Extrema direita transforma a morte de neofascista em arma política na França 

Imagem: WikiCommons

Por Alvaro Bianchi

Em 14 de fevereiro, o jovem Quentin Deranque morreu em decorrência dos ferimentos sofridos em um confronto de rua entre militantes fascistas e antifascistas em Lyon, na França. A confrontação se deu no entorno da Sciences Po Lyon, onde a eurodeputada franco-palestina Rima Hassan participava de uma atividade acadêmica. Contra sua presença no campus, o grupo femonacionalista Collectif Némésis havia convocado uma manifestação. Deranque, ligado a círculos neofascistas locais, atuava ao lado de outros militantes na força de choque do protesto. 

Nos últimos anos, Lyon passou a figurar como um polo de articulação da extrema direita francesa, tornando-se cenário de violência política recorrente, com agressões dirigidas a imigrantes, pessoas LGBTQ e ativistas de esquerda. A extrema direita dispõe na cidade e em seu entorno de uma implantação antiga e relativamente estável, que combina tradições locais de ultradireita com recomposições mais recentes em torno de coletivos ultranacionalistas identitários e núcleos neonazistas. Estimados em algumas centenas, esses militantes se concentram sobretudo na área do Vieux-Lyon, mas têm ampliado sua presença no espaço urbano por meio de marchas, colagens e panfletagens, disputando visibilidade e controle simbólico das ruas. 

Deranque participava do ambiente monarquista e ultracatólico da Action Française e, no ano anterior, havia colaborado na fundação de um novo agrupamento neofascista em Bourgoin-Jallieu, denominado Les Allobroges, em referência a uma tribo gaulesa associada à região. Dirigentes do governo francês e do Rassemblement National, partido de Marine Le Pen e Jordan Bardella, procuraram criminalizar a esquerda, atribuindo à France Insoumise, de Jean-Luc Mélenchon, responsabilidade política pelo desfecho. Em paralelo, parte da cobertura jornalística construiu uma imagem de Deranque como jovem estudante de matemática, devoto católico, leitor de Tomás de Aquino, alguém movido pelo amor à pátria e à religião. 

A extrema direita tem aproveitado a oportunidade para acusar a esquerda e apresentar-se como movimento responsável. Marion Maréchal, sobrinha de Marine Le Pen, chegou a afirmar que “a violência da extrema direita é insignificante quando comparada com a da extrema esquerda. Estatisticamente, ela não existe”. As estatísticas, entretanto, apontam para outra direção. De acordo com a socióloga Isabelle Sommier, 52 das 57 mortes ligadas à violência entre grupos políticos, ocorridas entre 1986 e 2017, eram de responsabilidade da direita.  

A tentativa de responsabilizar La France Insoumise pela morte de Deranque pode incentivar uma escalada de agressões contra a esquerda. Nas últimas semanas, houve depredações em escritórios de parlamentares do partido, ameaças de morte a seus representantes e até um alerta de bomba na sede nacional, que precisou ser evacuada. Enquanto esse clima de intimidação se adensava, em 21 de fevereiro a extrema direita marchou pelas ruas de Lyon em uma passeata de homenagem ao seu novo mártir. O ato reuniu mais de três mil pessoas e foi marcado por saudações nazistas. Participaram militantes da Action Française, do grupo neonazista Zouaves Paris e estudantes ultranacionalistas ligados ao sindicato La Cocarde, além de ativistas identitários do Némésis, da Ligue du Midi, das Jeunesses nationalistes e de l’Oeuvre française. Neofascistas italianos da CasaPound e do Lealtà Azione também estiveram presentes, evidenciando a densidade das conexões transnacionais que sustentam esse meio. 

A proliferação de grupos neofascistas e neonazistas na França vem chamando atenção de pesquisadores. Trata-se de uma constelação de coletivos pequenos, mutáveis e, muitas vezes, de vida curta. Parte desses núcleos é dissolvida por decisão administrativa ou atinge o limite da repressão judicial, apenas para reaparecer sob outra sigla. Essa plasticidade organizativa produz um efeito de continuidade. A proscrição dos grupos não impede a permanência de redes políticas e da cultura militante que eles promoviam. Em cidades como Lyon, esse ambiente ganha densidade territorial. Ele se ancora em bares, clubes de artes marciais e espaços associativos e culturais. 

