O Machado de Assis de Astrojildo Pereira

Luccas Maldonado comenta “Machado de Assis: ensaios e apontamentos avulsos”, de Astrojildo Pereira, ressaltando o papel de um dos fundadores do PCB também como crítico cultural atento aos aspectos sociais da formação brasileira.

Por Luccas Eduardo Maldonado

Astrojildo Pereira costuma ser rememorado por sua posição estratégica na construção do Partido Comunista do Brasil. Essa é, contudo, apenas uma de suas facetas. Além de militante engajado, cultivou uma percepção refinada sobre a produção literária brasileira, tornando-se importante intérprete da obra de Joaquim Maria Machado de Assis, um dos maiores escritores da língua portuguesa de todos os tempos. O livro Machado de Assis é fundamental para se conhecer essa outra dimensão de Astrojildo.

Machado de Assis surgiu em 1959, reunindo estudos literários publicados em revistas e jornais. A obra tem muitas virtudes, mas a principal foi fazer parte de um movimento de autores que, na transição da primeira para a segunda metade do século XX, começou a fazer crítica cultural no Brasil, levando em conta não apenas aspectos formais, mas também sociais na construção dos textos. Juntamente com Nelson Werneck Sodré e outros intelectuais, Astrojildo Pereira questionou a geração predecessora de críticos, entre eles José Veríssimo e Sílvio Romero, que escreviam sobre literatura de maneira profundamente descontextualizada. Em grande medida, Astrojildo colocou a seguinte questão: o que há de brasileiro nos escritores brasileiros?

Uma boa parte de Machado de Assis, como o próprio título sugere, é dedicada à obra do Bruxo do Cosme Velho. Seu escrito mais significativo a respeito desse autor é “Machado de Assis, romancista do Segundo Reinado”. Nesse texto, Astrojildo projeta o fundador da Academia Brasileira de Letras não como alguém indiferente ao Brasil do século XIX, mas como crítico das diversas desigualdades e contradições daquela sociedade. Nessa esteira, aponta que sua escrita seria caracterizada pela sutileza e ironia, sendo necessário perceber como o autor de Dom Casmurro constitui nos detalhes, em suas figuras de linguagem e no desenvolver da narrativa, uma série de ácidas críticas à sociedade brasileira do Segundo Império.

Com esta nova edição de Machado de Assis, esses textos voltam à baila, permitindo ao público travar contato com um olhar original sobre nosso genial literato, por meio da verve de um de seus principais intérpretes.

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Machado de Assis: ensaios e apontamentos avulsos, lançado pela primeira vez em 1959, é um dos trabalhos mais importantes e conhecidos de Astrojildo Pereira. O autor traz uma detalhada análise sobre a vida e obra de um dos maiores nomes da literatura brasileira, revelando um escritor perspicaz, crítico atento e sensível e um romancista com forte sentido político e social.
 
No ano do centenário de fundação do Partido Comunista Brasileiro (PCB), a Boitempo e a Fundação Astrojildo Pereira relançam essa importante obra com a inclusão de alguns textos, atualização gramatical e uma padronização editorial.  Os textos introdutórios das edições passadas foram suprimidos e novos foram incorporados, havendo uma exceção no caso do escrito de José Paulo Netto. Quase 30 anos depois da redação de “Astrojildo: política e cultura”, Paulo Netto retomou o seu texto e preparou uma nova versão que abre a presente edição como seu prefácio. O historiador Luccas Eduardo Maldonado assina a orelha. As ilustrações de Claudio de Oliveira utilizadas na terceira edição foram mantidas na atual.
 
Alguns anexos foram incorporados como a crônica “A última visita” de Euclides da Cunha (1866-1909), na qual relata a visita de Astrojildo ao leito de morte de Machado de Assis. Outro incremento foi “Machado de Assis é nosso, é do povo” de Astrojildo, publicado em novembro de 1938 na ocasião dos 30 anos do falecimento do Bruxo do Cosme Velho. O texto apareceu originalmente na Revista Proletária, periódico vinculado ao PCB que tinha uma circulação extremamente restrita devido à ditadura do Estado Novo. Um artigo do militante comunista Rui Facó (1913-1963), intitulado “Em memória de Machado de Assis”, foi anexado. Esse texto apareceu originalmente em 27 de setembro de 1958 no Voz Operária, jornal oficial do comitê central do PCB, e fazia uma homenagem ao fundador da ABL no cinquentenário de sua morte. Por fim, inclui-se também uma resenha de Machado de Assis de Astrojildo escrita por Otto Maria Carpeaux, intitulada “Tradição e Revolução”.  

“O Machado de Assis de Astrojildo Pereira reúne ensaios e outros artigos que, com o tempo, ficaram inacessíveis, dispersos em livros esgotados e em revistas e jornais. É um prazer relê-los. É um proveito permanente possuí-los reunidos.”
Otto Maria Carpeaux

“Astrojildo é nosso companheiro tanto na justa avaliação da qualidade literária de um clássico como Machado quanto na convicção profunda de que a cultura não é um subproduto ou um epifenômeno da vida social – antes, resulta da decidida vontade criadora dos homens, subversiva e fascinante.”
José Paulo Netto

“Astrojildo Pereira tem uma familiaridade exaustiva com a obra inteira de Machado, crônicas, contos, poesia, correspondência, além dos romances.” 
John Gledson

 

Machado de Assis, de Astrojildo Pereira, tem prefácio de José Paulo Netto, texto de orelha de Luccas Maldonado e capa de Maikon Nery.

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Confira a aula Política e cultura, do curso 100 anos do PCB: vida e obra de Astrojildo Pereira, com José Paulo Netto, Joselia Aguiar e mediação de Luccas Maldonado, na TV Boitempo:

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Luccas Eduardo Maldonado é doutorando em História pela Universidade de Campinas (UNICAMP) e tradutor. Suas pesquisas são focadas em aspectos da História Intelectual brasileira. É um dos coordenadores da coleção Astrojildo Pereira da Boitempo.

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