Em defesa dos ismos: 1922-2022

O caráter de “ismo” do modernismo e da antropofagia nos permite pensar o lugar dessas obras num contexto transnacional e com vistas a um momento específico na história da arte. O que nos cabe é pensar o seu legado, que está nas obras, ou melhor, num conjunto de obras. Também nos cabe pensar o seu caminho de trabalho artístico e político: trabalho coletivo, autoconsciência e programa – seguir a tradição em negar a tradição sem parar no tempo ou girar em falso – e sem ingenuidade ou consagração irrefletida.

Por Bruna Della Torre

“Seja como for. Voltar para trás é que é impossível. O meu relógio anda sempre para a frente.”
Oswald de Andrade, Prefácio a Serafim Ponte Grande

Enquanto na Europa há uma nostalgia pela década de 1920, romantizada em filmes e séries de televisão, no Brasil, nossa tradição consiste, já há muitas décadas, em criticar a Semana de Arte Moderna. Até mesmo seus participantes o fizeram. Oswald de Andrade, no prefácio de Serafim Ponte Grande, afirma que foi palhaço da burguesia, seu “índice cretino, sentimental e poético”; que o modernismo foi um diagrama da alta do café e a poesia Pau Brasil, por sua vez, uma operação imperialista. Desde então, o espírito moderno de superação do passado manteve-se vivo: criticou-se não só a dissociação entre arte e política, cultura erudita e popular no modernismo paulista da década de 1920, mas também seu pretenso protagonismo regional, seu identitarismo nacionalista ou, para falar com Roberto Schwarz, seu “ufanismo crítico”, seu elogio aos bandeirantes e o classismo, machismo, racismo e homofobia de pessoas que fizeram parte do movimento.

Recentemente, Denilson Baniwa cortou a cabeça de Mário de Andrade e colocou-a numa bandeja ao lado do romance Macunaíma. Sua natureza morta reantropofagiza a antropofagia e põe em xeque o uso que Mário de Andrade fez dos mitos indígenas. A crítica certamente seria vista por Mário de Andrade como a maior das homenagens. Como afirmou Carlos Drummond de Andrade em “40 anos depois”, melhor (re)inventar que meramente celebrar.

Por outro lado, em grandes jornais, que alçaram figuras como Olavo de Carvalho e Kim Kataguiri à posição de “formadores de opinião” no Brasil, comentaristas e intelectuais reduzem o legado de 22 à trajetória de seus integrantes, associam o modernismo e a sua fortuna crítica, especialmente aquela ligada à Universidade de São Paulo, à ditadura militar e até mesmo ao bolsonarismo. Apesar da década de 1920 não ter deixado saudades entre nós e de ainda existirem artistas e movimentos sociais que dialogam criticamente com a Semana de Arte Moderna – o que nos livra ao menos da tarefa de arguir contra a nostalgia que predomina no centro do capitalismo – há, por outro lado, uma negação  do modernismo in toto que precisa ser combatida, isto é, um discurso de personalização que transforma os participantes da semana em “bodes expiatórios” que servem para conjurar ressentimentos pouco relacionados à arte moderna. Oswald de Andrade tinha razão, “quem conta com a posteridade, é como quem conta com a polícia”.

Então, vale, sim, talvez, repensar a atualidade e a importância dos “ismos”.

Em sua Teoria Estética, escrita durante a década de 1960, no contexto de surgimentos das neovanguardas, das lutas do (e com o) movimento estudantil e contra a ascensão do novo radicalismo de direita, Theodor W. Adorno, que morreu defendendo a autonomia da arte, fazia o esforço dialético de pensar contra si mesmo e defender os “ismos”. Suas reflexões são da maior valia para pensarmos o legado de 1922 por aqui.

O principal elemento que devemos considerar num “ismo”, de acordo com Adorno, é seu caráter coletivo, autoconsciente e programático.

O aspecto de conjunto é importante, pois intensifica as forças produtivas individuais por meio da colaboração. Nos “ismos”, encontramos obras melhores e obras piores, autores de níveis diversos e que aderem mais ou menos à proposta coletiva. E uma vez que neles as obras de arte recusam a individuação que estava na base da arte burguesa, também o seu critério de avaliação precisa mirar o coletivo. Isso significa que o conteúdo de verdade de um “ismo” muitas vezes está no movimento e não em uma ou outra obra específica.

