A desolação e a luta

Caminhar com Ricardo Antunes pela terra arrasada é necessário, pois ele nos mostra que, se as contradições são a cada dia mais agressivas, a luta prossegue ainda mais urgente.

Por Virgínia Fontes

Pensar, estudar e escrever sob as condições desoladoras que nos perseguem nos últimos anos é ato de sobrevivência, de resistência e, sobretudo, de enfrentamento e luta. Nossos tempos são aqueles em que os adjetivos, a cada dia mais dramáticos, parecem perder força. O real é infinitamente mais tenebroso do que nossos textos conseguem retratar.

Essa degradação se apresenta em Capitalismo pandêmico em dois níveis. No âmbito mundial, a palavra dos capitalistas mais poderosos do planeta procura silenciar os demais de maneira brutal, inclusive por algoritmos, e sua voz é ecoada por uma imprensa proprietária que, mesmo sem querer, mostra o quanto o capital é incapaz de lidar com uma pandemia de maneira humana. Os Estados Unidos lideraram o caminho da tragédia, e empilharam-se cadáveres, assim como no Brasil. Ricaços compraram a peso de ouro bunkers onde tentam se esconder do horror que disseminam. A despeito disso tudo, a mídia proprietária foi obrigada a apresentar ao menos uma parcela da tragédia, amontoada nos hospitais, nos necrotérios e nos cemitérios.

Contra a vontade dos poderosos e de seus apaniguados, a pandemia tornou evidente a centralidade dos trabalhadores para o lucro capitalista, desmentindo na prática a tristemente longa tradição de divulgar que “o trabalho acabou”. Os donos do capital relutaram e brigaram contra a proteção aos “seus colaboradores”, exigindo que frequentassem os meios de transporte lotados e seguissem trabalhando, arriscando suas próprias vidas. Pior, aproveitaram-se da pandemia para precarizar ainda mais as condições de trabalho e explorar a carne viva da classe que dele vive. Ricardo Antunes, já de longa data, nos ajuda a compreender o horror que o predomínio do capital só faz aprofundar, mostrando a desolação que prepondera em todos os âmbitos – naturais e sociais.

O segundo nível é o da devastação no Brasil protofascista de Bolsonaro, ainda mais intensa do que em outros países. A defesa descarada dos preconceitos, a perseguição política, o negacionismo científico, o descaso com a população (gerando um verdadeiro genocídio pandêmico), o estrangulamento do Sistema Único de Saúde e das universidades, o desmantelamento de conquistas populares históricas (da proteção social à cultura), a destruição da natureza pela predação direta e pelo envenenamento agrotóxico, são apenas alguns elementos dessa ruína bolsonarista.

Caminhar com Ricardo Antunes pela terra arrasada é necessário, pois ele nos mostra que, se as contradições são a cada dia mais agressivas, a luta prossegue ainda mais urgente. Precisamos enfrentar o capital para assegurar a continuidade de uma vida que se queira humana, capaz de produzir igualdade social e de se relacionar humana e sociometabolicamente com a natureza.

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De que forma a pandemia agravou as já abissais desigualdades sociais no Brasil, na América Latina e no mundo? Como o capital se comporta diante de uma crise sanitária dessa magnitude? É possível afirmar que a brutal expansão da covid-19 tem preferência de classe, gênero, raça e etnia? Em Capitalismo pandêmico, o professor de sociologia do trabalho Ricardo Antunes apresenta diversos textos escritos nos últimos anos que conceituam o atual estágio do desenvolvimento capitalista, em especial no que se refere aos novos modos de sujeição do trabalho. Seu foco principal é interpretar de que forma a pandemia e a gestão Jair Bolsonaro vêm determinar um capitalismo já em crise.

Antunes destrincha diversos temas como a relação da pandemia com as reformas trabalhistas feitas nas últimas décadas, o aumento do desemprego, a constante precarização do trabalho e o afrouxamento dos vínculos empregatícios. Retomando o léxico e uma série de descobertas expostos em seus livros anteriores, o autor nos oferece uma análise da conjuntura em que nos encontramos, com seus vieses de raça, classe, gênero etc., sob o pano de fundo de uma análise marxista dos rumos do capitalismo contemporâneo.

Escrito sob o calor dos fatos narrados, sem esconder a indignação crítica de que se alimenta, Capitalismo pandêmico é uma oportunidade de conhecer as grandes linhas do pensamento de um de nossos maiores intérpretes do mundo do trabalho, aplicado quase em tempo real a nosso sombrio dia a dia. No melhor estilo da prosa dialética, comparecem aqui os terríveis suplícios a que é submetida a classe trabalhadora contemporânea, mas também a visão de um futuro melhor que só pelas mãos dela pode ser construído.  
 

Capitalismo pandêmico, de Ricardo Antunes, tem texto de orelha Virgínia Fontes e capa de Antonio Kehl com base na pintura “Vários círculos”, óleo sobre tela (1926), de Wassily Kandinsky (Wikimedia Commons).

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Disponível em nossa loja virtual e e-book à venda nas principais lojas do ramo:


Confira o lançamento de Capitalismo pandêmico com debate entre Ricardo Antunes, Carolina Catini, Virgínia Fontes e mediação de Eduardo Altheman, na TV Boitempo:

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Virgínia Fontes é historiadora, atua na Pós-Graduação em História da UFF, onde integra o NIEP-MARX – Núcleo Interdisciplinar de Estudos e Pesquisas sobre Marx e o marxismo. Autora de Reflexões Im-pertinentes (Bom Texto, 2005), de O Brasil e o capital-imperialismo: teoria e história (EPSJV e Ed. UFRJ,2010), e co-autora de Hegemonia burguesa na educação pública (EPSJV, 2018). Apresenta a coluna Conversas Impertinentes, na TV Boitempo. Publicou inúmeros artigos em periódicos nacionais e internacionais. Docente da Escola Nacional Florestan Fernandes-MST. Coordenadora do GT História e Marxismo-Anpuh. Integra diversos conselhos editoriais no país e no exterior.

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