“Diante do Fim”: os emparedados e a Lei do BBB

Imagem: Rede Globo/Reprodução

Por Silvia Viana

A lei do Big Brother é a eliminação. Mais que um jogo no qual um vence, trata-se de um jogo no qual todo o resto perde, daí os maiores índices de audiência ocorrerem sempre nos dias de “paredão”. Nesses dias, dois, três ou até quatro participantes são levados à votação do público, e aquele que obtiver maior percentagem deixa o programa. O termo, que remete às execuções por fuzilamento em Cuba, foi empregado por um participante da primeira edição do programa global no lugar do original “dia de eliminação”. A expressão aderiu com tanta força ao princípio ao qual remete que até em programas concorrentes é difícil fixar outra; nesses, volta e meia ocorre uma apropriação involuntária1. Deslocada e repetida à exaustão, a palavra-chave do Big Brother perdeu seu teor histórico e político; em seu lugar, surgiu um buraco negro de significação, ao mesmo tempo difuso e mortificante. A expressão indica a principal regra do programa, a situação dos participantes com relação à disputa, o dia em que ocorre a eliminação e o cenário construído nesse dia, no qual uma arquibancada é montada do lado de fora da casa para que as torcidas recebam ao vivo o eliminado. A palavra designa estatuto, circunstância, tempo e espaço. Transformada em adjetivo, a expressão grassa tanto quanto o substantivo sem substância: “emparedado”, termo que lembra mais os contos de [Edgar] Allan Poe do que a revolução cubana, tornou-se igualmente polivalente, mas para além da objetividade do “jogo” aponta para um estado de espírito, que pode ir da melancolia à fúria. Por fim, o termo é empregado como verbo: nesse caso o uso é categórico, pois “emparedar” é um imperativo, e isso mesmo no infinitivo. 

O filólogo Victor Klemperer foi uma exceção. Foi um dos poucos judeus alemães a permanecerem em Dresden ao longo do regime nazista. Também foi uma exceção por ter sobrevivido a Dresden. Sua sorte se deveu à sua assimilação e, principalmente, ao heroísmo da esposa alemã, que não o abandonou e o apoiou enquanto esteve exilado em seu próprio lar. Essa situação paradoxal possibilitou outra exceção notável: ele esteve muito próximo de uma língua morta-viva, mas afastado o suficiente para não ser tomado por ela e assim poder registrá-la como a deturpação que era2. Para Klemperer, a forma de falar que passou a ser adotada na Alemanha durante o Terceiro Reich, a chamada Lingua Tertii Imperii (LTI), é como um vírus, infecta partidários e opositores, carrascos e vítimas indiscriminadamente. Como um narcótico, ela dispensa e barra o pensamento. Como veneno, paralisa e mata a linguagem despercebidamente. Mas o envenenamento silencioso só é possível mediante o berro, a repetição e o uso multiplicado de termos que, em si, já gritam. Banalizadas, essas palavras ganham em virulência o que perdem em expressividade e intensidade. A LTI não as cria, mas apropria-se delas de modo a torná-las autônomas, externas ao exercício reflexivo que é a linguagem. Apesar de frágeis ao menor toque do pensamento, elas se tornam duras e impermeáveis, tornam-se coisas intocáveis e que não tocam os sujeitos. 

Klemperer registrou a transformação de toda uma língua em propaganda. Talvez a maioria dos termos da LTI tenha caído em desuso, mas essa antilinguagem sobreviveu, inane e poderosa3. Para Slavoj Žižek, é justamente dessa fraqueza que emana sua eficácia. Por não se ligar a nada e poder se ligar a tudo, a palavra-slogan remete sem mediação ao significante puro. Através dela, fitamos o olhar da Medusa: a arbitrariedade sobre a qual se funda a ordem social. No vácuo das palavras engessadas e barateadas está posta a tautologia da resposta paterna aos porquês das crianças: “porque sim”, responde, melhor dizendo, respondia, outrora o pai. Outrora, pois a língua-propaganda expõe diretamente o núcleo absurdo da reprodução social – “Coca-Cola é isso aí”4, responde agora nossa LTI –, ela dispensa a relação ambígua da autoridade por representação. Sua prescrição não é como a do rei, que em sua própria figura representava a sociedade e, assim, justificava a dominação. Também não se organiza como justificação de tipo racional que, através da argumentação e coerência, busca representar a sociedade. A LTI subjuga sem procuração, ela confronta as pessoas como a Lei que dispensa as demais leis; em outros termos, “ela funciona como supereu”5. Como uma pergunta retórica, essa linguagem interpela o sujeito ao mesmo tempo que recusa qualquer relação com seu pensamento6. Essa relação de total exterioridade é algo que Klemperer percebeu e ao mesmo tempo recusou. Em fevereiro de 1945, em meio ao caos dos bombardeios, Klemperer fugiu com sua esposa de Dresden, quando então pôde tirar sua “prova dos nove”: por todos os lados, e não apenas em seu limitado espaço de exílio, a língua alemã tornara-se LTI. Ele também deparou com o estranho fenômeno que outras testemunhas apontaram: a tranquilidade com a qual os até então fanáticos seguidores de Hitler recusavam sua fé: “Agora, todos rejeitavam o Terceiro Reich.” Apesar disso, Klemperer não deixou de acreditar no comprometimento subjetivo dos alemães com o nazismo: “Elas [as profissões de fé em Hitler] vinham do coração, de corações devotos, não eram somente da boca para fora”7. Talvez por ter sido não apenas tocado mas gravemente ferido por aquelas palavras, ele tenha deixado de lado sua própria descoberta: que a LTI funcionou tão bem precisamente por ser usada “mecanicamente”8, por não estar no coração de ninguém. É por isso que mesmo quando o colapso do regime estava gravado em um céu em chamas, quando “até uma criança percebia”9, era possível encontrar um ou outro que ainda repetia o chavão: “Em Hitler eu acredito!”10. Eram essas palavras em que acreditavam, antes e independentemente dos sujeitos ou de seus próprios olhos. 

