Shakespeare enlutado: sobre o novo longa de Chloé Zhao

Imagem: Divulgação.

Por Alysson Oliveira

A conexão complexa e, às vezes, incompreensível entre vida pessoal e obra de arte está ao centro do premiado Hamnet: a vida antes de Hamlet, que, tal qual Shakespeare Apaixonado cria uma fantasia a respeito da vida do bardo que resulta numa peça — no caso do novo filme, uma ficção sóbria e melancólica. O longa ganhou o Globo de Ouro de Melhor Filme Dramático, e deu o prêmio de Melhor Atriz em Filme de Drama a Jessie Buckley, que interpreta a companheira do dramaturgo, aqui chamada Agnes (em outros registros, o nome aparece como Anne).  

O filme é baseado em um romance homônimo, escrito pela irlandesa Maggie O’Farrell e originalmente publicado em 2020, em plena pandemia. Uma estranha coincidência, já que o pequeno Hamnet, filho de Agnes e William, morre vítima da peste bubônica em 1596, aos 11 anos. A prosa lírica da escritora tem tons quase sobrenaturais. Agnes é uma espécie de curandeira, que possui uma forte ligação com a natureza. Ela, ao invés do marido famoso, é o cento da narrativa. 

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Dirigido por Chloé Zhao, responsável pelo roteiro junto a O’Farrell, o filme Hamnet mantém esse ponto de vista, fazendo com que a narrativa toda gire ao redor de Agnes — até Shakespeare (interpretado por Paul Mesca) e sua obra estão ligados a ela. O longa começa com a protagonista deitada em posição fetal em meio às raízes de uma grande árvore, estabelecendo seus os temas e símbolos logo na abertura.  

Esses elementos nunca abandonam Agnes. Pelo contrário, se tornam mais fortes, à medida em que ela se apaixona por William, tutor de latim de seus irmãos, e que trabalha com o próprio pai abusivo como luveiro, embora almeje uma vida diferente. Quando Agnes se descobre grávida, os dois são obrigados a se casar, mesmo que a contragosto de ambas as famílias. 

Depois do nascimento da primeira filha, chegam os gêmeos Judith e Hamnet, duas crianças que crescem muito próximas uma da outra — até que a tragédia se abate sobre a casa dos Shakespeare, em Stratford-upon-Avon. Antes disso, no entanto, William já havia se estabelecido em Londres, onde sua carreia como ator e dramaturgo estava decolando.  

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Depois de uma controversa experiência num cinema mais comercial com Os Eternos, Zhao volta às suas origens, quando dirigiu filmes mais intimistas (como Nomadland, que lhe rendeu prêmios no Festival de Veneza e no Oscar). Seu interesse aqui é o presente, é o silenciamento da mulher diante da fama do marido. É uma percepção bastante contemporânea, mas que ela traz ao filme de maneira orgânica, sem impor projeções anacrônicas de nosso tempo a personagens do passado: eles servem antes como ferramentas para questionar padrões que se perpetuam ao longo do tempo.  

A maternidade, como uma força da natureza, é um ponto crucial para o filme. O nascimento dos gêmeos é uma cena carregada de tensão e medo. A possibilidade da perda de um filho dá a Buckley a possibilidade de um tour de force na sua atuação. É um desespero que, mais tarde, irá reverberar novamente. E caberá ao bardo encontrar na arte o caminho para a catarse.  

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Combinando fatos concretos com especulações e fantasias sobre a vida de Shakespeare e Agnes, Hamnet: a vida antes de Hamlet investiga as possibilidades da arte enquanto ferramenta de transformação pessoal. Não existem reais evidências de que a morte do pequeno Hamnet tenha sido inspiração para a famosa peça, escrita entre 1599 e 1601. A Tragédia de Vingança Elisabetana foi um gênero bastante popular nos séculos XVI e XVII, e trazia elementos muito marcantes que foram repetidos por Shakespeare em Hamlet

A possibilidade de relação entre Hamnet e Hamlet, no entanto, não deixa de ser fascinante: uma relação entre pai e filho marcada pela morte de um deles, e o diálogo entre um pai fantasma e um filho vivo. E, como diria o próprio bardo: “O que há em um nome? Aquilo a que chamamos de rosa, chamada por outro nome teria um perfume menos doce?”  


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Alysson Oliveira é jornalista e crítico de cinema no site Cineweb, membro da ABRACCINE – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, e escreve sobre livros na revista Carta Capital. Tem mestrado e doutorado em Letras, pela FFLCH-USP, nos quais estudou Cormac McCarthy e Ursula K. LeGuin, respectivamente. Realiza pesquisa de pós-doutorado, na mesma instituição, sobre a relação entre a literatura contemporânea dos EUA e o neoliberalismo, em autores como Don DeLillo, Rachel Kushner e Ben Lerner, sob orientação de Maria Elisa Cevasco.


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