A última visita

Publicamos o relato do encontro de Astrojildo Pereira com Machado de Assis escrito por Euclides da Cunha em 1908.

Caricatura de Claudio de Oliveira representando a visita de Astrojildo Pereira ao quarto de Machado de Assis.

Por Euclides da Cunha

Na noite em que faleceu Machado de Assis, quem penetrasse na vivenda do poeta, em Laranjeiras, não acreditaria que estivesse tão próximo o triste desenlace da sua enfermidade. Na sala de jantar, para onde dava o quarto do querido mestre, um grupo de senhoras — ontem meninas que ele carregava nos braços carinhosos, hoje nobilíssimas mães de família — comentavam-lhe os lances encantados da vida e reliam-lhe antigos versos, ainda inéditos, avaramente guardados nos álbuns caprichosos. As vozes eram discretas, as mágoas apenas rebrilhavam nos olhos marejados de lágrimas, e a placidez era completa no recinto, onde a saudade glorificava uma existência, antes da morte.

No salão de visitas viam-se alguns discípulos dedicados, também aparentemente tranquilos.

E compreendia-se desde logo a antilogia de corações tão ao parecer tranquilos na eminência de uma catástrofe. Era o contrário da própria serenidade incomparável e emocionante em que ia, a pouco e pouco, extinguindo-se o extraordinário escritor. Realmente, na fase aguda de sua moléstia, Machado de Assis, se por acaso traía com um gemido e uma contração mais viva o sofrimento, apressava-se em pedir desculpas aos que o assistiam, na ânsia e no apuro gentilíssimo de quem corrige um descuido ou involuntário deslize. Timbrava em sua primeira e última dissimulação: a dissimulação da própria agonia, para não nos magoar com o reflexo da sua dor. A sua infinita delicadeza de pensar, de sentir e de agir, que no trato vulgar dos homens se exteriorizava em timidez embaraçadora e recatado retraimento, transfigurava-se em fortaleza tranquila e soberana.

E gentilissimamente bem durante a vida, ele se tornava gentilmente heroico na morte…

Mas aquela placidez augusta despertava na sala principal, onde se reuniam Coelho Netto, Graça Aranha, Mário de Alencar, José Veríssimo, Raimundo Correa e Rodrigo Otávio, comentários divergentes. Resumia-os um amargo desapontamento. De um modo geral, não se compreendia que uma vida que tanto viveu as outras vidas, assimilando-as através de análises sutilíssimas, para no-las transfigurar e ampliar, aformoseadas em sínteses radiosas — que uma vida de tal porte desaparecesse no meio de tamanha indiferença, num círculo limitadíssimo de corações amigos. Um escritor da estatura de Machado de Assis só deverá extinguir-se dentro de uma grande e nobilitadora comoção nacional.

Era pelo menos desanimador, tanto descaso — a cidade inteira, sem a vibração de um abalo, derivando imperturbavelmente na normalidade de sua existência complexa — quando faltavam poucos minutos para que se cerrassem quarenta anos de literatura gloriosa…

Neste momento, precisamente ao anunciar-se esse juízo desalentado, ouviram-se umas tímidas pancadas na porta principal da entrada.

Abriram-na. Apareceu um desconhecido: um adolescente de dezesseis ou dezoito anos, ao máximo. Perguntaram-lhe o nome. Declarou ser desnecessário dizê-lo:

Ninguém ali o conhecia; não conhecia ele por sua vez ninguém; não conhecia o próprio dono da casa, a não ser pela leitura de seus livros, que o encantavam. Por isso, ao ler os jornais da tarde que o escritor se achava em estado gravíssimo, tivera o pensamento de visitá-lo. Relutara contra esta ideia, não tendo quem o apresentasse: mas não lograra vencê-la. Que o desculpassem, portanto. Se lhe não era dado ver o enfermo, dessem-lhe ao menos notícias certas de seu estado.

E o anônimo juvenil — vindo da noite — foi conduzido ao quarto do doente. Chegou. Não disse uma palavra. Ajoelhou-se. Tomou a mão do mestre: beijou-a num belo gesto de carinho filial. Aconchegou-o depois por algum tempo ao peito. Levantou-se e, sem dizer palavra, saiu.

À porta, José Veríssimo perguntou-lhe o nome. Disse-lhe. Mas deve ficar anônimo. Qualquer que seja o destino desta criança, ela nunca mais subirá tanto na vida. Naquele momento, o seu coração bateu sozinho pela alma de uma nacionalidade. Naquele meio segundo — no meio segundo em que ele estreitou o peito moribundo de Machado de Assis, aquele menino foi o maior homem de sua terra.

Ele saiu — e houve na sala, há pouco invadida de desalentos, uma transfiguração.

No fastígio de certos estados morais concretizam-se às vezes as maiores idealizações.

Pelos nossos olhos passara a impressão visual da Posteridade…

Crônica publicada no Jornal do Commercio em 30 de setembro de 1908, publicada no livro Machado de Assis, de Astrojildo Pereira.


A editora Boitempo e a Fundação Astrojildo Pereira (FAP) lançam amanhã (28/06/22) no Espaço Arildo Dória, auditório da Biblioteca Salomão Malina, em Brasília, a partir das 16 horas, a Coleção Astrojildo Pereira, com as obras completas do jornalista, ensaísta e fundador do Partido Comunista Brasileiro (PCB). O evento terá transmissão ao vivo pela TV FAP e redes sociais da entidade. A entrada é gratuita.

Os livros Crítica impura, Formação do PCB, Interpretações, Machado de Assis e URSS Itália Brasil compõem a coleção, além da biografia O revolucionário cordial, de autoria do professor e historiador Martim Cézar Feijó, que participará do encontro, ao lado do jornalista Carlos Marchi, biógrafo de Carlos Castello Branco e Teotônio Vilela, com mediação do sociólogo Caetano Araújo, diretor geral da FAP.


Confira o curta Machado, Euclides e Astrojildo: a última visita (2008), dirigido por Zelito Viana:

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  1. Martin Cezar Feijó e o retrato rigoroso da vida de Astrojildo Pereira – Blog da Boitempo

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