Apontamentos sobre a crítica literária de Theodor W. Adorno

Para encontrar nosso caminho na obra de Adorno, assim como em outras todas as coisas importantes na vida, é preciso primeiro nela se perder. Mas não custa buscar alguma orientação. Abaixo segue um pequeno comentário sobre alguns elementos relacionados à sua crítica literária.

Por Bruna Della Torre

“A configuração dos elementos da obra de arte em relação ao seu todo obedece imanentemente a leis que são relacionadas às da sociedade externa a elas. As forças produtivas sociais, assim como as relações de produção, retornam nas obras de arte, de acordo com sua mera forma, despojada da sua facticidade, porque o trabalho artístico é trabalho social; são sempre também seus produtos. As forças produtivas nas obras de arte não são em si diferentes das sociais, mas sim apenas por meio de sua ausência constitutiva em relação à sociedade real. Dificilmente algo poderia ser feito ou produzido nas obras de arte que não tenha o seu modelo, mesmo que sempre latente, na produção social.”
Theodor W. Adorno, Ästhetische Theorie

À ocasião de um curso sobre o tema, foi-me solicitado que apresentasse os principais conceitos da crítica literária de Adorno. Definir, no entanto, seus conceitos e noções é uma tarefa árdua, senão impossível. A dificuldade de leitura de sua obra não é acidental, pois move-se na tensão entre o “conhecer” e o “representar”, entre o próprio pensamento e o que ele visa apreender. O exercício crítico, de acordo com suas considerações, exige um método que “se corrige incessantemente na presença de seus objetos” e, portanto, recusa, em seu movimento, conceitos pré-definidos e bem delimitados.

Leitor atento da Teoria (com t maiúsculo), Adorno adiantou diversos temas que apareceriam nas chamadas “novas leituras de Marx” na década de 1960. Lido por ele, Marx é um crítico do esclarecimento e um investigador, acima de tudo, da produção social da opacidade. Sua crítica à sociedade capitalista apontaria menos na direção de uma reconstituição da “totalidade” dos processos sociais, conforme sugere a tradição lukácsiana, e mais na de sua decomposição, na análise de cada um dos elementos e formas que invertem, mistificam e distorcem a realidade concreta. Essa leitura, que trouxe inúmeras implicações para as reflexões adornianas da “dialética negativa”, também está presente em suas reflexões a respeito da literatura e da prática da crítica literária. Seus escritos são constantemente acusados de obscurantismo, mas obscuras são as próprias formas sociais que eles buscam penetrar.

Para encontrar nosso caminho na obra de Adorno, assim como em outras todas as coisas importantes na vida, é preciso primeiro nela se perder. Mas não custa buscar alguma orientação. Abaixo segue um pequeno comentário sobre alguns elementos relacionados à sua crítica literária. Não se trata de esgotar esses conceitos e noções e nem de defini-los, mas de apresentar um ponto de partida para a leitura dos textos reunidos em Notas de literatura e em outros escritos sobre o tema.

Ensaio

Grande parte da obra de Adorno é constituída de ensaios. Essa forma está diretamente ligada à sua concepção de conhecimento e partilha da preocupação marxiana com o “modo de exposição”. Ela é inseparável da sua noção de “crítica”. Isso significa que para Adorno, assim como para Marx, o conteúdo daquilo que se quer conhecer não permanece ileso diante de sua forma de apresentação. O ensaio, diferente das formas científicas tradicionais, não tem como objetivo principal classificar, catalogar, registrar e descrever à exaustão seu objeto, mas interpretá-lo e aprendê-lo não em sua origem, mas em seu próprio movimento, em sua configuração. Isso não envolve, porém, um abandono da ideia de “conhecimento objetivo”. Ao contrário, a própria ideia de “objetividade” transforma-se com o ensaio. Essa forma “aberta” defendida por Adorno não constitui algo frívolo ou pouco rigoroso, mas, ao contrário, aquilo que absorve em sua forma uma reflexão sobre o próprio conhecimento, sobre os conceitos e sobre sua relação com os objetos. Trata-se de uma consciência das limitações do pensamento conceitual e do reconhecimento das resistências que o próprio objeto apresenta diante desse pensamento. O ensaio possui um elemento antissistêmico e recusa a construção conceitual fechada e ordenada – que pressupõe um mundo coerente, lógico e plenamente organizado e não um mundo contraditório como é a realidade capitalista. Nas palavras de Adorno, o ensaio reconhece o aspecto “irritante e perigoso das coisas que vivem no conceito”. Com isso, ele destrói a ilusão do mundo e do pensamento plenamente organizados. Ou seja, não se trata de “aplainar as fraturas da realidade”, mas de construir a unidade do conhecimento “a partir dessas fraturas”.

