John Coltrane em quadrinhos

Luiz Bernardo Pericás escreve sobre a HQ "Coltrane", de Paolo Parisi, que narra em imagens a história do saxofonista John Coltrane, ícone do jazz do século XX

Cinco momentos da vida de John Coltrane retratados em quadrinhos | Nexo  Jornal
HQ Coltrane, de Paolo Parisi, publicada pela editora Veneta

 

Por Luiz Bernardo Pericás.

No princípio era o som. “Força criadora do céu e da terra que apenas um demiurgo pode acolher, compreender e propagar”. E no ambiente sagrado do jazz, surgia um de seus maiores nomes, uma divindade para muitos de seus admiradores. Um “homem que se torna todos os homens. Que se torna coisas. E que volta a ser som”. Este músico genial era ninguém menos que o saxofonista John Coltrane, um ícone do século XX, personagem de diversas biografias, e que, alguns anos atrás, teve sua vida narrada (de forma “ficcional”) pelo jovem quadrinista italiano (nascido em 1980) Paolo Parisi, em uma HQ intitulada Coltrane, publicada no Brasil em 2015 pela editora Veneta com tradução de Rogério de Campos.

Com um traço forte e marcante, e através de um relato não linear, cheio de idas e vindas cronológicas, o desenhista de Montepulciano (também autor de trabalhos sobre Jean-Michel Basquiat e Billie Holiday) mostra as agruras, amizades, inspirações, relações pessoais, concertos, aflições e triunfos do grande artista norte-americano que transitou pelo bebop, hardbop e free jazz (ou “New Thing”). Uma trajetória descrita a partir de uma estrutura inspirada no LP A Love Supreme (tanto o disco como o comic book tem quatro partes, “Acknowledgement”, “Resolution”, “Pursuance” e “Psalm”; o intuito do autor, assim, foi conectar a leitura diretamente à música de Coltrane).

A capa é uma reprodução estilizada da fotografia estampada no álbum Blue Train. Mas enquanto o retrato original mostra um Coltrane calmo, reflexivo, pensativo, o desenho de Parisi apresenta um músico atormentado, com os olhos arregalados e semblante apreensivo.

Para preparar esse fumetto, Parisi se baseou principalmente no livro de Lewis Porter, John Coltrane: His Life and Music, lançado no ano 2000. E em entrevistas e depoimentos do próprio Coltrane. A bibliografia de sua obra, contudo, inclui textos de muitos outros autores, como James Allen, Amiri Baraka, Vittorio Giacopini, Ashley Kahn, Eric Nisenson e Marcello Piras. Ou seja, escritores que deram contribuições importantes para se conhecer a vida desse jazzman extraordinário.

O italiano segue de maneira frenética e poética o itinerário do mestre. Filadélfia, 1949: o encontro com o trompetista Dizzy Gillespie (que procurava um novo saxofonista para sua banda), após ser apresentado por Jimmy Heath. Nova York, 1960: críticas a seu estilo na imprensa especializada… “Rasgando a tela de sua própria criação, Coltrane explode em um bizarro espasmo de surrealismo e pensamentos musicais desconexos…Agradável apenas nos escuros corredores de sua mente… Em seus solos se entrevê os vestígios da compulsão neurótica e o desprezo pelo público”. Newport, 1958: tocando no famoso festival acompanhado de Jimmy Cobb, Paul Chambers, Bill Evans, Cannonball Adderley e Miles Davis, o líder da banda. Carolina do Norte, 1936: no estado onde nasceu e quando era apenas uma criança, época em que sentiu na pele o preconceito dos brancos sulistas… os campos de algodão… a mãe tocando o órgão na igreja metodista, acompanhando o coro… as lembranças de sua cidade natal, Hamlet… depois, recordações de sua outra morada, High Point, para onde se mudou com a família… e de quando perdeu parentes queridos (pai e avós), entre o final de 1938 e o início de 1939, em um intervalo de poucos meses… iria se refugiar cada vez mais na música. New Jersey, 1964: no estúdio da Impulse Records com os colegas Elvin Jones, Jimmy Garrison e McCoy Tyner… e participando das sessões iniciais de A Love Supreme.

