Cultura inútil | De parabelo na mão, onde o integralista venceu, fiel torcida e teatro rebolado  

Cena de Deus e o diabo na terra do sol, de Glauber Rocha. Imagem: Divulgação

Por Mouzar Benedito

I

“Se entrega Corisco 
Eu não me entrego não (…) 
Só me entrego na morte 
De parabelo na mão.” 

Esse é um trecho da música do filme Deus e o diabo na terra do sol, de Glauber Rocha. Foi composta pelo cineasta em parceria com Sérgio Ricardo, e me lembrei dela por causa da palavra parabelo, que quase não se usa mais. Tornou-se sinônimo de pistola automática, pois uma arma desse tipo fabricada na Alemanha foi chamada Parabellum. O nome é inspirado no ditado latino “Si vis pacem para bellum”, frase muito citada até hoje em português: “Se queres paz, prepara-te para a guerra”. Quer dizer, parabellum significa “para a guerra”. A frase é de autoria do romano Flávio Vegécio, que viveu no século XV ou XVI. Mas tem um detalhe: numa gíria, também não usada mais, parabelo é como chamavam uma mulher arrebatada por suas paixões.  


Juscelino Kubistchek foi eleito presidente da República em 1955, disputando pelo PSD (Partido Social Democrático) contra Juarez Távora (UDN – União Democrática Nacional), Adhemar de Barros (PSP – Partido Social Progressista) e Plínio Salgado (PRP – Partido de Representação Popular). Juarez Távora, cearense, era seu concorrente mais forte. Participante de revoltas tenentistas (inclusive a Revolução de 1924 em São Paulo), apoiou Getúlio em 1930 e teve tanto poder depois que chegou a ser chamado de “Vice-Rei do Norte”. Seu partido, apesar da denominação Democrática Nacional, era golpista (seu grande líder era Carlos Lacerda) e entreguista, portanto, nem tão democrática, e o “nacional” não tinha nada a ver com nacionalismo. Adhemar era um político “paulista”, muito popular em São Paulo mas quase inexpressivo fora deste estado. Plínio Salgado, fundador e líder da Ação Integralista Brasileira, era simpatizante do fascismo e o propósito de sua organização, enquanto o fascismo e o nazismo cresciam na Europa, era implantar um regime semelhante aqui. Era de extrema direita. Em 1955, ele foi o candidato mais votado em uma única capital brasileira. Adivinhem qual? Curitiba!!! E em outras cidades paranaenses também: foi o segundo mais votado no estado, perdendo apenas para Adhemar de Barros. Juarez Távora foi o terceiro mais votado e Juscelino ficou em quarto lugar.


Malária é o nome de uma doença infecciona transmitida pela picada da fêmea de um tipo de mosquito, mas antigamente pensava-se que era transmitida pelo ar. A palavra ar é feminina em italiano, e lá deram o nome “mala aria”, que significa “mau ar”.  


O futebol brasileiro sempre teve grandes batedores de falta… quer dizer, sempre até um monte de anos atrás. Antes, falta perto da área era praticamente “meio gol” em jogos da seleção, pois tínhamos batedores como Didi, Nelinho, Gerson, Ronaldinho Gaúcho, Juninho, Rogério Ceni, Rivelino, Marcelinho Carioca… De uns anos pra cá, virou uma tristeza. Falta na entrada da área, em vez de um chute certeiro a gol, virou uma troca de passes recuando às vezes até o goleiro do time atacante. A seleção chegou a passar uma porrada de anos atuando assim, só recentemente apareceu um batedor com chute perigoso, o Raphinha. Didi chegou a ter um estilo tão próprio e eficiente de bater falta que esse tipo de chute ganhou um nome próprio: folha-seca. De longe, com barreira à frente, a bola chutada por ele ia alta e, de repente, caía rumo ao gol, surpreendendo o goleiro.


Entre as glórias do Corinthians está o título de “Campeão do Centenário”, por ter vencido o campeonato paulista de futebol de 1954, no ano do 4º centenário da cidade de São Paulo. Foi disputado por quatorze times: Ponte Preta e Guarani (de Campinas), Noroeste (de Bauru), São Bento (de São Caetano do Sul), Linense, XV de Jaú, XV de Piracicaba, Santos… Da capital foram seis times: Portuguesa, Corinthians, Palmeiras, São Paulo, Juventus e Ypiranga. O vice-campeão foi o Palmeiras. Depois disso, o Corinthians passou 23 anos sem ser campeão. Na época não tinha o campeonato brasileiro e ser campeão paulista equivalia a um título nacional, assim como ser campeão carioca. Existia o Torneio Rio-São Paulo, reunindo os melhores times paulistas e cariocas. O vencedor de 1954 também foi o Corinthians, e o vice foi o Fluminense. O técnico do Corinthians era o lendário Osvaldo Brandão. Nesse período todo sem ser campeão não perdeu torcedores, o que justificou chamarem os corintianos de “fiel torcida”. 


