Álvaro García Linera: militância política, pensamento crítico e o melhor da tradição marxista na América Latina

Ler os ensaios de Álvaro García Linera é não somente atualizar-se sobre a Bolívia e a América Latina atuais, mas também conhecer um exemplo marcante de utilização da teoria como forma de compreensão do mundo contemporâneo e de formulação de propostas para sua transformação revolucionária.

Por Emir Sader

Álvaro García Linera é um dos mais importantes intelectuais latino-americanos de nosso tempo. É autor de vasta obra e dotado de apurada capacidade de reflexão, sempre articulada à prática política, que se tornou indispensável para que o atual processo político boliviano fosse possível.

Junto ao grupo boliviano Comuna, Linera elaborou as principais teses que superaram equívocos e insuficiências das interpretações tradicionais da própria esquerda local, para permitir que o movimento indígena surgisse como o novo sujeito histórico e político do processo de superação do neoliberalismo no país.

Álvaro García Linera retoma neste livro as melhores tradições do marxismo, aliando militância política a um pensamento crítico que desemboca em alternativas de transformação revolucionária da realidade. Essa combinação levou-o a somar-se a Evo Morales para compor a fórmula política ideal que dirigiu o processo boliviano de construção de uma sociedade multiétnica, plurinacional e autônoma – como afirma a nova Constituição do país.

O autor utiliza de forma criadora a dialética como instrumento de apreensão da realidade, fugindo dos dogmatismos e das renúncias teóricas, para construir uma obra que dá conta dos grandes problemas do nosso tempo e dos desafios que os processos boliviano e latino-americano têm hoje, na era da globalização neoliberal e da construção de um socialismo comunitário.

Ler os ensaios de Álvaro García Linera é não somente atualizar-se sobre a Bolívia e a América Latina atuais, mas também conhecer um exemplo marcante de utilização da teoria como forma de compreensão do mundo contemporâneo e de formulação de propostas para sua transformação revolucionária.

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Ex-vice-presidente do Estado Plurinacional da Bolívia, Álvaro García Linera é um dos mais destacados intelectuais de seu país e do continente. Com longa trajetória de militância e elaboração teórica, García Linera sempre primou pela busca de um marxismo adaptado à realidade concreta boliviana e sul-americana, conciliando o pensamento materialista dialético clássico com uma série de influências indígenas e de outras matrizes do pensamento social.

Coletânea de seis ensaios produzidos em diferentes épocas, A potência plebeia – ação coletiva e identidades indígenas, operárias e populares na Bolívia reúne pela primeira vez em português importantes momentos da produção intelectual de García Linera. Segundo o jornalista Pablo Stefanoni, autor do prefácio, a trajetória do ex-vice-presidente o coloca no papel de “intérprete do complexo processo político e social iniciado em 22 de janeiro de 2006, após o primeiro indígena chegar à presidência desta nação andino-amazônica, onde 62% dos habitantes se autoidentificam como parte de um povo originário, em sua maioria quéchua e aimará”.

Atraído pela questão indígena por conta da guerrilha guatemalteca, García Linera jamais abandonou esse interesse nas diferentes fases de suas concepções políticas, buscando apoio no marxismo para melhor formular a proposição de um “governo-índio”. Ainda segundo Stefanoni, “dedicou centenas de páginas a esquadrinhar Marx, Engels e Lênin para encontrar respostas ao problema nacional – ou comunitário-camponês”. Esses estudos puderam ser amplamente desenvolvidos no período em que esteve preso, por conta de sua participação em movimentos guerrilheiros.

A potência plebeia: ação coletiva e identidades indígenas, operárias e populares na Bolívia, de Álvaro García Linera, tem tradução de Mouzar Benedito e Igor Ojeda, organização e prefácio de Pablo Stefanoni, texto de orelha de Emir Sader, fotografia de Daniel Noll e Hideki Naito.


Hoje, às 19h, ocorre o debate O retorno da onda progressista na América Latina, atividade do VII Salão do Livro Político no teatro Tucarena da PUC-SP, com a presença de Álvaro García LineraDilma Roussef, Guilherme Boulos, Manuela D’Ávila e Ivana Jinkings (mediação) para o debate Resgatando a democracia na América Latina. Acompanhe pela TV Boitempo:

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Emir Sader é nasceu em São Paulo, em 1943. Formado em Filosofia pela Universidade de São Paulo, é cientista político e professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). É secretário-executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso) e coordenador-geral do Laboratório de Políticas Públicas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Coordena a coleção Pauliceia, publicada pela Boitempo, e organizou ao lado de Ivana Jinkings, Carlos Eduardo Martins e Rodrigo Nobile a Latinoamericana – enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe (São Paulo, Boitempo, 2006), vencedora do 49º Prêmio Jabuti, na categoria Livro de não-ficção do ano. Publicou, entre outros, Estado e política em MarxA nova toupeira e A vingança da história.

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