Quando pensamos em ciência, queremos segurança, desejamos garantias de validade desse conhecimento que produzimos e mobilizamos. Em tempos de fake news e “negacionismos”, o desejo de expulsar da ciência as suas próprias incertezas é ainda maior. O medo de errar, no entanto, como alerta Adorno, pode ser fatal. Seus efeitos são paralisantes.  O ensaio é um antídoto para esse medo, pois abandona essa pretensão de segurança por isso, ele segue “metodicamente sem método”. Conforme afirmava Benjamin, “Methode ist Umweg”, é desvio, é circundar. No ensaio, a ideia de verdade se transforma, pois o pensamento aceita seu próprio desamparo e abdica da certeza absoluta. Não é por outra razão que os títulos de muitos dos textos de Adorno a respeito de literatura levem as palavras “notas”, “comentários”, “anotações”, “tentativa”, como o conhecido texto sobre Fim de Partida, de Beckett, ou os ensaios sobre Proust e Kafka. O próprio título de seu livro Notas de literatura, incorpora a despretensão imanente ao ensaio, bem como Prismas. Crítica cultural e sociedade contém igualmente esse aspecto “prismático” relacionado ao ensaio de refração, dispersão, decomposição e desvio.

O ensaio transforma também a própria noção de conceito. Com isso, ele abre espaço também para a inclusão da “curiosidade” como ímpeto de investigação crítica da realidade, para o jogo, para a busca da felicidade, para a expressão do sofrimento e para a mobilização da “experiência humana individual” como fonte de conhecimento objetivo – impulso que está no cerne de Minima Moralia. Adorno dizia de Proust (sempre presente em suas reflexões sobre o tema) e de Kracauer que eram “homens sem pele” e que suas obras se constituiriam a partir de uma interioridade completamente indefesa a partir da qual se conjugariam expressão e sofrimento. Algo similar se passa com a forma ensaio: essa deixa que a experiência da coisa penetre a própria composição do texto, como alguém que, sem pele, deixa-se penetrar pelos estímulos que vem de fora.

Numa carta à Elisabeth Lenk, Adorno afirma que teria deixado de desenvolver, na segunda parte de sua Dialética Negativa, uma teoria da interpretação, mas que essa poderia ser encontrada em “O ensaio como forma”. Esse elemento é central para compreender sua crítica literária, o ensaio cria para si uma espécie de fio de Ariadne a partir do qual percorre a opacidade das formas sociais e estéticas e choca-se com ela.

Posição do narrador no romance contemporâneo

Como pensar o romance após o cinema, a reportagem, a indústria cultural? Como narrar depois que a substância da narrativa – a experiência – e seu pressuposto no romance – o indivíduo – se desintegraram? Como dar sobrevida à categoria épica da objetividade sem a unidade, ainda que frágil, de quem narra e com o esvaziamento do conteúdo do que é narrado? A posição no narrador no romance contemporâneo é uma posição para lá de complicada.

O narrador do romance tradicional pôde um dia começar ou terminar uma história afirmando que ela “ocorreu exatamente assim”, diz Adorno. Sua onisciência, sua unidade subjetiva garantiam a ilusão da representação. Hoje, no entanto, conforme escreve Adorno em “A psicanálise revisada”, o “eu” nada mais é do que um “sistema de cicatrizes”. Com ele, cai por terra também esta ilusão. É preciso abdicar da pretensão de criar algo “real”, o que, por outro lado, é impossível e o narrador contemporâneo vê-se diante desse paradoxo. Ele é alguém cuja unidade se estilhaçou, tentando contar alguma coisa que também não é mais.

A distância entre leitor e narrador, antes fixa, torna-se, conforme ressalta Adorno, variável como as “posições da câmara no cinema”. Isso é um sintoma de que, do lado do leitor, o problema do narrador se repete. Não é possível ser ingênua e confiar nos narradores, nem contemplar uma narrativa à distância. “Sentar e ler um bom livro” é, atualmente, manter uma atitude contemplativa diante da catástrofe, afirma Adorno, mesmo que esta seja uma imitação estética da mesma. Nem mesmo a leitora do romance contemporâneo está numa situação confortável…

É possível afirmar que grande parte da teoria literária de Adorno, especialmente no caso do romance, guia-se por esse problema. Não se trata apenas, portanto, da posição do narrador por si mesma, como se isso pudesse ser transformado numa fórmula de análise dos romances modernos, mas de uma questão mais ampla, relativa à manutenção do impulso realista inerente em um mundo no qual a própria objetividade tornou-se completamente opaca e falsa, e no qual a individualidade desintegrou-se.

Nesse sentido, é possível afirmar que Adorno esboça também uma “teoria do romance” em sua obra. Mais tímida que a de Lukács, talvez, e com ênfase nas obras modernistas, mas desdobrando o problema do romance enquanto uma forma ligada ao fim da imediaticidade sob o capitalismo. A dissolução das formas tradicionais do romance burguês – o monólogo interior (Proust/Joyce), a linguagem do Gestus (Kafka/Brecht), o silêncio (Beckett), bem como outras recusas de incorporar à forma um realismo superficial – anuncia uma transformação na épica problematizada por Adorno: o surgimento de uma epopeia negativa – a robinsonada total. Kafka, diz ele, um dos grandes representantes dessa nova fase, conta uma história na qual cada um de nós se torna um Robinson, “boiando numa jangada à deriva, carregada de objetos reunidos às pressas”.

