Cultura inútil | Mas não se matam cavalos? O desespero como espetáculo!

Cena de A noite dos desesperados. Imagem: Divulgação
Por Mouzar Benedito
Revi, na TV, um filme a que assisti há mais de cinco décadas no cinema, A noite dos desesperados, de 1969, estrelado por Jane Fonda. É ambientado nos Estados Unidos dos anos 1930, durante a grande depressão, quando muitos milhões de pessoas lutavam desesperadamente para sobreviver e alguns se inscreviam numa maratona de danças que durava muitos dias, com poucos intervalos para descanso, esperando ser o último casal a parar em pé para ganhar US$ 1.500 e, talvez, um contrato em Hollywood. O desespero transformado em espetáculo para uma plateia de sádicos, dando lucro a canalhas. Em português, em português, ganhou esse título, mas o original seria literalmente: Mas não se matam cavalos? A frase faz analogia com cavalos que são sacrificados quando não podem mais correr. Por que não fazer isso com humanos também?
Mas tal crueldade não era exclusiva da gringolândia. Mais tarde, anos 1950, houve um “concurso” semelhante em São Paulo, promovido pela própria prefeitura em parceria com a rádio Record. Repetiu-se durante anos. Depois passou a ser apresentado na TV também. Chamava-se “Concurso de Resistência Carnavalesca”, e durava três dias, a partir da noite de sexta-feira que antecede o Carnaval. O último casal a parar em pé era premiado. Vi na TV, quando cheguei em São Paulo, no início dos anos 1960. A partir de um certo ponto, casais praticamente se arrastavam, mal parando de pé. Verdadeiros zumbis. Eu, mesmo jovem e ingênuo, achava um horror, mas para o público parecia “normal”. E pelo visto ainda parece, daí reality shows que expõem seus participantes a humilhações e torturas semelhantes continuarem no ar…
O filme me fez relembrar disso e, acreditem, de uma pessoa que eu admiro pela resistência à ditadura, Virgílio Gomes da Silva, que saiu do PCB com Marighella para fundar a ALN (Ação Libertadora Nacional). Era forte física e ideologicamente. Um batalhador que acabou sendo morto na tortura. Quando preso, os policiais do Dops não sabiam que ele era o Virgílio, um dos principais líderes da organização de esquerda. E ele, para que não descobrissem e tentassem arrancar informações que tinha, forçou para que o matassem. Cuspia nos torturadores, xingava, enquanto o matavam aos poucos.
Pois bem… Um dia, numa visita aos presos políticos do presídio do Barro Branco, em São Paulo, numa longa conversa com um irmão dele, Francisco Gomes da Silva, o Chiquinho, outro militante da ALN, acabamos falando sobre isso, por acaso.
Um parêntese aqui: o Chiquinho foi o militante de esquerda que passou mais tempo preso seguidamente. O dia dessa visita era o “aniversário” de dez anos de prisão dele. Alguns outros passaram ainda mais tempo presos, mas nenhum por dez anos seguidos.
Chiquinho tinha uma grande admiração pelo irmão e disse que o Virgílio fazia umas coisas inesperadas, como participar desse concurso — não por necessidade, mas para provar a ele mesmo sua resistência. Participou e ganhou duas vezes o tal concurso de resistência carnavalesca. Fiquei pasmo.
Virgílio não era desesperado, assim como não foram o irmão Chiquinho e os muitos presos políticos que conheci. Admirava e admiro a resistência deles à ditadura, e de tabela, fico pensando nessa “resistência” a mais do Virgílio. Brinquei com o Chiquinho na época: “Cada louco com sua mania…”
Mas o tema que ficou na minha cabeça depois de rever o filme foi o desespero sofrido por muita gente durante crises ou em situações como a ocorrida aqui durante a pandemia da covid, em que um presidente sádico se divertia e gozava ao ver gente desesperada assistir aos parentes morrerem por falta de assistência médica. E não só isso: pensei nas várias facetas do desespero, inclusive o demonstrado pelo próprio sádico que se deliciava com o sofrimento alheio e louvava a tortura, quando chegou a rebordosa.
Tenho uma coletânea de frases sobre desespero e as apresento aqui.
Quinto Cúrcio Rufo (historiador romano, do tempo do imperador Cláudio): “O desespero é um grande incentivo para a morte honrosa.”
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Henry David Thoreau: “A maioria dos homens vive vidas de silencioso desespero.”
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Thoreau, de novo: “O que chamamos de resignação nada mais é do que o desespero convicto.”
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Ambrose Bierce: “Paciência: uma forma menor de desespero, mascarada de virtude.”
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Marques Rebelo: “Não adianta fugir. Onde vai o homem, vai seu desespero.”