Assim funciona o “paredão”. Mais que designar uma regra do programa, nele transparece sua Lei. Por isso não é difícil para os eliminados, ainda no palco montado do lado de fora da casa, tomarem um distanciamento maduro do que acabara de lhes ocorrer. No instante em que deixam, fuzilados, o “paredão”, toda a fúria ou a mágoa demonstrada no período em que estiveram “emparedados” desaparece. A maioria afirma que “aprendeu muito”, que aquilo foi uma “experiência única”, que não guarda rancor etc. Mesmo aqueles que demonstram trazer o ressentimento com sua mala imediatamente racionalizam a derrota: “eu não joguei direito”, “o povo preferiu assim”, “ele jogou melhor”. Tais reações são geralmente tidas por hipócritas pelos telespectadores; seriam apenas mais um cálculo para angariar simpatia, já que o cálculo anterior se mostrara equivocado. A leitura oposta, que é a mesma, é a de que lágrimas e escândalos dentro da casa não passavam de cálculo para angariar piedade, atenção ou seja lá o que for. Pouco importa, pois se nem sempre a intenção corresponde ao gesto, este invariavelmente responde à Lei. Seja mediante a paixão, o cálculo ou a paixão calculada, diante do “paredão” todos agem como se estivessem com uma arma apontada para a testa, como se estivessem diante do Fim. 

* Este é um trecho de Rituais de sofrimento. Conheça mais sobre a obra no site da editora Boitempo

Notas

  1. A expressão também aparece em legendas de reality shows norte-americanos transmitidos no Brasil, tais como Hell’s Kitchen (Travel and Living Chanel – TLC) e Top Chef (Sony). ↩︎
  2. Victor Klemperer, LTI: a linguagem do Terceiro Reich (Rio de Janeiro, Contraponto, 2009). ↩︎
  3. Se há um escândalo gerado pela teoria crítica, ele está na percepção dessa permanência da ideologia dos assim chamados regimes totalitários nas democracias do pós-guerra. Os frankfurtianos identificaram a mesma virulência notada por Klemperer tanto nos “bons e baratos” dos comerciais e na “personality” atribuída à estrela de cinema como no oco “progresso” da propaganda política. Em sua forma, a ideologia dos derrotados venceu a guerra, ainda que o termo “Führer” tenha se tornado tabu. “As próprias designações se tornam impenetráveis, elas adquirem uma contundência, uma força de adesão e de repulsão que as assimila a seu extremo oposto, às fórmulas de encantamento mágico. […] A repetição cega e rapidamente difundida de palavras designadas liga a publicidade à palavra de ordem totalitária. Theodor W. Adorno e Max Horkheimer, Dialética do esclarecimento, cit., p. 172-3. Sobre progresso, consultar: Theodor W. Adorno, “Progresso”, em Palavras e sinais (Rio de Janeiro, Vozes, 1995). A linguagem infecciosa descrita por Klemperer venceu e ainda reina soberana e sem-vergonha, como atesta a menina dos olhos da publicidade contemporânea, o chamado “marketing viral”. ↩︎
  4. A empresa é mestre em “significantes sem significado”, além desse slogan criado em 1982, ouvimos sem escutar o fatal “Sempre Coca-Cola”, de 1993, e o traumático “Essa é a real”, de 2003. ↩︎
  5. Slavoj Žižek, Eles não sabem o que fazem, cit., p. 31. ↩︎
  6. O abuso de perguntas retóricas em propagandas comerciais não é fortuito. A interrogação aponta para uma falta que solicita a presença do outro, ainda que esse seja o próprio sujeito da pergunta, cindido na operação do pensamento. A pergunta retórica sequestra a solicitação contida na interrogação e transforma a falta em chantagem. Por isso, após a pergunta retórica, o slogan fica à vontade para o uso do imperativo: “Quer emagrecer? Use…”, “Quer ser um vencedor? Participe…”. Ao contrário da exclamação, a interrogação é uma abertura para o que pode ou não ser construído, portanto, para o que ainda não é – e talvez por isso sua forma gráfica seja sinuosa, ao contrário da rigidez enfática do traço com o ponto em baixo. A pergunta retórica não apenas pressupõe uma resposta como transforma em impossibilidade tudo que não seja ratificação. A pergunta retórica forja o óbvio. Assim como anula o interlocutor, a pergunta retórica se desvencilha daquele que a elabora, pois ela é a voz do Outro. ↩︎
  7. Victor Klemperer, LTI: a linguagem do Terceiro Reich, cit., p. 185. ↩︎
  8. Ibidem, p. 55. ↩︎
  9. Ibidem, p. 185. ↩︎
  10. Ibidem, p. 184. ↩︎

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Silvia Viana é professora de Sociologia na Fundação Getúlio Vargas (FGV) e doutora pela USP. Pela Boitempo, publicou Rituais de sofrimento (2013).


Rituais de sofrimento, de Silvia Viana
Reflexão corajosa e perspicaz sobre os reality shows e sua relação com o sofrimento humano. A autora mergulha nas engrenagens desse universo brutal, revelando o que está por trás do espetáculo e desafiando o espectador a questionar o preço do entretenimento. “Não lidamos aqui com um ritual como outro qualquer, não se trata de uma festa ou do consumo, ambos cerimoniais oferecidos aos deuses do prazer. Trata-se de algo mais perturbador, pois o que se vê nos reality shows é a proliferação de rituais de sofrimento”, afirma a pesquisadora logo no primeiro capítulo.



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