Rojava: um obstáculo central à nova ordem no Oriente Médio

Guerrilheiras do YPJ em Rojava. Foto: Giovanna Vial

Por Giovanna Vial

“As YPJ aprenderam cedo que, onde há liberdade, também haverá ataques.’’ 

Essa foi a resposta imediata de Rohilat Afrin à minha primeira pergunta, sobre as perspectivas de segurança do Curdistão Sírio diante das políticas do novo governo em Damasco.

Comandante-chefe das YPJ (Unidades de Proteção das Mulheres), — o braço armado curdo feminino — Rohilat me recebeu em junho de 2025 na sede da organização no Curdistão Sírio, ou Rojava. Fardada, com os longos cabelos pretos presos por uma presilha, falava com um misto de assertividade e doçura. Parecia genuinamente contente em receber uma jornalista brasileira ali.

‘’Para o mundo, eles (o novo governo sírio) dizem que não têm mais qualquer ligação com o Estado Islâmico. Até agora, prometeram muito, mas cometeram diversos massacres. Nós (curdos) não confiamos neles. A pergunta que não sai da nossa cabeça é: se não nos tornarmos o que eles querem que sejamos, seremos os próximos?’’

Rohilat parecia prever o futuro. Em janeiro de 2026, as forças do governo sírio, lideradas pelo presidente interino Ahmad Al-Sharaa, começaram sua ofensiva contra os curdos em Aleppo. Ao longo do mês, as forças sírias seguiram em direção ao leste do país. Raqqa e Der Er Zorr, cidades árabes que haviam permanecido sob administração das Forças Democráticas Sírias (SDF, na sigla em inglês), coalizão militar liderada pelos curdos, desde a guerra contra o Estado Islâmico, foram retomadas por Damasco, estreitando o cerco sobre Rojava e isolando progressivamente o território autônomo.

Na última sexta-feira (30 de janeiro de 2026), em meio a um cessar-fogo, um acordo foi firmado entre as SDF e o governo sírio, prevendo a incorporação dos combatentes curdos às forças nacionais e a transferência ao governo central do controle de instituições civis estratégicas, como cartórios de registro civil e o aeroporto.

A ofensiva contra Rojava ocorre em um momento de profunda reconfiguração geopolítica na região. A consolidação do novo governo em Damasco tem sido acompanhada por uma aproximação com os Estados Unidos e por um alinhamento tácito a interesses israelenses, visível sobretudo diante do avanço militar de Israel no sul da Síria, na região de Suwayda. Ao mesmo tempo, o eixo Irã-Hezbollah — por décadas um dos principais contrapontos à influência norte-americana e israelense na região — atravessa um período de grande fragilidade.

Em setembro de 2024, o Hezbollah, grupo armado xiita libanês, sofreu o golpe mais profundo de sua história com o assassinato de seu líder, Hassan Nasrallah, em ataques Israelenses no subúrbio de Beirute. Dois meses depois, entrou em vigor um cessar-fogo no Líbano que foi violado mais de dez mil vezes pelas forças israelenses, segundo a ONU. A queda de Bashar al-Assad, em dezembro daquele ano, aprofundou esse rearranjo: sob seu regime, a Síria funcionava como um elo logístico fundamental entre Teerã e o Hezbollah e como uma barreira territorial ao avanço israelense. Com o colapso da era Assad, esse corredor foi desarticulado.

Mais do que um episódio isolado, a ofensiva contra os curdos se insere em um padrão de perseguição às minorias que parece ter se consolidado como política de Estado no primeiro ano do novo governo sírio.

As primeiras vítimas foram os alauítas — minoria muçulmana de vertente heterodoxa do islamismo xiita, à qual pertenciam a família Assad e parte significativa da antiga elite política e militar. Em março de 2025, a violência contra essa comunidade atingiu seu auge nas regiões de Latakia e Tartus, parte costeira da Síria, no que o Observatório Sírio para Direitos Humanos chamou de uma ‘’verdadeira chacina’’.

Alguns meses depois, em julho, foi a vez dos drusos — grupo minoritário de origem islâmica que combina elementos de diferentes tradições religiosas e filosóficas. Em Suweyda, região majoritariamente drusa no sul da Síria, mais de mil pessoas foram mortas durante confrontos entre combatentes tribais e grupos drusos armados. Suwayda é uma província estratégica: fica próxima à fronteira com Israel e às Colinas de Golã, território sírio ocupado por Israel desde 1967. Desde a queda de Assad, e principalmente depois dos acontecimentos de julho, Israel tem avançado sobre o território e ampliado seu controle sobre a comunidade local.