Polícia de outros tempos: no Rio de Janeiro, foi criado na década de 1950 um serviço de policiamento com rondas feitas por uma dupla de policiais, logo apelidada de Cosme e Damião. Cada dupla tinha uma área de atuação, o bairro em que morava, e era conhecida e respeitada pela vizinhança. Quando era governador, Jânio Quadros (1955-1959) criou em São Paulo um serviço semelhante, mas com poucas duplas e uma novidade: foi a primeira polícia feminina, e as duplas eram chamadas de Marta e Maria. A primeira turma da polícia feminina (13 policiais) não fazia esse serviço. Começou com a segunda turma, composta por 22 policiais.  


Chico Buarque, além de compor músicas belíssimas e importantes, “recuperou” músicas esquecidas e até deu letra a pelo menos uma que não tinha e não era famosa: “João e Maria” (“Agora eu era herói/ e o meu cavalo só falava inglês…”), de Sivuca. “A turma do funil”, composta por Mirabeau, Milton de Oliveira e Urgel de Castro, embalou o carnaval de 1956, mas fez tanto sucesso com a gravação de Chico Buarque, Tom Jobim e Miúcha em 1980 que muita gente pensa que foi composta pelo Chico. “Gente humilde”, cantada por Ângela Maria (que se emocionava muito com ela), foi composta em 1945, por Garoto (apelido do paulistano Aníbal Augusto Sardinha, que viveu de 1915 a 1955) e reavivada por Chico Buarque e Vinícius de Moraes em 1970. 


O concurso de Miss Brasil era um evento considerado importantíssimo durante algumas décadas. Foi criado em 1954, tendo como primeira vencedora a baiana Martha Rocha. Durante muitos anos, seu nome se tornou sinônimo de beleza. Ela disputou o concurso de Miss Universo, também criado no mesmo ano, e ficou em segundo lugar porque, segundo uma lenda criada pela revista O Cruzeiro, seus quadris tinham duas polegadas a mais do que deviam. A vencedora foi a Miss EUA, Miriam Stevenson… mas muita gente atribuiu a vitória ao fato do concurso ser disputado em Long Beach, na Califórnia. O concurso de Miss Brasil foi no hotel Quitandinha, em Petrópolis (RJ), e os jurados foram, entre outros, os escritores Manuel Bandeira, Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino. Ah… Muito cobiçada, Martha Rocha se casou com um banqueiro português e teve dois filhos com ele, nascidos em Buenos Aires. O marido morreu pouco depois, num desastre de avião, e ela se casou novamente, desta vez com um playboy carioca, com quem teve uma filha. 


A revista O Cruzeiro dedicava muitas páginas aos concursos de miss, publicava fotos das candidatas usando maiô — e nas pequenas cidades do interior brasileiro, onde nem piscina havia, ver mulher de maiô excitava os homens. Na época, nesses lugares, só se via mulher de maiô em circos, geralmente trapezistas que para ganhar uma grana a mais vendiam fotos com esse traje. E os homens compravam com gosto. Um amigo, cujo pai era sargento da Aeronáutica e na época servia na então pequena cidade de Londrina, no norte do Paraná, conta que sua casa era frequentada por muita gente, principalmente migrantes que iam pedir conselhos e orientações sobre diversos assuntos. Um dia, ele estava numa reunião com autoridades locais quando chegaram uns casais de migrantes sofridos, eles mesmos muito estropiados e as mulheres também. O sargento explicou que terminaria uma reunião e logo depois conversaria com eles. Enquanto isso, poderiam folhear uns exemplares da revista O Cruzeiro, que estavam numa mesa no centro da sala (um deles cobria um concurso de miss). Os homens olhavam as fotos, olhavam… Quando o sargento os recebeu, um deles mostrou a revista a ele e perguntou: “Essas muié existe de verdade?”


Um gênero de teatro que não existe mais (pelo menos por aqui) chamava-se teatro de revista, caracterizado por espetáculos leves, muito humor, com números musicais e coreografia, sátira e crítica social. Tinha uma sequência de esquetes, com figurinos extravagantes, fazendo a caricatura principalmente de políticos e, às vezes, era bem escrachado. Era um autêntico teatro popular. Foi criado na França, no século XVII. Consta que chegou ao Rio em 1859 e adquiriu aqui características brasileiras, incluindo sensualidade e (nem sempre) mulheres nuas. As atrizes eram chamadas de vedetes, sempre bonitas e talentosas, apresentando-se em números musicais e coreográficos. Tinha números artísticos com cantoras famosas, até Carmem Miranda. Algumas vedetes ficaram muito famosas, entre elas Virgínia Lane, Elvira Pagã, Dercy Gonçalves e Luz del Fuego. O humorista Sérgio Porto, com pseudônimo Stanislaw Ponte Preta, era um expoente do gênero no Rio, e o chamava de teatro rebolado. Era também colunista de jornal e publicava fotos de mulheres de maiô, a quem chamava de “certinhas do Lalau”. Suas piadas seriam hoje consideradas machistas e inaceitáveis. Mulheres muito bonitas ele dizia que eram, por exemplo, “pra 200 talheres”. Em São Paulo, o teatro de revista foi muito popular também. Quando cheguei aqui, em 1963, havia várias salas especializadas no gênero, entre elas, na praça das Bandeiras, o mais famoso, o Teatro de Alumínio, cercado de alumínio mesmo, com capacidade para 520 pessoas. Foi demolido em 1967.  


***
Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em coautoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996), Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia) e Chegou a tua vez, moleque! (2021, Editora Limiar). Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente.


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