A força e a fraqueza de “O evangelho da revolução”

Imagem: Divulgação

por André Castro

Quando assisti a O evangelho da revolução, a convite do International Journal of Latin American Religions para escrever-lhes uma resenha do filme1, vi pela primeira vez, no auge dos meus 24 anos, sob as luzes que entravam nas retinas dos meus olhos, memórias a que eu só tinha tido acesso através das palavras. Cresci em uma família evangélica e só conheci a tradição do Cristianismo de Libertação quando cursei um bacharelato em Teologia. Dando voltas na biblioteca, já que não estavam na bibliografia básica das disciplinas, encontrei: Por uma teologia da Libertação protestante (1968), de Rubem Alves; Teologia da libertação: roteiro didático para um estudo (1987), de João Batista Libanio; Teologia da Libertação, perspectivas (1971), de Gustavo Gutierrez, e por aí foi indo. Os textos que surgiam, em sua maioria, da quentura dos fatos históricos vivos, da força da fé popular em lutar pela sua sobrevivência, da dor e da catástrofe da repressão em toda a América Latina revelavam também o tesão e a luz que a violência de Estado não conseguia segurar. Tudo isso chegava a mim embalado em livros velhos, normalmente com um mau cheiro de mofo e preço baixo na Estante Virtual. Mesmo assim, ler a Ética comunitária (1986) de Enrique Dussel me fazia não conseguir dormir. Algo naquelas palavras esquecidas nos velhos livros acendia em mim uma janela de esperança de que as coisas pudessem ser diferentes, mesmo que o único laço que eu guardava com elas fosse o das próprias palavras. Não pude conhecer nenhum dos grandes teólogos que me formou. Até meus 22 anos eu nunca tinha ido em uma CEB e a que visitei não tinha nenhum jovem.

Se o filme de François-Xavier Drouet fosse somente um compilado de imagens desse tempo em que eu não tive o prazer de viver, já seria uma contribuição sem tamanho para pessoas que, como eu, nasceram em tempos sombrios. Mas o cineasta vai além. O evangelho da revolução é dividido em cinco capítulos e percorre quatro países: El Salvador, Brasil, Nicarágua e México. Em cada país, o diretor busca antigos protagonistas dos movimentos, tanto religiosos quanto leigos, recolhendo suas memórias sobre aquela época.

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O tema do documentário pertence ao passado. O acesso a ele se dá pelas lembranças dos que viveram aqueles anos e por imagens de arquivo retiradas de filmes e documentários da época. Drouet leva os entrevistados aos lugares em que viveram esses momentos: as montanhas da Nicarágua, as igrejas nos vales de Chiapas, as celas de prisão e tortura no Brasil.

Em cada capítulo do filme, a história é retomada. Contradições fundamentais dos anos 1960, próprias de cada país, geraram um tipo de fé cristã que se realizava na luta política por transformação radical — uma revolução liderada pelo “povo de Deus”. Essa radicalização política encontrou resposta imediata das estruturas de poder: repressão, assassinatos e supressão de direitos sob os regimes militares. A Teologia da Libertação foi um movimento latino-americano, mesmo que cada país tivesse uma reação popular referente às contradições de cada nação em seus respectivos lugares na divisão internacional do trabalho, o horizonte que surgia da própria luta, libertação, era uma visão comum que fazia da luta dos indígenas em Chiapas, das guerrilhas na Nicarágua e dos sem terra no sul do Brasil uma luta comum. A nível teológico, essas experiências seriam possivelmente referenciadas na libertação enquanto signo, núcleo simbólico que condensava as próprias expectativas que davam tração à luta social.

O filme é conduzido por um narrador, ele dá testemunho da sua própria experiência como um europeu que perdeu a fé na adolescência, mas que acendeu sua esperança na luta política e que encontrou uma forma de ver a fé que era política na América Latina. Ao colocar as pessoas que viveram o Cristianismo de Libertação nos lugares onde elas vivenciaram, o que fica é o contraste da própria realidade social. É claro que a saída do diretor para explicar a mudança é politicista, remetendo à condenação do Vaticano e à perseguição sofrida pelas guerrilhas na América Central, e não deixa ver as mudanças estruturais que aconteceram na realidade latino-americana (que dão os dons das variações políticas).

