O fim do governo italiano explicado por Karl Marx

O governo de unidade nacional liderado pelo "tecnicista" Mario Draghi implodiu devido a divisões políticas que o ex-presidente do Banco Central Europeu não conseguiu mais lidar.

Primeiro-ministro da Itália, Mario Draghi, que renunciou em 21 de julho.

Por Marcello Musto

Poucos sabem que, entre os muitos temas aos quais dedicou seu interesse, Marx tratou também da crítica ao chamado “governo técnico”. Como colaborador do New York Tribune, um dos jornais de maior circulação de sua época, Marx observou os desenvolvimentos institucionais e políticos que culminaram em um dos primeiros governos técnicos da história: o gabinete do Conde de Aberdeen, que durou de dezembro de 1852 a janeiro de 1855.

Os relatórios de Marx se destacaram por sua perspicácia e sarcasmo. O Times celebrou os eventos ocorridos em 1852 como um sinal de que a Grã-Bretanha estava no início de uma época “em que o espírito de partido está decolando da Terra, e o gênio, a experiência, a indústria e o patriotismo devem ser as únicas qualificações para o cargo”. O jornal sediado em Londres convocou “homens de todas as classes de opinião” a ​​se unirem ao novo governo porque “seus princípios” exigiam “aprovação e apoio universal”. Argumentos semelhantes foram usados ​​em fevereiro de 2021, quando Mario Draghi, ex-presidente do Banco Central Europeu, se tornou primeiro-ministro da Itália.

No artigo de 1853 intitulado Uma administração antiquada: a perspectiva do ministério da coalizão, Marx zombou do ponto de vista do Times. O que o grande jornal britânico vislumbrou como tão moderno e fascinante era, para ele, uma pura farsa. Quando o Times anunciou “um ministério composto inteiramente de figuras novas, jovens e promissoras”, Marx refletiu que “o mundo certamente não ficará nem um pouco intrigado ao saber que a nova era na história da Grã-Bretanha será inaugurada por todos, menos por octogenários desgastados”. Ao lado dos julgamentos dos indivíduos, havia outros, de maior interesse, sobre suas políticas: “Nos é prometido o desaparecimento total da guerra partidária, e até mesmo dos próprios partidos”, observou Marx. “O que The Times quer dizer com isto?”. A questão é, infelizmente, muito atual hoje, em um mundo onde o domínio do capital sobre o trabalho se tornou tão feroz quanto era em meados do século XIX. A separação entre economia e política, que diferencia o capitalismo dos modos de produção anteriores, atingiu um ponto mais elevado. A economia não apenas domina a política, definindo sua agenda e moldando suas decisões, mas reside fora de sua jurisdição e controle democrático – a ponto de uma mudança de governo não alterar mais os rumos das políticas sociais e econômicas. Elas devem ser imutáveis.

Nos últimos trinta anos, os poderes de decisão passaram da esfera política para a econômica. As opções políticas partidárias foram transformadas em imperativos econômicos que disfarçam um projeto altamente reacionário e político por trás de uma máscara ideológica de expertise apolítica. Esse desvio de partes da esfera política para a economia, como um domínio separado e impermeável à mudança, envolve a mais grave ameaça à democracia em nossos tempos. Os parlamentos nacionais, já sugados de seu valor representativo por sistemas eleitorais distorcidos e revisões autoritárias da relação entre executivo e legislativo, veem seus poderes sendo retirados e transferidos para o “mercado”. As classificações da Standard & Poor’s e o índice de Wall Street – esses megafetiches da sociedade contemporânea – têm um peso incomparavelmente maior do que a vontade do povo. Na melhor das hipóteses, o governo político pode “intervir” na economia (às vezes, as classes dominantes precisam mitigar a anarquia destrutiva do capitalismo e suas crises violentas), mas não podem questionar suas regras e escolhas fundamentais.

Um representante proeminente dessa política foi o ex-primeiro-ministro italiano Mario Draghi, que liderou por 17 meses uma coalizão muito ampla, incluindo o Partido Democrático, seu inimigo de longa data Silvio Berlusconi, os populistas do Movimento Cinco Estrelas e o partido de extrema-direita Liga Norte. Por trás da fachada do termo “governo técnico” – ou como se costuma dizer do “governo dos melhores” ou “governo de todos os talentos” – podemos vislumbrar uma suspensão da política. Nos últimos anos, tem-se argumentado que novas eleições não devem ser concedidas após uma crise política; a política deve entregar todo o controle à economia. Em um artigo de abril de 1853, Conquistas do Ministério, Marx escreveu que “o Ministério da Coalizão (“técnico”) representa impotência no poder político”. Os governos não discutem mais qual orientação econômica devem adotar. Agora, as orientações econômicas dão a luz a governos.

Nos últimos anos, na Europa, o mantra neoliberal tem repetido que, para restaurar a “confiança” do mercado, era preciso avançar rapidamente no caminho das “reformas estruturais”, expressão hoje usada como sinônimo de devastação social, ou seja: cortes salariais, ataques aos direitos dos trabalhadores acerca de contratação e demissão, aumento da idade de aposentadoria e privatizações em larga escala. Os novos “governos técnicos”, encabeçados por indivíduos com formação em algumas das instituições econômicas mais responsáveis ​​pela crise econômica, seguiram este caminho – alegando fazê-lo “para o bem do país” e “o bem-estar das gerações futuras”. Além disso, o poder econômico e a grande mídia tentaram silenciar qualquer um que tenha levantado uma voz discordante.

Desde 21 de julho, Draghi não é mais o primeiro-ministro italiano. Sua maioria de apoio implodiu por causa das políticas muito dissonantes dos partidos que o apoiaram, e a Itália irá às eleições antecipadas em 25 de setembro. Para que a esquerda não desapareça, ela também deve ter a coragem de propor as políticas radicais necessárias para abordar as questões contemporâneas mais urgentes, começando pela crise ecológica. As últimas pessoas que poderiam realizar um programa de transformação social e redistribuição da riqueza são os “técnicos” – na verdade, muito políticos – como o banqueiro Mario Draghi. Ele não deixará saudades.

Tradução de Marcelo Bamonte para o Blog da Boitempo.


O velho Marx: uma biografia de seus últimos anos (1881-1883), de Marcello Musto

O velho Marx apresenta uma análise perspicaz dos anos finais e ainda pouco explorados da vida de Karl Marx. Combinando rigorosa abordagem acadêmica com uma escrita acessível, Marcello Musto derruba a lenda de que a partir de meados de 1870, devido a problemas de saúde e dificuldades pessoais, o filósofo alemão teria suspendido quase inteiramente sua pesquisa. Ao contrário, ele não só deu continuidade a seu trabalho, mas estendeu-o a novas disciplinas e a outras áreas do planeta. A partir do estudo de manuscritos que vieram a público recentemente e ainda não foram traduzidos do alemão nem publicados em livro, Musto demonstra que Marx passa a se interessar por antropologia, pelas sociedades não ocidentais e pela crítica ao colonialismo europeu.

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Marcello Musto é professor de Sociologia na York University, em Toronto, Canadá. Suas publicações, disponíveis em seu site, foram traduzidas em vinte e cinco línguas. Pela Boitempo publicou Trabalhadores, uni-vos!: antologia política da I InternacionalO velho Marx: uma biografia de seus últimos anos (1881-1883), além de colaborações com a revista Margem Esquerda.

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