Já a autoconsciência num “ismo” é fundamental, pois tem a ver com uma arte que problematiza a sua autonomia e incorpora essa reflexão nas próprias obras. A sua autoconsciência enquanto coletivo leva também à formação daquilo que Adorno chamou de “escolas secularizadas”, ou seja, escolas que se baseiam numa autoridade objetiva ao invés de se fiar numa autoridade tradicional. Ao fazê-lo, o “ismo” expulsa o momento de obediência irrefletida pressuposto na tradição.

Por fim, um “ismo” é programático. Ele visa intervir na realidade e estabelecer eixos em torno dos quais as obras se orientam. Não é à toa, conforme mostra Martin Puchner, que o manifesto é o grande gênero das vanguardas, pois configura ambos os aspectos político-programático e estético. Mas esse elemento programático, afirma Adorno, embora contenha um certo elemento disciplinador, acaba por vezes funcionando também como mola para a liberdade. Como o movimento nunca se reduz a uma só obra, cada obra é um work in progress, não por ser algo inacabado, mas no sentido de uma obra aberta e de uma tentativa no interior de um contexto mais amplo. É imanente aos “ismos” a recusa da ideia de “obra definitiva”.

Essas ideias podem ser mobilizadas para pensar o modernismo, num sentido mais amplo e alguns de seus principais desdobramentos, como a antropofagia. Essa última padeceu de um mal de sufixo. Era um “ismo”, mas se disfarçou de “ia” e despistou a fortuna crítica durante algum tempo. Seu caráter coletivo, autoconsciente e programático ficaria mais claro na década de 1960 com a sua retomada pelo concretismo, pelo tropicalismo e pelo Cinema Novo.

Dela participaram, se contarmos só a primeira edição da Revista de Antropofagia, cuja terceira “dentição” acaba de ser descoberta, mais de 50 artistas de São Paulo, de outras regiões do Brasil e de outros países da América Latina. Seu programa foi delineado no “Manifesto antropófago”, mas deu em obras diversas como no “Abaporu” e na “Antropofagia” de Tarsila do Amaral; em Macunaíma, o herói sem nenhum caráter de Mário de Andrade; em Serafim Ponte Grande, de Oswald de Andrade; além das revistas e outras intervenções. Nela, também a separação entre as linguagens artísticas foi negada. Como qualquer “ismo”, ela abrigou autores maiores e menores, mais ou menos alinhados com o programa geral (ou seja, não adianta dizer que o argumento não vale porque um autor era ainda meio passadista, outro reacionário). Enquanto suas obras específicas, como Macunaíma – grande exemplar do romance modernista – ganham em individualidade, um eixo central orienta o conjunto.

Fredric Jameson argumenta que a crise da modernização está no cerne de todas as experiências da vanguarda nas periferias e semiperiferias do capitalismo. Ela se apresenta sob diversas formas: a partir de questões revolucionárias (no caso da Rússia), reacionárias (Itália) ou coloniais (como na América Latina e em outras periferias). Se é esse o caso, é possível afirmar que esse elemento colonial compõe a autoconsciência da antropofagia enquanto “ismo”. No “Manifesto Antropófago”, Oswald de Andrade afirma que “Sem nós a Europa não teria sequer sua pobre declaração de direitos do homem” e que “Já tínhamos o comunismo e a língua surrealista”. Ele transforma a antropofagia num programa político e estético não só para o terceiro mundo, mas para o primeiro e, mais do que isso, faz um movimento crítico que atualmente está na base da crítica marxista pós-colonial, ao defender que as comunidades indígenas da América forneceram um imaginário que alargou as utopias políticas do mundo ocidental. Sua intuição antropológica, interpretada muitas vezes como elogio do atraso, mostrou-se correta. Livros como The Dawn of everything, de David Wengrow e David Graeber, mostram que a influência dos diversos pensamentos indígenas sobre o pensamento político europeu foi profunda. A descoberta de sociedades sem Estado e sem propriedade privada e com outras noções de família, moral e religião não só orientaram as utopias europeias, mas igualmente o pensamento político liberal que precisou justificar filosoficamente a desigualdade. Esse movimento crítico da antropofagia – transformado em impulso estético – é base daquilo que Antonio Candido chamou de dialética entre o “localismo e o cosmopolitismo” e que consistiria, segundo o argumento do crítico, num dos pontos mais altos do modernismo.

