Vida e obra: o significado político de uma leitura biográfica de Marx

Autor da mais ambiciosa biografia de Karl Marx faz um panorama dos limites dos esforços biográficos existentes e discute os desafios e a importância de se fazer uma abordagem integrada da vida e obra do pensador alemão.

Por Michael Heinrich.1

Jubileus de personalidades importantes costumam encher as prateleiras das livrarias com muitas biografias. Marx, nesse ponto, não é nenhuma exceção. Depois da publicação, em 2013, de Karl Marx: sua vida e seu século, de Jonathan Sperber, veio a público, em setembro último, a tradução alemã da biografia lançada em 2016 por Gareth Stedman Jones – e isso apenas alguns dias depois do lançamento de Marx, o inacabado, de Jürgen Neffe2. Em breve, poucos dias depois do bicentenário de nascimento do autor3, irei me juntar a essa turma com a publicação do primeiro de três volumes do projeto intitulado Karl Marx e o nascimento da sociedade moderna. Biografia e desenvolvimento de sua obra.

No campo da esquerda, as biografias gozaram durante muito tempo de pouco prestígio. Quando se tratava de pessoas politicamente relevantes, levantava-se contra as biografias a desconfiança de que, à maneira de Treitschke (“os homens fazem a história”)4, poder-se-ia estar praticando uma leitura individualizada da história. E isso contrariava o que todo nós de fato sabemos, isto é, que a história é movida pela luta de classes e pela transformação das estruturas socioeconômicas. Ainda mais suspeitas eram as biografias de teóricos e teóricas de esquerda. Afinal, o que poderia haver de relevante em contar a história de vida de alguém, quando o que importa de verdade é o debate sobre sua teoria?

Esse olhar enviesado para as biografias, muito difundido, não é de todo injustificado. A grande maioria das biografias publicadas todo ano são uma mistura grosseira de fatos conhecidos, anedotas propagadas, um tanto de psicologia vulgar e outro da sabedoria própria dos biógrafos ou biógrafas. Mesmo em biografias um pouco mais sérias, falta com frequência uma distinção precisa entre o que as fontes mostram ser razoavelmente certo e o que não passa de uma suposição mais ou menos bem fundamentada. Quando já abundam biografias dedicadas a alguém, repete-se com satisfação, nas versões mais recentes, aquilo que era afirmado nas mais antigas, no que poucos biógrafos ou biógrafas se encarregam de verificar se essas afirmações, por sua vez, foram mesmo comprovadas. E assim vão se formando as lendas.

Tudo isso acontece também em muitas das biografias de Marx. Naquela escrita por Francis Wheens, publicada em 1999, o autor afirma, por exemplo, ter mostrado o lado “humano” de Marx. Mas mesmo que o livro ofereça uma leitura atraente, sobretudo para iniciantes, resta que muitas das anedotas contadas por Wheens carecem de qualquer comprovação ou são exageros totalmente fantasiosos baseados em evidências muito reduzidas. Até o final da Guerra Fria, muitas das biografias dedicadas a Marx o retratavam pessoalmente de maneira depreciativa ou elogiosa, a depender da avaliação política que se fazia de sua teoria. Com frequência, para aqueles que se posicionavam de modo crítico com relação à teoria marxiana, a pessoa Marx já parecia altamente suspeita. Marx era então descrito como uma personalidade dominante, que abusou da família e dos amigos. Inversamente, não poucos marxistas retratavam Marx como tendo sido permanentemente nobre e bondoso e como alguém que, naturalmente, sempre teve razão nos conflitos em que se envolveu.

Hoje em dia, não dá mais para ser tão tosco. Cultuar heróis saiu de moda, os ataques pessoais se tornaram mais sutis. Mas, como sempre, a vida de Marx continua servindo para sustentar julgamentos sobre sua obra. Isso se torna particularmente claro nas biografias propostas por Sperber e Stedman Jones. Em ambas, o título original em inglês é mais informativo que a versão alemã: A Nineteenth-Century Life (Sperber) e Karl Marx. Greatness and Illusion (Stedman Jones)5. Logo na introdução do seu livro, Sperber dissipa qualquer dúvida sobre o fato de que, para ele, Marx não tem hoje mais nada de importante a nos dizer. Diante isso, alguns resenhistas não deixaram de notar o fato bastante curioso de alguém escrever uma extensa biografia sobre uma pessoa cuja obra considera tão irrelevante. No caso de Stedman Jones, o julgamento não é tão radical. Concede-se certa greatness a Marx, mas, sobretudo, muita illusion6. O argumento central para os dois autores é o de que Marx e suas teorias são tão prisioneiros do discurso e das experiências de seu tempo que, no que diz respeito aos problemas contemporâneos, não se pode mais aprender muita coisa com ele. Para Sperber, as teorias econômicas de Marx se reduzem ao capitalismo do início do século XIX. Para Stedman Jones, as ideias políticas de Marx estão enraizadas na época do Vormärz, o período anterior às revoluções europeias de 1848. Mais generoso é o tratamento concedido por Jürgen Neffe. Ele sublinha em Marx os elementos que lhe parecem adequados ao presente: diante da crise financeira de 2007-2008, por exemplo, somos “lembrados da voz profética do século XIX”, que “predisse o colapso inevitável do capitalismo”. Mas Marx previu realmente o colapso do capitalismo, e se de fato o fez, tinha ele razão ao sustentar tal afirmação?

