Victor Allen Barron: o heroico comunista norte-americano assassinado pela polícia de Filinto Müller em 1936
Um episódio dos Levantes antifascistas de 1935
Victor Allen Barron em 1935. Foto: Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro.
Por Anita Leocadia Prestes
O jovem comunista norte-americano Victor Allen Barron (16 de março de 1910 – 5 de março de 1936) chegou ao Rio de Janeiro em 1935 em missão da Internacional Comunista (IC), atendendo a solicitação da direção do Partido Comunista Brasileiro (PCB), para colaborar com o movimento antifascista então em curso no Brasil, que ganhava força e importância a partir da fundação da Aliança Nacional Libertadora (ANL).1 Dada sua competência na área de radiocomunicações, sua tarefa consistia em instalar uma estação radiofônica para comunicação direta entre a o Bureau Sul-Americano da IC, localizado no Rio de Janeiro, e o Secretariado Sul-Americano dessa entidade, sediado em Moscou, o que, após uma série de dificuldades, foi alcançado poucos dias antes dos levantes antifascistas de novembro de 1935.2
Com o fracasso dos levantes e a violenta repressão desencadeada pelo governo de Getúlio Vargas, sucederam-se as prisões de militantes da ANL e de dirigentes comunistas, incluindo os membros do Bureau Sul-Americano da IC. Rodolpho Ghioldi, dirigente do Partido Comunista da Argentina e do Bureau Sul-Americano da IC, preso no Rio de Janeiro em 22 de janeiro de 1936, não resistindo às ameaças policiais, delatou diversos camaradas, inclusive Victor Barron, reconhecendo sua foto e fornecendo o endereço onde ele residia, fatos hoje comprovados pela abertura dos arquivos do Tribunal de Segurança Nacional e da Polícia Política do Rio de Janeiro.3
A consulta a tais documentos é reveladora das informações transmitidas à polícia por Ghioldi, que não foi submetido à tortura, enquanto Barron, torturado barbaramente, recusou-se a prestar qualquer tipo de declaração. Em todos os arquivos referentes àquele período, inexiste qualquer depoimento de Barron, inclusive em seu prontuário, que hoje se encontra no Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro.
Barron era a única pessoa que conhecia o esconderijo de Prestes, pois ele o conduzira em seu carro à Rua Honório, nº 279, no bairro carioca do Méier, enquanto Ghioldi soubera pelo próprio Prestes que ele iria para esse bairro, sem ter conhecimento, entretanto, do endereço exato. Após a prisão de Ghioldi, a polícia dirigida por Filinto Müller, percorreu o Méier durante 40 dias até localizar o esconderijo de Prestes na madrugada do dia 5 de março de 1936. Se Barron tivesse falado, isso não teria sido necessário.
Poucas horas após a prisão de Prestes e Olga, Barron foi jogado de uma janela do prédio da Polícia Política, localizado na Rua da Relação, e acusado de suicídio. Ao mesmo tempo, Filinto Müller, o famigerado chefe policial, anunciava à imprensa a prisão do líder comunista, que teria sido possível graças às informações supostamente prestadas por Barron. Era posta em curso uma farsa destinada a encobrir e proteger Rodolpho Ghioldi em recompensa por sua valiosa colaboração com as autoridades.4 A imprensa da época registrou amplamente esses acontecimentos, repetindo a versão mentirosa divulgada por Filinto Müller. Conforme noticiou O Globo, no próprio dia 5 de março:
“Preso há algum tempo já pela polícia carioca, o extremista Victor Allen Barron, nas declarações sucessivas que prestou, acabou por denunciar a estadia de Luiz Carlos Prestes no Rio. Entrando em diligências a polícia terminou por localizar o ponto onde se encontrava o chefe da revolução comunista, levando a efeito, hoje, numa diligência aparatosa, a sua prisão. Luiz Carlos Prestes foi capturado pela manhã, à rua Honório n. 279, sendo conduzido para a Polícia. O denunciante, ao ter a notícia da prisão, suicidou-se, ao que fomos informados, saltando do 2º andar do palácio da rua da Relação ao pátio interno.”5
Da mesma maneira, o Diário da Noite escrevia que Barron, “recolhido à Delegação de Ordem Pública e Social, informou às autoridades que o capitão Luiz Carlos Prestes se encontrava de novo nesta capital, asilado em uma casa da rua Honório, com o n. 279, em Todos os Santos”6, e a Gazeta de Notícias divulgava que Victor Allen Barron denunciara à polícia o esconderijo de Prestes7.
