Orquestra Mundana Refugi: a canção do futuro no presente

As escrituras esqueceram de dizer que, na mítica Babel, ao mesmo tempo em que as diferentes línguas e dialetos introduziram a discórdia, os pedreiros na hora do descanso reuniam-se com seus instrumentos e ali os idiomas não podiam nos dividir, pelo simples fato que falávamos diretamente através dos sentimentos e emoções.

Carlinhos Antunes e a Orquestra Mundana Refugi no Sesc Consolação. Foto: Daniel Kersys.

Por Mauro Luis Iasi.

A Orquestra Mundana Refugi é uma iniciativa do músico, arranjador e compositor Carlinhos Antunes. Amigo e camarada de longa data, estudamos juntos história na PUC em São Paulo. É ele o responsável pela minha introdução ao marxismo e à militância no PCB no final dos anos 1970, além de me ajudar a conseguir meus primeiros empregos como professor.

Carlinhos Antunes já desenvolvia há muitos anos um trabalho de pesquisa musical que tem por característica navegar por músicas de várias partes do mundo, o que resultou no maravilhoso trabalho da Orquestra Mundana que se compõe de músicos de várias partes do mundo. Em contato com a assistente social e historiadora, Cléo Miranda, na cidade de Paraty no Rio de Janeiro, surgiu a oportunidade de marcar os quinze anos da Orquestra Mundana com um projeto que envolveria os refugiados em São Paulo, nas suas palavras, para “que pudéssemos ser mais solidários e acolhedores com esses povos que para cá migraram”.

Depois de meses de muito trabalho, oficinas de música e dança, debates e concertos, surgiu o projeto Refugi que em 2017 recebeu o apoio do SESC e inaugurou sua sina em uma apresentação no SESC Consolação e em seguida ganhou o registro em um CD de altíssima qualidade. Assim surgia a Orquestra Mundana Refugi com músicos da Síria, Palestina, Congo, Guiné, Irã, França, Tunísia, Cuba, Haiti, China e Brasil.

Não se trata, como poderia se supor, de uma mera junção de músicas, é algo muito mais profundo e rico do que isso. Cada referência musical de um ou outro ponto de nosso vasto mundo se mescla e se funde com as outras em uma música, diria Hegel, como uma rica totalidade de particularidades diversas, como síntese.

Foto: Daniel Kersys.

A memória afetiva de cada músico emerge atravessando fronteiras diretamente até o fundo de nossa alma levada pelo bouzouki, ou pelo kanun árabe, ou turco, através do orientalismo da cítara de martelo até nossa viola caipira e de repente é minha avó, com sua ancestralidade italiana, que está gritando no fundo do quintal de sua velha casa: “wa tuwana tafu tau kweli” em perfeito swahili ou em changana ou em árabe. E eis que aquela memória se torna minha como se minha fosse desde sempre.

Não devemos teorizar muito sobre emoções, basta dizer que aquilo que brota da orquestra, da batida da percussão, da competente vibração dos instrumentos, da garganta de onde voam as vozes nos atravessa, circula em nosso sangue até esta bomba muscular que trazemos no peito e agora são rios cruzando a África e desembocando no São Francisco até desaguar em nossos olhos salgados. Dizem que o rugido do tigre paralisa a vítima porque as ondas sonoras contraem seus estômagos, mas estes sons nos chegam como um terno abraço nos trazendo de volta uma sensação que há muito perdemos.

As escrituras esqueceram de dizer que, na mítica Babel, ao mesmo tempo em que as diferentes línguas e dialetos introduziram a discórdia, os pedreiros na hora do descanso reuniam-se com seus instrumentos e ali os idiomas não podiam nos dividir, pelo simples fato que falávamos diretamente através dos sentimentos e emoções.

Segundo dados da ACNUR, órgão da ONU para os refugiados, atingiu-se em 2017 a cifra inédita de 68,7 milhões de indivíduos que tiveram que deixar suas casas por conta das guerras, da inclemência da natureza ou pela pobreza. Destes, cerca de 25,4 milhões foram obrigados a deixarem seus países tornando-se refugiados. Um ritmo de quase quarenta e cinco mil pessoas por dia. Carregam suas poucas coisas e seus filhos, por acampamentos, trens e barcos, uma caravana de desterrados singrando o planeta que lhes nega o abraço. Não são apenas prédios que as bombas assassinas do imperialismo despejam na Síria destroem, que morteiros e misseis sionistas derrubam na Palestina. Nas ruinas, no silêncio ensurdecedor, ouvimos fantasmas de um arpa deitada que guarda uma música da infância, do primeiro amor, do beijo roubado, do livro onde se descobriram as letras e o mundo.

Foto: Daniel Kersys

Do outro lado do planeta, numa oficina, num refúgio, encontra o fantasma seus irmãos de sina e memória e ganha novamente a carne dos homens e mulheres. Não são mais as mesmas memórias que longe ficaram, renascem em outras que carregam em cada nota a voz de todas as vozes caladas pelo medo, pela fome e pela morte e as desafiam.

Marx e Engels em A ideologia alemã, ao descreverem a violenta expropriação de todas as mínimas condições de vida e de satisfação das necessidades dos trabalhadores como base para a formação do mercado mundial, diziam o seguinte:

“O proletariado [pressupõe a história universal como existência empírica prática.], só pode, portanto, existir histórico-mundialmente, assim como o comunismo; sua ação só pode se dar como existência ‘histórico-mundial’; existência histórico-mundial dos indivíduos, ou seja, existência dos indivíduos diretamente vinculados à história mundial. (A.M.)”

Karl Marx & Friedrich Engels, A ideologia alemã, p. 39. (Na edição da Boitempo, S.M. corresponde a “suprimido no manuscrito”, e A.M. corresponde a “anotação de Marx na margem do manuscrito”).

A consequência desse brutal processo de expropriação é a criação das bases para uma história mundial, de indivíduos mundiais e de uma cultura mundial. Seguem os autores argumentando que quanto mais cresce esse mercado mundial fundado na divisão do trabalho, “quanto mais o isolamento primitivo das nacionalidades singulares é destruído pelo modo de produção desenvolvido, pelo intercâmbio e pela divisão do trabalho surgida de forma natural entre as diferentes nações, tanto mais a história torna-se história mundial” (A ideologia alemã, p. 40).

O que foi previsto como devir de um modo de produção, hoje se expressa dramática e violentamente como real. Não sabemos o quanto pode tardar a passagem definitiva deste devir e a superação da ordem do capital, tornando possível que os seres humanos mundialmente conectados inaugurem a livre associação dos produtores, mas a música deste futuro já germina nos tenebrosos tempos de nosso presente e ela pode ser ouvida na Orquestra Mundana Refugi.

***

Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil e György Lukács e a emancipação humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

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