Lendo-se os três autores, tem-se a impressão de que a mensagem que eles querem transmitir está estabelecida desde o início e que a biografia de Marx serve apenas para conferir mais plausibilidade a essa mensagem. Questões deixadas em aberto, curiosidade sobre algo ainda pouco conhecido ou mesmo o simples questionar-se, como decorrência da escritura da biografia, a respeito de julgamentos anteriores, de tudo isso percebe-se muito pouco. Também os debates travados ao longo dos últimos 40 anos tanto no âmbito dos estudos históricos quanto nos estudos literários sobre os limites da escrita biográfica – algo sobre como determinadas formas de narrar imprimem um direcionamento teleológico à trajetória de vida biografada – são completamente desconsiderados nessas biografias.

Nesse meio tempo, as biografias de Marx se tornaram parte integrante do debate sobre a relevância da teoria marxiana. E dado que as biografias atingem um número essencialmente maior de leitores e leitoras que contribuições de cunho puramente teórico, não se deve subestimar seus efeitos. Somente isso já seria uma boa razão para alguém se dedicar a uma biografia de Marx, ainda que esta razão, de longe, não seja a única. Vejo pelo menos outros três motivos.

Primeiro. É certo que alguém como Marx, que intervia politicamente ao mesmo tempo em que refletia analiticamente sobre desenvolvimentos políticos e econômicos, agia sob circunstâncias bastante diferentes das que nos cercam hoje. Mas determinados problemas estruturais da sua época são muito parecidos com os atuais. Como se deve agir num sistema parlamentar no qual a esquerda radical é progressivamente marginalizada? Que configurações de alianças e quais formas de organização, e sob que condições, devem ser buscadas? De que forma deve ser feita a crítica a membros de uma aliança, o que pode conduzir à quebra de um aliança? Não é porque as respostas de Marx tenha se revelado sempre corretas que a investigação sobre essas questões se mostra útil. Ao contrário, as respostas de Marx eram não raro erradas ou questionáveis. Não obstante, elas eram via de regra bastante refletidas e essas reflexões estão disponíveis em cartas e em artigos de jornal. Vale então a pena pesquisar por meio de que avaliações e dados – presentes ou ausentes – e em função de quais interesses políticos Marx chegou a tais julgamentos. Com isso, pode-se também tirar lições úteis de respostas equivocadas.

Segundo. Ainda é difundida a ideia de que as grandes obras marxianas devem ser lidas como tratados atemporais, sem ligação com seu contexto histórico, enquanto os vários pequenos artigos de jornal escritos por Marx acabam sendo ignorados como considerações sobre questões menores do dia a dia. Um estudo biográfico que inclua também o desenvolvimento da obra marxiana pode, nesse ponto, conduzir a avaliações mais precisas na medida em que, por um lado, esclarece as circunstâncias temporais, resultantes de problemas da época, presentes naquelas grandes obras e, por outro lado, torna claro que é possível encontrar alguns tesouros analíticos na profusão de artigos de jornal e de revista deixados pelo autor. Se Marx nunca chegou a escrever seu planejado livro sobre o Estado, ele discute em incontáveis artigos problemas políticos de seu tempo. Alguns elementos dessa teoria do Estado não realizada podem ser aqui percebidos, e este não é o único proveito que se pode extrair desses artigos.