A imprensa burguesa do exterior também repetiria a mesma versão. Na França, Le Temps informou a seus leitores que Barron teria se suicidado, movido por remorsos de ter delatado Luiz Carlos Prestes8. Por outro lado, a imprensa mundial comunista e de esquerda denunciou o assassinato de Barron pela polícia brasileira. O jornal Labor Defender, publicado nos EUA, divulgou artigo do pai de Victor Allen, o jornalista e dirigente do Partido Comunista dos EUA, Harrison George, denunciando a morte trágica do filho9, assim como fez o Daily Worker, órgão impresso do Partido Comunista dos EUA10.
Como a documentação dos arquivos citados só começou a ser aberta aos pesquisadores nos anos 1980, a versão policial difundida por Filinto Müller adquiriu foro de verdade e passou a ser repetida por historiadores do período e jornalistas que escreveram sobre o tema, como John W. F. Dulles, no primeiro caso, e William Waack, no segundo11. Dispondo hoje de documentos comprobatórios do verdadeiro comportamento de Victor Allen Barron frente à brutal repressão movida pela polícia sob o comando de Filinto Müller, é nosso dever contribuir para que as novas gerações de brasileiros tomem conhecimento da história de exemplar resistência e de admirável heroísmo do jovem comunista norte-americano de apenas 26 anos, que não vacilou em dedicar sua curta existência à nobre causa do socialismo e do comunismo e morrer preservando sua dignidade humana, sem trair os companheiros.
VICTOR ALLEN BARRON, PRESENTE!
Notas
- Ver Anita Leocadia Prestes, Luiz Carlos Prestes e a Aliança Nacional Libertadora: os caminhos da luta antifascista no Brasil (1934/35) (São Paulo, Brasiliense, 2008). ↩︎
- Informações concedidas à autora por Luiz Carlos Prestes. ↩︎
- Ver Anita Leocadia Prestes, Luiz Carlos Prestes: um comunista brasileiro (São Paulo, Boitempo, 2015), cap. VII. ↩︎
- Ver trecho extraído do Relatório acerca das atividades de Rodolpho Ghioldi apresentado ao major Filinto Müller pelo delegado especial Batista Teixeira, em 8 set. 1941, prontuário n. 5.878 de Rodolpho Ghioldi da Polícia Política do Rio de Janeiro (Aperj), p. 42-43, in ibidem, p. 188-89. ↩︎
- O Globo, Rio de Janeiro, 5 mar. 1936. ↩︎
- Diário da Noite, Rio de Janeiro, 5 mar. 1936. ↩︎
- Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 6 mar. 1936. ↩︎
- Le Temps, Paris, 22 abr. 1936; 24 abr. 1936. ↩︎
- Labor Defender, New York, abr. 1936. ↩︎
- Daily Worker, New York, mar. e abr. 1936. ↩︎
- Ver John W.F. Dulles, O comunismo no Brasil, 1935 – 1945 (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1985), p. 31; William Waack, Camaradas nos arquivos de Moscou; a história secreta da revolução brasileira de 1935 (São Paulo, Companhia das Letras, 1993), p.300. ↩︎
***
Anita Leocadia Benario Prestes é doutora em História Social pela UFF, professora do Programa de Pós-graduação em História Comparada (UFRJ) e presidente do Instituto Luiz Carlos Prestes. Autora da ambiciosa biografia política Luiz Carlos Prestes: um comunista brasileiro (Boitempo, 2015), dos livros Olga Benario Prestes: uma comunista nos arquivos da Gestapo (Boitempo, 2017), Viver é tomar partido: memórias (Boitempo, 2019), em que narra sua extraordinária trajetória de vida, militância e pensamento e A coluna prestes (Boitempo, 2024). Assina também o artigo “Luiz Carlos Prestes e a luta pela democratização da vida nacional após a anistia de 1979”, publicado no livro Ditadura: o que resta da transição? (Boitempo, 2014), organizado por Milton Pinheiro.