Na vida pessoal: em 1955, casa-se com Naima (Juanita Grubbs), sua primeira mulher (que se convertera ao islã um pouco antes). Em seguida, turnê com Miles… shows extenuantes de cidade em cidade… estafa… esgotamento físico e mental. Estudava seu instrumento por quase dez horas por dia, ouvia os álbuns de Charlie Parker e transcrevia tudo para as partituras de ouvido. E se picava: injeções constantes de heroína para aguentar o tranco. Seringas. Agulhas. E bebidas. Calafrios.

Five Spot Café, Manhattan, 1957: com Thelonious Monk…as improvisações, danças e andanças do singular pianista no palco, em torno de seu instrumento… “Monk preferia que eu aprendesse música sem a ler: ‘vá de ouvido, será melhor’. Foi quem me mostrou como tirar duas ou três notas ao mesmo tempo no tenor”…

O período na estrada…as saudades constantes de Naima…As memórias de quando se mudou para a Filadélfia, um lugar para onde diziam que ele deveria ir se quisesse se tornar um “músico de verdade”…mas o caminho até lá seria realizado no assento traseiro do ônibus, reservado para os negros, um símbolo da segregação racial da época. New York, 1958: a vida com a esposa e a filha dela, Syeeda, a qual Coltrane adotou como sua (os três haviam se mudado para lá dois anos antes).

Em março de 1959, a primeira sessão de Kind of Blue, o renomado disco de Miles. E no mesmo ano, uma resenha de Nat Hentoff: “Existem vários bons saxofonistas com uma ampla gama de sons. O que faz de Coltrane algo diferente é o controle da força em todas as extensões, o que lhe custou sacrifícios e muitos anos de exercício. Sua tendência a não querer parar faz dele um dos músicos mais interessantes da cena do jazz. Coltrane quer romper seus próprios limites, cobra muito de si mesmo para conseguir dar um enorme presente a se público. A única coisa que se pode esperar de John Coltrane é o inesperado”.

Londres, 1965: um discurso de Malcolm X…Coltrane está lá, fica impressionado com o que vê e ouve (ainda que fosse um grande admirador de Martin Luther King). De novo na Grande Maçã, retornando a outubro de 1962: depoimento na Woodside Radio, junto com Eric Dolphy…o entrevistador comentava que Giant Steps estava sendo considerado o herdeiro de Kind of Blue…mas que Coltrane, aparentemente, mudara de estilo e sua nova fase estava sendo atacada pelos críticos…

Ao longo de vários anos, uísque… cigarros… e muita comida: ingeria compulsivamente doces, os dentes apodreciam enquanto ganhava peso. “Eu estava com dor de dente, Miles. Não conseguia pegar bem no sax”, comentou em certo momento ao amigo Davis. Um suplício tocar naquela situação. Mas também vinham os álbuns. Em 1961: Africa/Brass e Olé.

No ano de 1963, tocando no Birdland, o encontro com a pianista e harpista de Detroit Alice McLeod, com quem sente enorme afinidade musical, intelectual e afetiva. E que se tornaria sua segunda esposa (separada e mãe de uma menina, ela teria três filhos com Coltrane).

A ausência do lar…estúdios…turnês…O afastamento de Naima foi inevitável (o saxofonista sairia de casa naquele ano, mas só se divorciaria oficialmente em 1966).

Em 1967, as dores no estômago, que já vinha sentindo recorrentemente, tornam-se cada vez mais intensas. O corpo se contorcia. Suava. E, então, de volta a 26 de setembro de 1962, com Duke Ellington no Van Gelder Studio, um registro que seria lançado em álbum em fevereiro do ano seguinte.

Em 1965, por sua vez, sessões do polêmico Ascension (uma peça com duas versões, a primeira, Edition I, com 38 minutos, e a segunda, Edition II, com 40 minutos, ambas repletas de improvisações)…segundo ele, “o projeto mais ambicioso”…na banda, 11 instrumentistas…John Tchicai comentou: “It was a feast, incomparable. On the day of the recording, ecstasy and excitement were the prime movers. All of us did our very best to contribute and to carry out the few instructions the Master had given us. It was very African! Our Ancestors were definitely among us more than usual!” [Foi uma festa, incomparável. No dia da gravação, o êxtase e a emoção foram os principais impulsionadores. Todos nós fizemos o nosso melhor para contribuir e cumprir as poucas instruções que o Mestre nos deu. Foi muito africano! Nossos ancestrais estavam definitivamente entre nós mais do que o normal!] Muitos críticos se impressionaram. Um deles, Bill Mathieu disse que aquele era “possibly the most powerful human sound ever recorded” [“Possivelmente o som humano mais poderoso já gravado]. Chris Baber, por sua vez, comentou: “there is a strong case to be made that Ascension is Coltrane’s best, most coherent and clearest statement of what he felt music should be for and what it could achieve.” [há uma forte hipótese de que Ascension seja o melhor de Coltrane, a mais coerente e mais clara declaração sobre o que ele sentia que a música deveria servir e o que ela poderia alcançar]. Parte do público, contudo, não entendeu a proposta inovadora…o disco foi para as lojas no ano seguinte…um novo quinteto…apresentando-se no Village Vanguard…cansaço, vertigens, intensidade.