Terceiro. Ao se observar a obra marxiana como um todo, vê-se não apenas um único tronco. Antes, nota-se que essa obra é composta de uma grande quantidade de troncos: começos, interrupções e recomeços com grandes e pequenos deslocamentos. A própria tese de doutorado, de 1841, deveria constituir o pontapé inicial de uma sequência nunca escrita de estudos sobre a filosofia grega pós-aristotélica (com ligações bastante atuais com a filosofia pós-hegeliana da época). Os Manuscritos econômico-filosóficos, de 1844, deveriam inaugurar, como crítica da economia política, uma série de outras críticas (da política, do direito, da moral) que nunca os sucedeu. Marx queria expor sua Crítica da Economia Política em seis livros (capital, propriedade da terra, trabalho assalariado, Estado, comércio internacional, mercado mundial), mas somente o primeiro tomo, de 1859, que trata unicamente da mercadoria e do dinheiro, foi publicado. No prefácio do primeiro livro de O capital, publicado em 1867, Marx anunciou três outros livros que, nos 16 anos que se seguiram até a sua morte, não pôde completar – o que se deve, não em último lugar, ao fato de que Marx, nos anos 1870, mais uma vez expandiu consideravelmente o objeto de seus estudos.

Se o objetivo é entender de onde vêm esses muitos troncos, então não se pode deixar de lado a biografia de Marx. Trata-se de alguém que trabalhou não apenas como cientista, mas também como jornalista de intervenção política e como um ativista revolucionário que integrava alianças, participava da criação de diferentes organizações e se envolvia em conflitos políticos – e não só com opositores e opositoras, mas também com antigos companheiros e companheiras de luta. Essas diferentes dimensões da vida de Marx não estavam de modo algum separadas. Suas observações teóricas não constituíam uma finalidade em si; elas eram orientadas por uma práxis transformadora da sociedade e influenciaram seu trabalho jornalístico e seu engajamento político. Por outro lado, as intervenções jornalísticas e as atividades políticas não apenas provocaram interrupções do trabalho científico, elas também confrontaram Marx com novos temas e problemas, deslocando sua pesquisa e, por vezes, levando-o a estabelecer novos conceitos. Os textos marxianos são o resultado de processos intermitentes de aprendizado em diferentes níveis e que de modo algum se desenvolveram linearmente. Ao longo de seu desenvolvimento, Marx não apreendeu tudo de forma sempre melhor; por vezes, ele também se viu em um beco sem saída. Se se quiser compreender tais processos e, com isso, chegar a uma avaliação mais adequada de sua obra e seu desenvolvimento – o que se tornou possível a partir da nova base textual oferecida pela segunda versão da MEGA (Marx-Engels-Gesamtausgabe), publicada desde 1976 –, então não se pode escapar de um estudo biográfico de Marx.

Os processos de aprendizado de Marx se deram em um contexto histórico determinado e em debate com pessoas concretas. Essas pessoas desempenham em muitas biografias um papel meramente assessório. Não raro elas são observadas através das lentes de julgamentos feitos posteriormente por Marx. Quando se observa Bruno Bauer apenas a partir d’A sagrada família (1845) e d’A ideologia alemã (1845-1846), por exemplo, não se compreende de jeito nenhum como ele pode ter sido o amigo pessoal mais próximo de Marx entre 1837 e 1842, além de seu companheiro político mais importante. E pode-se entender melhor as posições de Bauer quando, além da visão marxiana de 1845, considera-se mais detalhadamente – o que não costuma ser feito – os desenvolvimentos discursivos e políticos na Alemanha entre 1835 e 1844. O mesmo vale também para a consideração de outras pessoas importantes para o desenvolvimento de Marx, tais como Ferdinand Lassalle e Michail Bakunin. As concepções políticas de ambos merecem ser observadas com mais seriedade do que, pelo menos entre marxistas, tem sido usual. As críticas de Marx nem sempre eram apropriadas, seja no nível pessoal ou no objetivo.

Para o desenvolvimento da obra marxiana, posso extrair da pesquisa feita até o momento uma primeira conclusão preliminar. Não apenas a biografia de Marx, mas também o desenvolvimento de sua obra são marcados por inúmeras contingências. Não se pode dizer de modo algum que tudo conduzisse necessariamente ao Capital como obra-prima. Caso Marx não tivesse sido obrigado a deixar Paris em 1849 e não tivesse ido para Londres, ele não poderia ter escrito O capital. Londres – o centro do mercado mundial daquela época (mercado esse dominado pelo capitalismo britânico), onde ocorriam discussões permanentes nos jornais e no parlamento sobre questões econômicas, onde se publicava a cada dia novos relatórios sobre crises econômicas, sobre a política do Banco da Inglaterra, sobre a situação das fabricas etc., e, acima de tudo, onde se encontrava o British Museum, a maior biblioteca de literatura econômica do mundo naquele tempo – Londres, pois, era o único lugar onde O capital, tal como o conhecemos hoje, poderia ter sido concebido.

