A dialética contracolonial de “Pecadores”
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SEM SPOILERS
Por Patricia de Aquino
“Os velhos séculos possuíam, e ainda possuem, poderes próprios que a mera ‘modernidade’ não consegue extinguir.“
— Drácula, Bram Stoker
A obra-prima de Ryan Coogler, Pecadores (2025), vencedora de diversos prêmios na temporada, incluindo o Globo de Ouro de Conquista Cinematográfica e Sucesso de Bilheteria, segue sua corrida rumo ao Oscar 2026 alcançando o recorde histórico ao receber 16 indicações. O longa está disponível para streaming na HBO Max, além de disponível para compra e aluguel nas plataformas Amazon Prime Video, Apple TV e Google Play Filmes e TV, além de estar de volta em algumas salas de cinema por todo o Brasil.
O horror gótico sulista de Coogler se inicia ao som de graves acordes de um blues. Um narrador nos conta sobre antigas lendas, segundo as quais havia pessoas com um dom musical capaz de rasgar o véu entre a vida e a morte, invocando espíritos do passado e do futuro. Essa voz narrativa nos remete a diferentes versões de uma mesma figura mítica, presente em várias das culturas que compõem a miscigenação estadunidense: entre os irlandeses, é conhecido como fili, o poeta; entre os povos indígenas originários da América do Norte, especificamente o povo Choctaw, os narradores são chamados de guardiões do fogo; já entre os povos do oeste da África, são os griots, os contadores de histórias.
Ao reunir, logo de início, distintas tradições culturais marcadas pela oralidade, pela música e pela fabulação, a cena de abertura ultrapassa uma função meramente técnica, e passa a preparar, já no âmbito das escolhas estéticas e narrativas, o terreno para uma das principais discussões desenvolvidas ao longo do filme. O tema, que se apresenta ora de maneira explícita, ora de forma metafórica, poderia ser por nós sintetizado como a tensão dialética da contracolonização.
Segundo o pensador quilombola brasileiro Antônio Bispo, em seu livro A terra dá, a terra quer, contracolonizar é recusar que o outro nos colonize. Trata-se de enfraquecer o modo de vida do colonizador, de potencializar os modos de existência dos povos originários, de combater a cosmofobia — a negação da igualdade epistemológica entre os seres do universo —, e de afirmar uma vivência de transfluência, marcada por relações orgânicas entre corpos, espaços e saberes. Contracolonizar não é assimilar, mas defender-se contra-atacando. De modo semelhante, é nesse gesto que parece residir o projeto estético e político de Coogler em Pecadores.
Recuperando as clássicas dualidades típicas dos góticos vampirescos do século XIX, o filme estrutura sua narrativa a partir de oposições constantemente tensionadas: bem e mal, futuro e ancestralidade, pecado e virtude, arte e religião… povos originários e migrantes versus colonizadores. Essas forças não se anulam; ao contrário, produzem sínteses dialéticas que operam como movimentos contracoloniais.
Desde o início, acompanhamos a trajetória de três personagens centrais. Sammie Moore (Miles Caton) é o filho pródigo de um pastor evangélico de uma pequena comunidade de Clarksdale do interior do Mississippi, dividido entre seguir os preceitos da religião branca herdada do pai ou viver o desejo de tornar-se músico de blues. Já os gêmeos Smoke e Stack (ambos interpretados por Michael B. Jordan), primos de Sammie, enfrentam o desafio de se estabelecerem economicamente no sul dos Estados Unidos durante a Grande Depressão dos anos 1930, em meio às leis de segregação racial de Jim Crow e à falência do sistema de plantation.

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As motivações existenciais desses personagens são distintas. Em Sammie, manifesta-se uma tensão da ordem da superestrutura: arte versus religião, prazer versus pecado, subjetividades que buscam libertação. Smoke e Stack, por sua vez, travam uma luta no plano da estrutura, disputando espaço, propriedade e ascensão econômica e racial em um sistema que os exclui.
Na construção climática de Pecadores, surgem cenas liminares em que Sammie conduz o espectador a repensar o medo cristão diante daquilo que escapa aos moldes dogmáticos tradicionais. O politeísmo, a arte e o prazer desafiam o personagem a romper fronteiras colonizadas de sua própria mente. Paralelamente, Smoke e Stack se confrontam com representantes da Ku Klux Klan em disputas por território, comércio, terras e até mesmo pelo direito à arte e ao lazer.
Esses encontros levantam uma questão fundamental: os personagens seguirão o caminho da ordem, traçado pelas normas coloniais, ou produzirão novas formas de (re)existência, rompendo com a epistemologia e a práxis do colonialismo branco europeu?
É nesse ponto que aparece o elemento irlandês como disparador de uma possível síntese contracolonial. Embora brancos, os irlandeses não eram reconhecidos como tais no sul dos Estados Unidos durante o regime de segregação racial — não era incomum encontrar placas segregando “negros, irlandeses e cachorros”. Além disso, o povo irlandês viveu quase oito séculos sob a colonização inglesa e teve sua língua, espiritualidade e cultura subjugadas por seus colonizadores.
O elemento irlandês é personificado por Remmick, personagem trickster interpretado por Jack O’Connell. Ele é um vampiro que evoca a tradição de seu antecessor conterrâneo do século XIX: o Drácula criado por Bram Stoker. Assim como o vampiro clássico, Remmick não surge apenas como criatura monstruosa, mas como uma figura ambígua. Sua presença funciona como uma ponte simbólica que desloca a lógica racial binária do sul estadunidense, introduzindo uma branquitude não-hegemônica, marcada pela exclusão.
Narrativas vampirescas assombram o imaginário ocidental desde tempos imemoriais, mas foi Drácula que se consolidou como a representação fundacional do mito. Diferentemente do que sugerem muitas adaptações cinematográficas, o projeto de Drácula não era romântico, mas político: sair da Transilvânia e subjugar a Inglaterra. Seu maior crime não era sugar sangue, mas ameaçar a supremacia britânica ao interromper o progresso da metrópole, valendo-se daquilo que era visto como o primitivismo oriundo de terras longínquas do Leste Europeu. Mais do que um monstro, Drácula era um estrangeiro que ousava contracolonizar o centro do império.

