A complexidade do “pior homem de Londres”

Imagem: Fênix Filmes / divulgação.
SEM SPOILERS
Por Alysson Oliveira
Nascido no Porto, em Portugal, ao longo de sua vida, o luso-britânico Charles Augustus Howell fez amigos e detratores. Filho de um inglês com uma portuguesa (que ele dizia ter origens aristocráticas), foi chamado de “a pessoa mais vil que conheci”, pelo dramaturgo Algernon Charles Swinburne, além de considerado “um dos maiores mentirosos que já existiu”, embora “de boa natureza”, pelo pintor Ford Madox Brown.
Ou seja, Howell foi um homem controverso e pouco conhecido, embora não seja totalmente obscuro. Em O Pior Homem de Londres, o cineasta português Rodrigo Areias não busca jogar uma luz nessa figura, mas recriar de forma ficcional, baseado numa densa pesquisa, a movimentação do personagem na Londres do século XIX. O longa foi lançado no Brasil pela Fênix Filmes.

Imagem: Fênix Filmes / divulgação.
Areias conta que Howell, um comerciante de arte, entrou para a história como vilão, mas no filme, escrito por Eduardo Brito, ele buscou trazer a complexidade e contradições desse personagem que, entre outras coisas, foi acusado, no final de sua vida, de usar cartas para chantagear diversos amigos.
“Nós, no filme, queríamos encontrar as motivações desse personagem, que era uma pessoa sempre disponível para ajudar, mas que também cometeu crimes. Havia algo de nobre nas atitudes dele, um lado muito humano e político”, conta o cineasta em entrevista.
Areias cita, por exemplo, como Howell ajudou o poeta Dante Gabriel Rossetti a vender suas ilustrações e pinturas quando passava fome. Há, porém, outros lances mais controversos, como quando Howell induziu o escritor a o autorizar desenterrar Elizabeth Siddal, mulher de Rossetti, para recuperar um livro de poemas inéditos que fora colocado em seu caixão.

Imagem: Fênix Filmes / divulgação.
Areias, no entanto, não foi o único a colocar Howell numa narrativa. Em 1904, Arthur Conan Doyle se inspirou no comerciante de arte para criar o antagonista do conto “As aventuras de Charles Augustus Milverton”. Definido por Sherlock Holmes como “o maior criminoso de Londres”, ele suborna empregados para pegar cartas comprometedoras de seus patrões.
Episódios como esse e os outros envolvendo Rossetti servem como uma moldura narrativa para a construção da personagem no filme de Areias, que, ao lado de Brito começou o longa bem antes da pandemia. Esteticamente, com o diretor de fotografia Jorge Quintela, o cineasta explica que sempre buscou “um enquadramento a partir da pintura Pré-Rafaelita”, praticada por um grupo de artistas para quem a arte deveria ser o mais próxima possível do mundo real.
“Mas essa referência, no entanto, não deveria prender o filme. Era apenas um cuidado imagético, que deve surgir naturalmente, e não forçado. Nos diálogos, também, buscamos uma autenticidade, mas que não soasse artificial. Usamos linguagem da própria época, e algumas falas são tiradas diretamente de cartas das personagens.”
E, apesar da história de passar no século retrasado, Areias aponta que ainda há muitos elementos que ressoam em nosso presente. O cineasta vê Howell como o imigrante que tenta se encaixar na sociedade da qual almeja fazer parte. “Ele era uma pessoa importante, mas nunca foi reconhecido como tal por ser estrangeiro, mesmo sendo filho de um inglês.”

Imagem: Fênix Filmes / divulgação.
Escrita visual
Não é apenas Howell que fascina Areias, para quem “a literatura é a arte mais importante do universo”. O cineasta também aponta que, desde o começo de sua carreira, seus filmes estão muito próximos de livros: “Não sou um escritor, mas escrevo de forma visual.”
Ele define seu primeiro longa, Estrada de Palha (2007), como “uma combinação entre On The Road, de Jack Kerouac, e Sófocles”. Recentemente, filmou A Pedra Sonha em Dar Flor, baseado em textos do jornalista e escritor português Raul Brandão. E seu próximo longa será inspirado em contos de Gonçalo M. Tavares.
Antes disso, no entanto, Areias já tem um filme pronto. Nova ‘78 foi exibido na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, em outubro passado, e chega aos cinemas no próximo ano, também, com distribuição da Fênix Filmes. O longa é uma construção narrativa a partir de imagens inéditas da Nova Convention, um evento que aconteceu em Nova York, entre 30 de novembro e 2 de dezembro de 1978, para homenagear o escritor William S. Burroughs, contando com a presença de figuras como Frank Zappa, Patti Smith, Laurie Anderson e Allen Ginsberg.
Areias trabalhou com os montadores Tomás Baltazar e Aaron Brookner, que também assina a direção. Entre 2022 e 2025, eles se debruçaram sobre um material de mais de 20h: “Tínhamos muitas imagens e falas interessantes, foi difícil montar esse documentário, escolher o que deixar de fora. E, ao final, concluímos que existem diversos filmes ali. Espero que outras pessoas os façam.”
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Alysson Oliveira é jornalista e crítico de cinema no site Cineweb, membro da ABRACCINE – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, e escreve sobre livros na revista Carta Capital. Tem mestrado e doutorado em Letras, pela FFLCH-USP, nos quais estudou Cormac McCarthy e Ursula K. LeGuin, respectivamente. Realiza pesquisa de pós-doutorado, na mesma instituição, sobre a relação entre a literatura contemporânea dos EUA e o neoliberalismo, em autores como Don DeLillo, Rachel Kushner e Ben Lerner, sob orientação de Maria Elisa Cevasco.
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