Além do anticomunismo: as afinidades seletivas entre liberais e fascistas

Bombacci, Mussolini, Petacci, Pavolini e Starace na Piazza Loreto, 1945. Imagem: Wikimedia Commons

Por Marcelo Godoy

Há um século o fascismo chegou ao poder na Itália. Ainda hoje a monstruosidade do regime é presença incômoda e aversiva. Longe das fantasmagorias medievais, o assombro que ela exerce se manifesta como ameaça viva na forma de seus herdeiros e sucessores neofascistas e pós-fascistas. 

Se Alvaro Bianchi foi buscar nos anos iniciais do ventennio, entre 1922 e 1925, os elementos de contato entre o movimento liderado por Mussolini e a obra de pensadores liberais, como o economista Vilfredo Pareto e o filósofo Giovanni Gentile, é porque todos os livros de história, ainda que tratem de uma realidade remota, têm uma relação com o presente. Essa lição de Jaques Le Goff é seguida de maneira exemplar neste Fascismo e liberalismo: afinidades seletivas. Aqui a pesquisa histórica e a análise comparativa como método iluminam as relações entre o ontem e o hoje e permitem, sem anacronismos, compreender para interpretar. “O passado propõe, mas não dispõe”, escreveu Le Goff, “o presente é determinado tanto pelo acaso e pelo livre arbítrio quanto pela herança do passado”. 

Bianchi destrincha a ideologia fascista, acompanhando sua transformação e atualização em agremiações como a Fratelli d’Italia e o Reagrupamento Nacional, para mostrar de que forma o pós-fascismo procura passar pela alfândega da política e se apresentar como força comprometida com os valores democráticos. O abandono da violência e a adesão a um discurso antiestatal – crítico ao intervencionismo na economia – se adaptam a concepções ultranacionalistas, autoritárias e anticomunistas. A ideia de uma civilização ocidental sitiada que precisa ser resgatada mobiliza votos contra os desembarques de imigrantes. E faz parecer normal gastar 1 bilhão de euros em centros de detenção para refugiados na Albânia. 

Esses partidos alcançaram grande consenso em seus países. Mas por que, indaga o filósofo Luciano Canfora, a culta, a refinada e um pouco cética Europa, em queda demográfica, não quer massas de imigrantes? A resistência em compartilhar a cidadania explica o antigo hábito de impor limites à democracia. Os liberais italianos do século XX, como bem demonstra Bianchi, não opunham a liberdade à autoridade; antes, acreditavam que sem Estado não haveria liberdade, pois esta dependeria da autoridade. Compartilharam o projeto imperial de Roma, que excluía os povos colonizados da cidadania, assim como agora fazem com os imigrantes. Não foi só o pânico da onda vermelha que levou os liberais a Mussolini; Fascismo e liberalismo mostra que suas afinidades seletivas iam além do anticomunismo. 

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Marcelo Godoy é jornalista e escritor. Autor do livro A Casa da Vovó, vencedor dos prêmios Jabuti (2015) e Sérgio Buarque de Holanda, da Biblioteca Nacional (2015).


Lançamento de Fascismo e liberalismo: afinidades seletivas, de Alvaro Bianchi. Debate com o autor, Luciana Genro e mediação de Ronaldo Tadeu. Quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026, 15h. Ao vivo na TV Boitempo.


UM ESTUDO PROVOCATIVO SOBRE OS LAÇOS ENTRE O FASCISMO E O LIBERALISMO. 

Desafiando o mito da oposição entre ambos, este livro revela uma tradição liberal-fascista que ligava a liberdade à autoridade e ao Estado forte. Alvaro Bianchi oferece uma visão essencial sobre como os ecos da ideologia fascista persistem nas democracias de mercado atuais. 
“— Clara E. Mattei, autora de A ordem do capital

Há um século a humanidade viu o fascismo chegar ao poder na Itália e espalhar suas ramificações pela Europa e pelo mundo. Ao longo dos anos, houve períodos em que parecia impossível afirmar que algo próximo ao fascismo poderia retornar, mas os regimes e personalidades que emergiram nas últimas décadas deixaram claro que a sombra do fascismo está viva e atuante.  

Na contracorrente da historiografia dominante sobre o tema, este livro se debruça sobre as insistentes tentativas de acomodação da ideologia fascista com o liberalismo. A tese é que longe de negar o projeto fascista, tais esforços de “normalização” representaram uma estratégia para torná-lo perene. Combinando farta pesquisa em arquivos primários e notável rigor sociológico, o cientista político Alvaro Bianchi oferece um raio-x do liberal-fascismo.  

Embora centre sua investigação na Itália – cotejando as aproximações entre o movimento liderado por Mussolini e a obra de pensadores liberais como o economista Vilfredo Pareto e o filósofo Giovanni Gentile –, o autor examina as características antiindividualistas, antinaturalistas e antidemocráticas dessa corrente política híbrida também em países da América Latina. O resultado é uma contribuição original que não só ilumina o fascínio que o fascismo exerceu sobre os liberais, como fornece um precioso instrumental para compreender o neofascismo e o pós-fascismo atuais.   

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