A rede é diversificada. Há grupos voltados à propaganda, que produzem colagens, panfletagens, intervenções visuais e campanhas digitais com linguagem e estética voltadas para um público jovem. Outros se especializam em ações de intimidação, com ataques a imigrantes, pessoas LGBTQ e militantes de esquerda. Um traço recorrente é a tentativa de combinar radicalismo e ações assistenciais seletivas, dirigidas apenas a “nacionais”. O resultado é a arregimentação de jovens e uma presença cotidiana nos centros urbanos. 

A presença do Rassemblement National na vida política nacional e a campanha de Reconquête, o partido de Eric Zemmour, no último pleito presidencial, criaram um ambiente favorável ao surgimento e desenvolvimento dessas organizações pequenas, mas barulhentas. Embora os partidos eleitorais pós-fascistas tentem marcar distância dos grupos neofascistas e neonazis, sua presença na vida política nacional é um importante fator de legitimação dos discursos de ódio promovidos por esses movimentos. Não é necessário que o partido ordene ações violentas para que sua ascensão contribua para reduzir estigmas. Quando a extrema direita se torna uma opção “normal” para milhões de eleitores, e os imigrantes são tratados no debate público como uma ameaça à segurança e à identidade nacional, reconfigura-se o que parece socialmente aceitável. Os grupos mais radicalizados encontram desse modo um terreno mais favorável para sua atuação. 

Por outro lado, a presença de um neofascismo combativo tem sido discretamente estimulada pelos partidos eleitorais pós-fascistas. Os comícios eleitorais de Zemmour foram, com frequência, espaços de circulação e visibilidade para militantes neonazistas, incluindo grupos envolvidos em episódios de intimidação e violência. No mesmo sentido, uma investigação judicial ainda em curso revelou que o partido de Marine Le Pen contratou, nas eleições de 2022 e 2024, serviços gráficos superfaturados de empresas controladas por dirigentes do Groupe Union Défense, organização neofascista dissolvida pelo governo francês em 2024. O mecanismo funcionava como uma forma eficiente de repasse indireto de recursos para esses círculos militantes. A fronteira entre os partidos eleitorais pós-fascistas e a militância radical dos neofascistas é, desse modo, mais porosa do que sugerem os discursos oficiais.

A disputa em torno da morte de Deranque evidencia que a extrema direita contemporânea funciona como um ecossistema, no qual atores de rua e forças partidárias atuam de modo articulado, embora preservem margens de distância. O Rassemblement National apoiou a manifestação de 21 de fevereiro em Lyon, mas orientou seus militantes a não comparecerem, buscando colher dividendos simbólicos sem assumir os custos políticos da proximidade com grupos abertamente neonazistas. Eric Zemmour também se pronunciou favoravelmente ao ato, mas evitou participar. Em paralelo, outras homenagens ocorreram em diferentes cidades, organizadas por coletivos ultranacionalistas, que se encarregaram de sustentar a mobilização e aproveitar a ocasião para fazer propaganda e atacar a esquerda. 

Nesse arranjo, a violência de rua promovida por grupúsculos neofascistas e a performance institucional conduzida por Rassemblement National e Reconquête cumprem papéis distintos, porém convergentes. A fabricação do mártir, a inversão de responsabilidades e a insistência em enquadrar a esquerda como ameaça principal operam como técnicas de gestão do conflito político. Elas deslocam o eixo do debate público e estreitam o espaço de ação dos adversários. A relação entre grupúsculos neofascistas e forças eleitorais pós-fascistas assume, assim, seu caráter propriamente simbiótico. A política institucional oferece respeitabilidade e recursos que reduzem o custo da radicalização. A militância neofascista, por sua vez, puxa a fronteira do aceitável, testando repertórios e intimidando adversários. Desse modo, cria condições para que Le Pen, Bardella e Zemmour apareçam como alternativas de ordem no mesmo terreno que ajudaram a incendiar.  