Uma das cenas mais descritivas do filme está na sua viagem a El Salvador. Ele nos apresenta, encostado a uma parede sem reboco, um homem idoso, que permanece imóvel. À sua frente, o chão foi aberto. A terra está revirada, empilhada em montes baixos, misturada a pedras e raízes. Homens com luvas e pás escavam lentamente. São técnicos enviados pelo Estado. O trabalho é metódico, quase cirúrgico: retirar camada por camada, separar o solo dos fragmentos de ossos, registrar. Tudo acompanhado de advogados e pessoas de renome. O homem observa sem falar. Seu olhar não se fixa exatamente nas mãos que escavam, mas no buraco que se aprofunda. Em algum momento, sua voz rompe: “Como uma criança de onze meses pode ser guerrilheira?” Fica suspensa no ar. Ele continua: “Ou alguém de oitenta, noventa anos?” Um dos agentes se aproxima e pergunta o que ele sente ao ver aquela exumação. O homem não responde. Apenas abaixa a cabeça, desvia o olhar, e sua boca se contrai. Seus ombros se movem levemente, como quem tenta conter o choro. A câmera não se afasta.

Não sabemos seu nome. Não sabemos se ali estão seus filhos, seus irmãos, seus vizinhos. Sabemos apenas o nome do lugar: El Mozote, em El Salvador. Quarenta anos antes, ali se deu uma das matanças mais brutais da história recente da América Central. O filme então muda de cenário. A comunidade desaparece. Surge a capital. San Salvador. Um memorial de concreto ocupa a tela. Muros largos, escuros, cobertos de centenas, milhares de nomes gravados. Letras alinhadas em colunas. Uma escrita repetitiva, quase infinita. Um homem caminha lentamente diante desses muros. É o mesmo homem, que sobreviveu àquele massacre, mesmo que não seja o mesmo indivíduo. A voz em off atravessa as imagens. Recorda que, depois de anos de guerra, o exército assinou acordos de paz com as forças guerrilheiras. As eleições foram restabelecidas. As armas silenciaram. Nada, porém, se transformou de forma radical. Enquanto o narrador menciona a queda do Muro de Berlim e o fim das grandes utopias, a imagem mostra outra paisagem: avenidas largas, trânsito espesso, ruído constante de motores. Outdoors gigantescos ocupam o horizonte: marcas multinacionais, promessas de felicidade, consumo, velocidade. À margem da estrada, subindo uma ladeira estreita, um homem empurra lentamente um carrinho de comida ou qualquer mercadoria que se venda. O mesmo homem, trabalhador, sobrevivente a El Salvador. Nas margens de uma grande avenida carregando seu carrinho que lhe dá sua sobrevivência diária. Um percurso ao nosso tempo.

Outra das grandes cenas do filme está no seu percurso no México, em Chiapas. No território que antes havia sido atravessado pela presença de padres comprometidos com mediações de conflito e com a sustentação de movimentos populares, como o Exército Zapatista, o que agora emerge é outro tipo de expectativa: a migração.

Em Veracruz, ao norte de Chiapas, a câmera se detém em um abrigo simples. Um portão metálico. Um pátio de cimento gasto. Homens sentados jogam cartas sobre uma mesa improvisada. No verso das cartas, a bandeira dos Estados Unidos aparece repetidamente. O abrigo oferece o básico: um pouco de comida, um espaço para sentar, algum tempo de descanso. Irmã Dolores dirige o lugar. Sua presença é firme e cotidiana. Ela orienta: aponta o caminho do trem, explica quais rotas são menos vigiadas, descreve os riscos do percurso. Não há discurso grandioso, apenas uma pedagogia prática da sobrevivência. O gesto que sustenta a travessia é o mesmo que, em outras décadas, sustentou as lutas populares.

Numa das paredes dentro do abrigo, a câmera registra uma imagem pintada: o rosto de Dom Óscar Romero, bispo assassinado em El Salvador, sobreposto à figura de um trem em movimento. Alguns minutos antes o cineasta havia nos ensinado a história do nosso mártir. O mártir e o vagão dividem o mesmo espaço visual, é quase o Óscar Romero no trem, migrante. A freira, formada na tradição da Teologia da Libertação, fala diante da câmera: “Nos migrantes, encontramos a cruz e o sofrimento, mas também muita ressurreição. São pessoas de grande esperança, e sempre têm um sonho, uma utopia.” Enquanto ela fala, o filme acompanha os corpos em movimento: homens caminhando ao longo dos trilhos, mochilas nas costas, passos lentos, silêncio concentrado.