Ao contrário do que se costuma supor, porém, os estudos econômicos não eram assim tão dominantes nas atividades de pesquisa de Marx a partir dos anos 1850. A discussão sobre a crítica da política e do Estado não se encontra apenas no 18 de brumário de Luís Bonaparte (1852) e em A guerra civil na França (1871), mas também na profusão de artigos de jornal e em fragmentos que só foram publicados integralmente – ao lado de estudos sobre história, etnologia, ciências naturais e, avant la lettre, ecologia – pela MEGA. A multidimensionalidade da obra marxiana também traz consigo a complexa história de seu desenvolvimento. Nas discussões sobre o desenvolvimento dessa obra, confrontam-se há várias décadas duas concepções: a hipótese da continuidade, que enxerga um desenvolvimento essencialmente contínuo desde os manuscritos de Paris de 1844 (por vezes até mesmo desde a Crítica da filosofia do direito de Hegel, de 1843), sustenta que as concepções teóricas centrais de Marx não passaram por nenhuma modificação fundamental, tendo sido apenas expandidas e aprofundadas; e a hipótese da ruptura, que enxerga um corte fundamental datado normalmente de 1845-1846, a partir das “Teses sobre Feuerbach” e de A ideologia alemã. Parece-me que nenhuma das duas teses reflete a complexidade do desenvolvimento de Marx. Seu processo de aprendizado o conduziu a um grande número de rupturas assincrônicas e a modificações conceituais de alcances bastante variados e em diferentes campos de pesquisa. Esse processo não se deixa reduzir nem a uma ideia de aperfeiçoamento contínuo nem a uma sucessão de duas ou três fases de desenvolvimento. Aquilo que Marx, no questionário respondido a sua filha, apontou como sendo seu lema de vida – De omnibus dubitandum (de tudo se deve duvidar) – também serve como divisa para o estudo da sua biografia e do desenvolvimento de sua obra.

Publicado originalmente em alemão na revista Luxemburg, n. 2/3, 2017. A tradução é de Rômulo Lima, para o Blog da Boitempo.

Em depoimento inédito (e legendado!) para a TV Boitempo, Michael Heinrich fala sobre alguns dos principais diferenciais de sua biografia Karl Marx e o nascimento da sociedade moderna. Vale a pena conferir:

Onde encontrar o livro?

Notas

1 No original em alemão, o subtítulo do texto faz uma referência indireta à vertente teórica Neue Marx-Lektüre (Nova leitura de Marx), na qual Heinrich inscreve sua produção intelectual. O jogo de palavras se dá com a expressão biographischen Marx-Lektüre, que se traduz por “leitura biográfica de Marx”. [N. T.]
2 Os títulos são traduções literais das edições publicadas em alemão. [N. T.]
3 No original, o autor se refere ao período imediatamente anterior ao 200o aniversário de nascimento de Marx, quando a edição alemã da sua bibliografia foi efetivamente lançada. [N. T.]
4 Heinrich von Treitschke (1834-1896) foi uma célebre historiador alemão cuja influência se estendeu, na Alemanha, até o início do século XX. [N. T.]
5 Em inglês no original. [N. T.]
6 Em inglês no original. [N. T.]

***

Michael Heinrich é cientista político, matemático e biógrafo de Marx. Foi professor convidado de ciência política na Universidade de Viena e na Universidade Livre de Berlim. Atualmente é professor de economia na Universidade de Ciências Aplicadas de Berlim. Editor da PROKLA (Jornal da ciência social crítica) e do site Oekonomiekritik, participa do projeto MEGA 2, um monumental esforço internacional visando à publicação das obras completas de Marx e Engels. É autor, entre outros, do prefácio à edição da Boitempo do Livro II de O capital, de Marx e dos livros Crítica da economia política: uma introdução, Uma introdução aos três volumes d’O capital de Marx. Em 2018 a Boitempo publicará o primeiro volume de sua monumental biografia intelectual e política de Karl Marx: Karl Marx e o nascimento da sociedade moderna – ambicioso projeto que comportará ao menos três volumes ao todo!

2 comentários em Vida e obra: o significado político de uma leitura biográfica de Marx

  1. flavio aguiar // 08/05/2018 às 11:28 am // Responder

    Excelente. Sugestão: divulgar no Blog a entrevista no Tutameia http://tutameia.jor.br sobre o Marx poeta e escritor, deste vosso servo da gleba… Abs., Flavio.

    >

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  2. José Augusto Nozes Pires // 08/05/2018 às 3:21 pm // Responder

    Na linha nº 73 onde se lê “intervia”, devia escrever-se intervinha. Corrigir para não difundir esse erro bastante comum.

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1 Trackback / Pingback

  1. Por que publicar uma nova biografia de Marx? – Blog da Boitempo

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