Ou seja, em termos formais e mais amplos, o caráter de “ismo” do modernismo e da antropofagia nos permite pensar o lugar dessas obras num contexto transnacional e com vistas a um momento específico na história da arte. As pessoas que integraram a geração modernista estão mortas. Elas que se entendam com deus ou com o diabo. O que nos cabe é pensar o seu legado, que está nas obras, ou melhor, num conjunto de obras. Também nos cabe pensar o seu caminho de trabalho artístico e político: trabalho coletivo, autoconsciência e programa – seguir a tradição em negar a tradição sem parar no tempo ou girar em falso – e sem ingenuidade ou consagração irrefletida.

No âmbito mais circunscrito, o eixo colonial está mais vivo que nunca (tanto dentro, quanto fora do país) e a utopia tão necessária como sempre. Os modernistas podem não ter vivido de acordo com suas obras, mas nelas em muitos momentos traíram a sua classe e, ao recusar a tradição em arte, negaram também a sociedade na qual essa tradição foi gestada: a crítica ao trabalho e o elogio do ócio percorrem as obras de Oswald e Mário de Andrade; um erotismo onírico ronda as paisagens de Tarsila; o cristianismo se contorce nas esculturas de Brecheret. As vanguardas artísticas podem não ter andado no mesmo passo das vanguardas políticas, mas ambas certamente foram produto de uma abertura histórica cujas possibilidades estão contidas nas obras modernistas como conteúdo sedimentado a ser escavado.

No Brasil, não há mais hegemonia de esquerda, mas defesa da família, da moral, dos bons costumes; nacionalismo; perseguição à cultura, às comunidades indígenas, quilombolas, LGBTQIA+, à população negra e pobre. Há fanatismo religioso, há negação da diferença, há militarismo, há destruição das nossas matas e de nossas universidades, há colonização interna. A propaganda contra a “arte degenerada” é mais uma vez disseminada por plataformas de extrema-direita. Quem domina não é o modernismo ou a antropofagia. Hoje só dá escola da anta, com “a” minúsculo, pois ainda é uma versão rebaixada. Bolsonaro é seu aluno modelo. Ele pode até alegar que “come gente”, mas jamais será antropófago. Oswald de Andrade avisou: verde e amarelo não dá azul, dá azar.

Por isso é preciso defender os ismos. Sem fanatismo, nem falta de consciência crítica, mas com espírito de ruptura, um espírito animado pelo desejo do novo e pela ideia da mudança, fazendo nosso relógio tocar para a frente. Seja como for, caminhamos.

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Semana de 22: entre vaias e aplausos, de Marcia Camargos

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Patuscada ou revolução estética? Cem anos depois da ruidosa manifestação de jovens intelectuais, realizada no histórico fevereiro de 1922, a questão permanece. Com um texto jornalístico leve e saboroso, esta segunda edição de Semana de 22: entre vaias e aplausos, que conta com um prefácio inédito de Marcia Camargos, discute o assunto de forma crítica, jogando novas luzes sobre a Semana de Arte Moderna que, entre vaias e aplausos, conquistou seu lugar definitivo no panorama cultural da Pauliceia e do país.


Confira o debate sobre a Semana de 22 com Marcia Camargos, Flávio Aguiar, Bruna Della Torre e mediação de Tatiany Leite, na TV Boitempo:

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Bruna Della Torre é pesquisadora do Centro Käte Hamburger para estudos apocalípticos e pós-apocalípticos da Universidade de Heidelberg e pós-doutoranda no Departamento de Sociologia da Unicamp (bolsista Fapesp), onde estuda teoria crítica, indústria cultural e agitação fascista no Brasil. Editora executiva da revista Crítica Marxista, pesquisadora associada ao Laboratório de Estudos de Teoria e Mudança Social (Labemus) e membra da coletiva Marxismo Feminista. Realizou pós-doutorado no Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada, doutorado em Sociologia, ambos com apoio da Capes, e mestrado em Antropologia com apoio da Fapesp, todos na Universidade de São Paulo. Durante o doutorado, foi pesquisadora visitante na universidade Goethe, na Alemanha, com apoio do DAAD, e na universidade Duke, nos Estados Unidos, com apoio da Capes. Durante o pós-doutorado, realizou um estágio de pesquisa na universidade Humboldt e no arquivo Walter Benjamin/Theodor W. Adorno na Akademie der Künste em Berlim com apoio do DAAD. Escreve para o Blog da Boitempo mensalmente.

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