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É nessa chave narrativa que Coogler parece realizar uma das mais potentes atualizações do projeto draculesco no cinema. Ao articular a tensão entre povos negros e irlandeses, ambos marcados pela violência colonial, em meio ao erotismo, à fabulação, e à sanguinolência do gótico vampiresco, Pecadores constrói momentos de síntese contracolonial nos quais a liberdade busca existir fora das prisões rígidas da estrutura dogmática branca.
Na celebração da música tradicional irlandesa e do blues, nas danças de corpos suados em transe, na entrega erótica ao prazer, entre mordidas e sangue escorrendo, um renascimento inquietante atravessa os personagens. Remmick apresenta sua proposta de libertação. Sammie, inicialmente tomado pelo medo, não compreende. Apenas ao final do filme, conhecemos sua verdadeira decisão, consolidando sua própria síntese contracolonial.
Muito além de um filme de terror sobre vampiros, Pecadores é uma ode à libertação dos povos e à exaltação das culturas originárias. A trama, profundamente metafórica e simbólica, articula diferentes tradições culturais de forma subversiva e desafia as (super)estruturas do capitalismo branco. Evocando Bram Stoker, Coogler assume a própria figura do griot que aparece no início de seu filme. Ele assim convida o espectador a subverter a lógica da modernidade e a revisitar uma experiência humana ancestral e transfluente, tão importante em tempos de retorno do supremacismo branco, intensificação da perseguição a imigrantes e outros conflitos historicamente herdados da Guerra Civil americana.
PARA SE APROFUNDAR NO TEMA
Reconstrução negra: ensaio para uma história do papel desempenhado pelo povo negro na tentativa de reconstruir a democracia na América, 1860-1880, de W. E. B. Du Bois
A obra mais madura de W. E. B. Du Bois ganha sua primeira tradução para o português. Reconstrução negra revisita um momento decisivo da história estadunidense: o pós-abolição e pós-guerra civil nos Estados Unidos – um dos períodos mais radicais da história do país, que não à toa foi sujeito a um violento processo de apagamento.



A nova segregação: racismo e encarceramento em massa, de Michelle Alexander
Um olhar crítico e impactante sobre o sistema prisional dos EUA e seu profundo vínculo com o racismo estrutural. A autora revela a continuidade do controle racial e da segregação, questionando a justiça e lançando luz sobre um sistema de subcastas perpetuado pelo encarceramento em massa.
Democracia para quem?, de Angela Davis, Patricia Hill Collins e Silvia Federici
O livro reúne as palestras proferidas de 15 a 19 de outubro de 2019, pelas três intelectuais feministas no âmbito do seminário internacional “Democracia em Colapso?”, promovido pelo Sesc São Paulo e pela Boitempo. No livro, é possível tomar contato com reflexões feitas pelas autoras — referências globais em suas áreas de estudo e de atuação — sobre temas como capitalismo, racismo, desigualdade social, ecologia, entre outros.
Mulheres, raça e classe, de Angela Davis
Profundamente analítico, traça as interseções de raça, classe e gênero na luta contra opressões. A autora desafia visões simplistas, expondo a centralidade das mulheres negras. Sua crítica à esquerda ortodoxa e reflexões sobre representatividade são atuais.
Da mesma autora, leia também A liberdade é uma luta constante e Uma autobiografia.



Intersecções letais: raça, gênero e violência, de Patricia Hill Collins
O novo livro da autora analisa casos concretos, como o assassinato de Marielle Franco no Brasil, o conflito na República Democrática do Congo, a condição das mulheres aborígenes na Austrália e da população negra nos Estados Unidos, valendo-se do conceito de interseccionalidade. “Intersecções letais é uma leitura imprescindível para as pessoas engajadas na luta por justiça social e que buscam aprofundar suas reflexões sobre as conexões entre violência, relações de poder e desigualdades”, escreve Nilma Lino Gomes na orelha da obra.
Aproveite e leia também Pensamento feminista negro e Interseccionalidade, escrito em parceria com Sirma Bilge.
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Érico Andrade é psicanalista, filósofo e professor de Filosofia da UPFE/ CNPq. Compõe o coletivo Pontes da Psicanálise. Autor de Negritude sem Identidade.
Thais Klein é psicanalista, doutora em Saúde Coletiva (IMS-UERJ) e doutora em Teoria Psicanalítica (PPGTP-UFRJ). Professora adjunta da Universidade Federal Fluminense (UFF-CURO) e professora do programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica (UFRJ). Coordenadora do NEPECC (UFRJ-IPUB).
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