Ainda que não se saiba com precisão se tudo isso ocorre à revelia ou sob a articulação direta de Damasco, é certo que o governo adota um tom omisso tanto no que se refere aos episódios de violência sectária contra minorias quanto em relação ao avanço israelense no sul do país.

Em uma chamada de vídeo diretamente de Qamishli, no Curdistão Sírio, Baderkhan Ahmad, jornalista curdo de 28 anos que faz a cobertura da região há anos, tenta resumir a desconfiança generalizada dos curdos em relação à administração síria:

“Como podemos nos integrar a pessoas que querem nos matar?” — questiona Baderkhan. “Os curdos não confiam nesse governo. Primeiro foram os alauítas, depois os drusos, agora os curdos. O governo sírio é autoritário, só fala a língua da guerra e quer construir um país com uma só cor.’’

Ahmad afirma que, antes do avanço militar, as autoridades de Damasco teriam conduzido uma campanha de desinformação para isolar politicamente as SDF e incitar a população árabe nas áreas sob controle curdo, facilitando a tomada de Raqqa e Der Er Zorr,

O governo sírio atual é liderado pelo antigo Hay’at Tahrir al-Sham (HTS), grupo que chefiou a coalizão responsável pela queda de Bashar al-Assad, em 8 de dezembro de 2024. Embora hoje tente se apresentar como moderada e reformulada, a nova administração é composta por dirigentes — incluindo o próprio presidente interino, Ahmad al-Sharaa — que construíram suas trajetórias políticas e militares no universo jihadista, com passagens e vínculos anteriores com Al-Qaeda e Estado Islâmico.

Para Rohilat Afrin, a continuidade ideológica entre o Estado Islâmico e o governo atual permanece:

‘’O Estado Islâmico matou muita gente no nosso território’’’ — disse a líder da YPJ. ‘’ Não era só um governo islâmico — era uma tentativa de apagar a existência das mulheres, sua natureza e suas liberdades. A mentalidade que vemos agora em Damasco é a mesma. Sabemos que não há lugar para as mulheres nesse governo. Todos os cargos serão entregues a homens com uma mentalidade islâmica radical.’’

Giovanna Vial entrevistando Rohilat Afrin. Foto: Rami Hussein

A comparação feita por Rohilat ganha contornos ainda mais simbólicos à luz do protagonismo dos combatentes curdos de Rojava na derrota territorial do Estado Islâmico na região, em 2019.

À época, as YPG e as YPJ — braços armados do Partido da União Democrática (PYD) —, antes tratadas por Washington como organizações terroristas, já haviam sido reembaladas politicamente pelo governo norte-americano sob o rótulo das já citadas Forças Democráticas Sírias. Nessa configuração, passaram a atuar como a principal força terrestre da coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos no combate ao Estado Islâmico.

O apoio norte-americano aos curdos, no entanto, se mostrou circunstancial. Após a recente ofensiva de Damasco contra Rojava, Donald Trump afirmou estar “muito feliz” com os desdobramentos na Síria e chegou a parabenizar o presidente Ahmad al-Sharaa.

Não foi a primeira vez que os Estados Unidos oscilaram entre o apoio e o abandono dos curdos de Rojava em função de seus interesses estratégicos na região. Em 2019, a decisão do governo Trump de retirar as tropas norte-americanas do Curdistão Sírio, anunciada pouco depois da derrota territorial do Estado Islâmico, abriu caminho para ofensivas turcas contra áreas sob controle curdo.

Para Baderkhan Ahmad, o episódio ilustra uma lógica mais ampla da política externa norte-americana. “Os Estados Unidos têm planos maiores para a região e, muitas vezes, ignoram os direitos dos curdos”, afirmou ele.

Em meio à aproximação entre Damasco e Washington, Rojava emerge como um dos últimos entraves a uma nova arquitetura regional em formação. A autonomia curda — com seu projeto político que desafia modelos autoritários e sectários, combinando pluralismo étnico e religioso e equidade de gênero — entra em choque com a tentativa de recomposição da autoridade central síria e com os interesses externos que atravessam o país.

Hoje, Rojava enfrenta sua maior ameaça desde a derrota do Estado Islâmico. A sua derrocada não apenas encerraria um dos projetos mais consistentes de democracia na região, como também abriria espaço para a reedição de velhos pretextos — entre eles, o ressurgimento da ameaça jihadista —, em nome de uma nova rodada de intervenções externas.

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Giovanna Vial é jornalista mestre em Direitos Humanos pela Sciences Po Paris. Cofundadora do Youmanitarian, plataforma de conhecimento decolonial.


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