Sobre Vera
Depois de se despedir da companheira de lutas e estudos no velório, Denilson Cordeiro escreve algumas palavras de lembrança e de afeto para Vera Cotrim.
Vera Cotrim ao lado da mãe, Lívia, em 2017. Foto: Esquerda Diário
Por Denilson Cordeiro
Aristóteles escreveu que para saber o que é a sabedoria prática era preciso, antes de tudo, considerar as pessoas a quem a atribuímos. Pessoas como Vera Cotrim representam para nós esse tipo de sabedoria.
Há alguns dias vimos circular uma imagem que reproduzia um autógrafo de Paulo Arantes, no livro Departamento francês de ultramar. As palavras diziam: “Para Vera, secretamente esperando a aprovação de uma historiadora (pois é essa que vale mesmo). Um abraço do Paulo Arantes. 10.3.94.” O nome e o ofício podem não passar de coincidência, mas diante do agora acontecido talvez não seja demais dar alguma trela à hipótese de que aquela Vera fosse Vera Cotrim. A expectativa do mestre (e doutor!) se juntou ao golpe de vista que permitiu identificar, já naquela altura, a estudante talentosa em formação. A graduada em Filosofia, que passaria a pesquisadora do Departamento de História, é quem deveria aprovar (ou não) o trabalho do professor. Um sentido a mais dessa dialética que funciona onde menos se espera. Hoje, trinta e um anos depois, o tempo se veste de tristeza, no cinza anúncio dessa despedida.
Um tanto a veracidade da filósofa, historiadora, militante, professora se afasta, outro tanto se perpetua. Vera vai, Vera fica.
Do canto derradeiro, a irmã gêmea, Ana, quando se levanta, surge como a presença viva da irmã querida. Ana fica, Ana vai um pouco. Hoje toda feita de lágrimas, ela aquece a memória da irmã na tarde fria de garoa paulistana, também de luto. O tempo fará prevalecerem as boas lembranças — e nisso Ana (e nós) irá se refazendo e se fortalecendo pela fortuna do laço e das experiências que as uniram, que as fizeram na história e na filosofia que juntas compuseram durante a vida.
As bandeiras da militância (Escola Nacional Florestan Fernandes, MST, GMarx, Palestina livre) ajudam no alento faz tempo. A presença de tanta gente na despedida deixa ver o caminho de amizade e de confiança que ambas souberam construir, com clareza e firmeza de propósitos políticos e intelectuais.
Brilhos de afeto, de estima, de admiração se alternavam nas feições com a turva tristeza do lamento, sob a sombra do susto e da recusa. Secretamente, como o mestre acima confessou, esperávamos também a aprovação da historiadora — no fundo, é o que vale de fato. Mas a sabedoria prática dá dessas, tem suas sutilezas e modos de se manifestar. Ficamos apenas com os olhos e o coração mareados, náufragos. Quem sabe se como sempre propôs no que estudava, no que exercia, praticava e acreditava, Vera também agora, pelo inconsolável adeus e pelo exemplo que deixa; pela palavra suspensa, cuja forte sonoridade da voz dela ainda ouvimos, não expresse o seu espírito de coletividade? Espírito político, generoso e crítico ao nos situar entre a dura realidade da vida e a necessária persistência na luta.
Alguma verdade, assim, deverá perdurar, quem sabe, porque Vera ainda vive em nós. Quem a conheceu sabe que ela aprovaria se fosse essa agora também a nossa história.
* Leia também no Blog da Boitempo nossa homenagem à pesquisadora marxista Vera Cotrim.
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Denilson Cordeiro é professor de Filosofia na Unifesp.
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Mulher de riso largo
de abraço apertado
de cabelos cacheados
de intelecto apreciado
Mulher de voz macia
de canto afinado
de grande empatia
Mulher de olhar cativante
de visão acurada
de visada delicada
de análises precisas
de fazer militante
Mulher totalidade
Arte, ciência, filosofia…
Filosofia, ciência, arte…
belezas histórias que a constituíam
Sabedoria que distribuía
Mulher que ensinava
Mulher que revolucionava
Quem viu…
verás que essa Mulher é de se admirar!
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Nossas conversar nos fortaleciam enquanto mulheres marxistas nesse mundo onde, infelizmente, a diferença ainda é base de opressãoSeguiremos levado sua luta, nossa luta!
Obrigada por ter me ensinado tanto.
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