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Maurice Chapelan (jornalista e escritor francês): “A religião é a moeda falsa do desespero.”
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Juliana Wilson (arquiteta neozelandesa): “Quando tudo está desmoronando, é cedo demais para desesperar; ainda precisamos ver como termina.”
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Victor Hugo: “A esperança seria a maior das forças humanas, se não existisse o desespero.”
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T. S. Eliot: “É assim que o mundo acaba. Não com um estrondo, mas com um gemido.”
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Não sei quem: “Rir é bom, mas rir de tudo é desespero.”
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Giacomo Leopardi (ensaísta italiano): “O riso de um homem sensível oprimido por uma terrível calamidade é sinal de um desespero já pleno.”
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Arland Ussher (ensaísta britânico): “O humor é o desespero que se recusa a se levar a sério.”
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Grouxo Marx: “O único riso verdadeiro vem do desespero.”
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Gustave Flaubert: “Deve-se esperar quando se está desesperado, e andar quando se espera.”
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Jean-Paul Sartre: “Cada um de nós tem seu próprio desespero, uma sombra que acompanha nossa autoconfiança, nosso presente sereno.”
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Irvin D. Yalom (escritor estadunidense): “O desespero é o preço que se paga pela autoconsciência. Olhe profundamente para a vida e você sempre encontrará desespero.”
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Graham Greene: “A esperança era um instinto que só a mente humana racional pode matar. Um animal jamais conheceu o desespero.”
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Dan Brown: “Ante o desespero, os seres humanos se tornam animais.”
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Michelle Obama: “Não confunda desespero com lealdade.”
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Thomas Fuller (escravizado nos EUA, nascido em Benin): “O desespero infunde valor ao covarde.”
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H. G. Wells: “Cada vez que vejo um adulto numa bicicleta, já não me desespero pelo futuro da raça humana.”
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Sun Tzu: “Não pressione um inimigo desesperado. Um animal esgotado seguirá lutando, pois essa é a lei da natureza.”
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Michel de Montaigne: “Uma das maiores sutilezas da arte militar é nunca levar o inimigo ao desespero.”
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Maquiavel: “Nunca foi sensata a decisão de causar desespero nos homens, pois quem não espera o bem não teme o mal.”
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Maquiavel, de novo: “Todos os Estados bem governados e todos os príncipes inteligentes tiveram cuidado de não levar a nobreza ao desespero, nem o povo ao descontentamento.”
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Viktor Fraida (escritor russo): “O desespero é o último recurso da esperança.”
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Charles Bukowski: “Os escritores são pessoas desesperadas e quando deixam de ser desesperadas, começam a ser escritores.”
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Alexandre Dumas: “Só a pessoa que sentiu o máximo desespero é capaz de sentir a felicidade máxima.”
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Mignon McLaughin (escritora estadunidense): “O desespero é fúria sem um lugar pra onde ir.”
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Heinz Guderian (general alemão): “Não existem situações desesperadas, só pessoas desesperadas.”
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Erich Remarque (dramaturgo alemão): “No desespero e no perigo, as pessoas aprendem a acreditar no milagre. De outra forma não sobreviveria.”
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Alain de Botton (escritor suíço): “A diferença entre esperança e desespero é uma maneira diferente de contar histórias a partir dos mesmos fatos.”
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Marion Zimmer (escritora estadunidense): “A estrada construída com esperança é mais agradável ao viajante do que a construída com desespero, embora ambas levem ao mesmo destino.”
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Filippo Alosi (joalheiro italiano): “Existem almas destinadas a viajar constantemente à beira de um precipício.”
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Sêneca: “Devemos ir procurar a coragem ao nosso próprio desespero.”
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Pierre Karch (escritor canadense): “A compaixão é de pouca ajuda contra o desespero.”
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William S. Burroghs (escritor e pintor estadunidense): “O desespero é a matéria prima da mudança drástica.”
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Alberto Moravia (romancista italiano): “Você sabe o que faz quando não aguenta mais? Você muda.”
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George Bernanos: “Para encontrar a esperança é necessário ir além do desespero. Quando chegamos ao fim da noite, encontramos a aurora.”
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Voltaire: “O desespero ganha muitas vezes batalhas.”
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Giacomo Casanova: “O desespero mata.”
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Mario Quintana: “Ah! Essas precauções… Para desespero de seus parentes, o velho rei Mitridates, como todo mundo sabe, conseguiu tornar-se imune a todos os venenos… até que um bom tijolaço na cabeça liquidou o assunto.”
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Hugo Hofmannsthal (escritor austríaco): “Sem o amor próprio nenhuma vida é possível, nem sequer a mais leve decisão, só desespero e rigidez.”