Era esse tipo de “grande ato” que os teólogos da libertação buscaram compreender: o gesto concreto, vital, que organiza uma esperança coletiva. Que faziam daquela teologia “palavras de ação”. Se um dia o ato sobre o qual a reflexão teológica pensava era aquela revolução que os entrevistados recordam, agora é o seu inverso; se a revolução é o compromisso mais radical com a transformação da realidade possível, dar sua vida pela nova realidade que pode ser produzida ali, a migração é seu reverso, o abandono radical daquela realidade. Nos escritos clássicos de Hugo Assmann e Gustavo Gutiérrez, ainda nos anos 1970, essa dimensão prática aparece na ideia de uma teologia enraizada na experiência de fé de um povo em luta. Para quem nasceu décadas depois, como eu, as imagens reunidas por Drouet reanimam essa ideia, tornando-a quase palpável, mas somente como memória, já que o presente já não se sente tão denso, e o passo dado à revolução já não tem pernas. Caminha-se contra a fronteira, fugindo dos antigos inimigos de classe, para enfrentar outros, agora em uma condição ainda pior. Mas quem sabe lá tenha mais vida. Deus nos ajude. Com quem mais contar?

Quando voltamos para o Brasil no último capítulo do filme, a qualidade interpretativa do filme cai. O filme já tinha acabado, mas o cineasta quer dar uma resposta. Em poucos minutos temos uma resumida e completamente estereotipada visão dos pentecostais. Máquinas de dinheiro para pastores e de ilusões para os paupérrimos que já não teriam mais as comunidades de base para ir. Perdemos a complexidade real que envolve qualquer dinâmica de fé e ficamos com um retrato caricato que só ajuda a desentender o hoje.

Logo somos apresentados ao heroico Padre Júlio Lancelotti e sua prática de fé em defesa da vida do povo de rua. Terminamos o filme no desfile da Mangueira de 2020, que em reação ao bolsonarismo apresentou uma versão popular e periférica de Jesus. O francês entende que se trata do lugar onde segue vivo o sopro liberacionista. Precisa que seja assim, como afirma em voiceover: “Nem sempre sabemos por que fazemos um filme. Não fiz este para reencontrar uma fé que se perdeu há muito tempo. Quis conhecer esses crentes talvez para continuar acreditando na justiça em tempos de escuridão.” É claro que isso seria justo se o samba-enredo da escola fosse uma produção que expressasse a fé do povo na libertação latino-americana, mas a própria letra sabe que não se trata disso, por isso tem que dizer:

Favela, pega a visão
Não tem futuro sem partilha
Nem messias de arma na mão
Favela, pega a visão
Eu faço fé na minha gente
Que é semente do seu chão2

Pega a visão. É clara a referência aos discursos bolsonaristas, diante dos quais o samba se coloca como reação. Por isso, o samba precisa chamar a atenção da favela e afirmar que esse ponto de vista não é teológicamente correto; então, defende sua teologia do “Jesus da Gente”, mas já sem nenhuma força, pois funciona apenas como contraparte do “Jesus de arma na mão”, do outro lado sombrio, sem o qual o próprio samba não teria sentido. Exatamente por ser essa racionalidade reativa a característica do progressismo que o organiza3, ele se torna o exato oposto do movimento do cristianismo de libertação, que era, ele mesmo, o agente capaz de gerar reações negadoras, como o filme demonstra todo o tempo.

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No começo dos anos 2000, o australiano Goetz Ottmann faria algo similar. Apesar de notar claramente as contradições que surgiam do próprio movimento liberacionista que ia perdendo sua vigorosidade social com a reposição da realidade social dos anos 1990, ele ainda precisa apostar no Hip Hop, mais claramente no RAP, enquanto lugar de reposição do sopro liberacionista, agora secularizado, mas ainda pujante.4 Bastaram mais alguns anos para vermos que essa força inaugural, sobretudo com a geração dos Racionais MCs, se desfez em mercado. Mas o filme não acaba onde deveria porque ainda mantemos esse afã de dar uma resposta para algo que não temos nem capacidade de entender.

