A crise da hegemonia sionista no judaísmo brasileiro

Reunião no Planalto mostra o avanço de vozes dissidentes, o debate sobre o conceito de antissemitismo e a reação da direita bolsonarista.

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Por Bruno Huberman

No dia 28 de janeiro de 2026, aconteceu uma reunião de representantes do governo federal com lideranças da comunidade judaica no Palácio do Planalto. A iniciativa, encabeçada pelas ministras dos Direitos Humanos, Macaé Evaristo, e das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, teve como tema o “enfrentamento do antissemitismo no Brasil”. Dois dias antes, Evaristo esteve no Bom Retiro, tradicional bairro judaico de São Paulo, onde visitou entidades sociais judaicas, como a Unibes (União Brasileiro-Israelita do Bem-Estar Social) e a Casa do Povo.

O encontro e a reunião fazem parte de um movimento de aproximação do governo federal com a comunidade judaica, esforço que ocorre desde a crise aberta pela fala de Lula que comparava o Holocausto judaico cometido pelos nazistas na II Guerra Mundial ao genocídio palestino promovido por Israel em Gaza, em janeiro de 2024. Clara Ant, assessora especial da presidência, chegou a ir à convenção da Conib em 2025, realizada na Hebraica, que contou com representantes da extrema direita brasileira, como os governadores Tarcísio de Freitas e Ronaldo Caiado. A petista deixou o evento após ofensas de Caiado a Lula.

A reunião: a saída do Brasil da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto

Embora plural, a composição do evento demonstrava maior afinidade com representantes das alas à esquerda da comunidade judaica — sionista ou antissionista —, enquanto a direita sionista bolsonarista, que domina as entidades representativas, foi escanteada. 

Além de políticos, acadêmicos e rabinos, estiveram presentes representantes dos coletivos Vozes Judaicas por Libertação (VJL) e Judias e Judeus pela Democracia-SP (JJPD), da Casa do Povo, do Instituto Brasil-Israel e do Observatório Judaico de Direitos Humanos. Os irmãos Cláudio Lottenberg, presidente da Conib (Confederação Israelita do Brasil), e Fernando Lottenberg, comissário da OEA para o Monitoramento e Combate ao Antissemitismo, foram os únicos membros da extrema direita sionista na reunião. 

Não esteve presente nenhum presidente das federações israelitas estaduais, todos alinhados com as políticas genocidas de Benjamin Netanyahu, nem representantes dos clubes sociais judaicos, como a Hebraica do Rio de Janeiro, onde Jair Bolsonaro fez seu famoso discurso racista contra povos indígenas e quilombolas durante a campanha presidencial de 2018. A ausência mais significativa foi a da Stand With Us (SWU) Brasil, dirigida por André Lajst, o principal articulador da definição de antissemitismo da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA) no Brasil.

Essas ausências são relevantes, pois a pauta central da reunião foi exatamente a saída do Brasil da IHRA, ocorrida em julho de 2025. A definição de antissemitismo da IHRA faz uma falsa equivalência entre críticas ao Estado de Israel e racismo contra judeus, o que tem provocado censura e perseguição a jornalistas, professores, estudantes e ativistas em diferentes partes do mundo, inclusive no Brasil. 

Por causa do lobby da SWU e da Conib, diversos estados e municípios brasileiros — todos governados por políticos bolsonaristas — adotaram formalmente a definição da IHRA. Embora não tenha finalidade penal, essa adoção tem impacto nas atividades educativas e culturais desses entes, como no currículo pedagógico das escolas públicas.

O assessor especial para assuntos internacionais da Presidência, Celso Amorim, disse em entrevista ao Roda Viva, em agosto de 2025, que a saída do Brasil da IHRA se justifica pela grande pressão existente nos bastidores para que o país adotasse juridicamente essa definição de antissemitismo. Isso poderia afetar o próprio presidente Lula, que vem sendo falsamente acusado de antissemitismo por Conib e SWU devido às suas críticas a Israel.