Agora, é provável que Quentin Deranque passe a ocupar um lugar de destaque na construção da memória e da identidade da extrema direita francesa. O culto aos mártires integra, de modo recorrente, o repertório fascista e neofascista, valorizando uma ética do sacrifício. A figura do “caído” cria uma pedagogia da violência, na qual a disposição para enfrentar o inimigo arriscando a própria vida aparece como virtude política suprema. A morte do militante no confronto com o inimigo opera como mito, reforçando uma identidade coletiva e oferecendo um enredo simples para a mobilização. 

Na França, esse dispositivo aparece com nitidez nas homenagens realizadas todo 9 de maio a Sébastien Deyzieu, militante de L’Œuvre française morto em 1994, após um confronto com a polícia. O ritual anual reúne diferentes correntes ultranacionalistas e neofascistas, inclusive vindas de outros países europeus, e opera como espaço de coordenação e reconhecimento mútuo. Ao participar dessa cerimônia no ano passado, Deranque já se inscrevia nesse universo de ritos e genealogias. Sua morte tende agora a ser incorporada ao mesmo panteão, como peça de uma mitologia militante continuamente atualizada. 

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Alvaro Bianchi é professor titular do Departamento de Ciência Política da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador do Laboratório de Pensamento Político (Pepol/Unicamp). É mestre em sociologia (2000) e doutor em ciências sociais (2004) pela Unicamp. Além de Fascismo e liberalismo: afinidades seletivas (Boitempo, 2026), é autor de O laboratório de Gramsci (Zouk, 2018) e Gramsci entre dois mundos (Autonomia Literária, 2020). Foi diretor do Arquivo Edgard Leuenroth (2009-2017) e do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp (2017-2020).


UM ESTUDO PROVOCATIVO SOBRE OS LAÇOS ENTRE O FASCISMO E O LIBERALISMO
Desafiando o mito da oposição entre ambos, este livro revela uma tradição liberal-fascista que ligava a liberdade à autoridade e ao Estado forte. Alvaro Bianchi oferece uma visão essencial sobre como os ecos da ideologia fascista persistem nas democracias de mercado atuais.
Clara E. Mattei, autora de A ordem do capital

Fascismo e liberalismo: afinidades seletivas, de Alvaro Bianchi
Há um século a humanidade viu o fascismo chegar ao poder na Itália e espalhar suas ramificações pela Europa e pelo mundo. Ao longo dos anos, houve períodos em que parecia impossível afirmar que algo próximo ao fascismo poderia retornar, mas os regimes e personalidades que emergiram nas últimas décadas deixaram claro que a sombra do fascismo está viva e atuante.  

Na contracorrente da historiografia dominante sobre o tema, este livro se debruça sobre as insistentes tentativas de acomodação da ideologia fascista com o liberalismo. A tese é que longe de negar o projeto fascista, tais esforços de “normalização” representaram uma estratégia para torná-lo perene. Combinando farta pesquisa em arquivos primários e notável rigor sociológico, o cientista político Alvaro Bianchi oferece um raio-x do liberal-fascismo.  

Embora centre sua investigação na Itália – cotejando as aproximações entre o movimento liderado por Mussolini e a obra de pensadores liberais como o economista Vilfredo Pareto e o filósofo Giovanni Gentile –, o autor examina as características antiindividualistas, antinaturalistas e antidemocráticas dessa corrente política híbrida também em países da América Latina. O resultado é uma contribuição original que não só ilumina o fascínio que o fascismo exerceu sobre os liberais, como fornece um precioso instrumental para compreender o neofascismo e o pós-fascismo atuais.   

Disponível a partir de: 17 de março de 2026.


Lançamento de Fascismo e liberalismo: afinidades seletivas, de Alvaro Bianchi. Debate com o autor, Luciana Genro e mediação de Ronaldo Tadeu.




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