Talvez um dos problemas da nossa época, não podermos ficar com o problema, sofrê-lo, senti-lo. Ter que imediatamente dar uma resposta do alto dos nossos escritórios. Talvez esteja nesse sofrimento o trabalho do negativo que nos falta para o surgimento de algo novo, que tenha a forma do nosso tempo, e que seja patrimônio irrevogável daqueles que o produzirem; produção essa que deve ser deles mesmos e nós, podemos no máximo ajudar. Mesmo que O evangelho da revolução não dê conta de nos ajudar a encontrar o nosso tempo brasileiro no mundo com precisão, ao menos nos dá bom diagnóstico da América Latina e apresenta a lembrança de como foi um dia viver sob a égide do futuro que irrompia o agora; que serve ao menos para irrigar nossas mentes nesse tempo inorgânico.

Notas

  1. CASTRO, A.V.S. Review: François-Xavier Drouet: The Gospel of Revolution, 2024. Documentary, 116 min. Spanish, French, and Portuguese with English subtitles. France/Belgium. Icarus Films, Docuseek platform. International Journal of Latin American Religions. (2025). ↩︎
  2. MANGUEIRA. A Verdade Vos Fará Livre. Samba-enredo da Estação Primeira de Mangueira para o Carnaval de 2020. Compositores: Manu da Cuíca e Luiz Carlos Máximo. Intérprete: Marquinho Art’Samba. Rio de Janeiro: Mangueira, 2020 ↩︎
  3. Para uma caracterização desse progressismo, conferir o ensaio: CASTRO, André; ROGER, Jayder; DUARTE, João Marcos. Quem tem medo do progressismo evangélico? A terra é redonda, 2023. ↩︎
  4. OTTMANN, Goetz Frank. Lost for Words? Brazilian liberationism in the 1990s. Pittsburgh, PA: University of Pittsburgh Press, 2002. ↩︎

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André Castro nasceu em Pernambuco, mas cresceu na Bahia. Graduado em Teologia (FLAM) e mestre em Ciências da Religião (UMESP), atua como editor e colunista na Revista Zelota. É autor de A luta que há nos deuses (Machado, 2024) e Breve história da teologia da libertação protestante (Recriar, 2022). Pesquisa os nexos entre imaginação religiosa e processo social na América Latina entre a Teologia da Libertação e o Brasil avivado.


Lançamento do dossiê Religião e política não se misturam, da revista Margem Esquerda #44. Debate com Ana Carolina Marsicano, Carly Machado, Tabata Tesser e Vítor Queiroz. Mediação de André Castro.


Nos últimos anos, o tema da religião tem comparecido cada vez mais nos discursos de esquerda, seja como enigma, lamentação ou bode expiatório – ou, ainda, pelas suas afinidades eletivas com os traços apocalípticos da conjuntura global. Partindo do mote durkheimiano de que “a religião é coisa eminentemente social”, o dossiê de capa desta Margem Esquerda investiga o fenômeno religioso e sua relação com a política no Brasil para além dos chavões e lugares comuns condescendentes. Organizada por Carly Machado, a seleção traz um rico mosaico de textos que abrangem a alarmante ascensão da extrema-direita católica no judiciário, a questão do movimento negro evangélico, a relação entre religião e o debate sobre as fake news, a retórica salvacionista dirigida contra as mulheres evangélicas e até a influência do papado sobre a política doméstica.

A entrevistada da edição é a cientista social Maria Lygia Quartim de Moraes, figura importante do marxismo feminista brasileiro. Em seu tom caracteristicamente ácido e bem humorado, ela repassa sua intensa trajetória política e intelectual e não mede palavras para comentar os impasses e desafios da esquerda no Brasil. A edição ainda traz artigos de fôlego sobre Malcolm X, Clóvis Moura, Fredric Jameson, Paulo Arantes e Antonio Candido, além de um erudito roteiro de estudos sobre Luís de Camões elaborado por ninguém menos que José Paulo Netto. Na seção de homenagens, prestamos tributo a Beatriz Sarlo, Michael Burawoy e Paula Vaz de Almeida. O artista convidado desta edição é Sérgio Romagnolo; a poesia é de Amiri Baraka.


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