O deputado federal de extrema direita Eduardo Pazuello (PL-RJ), ex-ministro da Saúde de Bolsonaro durante a pandemia de Covid-19, apresentou, no início de 2025, um projeto de lei para a adoção formal da IHRA no Brasil. O país, contudo, já possuí robusto arcabouço legal para o combate a todas as formas de racismo, o que inclui o antissemitismo. Pazuello afirmou agir a partir de demandas da Embaixada de Israel no Brasil.

A ministra Macaé Evaristo em atividade no bairro do Bom Retiro, São Paulo. Foto: Clarice Castro/MDHC

Uma alternativa: a Declaração de Jerusalém sobre Antissemitismo

Uma parte significativa dos presentes na reunião, incluindo o VJL, defendeu que um importante ponto de partida pode ser a Declaração de Jerusalém sobre Antissemitismo (DJA). A DJA foi redigida, em 2021, por intelectuais judeus e israelenses reunidos no Van Leer Jerusalem Institute como forma de se opor à instrumentalização da IHRA pelo lobby israelense. Ela faz uma importante distinção entre o crime de ódio contra judeus (e a histórica perseguição sofrida por esse grupo) e as críticas ao Estado de Israel e à violência dirigida aos israelenses no contexto dos conflitos do Oriente Médio.

A adoção de uma definição de antissemitismo como a da Declaração de Jerusalém pelo governo federal pode ter uma grande importância educativa. Graças aos vastos recursos que irrigam as ações das organizações promotoras da IHRA no Brasil, há um forte entendimento na sociedade brasileira de que críticas generalizadas a Israel constituem formas de antissemitismo. Além de gerar censura e perseguição àqueles solidários à causa palestina, isso prejudica a luta contra o verdadeiro antissemitismo — que está em crescimento.

Violência intracomunitária da direita sionista bolsonarista

A direita sionista bolsonarista escanteada da reunião busca deslegitimar completamente a intenção do governo Lula de construir um termo comum com a pluralidade da comunidade judaica em relação ao combate ao antissemitismo e também à sua instrumentalização. Isso ocorre de duas formas. Primeiro, ao desprezar o gesto e atribuir-lhe um propósito claramente eleitoral, apelando para a ideia de um suposto antissemitismo atávico de Lula e das esquerdas. Segundo, ao atacar a representante do VJL presente na reunião, acusando-a de que sua posição de solidariedade à Palestina e denúncia do genocídio seria antissemita.

Essa agressão reflete um esforço histórico, por parte das camadas dominantes e da direita da comunidade judaica, de silenciar, apagar e excluir os seus setores à esquerda — não somente os antissionistas, como também parcelas da esquerda sionista. A violência política intracomunitária tem sido uma forma de a direita sionista bolsonarista manter a sua hegemonia sobre a comunidade.

No entanto, as fissuras provocadas pelo genocídio em Gaza, no interior e no exterior da comunidade judaica, sobre a imagem do sionismo — em particular aquele de direita e alinhado com as políticas genocidas de Netanyahu — provocam grande ansiedade nesses setores dominantes. A unidade sionista que existiu por décadas na comunidade judaica brasileira está sendo rompida pelo número crescente de vozes judaicas antissionistas e não sionistas que se levantam.

O antissionismo judaico veio para ficar como uma força importante para as comunidades judaicas ao redor do mundo. A rede internacional Global Jews for Palestine reúne mais de vinte coletivos de judeus antissionistas ao redor do mundo e tem crescido significativamente nos últimos anos, tanto em tamanho quanto em importância.

O coletivo Jews for Racial and Economic Justice teve papel fundamental na eleição do socialista Zohan Mamdani para a prefeitura de Nova York. O Jewish Bloc protagonizou as gigantescas passeatas de solidariedade à Palestina em Londres. E o Mesarvot, formado por judeus israelenses antissionistas que se recusam a servir nas Forças Armadas, contribui para romper com o militarismo dominante na sociedade israelense.