A vida começava a cobrar a conta. Mesmo que já tivesse abandonado o álcool e as drogas, no fim da década anterior, os anos de vício em heroína e bebida haviam sido duros. Ele parara com tudo aquilo, ainda que, segundo alguns autores, começasse a usar LSD. Ao mesmo tempo, foi se envolvendo cada vez mais com a “espiritualidade”: acreditava em todas as religiões. Era possível perceber em suas músicas as constantes buscas místicas, que passavam pelo hinduísmo, budismo, islamismo e cristianismo. A Love Supreme, Ascension, Meditations, Om, Selflessness“I know that there are bad forces, forces that bring suffering to others and misery to the world. I want to be the opposite force. I want to be the force which is truly for good” [Eu sei que existem forças más, forças que trazem sofrimento para os outros e miséria para o mundo. Eu quero ser a força oposta. Eu quero ser a força que é verdadeiramente para o bem], falou certa vez.

E o livro de Parisi continua. Harlem, 1967: na exposição “Raízes da África”, lá está Coltrane, prestigiando o evento. Permaneceria fazendo shows, ensaiando e gravando até seus últimos dias. Elvin Jones e McCoy Tyner comentaram, em conversa retratada pelo desenhista italiano, que o colega não comia quase nada naqueles tempos, mal ficava em pé. Quando retornou de uma turnê no Japão, as dores aumentaram. Mas seguia planejando os próximos projetos, como o lançamento de Expression. Ele faleceu em 17 de julho daquele mesmo ano, às quatro horas da madrugada, no Huntington Hospital, em Long Island, de câncer no fígado, aos 40 anos de idade. Muitos seriam pegos de surpresa. Não imaginavam que ele estivesse tão doente.

Ele havia dito, numa entrevista, algum tempo antes, que gostaria de se tornar um santo. E conseguiu. Pelo menos, um “santo popular”. Afinal, até mesmo uma Igreja foi criada em seu tributo, a St. John Coltrane African Orthodox Church, na Califórnia.

Coltrane foi um instrumentista e compositor prolífico. Gravou pela Prestige, Blue Note, Atlantic e Impulse, sempre álbuns ousados e provocadores. Charlie Parker e Dexter Gordon eram alguns de seus heróis. Miles Davis, que tinha uma personalidade bem distinta da sua, era considerado por Coltrane como “o professor”. Já sobre Monk, diria: “I learned from him in every way – through the senses, theoretically, technically” [Aprendi com ele de todas as formas – pelos sentidos, teoricamente, tecnicamente]. Teve como parceiros alguns dos maiores nomes do jazz do século passado. E foi autor de diversos clássicos da música contemporânea. Por tudo isso, leiam a história em quadrinhos de Parisi. E ouçam, sem falta, os álbuns de John Coltrane, esse artista genial.


***

Luiz Bernardo Pericás é professor de História Contemporânea na USP. Formado em História pela George Washington University, doutor em História Econômica pela USP e pós-doutor em Ciência Política pela FLACSO (México), foi Visiting Scholar na Universidade do Texas. Seu livro Caio Prado Júnior: uma biografia política (Boitempo, 2016)lhe rendeu otroféu Juca Pato de Intelectual do Ano e o Prêmio Jabuti de melhor biografia. Pela Boitempo, também publicou Os cangaceiros – Ensaio de interpretação histórica (2010), do romance Cansaço, a longa estação (2012) Che Guevara e o debate econômico em Cuba (2018) e a coletânea Intérpretes do Brasil: clássicos, rebeldes e renegados, organizado em conjunto com Lincoln Secco. Mais recentemente organizou e apresentou a antologia Caminhos da revolução brasileira (2019). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

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