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George Eliot (romancista inglesa): “Não existe desespero tão absoluto quanto aquele que surge nos primeiros momentos de nosso primeiro grande sofrimento, quando não conhecemos ainda o que é ter sofrido e ser curado, ter se desesperado e recuperar a esperança.”
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Willy Brandt (chanceler alemão): “Uma situação se converte em desesperada quando começas a pensar que é desesperada.”
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Karl Jaspers (filósofo suíço): “O desespero é uma derrota antecipada.”
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Anna Descalzi (psicóloga catalã): “Só se está perdido quando se pensa que está.”
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Emil Cioran (filósofo romeno): “Deus é um desespero que começa onde todos os outros acabam.”
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Anatole France: “Sem se iludir, a humanidade pereceria de desespero e de tédio.”
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Edmund Burke (filósofo conservador irlandês): “Nunca desanime, mas se desesperar, trabalhe em desespero.”
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Dmitri Shostakovich (compositor russo): “Quando um homem está em desespero, significa que ele ainda acredita em alguma coisa.”
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Miguel de Cervantes: “Não existe maior loucura no mundo do que um homem entrar no desespero.”
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Charles Baudelaire: “Há que trabalhar, ainda que não seja por gosto, ao menos por desespero, uma vez que, bem vistas as coisas, trabalhar é menos aborrecido do que divertirmo-nos.”
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Bram Stoker (escritor irlandês): “O desespero tem suas próprias calmas.”
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Ariano Suassuna: “Tenho duas armas para lutar contra o desespero, a tristeza e até a morte: o riso a cavalo e o galope do sonho. É com isso que enfrento essa dura e fascinante tarefa de viver.”
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Daniel Defoe: “O desespero silencioso é insuportável porque é sempre mais fácil expressar a dor em palavras ou lágrimas do que mantê-la reprimida.”
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Lope de Vega: “A raiz de todas as paixões é o amor. Dele nasce a tristeza, o gozo, a alegria e o desespero.”
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Robert Burns (poeta escocês): “Quando as recordações torturam a alma, os prazeres só revelam desespero.”
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Corrado Alvaro (escritor italiano): “O maior desespero que se pode apoderar de uma sociedade é a dúvida de que viver retamente seja inútil.”
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Haruki Murakami: “Não existe escrita perfeita, assim como não existe desespero perfeito.”
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Alexandre Dumas: “Apenas o homem que sentiu o desespero final é capaz de sentir a felicidade suprema. É necessário ter desejado a morte a fim de saber como é bom viver. A soma de toda a sabedoria humana será contida nestas duas palavras: esperar e ter esperança.”
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Adélia Prado: “Estou no começo do meu desespero e só vejo dois caminhos: ou viro doida, ou santa.”
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Millôr Fernandes: “O desespero eu aguento. O que me apavora é essa esperança.”
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Cazuza: “Um lobo solitário uivando na escuridão. Do amor pouco sei. E quase tudo espero. Amando eu me acalmo e me desespero.”
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Jim Carrey (ator canadense): “O desespero é o ingrediente necessário para aprender alguma coisa, ou criar algo. Se você não é desesperado a um certo ponto, deixa de ser uma pessoa interessante.”
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Ronald Laing (psiquiatra escocês): “Não se pode entender a esquizofrenia sem compreender o desespero.”
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Charles Chaplin: “Desespero é um narcótico. Ele tranquiliza a mente com a apatia.”
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Alfred Lord Tennyson (poeta inglês): “Devo me perder na ação, para não definhar em desespero.”
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Joan Baez: “A ação é o antídoto contra o desespero.”
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Edward Norton (ator estadunidense): “Perdido no esquecimento. Obscuro, silêncios e completo. Achei a liberdade. Perder toda esperança foi a liberdade.”
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Gloria Stewart (atriz estadunidense): “Por fora, era o que toda garota bem-educada devia ser. Por dentro, estava gritando.”
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Albert Camus: “Devo cometer suicídio ou tomar uma xícara de chá?”
PARA SE APROFUNDAR NO ASSUNTO
Rituais de sofrimento, de Silvia Viana
Reflexão corajosa e perspicaz sobre os reality shows e sua relação com o sofrimento humano. A autora mergulha nas engrenagens desse universo brutal, revelando o que está por trás do espetáculo e desafiando o espectador a questionar o preço do entretenimento. “Não lidamos aqui com um ritual como outro qualquer, não se trata de uma festa ou do consumo, ambos cerimoniais oferecidos aos deuses do prazer. Trata-se de algo mais perturbador, pois o que se vê nos reality shows é a proliferação de rituais de sofrimento”, afirma a pesquisadora no primeiro capítulo.
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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em coautoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996), Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia) e Chegou a tua vez, moleque! (2021, Editora Limiar). Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente.
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