Forma e crítica imanente

O conceito de forma é talvez um dos conceitos mais fetichizados da teoria crítica. A pergunta feita por qualquer pessoa que se depara com a obra de Adorno pela primeira vez é: mas, então, como posso eu apreender a forma de um romance ou uma obra de arte? O interessante (e o que faz sofrer) na leitura de Adorno é que não há uma fórmula para apreender a “forma”. Em que elemento “esconde-se” a forma num romance, por exemplo? Na posição do narrador? No enredo? Na construção das personagens? Na linguagem? Qual é a relação entre as formas estéticas e as formas sociais? Adorno se referia à forma enquanto “conteúdo social sedimentado”. Mas essa definição por vezes também confunde. O teor de verdade das obras de arte reside, afinal de contas, na forma de uma obra de arte ou em seu conteúdo temático?

Uma maneira de pensar a forma em Adorno é justamente o processo de “tornar-se indissociável” da técnica e de seu conteúdo “social”. É por isso que Adorno pôde reconhecer no narrador dos romances modernistas e em sua atitude hostil à representação (produzida por diferentes recursos estéticos em cada um deles) um realismo mais profundo, capaz de oferecer uma imagem da alienação da sociedade capitalista. A forma, para Adorno, não se reduz apenas ao estudo da linguagem ou da técnica estética, embora passe necessariamente por esses elementos. Trata-se de entender como essas próprias técnicas e recursos estéticos são históricos e como eles se relacionam com a realidade na qual surgiram e em diálogo com os períodos anteriores da própria arte. Uma reflexão sobre a forma passa necessariamente por isso, assim como passa também pelas questões históricas e sociais que a obra incorpora em sua construção. O conceito de forma tem a ver com o fato de que, para Adorno, uma obra de arte tem uma existência independente tanto das intenções de quem a produziu, quanto da sua recepção. Ela constitui uma “objetividade” por si mesma e enquanto tal, exige ser conhecida. Esse conhecimento tem a ver com a análise de sua forma. E essa análise, por sua vez, exige uma “crítica imanente” que parta justamente da construção, das leis internas à obra de arte para compreendê-la. Adorno escreveu em diversos momentos que as obras de arte são enigmas. Elas se fecham ao mundo exterior. Por isso, forma e ensaio também se relacionam, pois a forma é, ela própria, um exercício de apreender aquilo que na realidade resiste à representação. Nela retornam os antagonismos não resolvidos da realidade. São essas as tensões sobre as quais a crítica imanente deve se debruçar.

Referências bibliográficas
ADORNO, Theodor W. “O ensaio como forma”. Tradução de Jorge de Almeida. São Paulo: Duas Cidades/Editora 34, 2003.
ADORNO, Theodor W. “Posição do narrador no romance contemporâneo”. Tradução de Jorge de Almeida. São Paulo: Duas Cidades/Editora 34, 2003.
ADORNO, Theodor W. A psicanálise revisada. In: Ensaios sobre psicologia social e psicanálise. Tradução de Verlaine Freitas. São Paulo: Editora Unesp, 2015.
­­­­­­­­ADORNO, Theodor W. O curioso realista. Novos Estudos Cebrap, n. 85, p.5-22, 2009.
ADORNO, Theodor W. Noten zur Literatur. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 2020.
ADORNO, Theodor W. Philosophische Elemente einer Theorie der Gesellschaft. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 2008.
BENJAMIN, Walter. Ursprung des deutschen Trauerspiels. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1974.

***

Bruna Della Torre é pesquisadora do Centro Käte Hamburger para estudos apocalípticos e pós-apocalípticos da Universidade de Heidelberg e pós-doutoranda no Departamento de Sociologia da Unicamp (bolsista Fapesp), onde estuda teoria crítica, indústria cultural e agitação fascista no Brasil. Editora executiva da revista Crítica Marxista, pesquisadora associada ao Laboratório de Estudos de Teoria e Mudança Social (Labemus) e membra da coletiva Marxismo Feminista. Realizou pós-doutorado no Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada, doutorado em Sociologia, ambos com apoio da Capes, e mestrado em Antropologia com apoio da Fapesp, todos na Universidade de São Paulo. Durante o doutorado, foi pesquisadora visitante na universidade Goethe, na Alemanha, com apoio do DAAD, e na universidade Duke, nos Estados Unidos, com apoio da Capes. Durante o pós-doutorado, realizou um estágio de pesquisa na universidade Humboldt e no arquivo Walter Benjamin/Theodor W. Adorno na Akademie der Künste em Berlim com apoio do DAAD. Escreve para o Blog da Boitempo mensalmente.

1 comentário em Apontamentos sobre a crítica literária de Theodor W. Adorno

  1. Mauro Alexandre Pereira de Almeida // 24/03/2022 às 2:52 pm // Responder

    ”Desde sempre o iluminismo, no sentido mais abrangente de um pensar que faz progressos, perseguiu o objetivo de livrar os homens do medo e de fazer deles senhores. Mas, completamente iluminada, a terra resplandece sob o signo do infortúnio triunfal.” Theodor Adorno, Conceito de Iluminismo. Coleção Os Pensadores. Ed.Nova Cultural, pág 17

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