Preta Ferreira: carne que briga por justiça e respeito

Erica Malunguinho escreve sobre como Preta Ferreira fez suas memórias da prisão se transformarem em um grito de liberdade para todas as pessoas pretas em "Minha carne: diário de uma prisão".".

Por Erica Malunguinho.

Minha carne: diário de uma prisão poderia ser um envolvente livro de ficção, mas é uma verdade crua, que apresenta vidas julgadas além dos tribunais. Assim como em Memórias do cárcere, Graciliano Ramos, também preso, narrou o tecido do conflito ideológico do Brasil àquela época e a perseguição vivida por militantes de esquerda, a obra de Preta Ferreira demarca não só posições políticas no campo ideológico, mas também o acúmulo de um país que se funda no racismo e que sempre operou numa lógica de violências e exclusões, onde a prisão, a situação de morar na rua e os tiros contra corpos negros materializam o projeto de desigualdade.

Preta Ferreira revela o que nós, ativistas, militantes e sensíveis, já supúnhamos: que a luta contra um sistema de exclusões se tornara crime. Ela registra, assim, quão importante é sua batalha por moradia como direito constitucional, fazendo disso um ato pedagógico e generoso a um Estado incompetente na resolução uma questão tão estrutural.

Minha carne, escrito em primeira e brilhante pessoa, faz do banho gelado, das instalações precárias, do alimento intragável e das situações de humilhação e subordinação características de uma casa-grande e senzala, o eco de uma artista intelectual, oriunda das terras do Nordeste brasileiro, que, apesar de economicamente empobrecido, é o crescente fértil do multiculturalismo e da inventividade. E é essa a métrica presente a cada página – ora na habilidade de sociabilidade para lidar com suas companheiras de cárcere, ora nas metáforas sobre cada canto do presídio, ora em suas poesias que transmutam aquela dura vida em um sonho de liberdade.

Eu fui três vezes ao encontro de Preta. A primeira em Franco da Rocha, quando não a vi, pois havia sido transferida para Santana. Em vez seguinte, levei comigo Nelson Mandela, em Cartas da prisão, de 1998. Choramos, rimos, proseamos e encaminhamos o que era necessário. Preta retumbava! E, contrariando estatísticas de visitação em presídios femininos, não sozinha. Ao se tornar símbolo de discussões muito presentes no Brasil – seletividade penal e crescente criminalização dos movimentos sociais –, ela carrega quem sempre nos carregou pelos caminhos da emancipação do pensamento.

De minha parte, reafirmo, sempre e de novo, meu posicionamento antipunitivista e anticárcere. Sigo lutando por uma sociedade que não necessite desses recursos para regular relações. No entanto, enquanto essa ainda é a realidade, que direitos humanos não sejam jamais negociados.

Somos sujeitas, protagonistas de nossas histórias, como nos trouxe Lélia Gonzalez. A prisão de Preta, para o sistema carcerário, deveria ser apenas mais uma. Pessoas em privação de liberdade são apagadas do nome, da existência, da subjetividade; são um número de matrícula. Num país de herança colonial, uma preta presa é só uma preta presa. Janice Ferreira da Silva, a Preta Ferreira, sabia disso e pôde fazer o contrário. O que há em Minha carne são memórias vivas de uma indivíduo que se tornou muitas, um grito de “liberdade para todas as pessoas pretas”.

No dia 24 de junho de 2019, Preta Ferreira e seus familiares foram surpreendidos pela manhã por dois homens, uma mulher e um mandado de busca e apreensão. Não seria a primeira nem a última vez que Preta precisaria lidar com o abuso do Estado, e, nesse caso, nas primeiras páginas de seu diário, a artista já mostra a confiança de que o infortúnio duraria, no máximo, alguns dias. No entanto, ao contrário de suas expectativas iniciais, Preta Ferreira ficou presa injustamente até 10 de outubro de 2019.

Em Minha carne: diário de uma prisão, estão relatados os longos dias de cárcere, os processos pelos quais passou, as etapas do sistema prisional, os trâmites jurídicos, as emoções que viveu e o que ouviu de outras mulheres com quem compartilhou esse tempo. Com oscilações de humor – como medo, raiva e também inspiração –, Preta escreve e mescla sua rotina e seus pensamentos com poemas e músicas. O tom da obra remete, ainda, a um grito por justiça.

O livro conta com uma apresentação sobre a vida da cantora e com surpresas inesperadas – como quando recebeu a visita, em sua casa, da ativista Angela Davis –, além de reflexões pós-cárcere em plena pandemia. Respondendo ao processo em liberdade e obrigada a seguir diversas regras, como horário para sair e voltar para casa e compromissos no fórum de justiça, ainda há um árduo caminho até a finalização do processo: “Eu tô livre, mas continuo presa”.

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“O Estado tenta criminalizar a luta por moradia, tenta criminalizar os movimentos sociais. Após celebrar a liberdade de Preta Ferreira, devemos nos mobilizar para apoiá-la durante o julgamento. É como a própria Preta sempre diz: ‘liberdade para todas as pretas’”
– Angela Davis

“Quis o racismo estrutural brasileiro que Preta tivesse seu primeiro livro tratando da desesperança de 109 dia de prisão, tratando da máquina de moer gente que é o sistema prisional brasileiro. Seguindo lições de Conceição Evaristo, numa escrevicência para incomodar os da casa-grande de seus sonos injustos, este livro grita, assim como Preta gritou na saída da prisão: ‘Liberdade! Pretas livres!’”
– Allyne Andrade e Silva

“Não se trata de um livro, de um relato. Trata-se de um documento histórico. Um portal. A realidade vivida é apresentada por Preta de forma emocionante. Preta nos impulsiona à sabedoria e à luta diária”
– Maria Gadú

“Quando cita que não esquecerá as amigas que continuaram presas, não poderia ser diferente. Preta é acolhedora, forte, calorosa e imponente em suas convicções. E não nos separarão jamais”
– Carmen Silva

“Preta coletiviza a luta pela sua libertação pluralizando os slogans de sua liberdade”
– Revista Quatro Cinco Um

O livro de Preta Ferreira tem o prefácio de Juliana Borges e o texto de orelha de Erica Malunguinho. A quarta capa tem textos de Angela Davis, Allyne Andrade e Silva, Maria Gadú e Carmen Silva. A capa é da três design com foto de Thiago Santos.

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E-book à venda nas principais lojas do ramo:


Confira o debate de lançamento de Minha carne: diário de uma prisão transmitido pela TV Boitempo, com a participação de Juliana Borges e Allyne Andrade e Silva, mediação de Adriana Ferreira Silva.

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Erica Maluguinho é educadora, artista plástica e deputada estadual pelo PSOL, sendo a primeira mulher transexual da Assembleia Legislativa de São Paulo. É mestra em estética e história da arte pela Universidade de São Paulo (USP).

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