “ideologia” e fazendo uma crítica mordaz aos intelectuais de sua época. Uma oportunidade para a compreensão das origens do pensamento materialista da história.

A origem da família, da propriedade privada e do Estado, de Friedrich Engels
Um clássico da teoria social, este escrito de 1884 apresenta uma análise crítica dos modos de organização da vida social. Levando em consideração as relações entre os sexos para além da biologia, Engels trata da opressão de gênero e do papel do casamento e da autoridade masculina na constituição da sociedade moderna.
A mais inovadora e abrangente antologia de textos de Marx e Engels já chegou!
Mais de cento e quarenta anos após a morte de Karl Marx e cento e vinte da morte de Friedrich Engels, qual a contribuição intelectual desses dois filósofos para o Brasil e para o mundo? Muito se fala hoje, da esquerda à direita, de Marx e Engels, mas o quanto estamos de fato lendo suas obras?
Concebida pela Boitempo, principal editora de Marx e Engels no Brasil, para atingir um público amplo, a antologia O essencial de Marx e Engels propõe um mergulho de fôlego e amplitude sem precedentes nos principais pontos do projeto teórico desses dois autores. A organização, as apresentações de cada volume e as notas explicativas são de Marcello Musto, professor italiano com contribuições decisivas no florescente campo de estudo marxiano contemporâneo. A obra conta também com prefácio de José Paulo Netto e textos de apoio de alguns dos maiores especialistas brasileiros: Marilena Chaui, Jorge Grespan, Leda Paulani, Virgínia Fontes, Lincoln Secco e Alfredo Saad Filho. A edição é de Pedro Davoglio.



O essencial de Marx e Engels reúne os textos mais importantes dos pensadores e revela cartas, manuscritos e rascunhos inéditos ou pouco conhecidos. Os três volumes, separados em escritos filosóficos, econômicos e políticos, contam com 16 partes temáticas e 66 extratos diferentes, incluindo obras publicadas, documentos e alguns escritos inacabados que foram anteriormente negligenciados. A obra revela, entre outras coisas, como estão equivocadas as interpretações que retratam Marx e Engels como pensadores eurocêntricos e economicistas, interessados apenas no conflito entre trabalhadores e capital.
Os volumes seguem uma linha cronológica que vai do início da década de 1840 até a morte de Engels, em 1895. Temas como a filosofia pós-hegeliana, a concepção materialista da história, método de pesquisa, trabalho e alienação, crise econômica, socialismo e muitos outros trazem ao público as ideias mais conhecidas e uma faceta pouco explorada da dupla. Em uma época em que as teorias de Marx e Engels voltam a ser investigadas em escala global, esta obra permite uma nova e mais completa interpretação geral de sua produção intelectual.
Além dos três volumes citados, a caixa contém o livreto Para ler Marx e Engels, com material complementar às obras publicadas no Brasil, como aulas, debates, palestras, itinerários de estudo e indicações de leituras de apoio.

Descubra mais sobre Blog da Boitempo
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.










Deixe um comentário