A coluna prestes, de Anita Leocadia Prestes
Em comemoração aos cem anos da Coluna Prestes (que durou de 1924 a 1927), a Boitempo relança a obra de Anita Leocadia Prestes sobre o assunto. Fruto da tese de doutorado da autora defendida em 1989 na Universidade Federal Fluminense (UFF), o livro é a mais completa obra de pesquisa e reconstrução sintética sobre a Coluna, apoiada em sólida formação teórica e aparato documental em grande parte inédito à época de sua primeira edição.
Dividida em três partes, a obra começa com um panorama da sociedade na época, ainda com resquícios do sistema escravocrata e caminhando para um maior desenvolvimento capitalista, em meio a uma crise econômica, política e social. A segunda parte aborda a marcha da Coluna, numa narrativa enriquecida por diversos depoimentos, entre os quais o de Luiz Carlos Prestes, pai da autora. Nela, Anita Prestes busca responder à questão central de como uma força armada com parco aparelhamento bélico e dotado de poucos recursos nunca foi derrotada. Já na parte final, é tratado o relacionamento da Coluna com as populações urbanas e rurais e as forças políticas da época.
“Anita conseguiu enveredar pelo difícil caminho da fonte oral – o herói invencível a relatar sua própria história – e saiu-se com rara felicidade dessa empreitada, demonstrando notável isenção como observadora do seu fato histórico e superando a ligação afetiva com aquele que era, ao mesmo tempo, o principal ator e a fonte fundamental de seu relato. Eis o primeiro e não menos importante mérito do trabalho, isto é, não cair na armadilha de seu próprio método”, escreve Maria Yedda Leite Linhares no prefácio.



Luiz Carlos Prestes: um comunista brasileiro, de Anita Leocadia Prestes
A vida do revolucionário brasileiro cuja saga no movimento tenentista e na resistência antifascista contra Getúlio Vargas marcaram época. A autora, filha de Prestes e historiadora, oferece uma biografia política envolvente, embasada em metodologia marxista e documentação extensa.
Olga Benario Prestes: uma comunista nos arquivos da Gestapo, de Anita Leocadia Prestes
A resistência e coragem da revolucionária Olga Benario Prestes nesta narrativa biográfica. Baseada em documentos inéditos da Gestapo, conta a jornada da jovem comunista desde sua luta política até sua execução nos campos nazistas. Amor, resistência e silêncio frente à brutalidade do Terceiro Reich.
Viver é tomar partido, de Anita Leocadia Prestes
Memórias marcantes entrelaçadas à história do comunismo no Brasil e no mundo. Um relato pessoal de lutas e perseguições, destacando o papel fundamental de mulheres na política radical. Leitura sensível e essencial para compreender a resistência contra a lógica capitalista.
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Quase 90 anos depois do assassinato de Victor Barron finalmente sabemos a verdade atravé das declaracoes de Anita Prestes! Que importante é a vida e o trabalho de tao honesta e minunciosa historiadora, a todos nos que acreditavamos nas mentirosas versoes, inclusive no estrangeiro. Anita limpou a memoria de um companheiro que resistiu até a morte! Com profundo respeito!
Telma Savietto Rinkes
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Trabalho fundamental mesmo, Telma! Anita é uma historiadora muito comprometida — com a verdade e a luta socialista.
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Quase 90 anos depois do assassinato de Victor Barron finalmente sabemos a verdade atravé das declaracoes de Anita Prestes! Que importante é a vida e o trabalho de tao honesta e minunciosa historiadora, a todos nos que acreditavamos nas mentirosas versoes, inclusive no estrangeiro. Anita limpou a memoria de um companheiro que resistiu até a morte! Com profundo respeito!
Telma Savietto Rinkes
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