Tão importante quanto o combate ao antissemitismo é o enfrentamento da violência política intracomunitária promovida pela extrema direita bolsonarista com o apoio — ou, no mínimo, a leniência — das entidades dominantes da comunidade judaica. Além disso — e acima de tudo —, é vital a manutenção de uma solidariedade judaica constante à Palestina num momento em que segue o genocídio em Gaza e na Cisjordânia. Dezenas de palestinos são assassinados todos os dias por militares e colonos israelenses enquanto Trump faz o seu teatro do Conselho de Paz.

Espero que o governo federal consiga avançar de forma democrática e plural no debate a respeito de uma definição verdadeira de antissemitismo. Isso será fundamental para o desenvolvimento de um projeto pedagógico para a sociedade brasileira e para o combate do antissemitismo real. Mas que destine também o mesmo tempo, espaço e respeito aos representantes do povo palestino no Brasil, que têm buscado, de forma frustrada, desde o início do genocídio, maior interlocução com o governo federal para fortalecer uma solidariedade verdadeira com a luta palestina por libertação nacional.

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Bruno Huberman é professor de relações internacionais da PUC-SP, onde é vice-líder do Grupo de Estudos de Conflitos Internacionais. Integrante do INCT/Ineu, atualmente desenvolve pesquisa de pós-doutorado pelo Programa San Tiago Dantas e é autor de Colonização neoliberal de Jerusalém (Educ, 2023). Publicou um artigo no dossiê Gaza da revista Margem Esquerda #43. Mantém a newsletter Palestina em Transe.


Marxismo e judaísmo: história de uma relação difícil, de Arlene Clemesha
A chamada “questão judaica” esteve e está no centro da história contemporânea. Não é de se estranhar que o judaísmo tenha lançado ao marxismo os maiores desafios à sua capacidade explicativa e transformativa. Neste livro, a professora e historiadora Arlene Clemesha passa em revista as metamorfoses dessa controvertida trajetória, desde o ensaio Sobre a questão judaica, de Karl Marx, até o clássico trabalho de Abraham Léon, escrito em pleno desenvolvimento do Holocausto, que ceifaria a vida do seu autor. Republicado em um momento de extrema gravidade para o povo palestino e para o judaísmo mundial, submetido a uma crise de consciência sem precedentes na era contemporânea, o livro busca, nas palavras da autora, “resgatar a história que a vitória do movimento sionista buscou ocultar, quando, em meados da década de 1950, tentou ressignificar o sionismo como a realização da luta histórica do povo judeu, relegando outras correntes e outros movimentos, de fato majoritários até o entreguerras, a meras notas de rodapé da história judaica”.


Margem Esquerda | #43 abre com densa entrevista concedida pelo historiador palestino-americano Rashid Khalidi a Tariq Ali, artigos de Arlene ClemeshaSamah JabrTithi BhattacharyaBruno Huberman e Ilan Pappe, ensaio visual do artista plástico palestino Yazan Khalili e poema de Rafaat Alareer, assassinado em dezembro de 2023 por um bombardeio aéreo israelense. 


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A partir das ideias de Edward Said e de posições filosóficas judaicas, Butler articula uma crítica do sionismo político e suas práticas de violência estatal ilegítima, nacionalismo e racismo patrocinado pelo Estado. Além de Said, reflete sobre o pensamento de Levinas, Arendt, Primo Levi, Buber, Benjamin e Mahmoud Darwish para articular uma nova ética política, que transcenda a judaicidade exclusiva e dê conta dos ideais de convivência democrática radical, considerando os direitos dos despossuídos e a necessidade de coabitação plural.

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Esta ampla seleção de artigos traz reflexões sobre como as lutas históricas do movimento negro e do feminismo negro nos Estados Unidos e a luta contra o apartheid na África do Sul se relacionam com os movimentos atuais pelo abolicionismo prisional e com a luta anticolonial na Palestina. A obra da intelectual e ativista Angela Davis ensina também a pensar a nossa luta em relação a todos os “condenados da terra”, como escreveu Frantz Fanon.



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