Onde e em que condições estão as crianças nas cidades? Nesses tempos e entre golpes, importa ver e falar sobre elas

Os debates e pesquisas sobre cidade e o cotidiano vivido, por vezes, como problema por tantos de seus habitantes, somente muito recentemente tem se voltado para a infância. Isso se dá de modo ainda mais lacunar quando nos referimos às crianças com pouca idade.

[Desenho de um menino, morador do extremo sul de São Paulo. Lápis de cor e giz de cera sobre papel camurça.]

Por Marcia Gobbi.

Cenas

Micael. 5 anos. Favela da Fumaça. Zona Sul paulistana. Com vagar de quem olha para não se sabe onde, o menino segue pelas ruas ora asfaltadas, ora de terra seca. Encontra pelo caminho uma poça ou outra de barro devido a água jogada por moradores e moradoras para fazer diminuir a poeira insistente que cobre móveis, paredes, pulmões, olhos. O asfalto ainda não chegou a algumas ruelas.

Rafael, 5 para 6 anos. Rua da Consolação. Área central da cidade de São Paulo. O menino rapidamente passa pela rua junto a seus colegas frequentadores de uma escola de educação infantil pública. Cantam. Farreiam. Dão às mãos uns para os outros e quase em uníssono vão deixando suas marcas nos mais variados sons esparramados pelas ruas, confundindo-se com os demais da urbana cidade.

No alto de seus cinco anos Pedro costuma circular na região central da cidade onde passou a viver próximo ao Parque da Luz, na ruazinha que desemboca na lateral da Estação da Luz, da CPTM. Edifício imponente cuja inauguração data dos primeiros minutos do século XX. Com matéria prima inglesa, fazia pensar, pelo estilo arquitetônico, que as pessoas nem estavam em São Paulo, segundo relatos de alguns viajantes. Hoje a construção permanece e o entorno mostra crescente números de moradores na rua e nos faz pensar: estamos em São Paulo. A praça, próxima a estação de trem, e o que resta de seus brinquedos revelam, até aos olhos menos avisados, os poucos Pedros que circulam por lá e se misturam à paisagem, por vezes, à procura por um lugar disputando-o com adultos e adultas e outras crianças tão pequenas, ou, nem tanto quanto ele.

Num bairro distante da Sé, lá no Itaim Paulista, vê-se uma luta constante entre profissionais da educação infantil pública por ocupar uma praça com as crianças, quem sabe aventando a possibilidade de contrariar o destino que lhes fora predestinado há várias gerações. Poder público que insiste em afirmar, na prática, que esse lugar não é para a infância, em especial dos pequenos e o deixa à mingua e à toda sorte de pessoas, num leque amplo que abriga de usuários de drogas a senhoras que transitam diariamente com passos aligeirados carregando sacolinhas de compras para sustento das casas e de bocas ávidas pelo alimento de corpos e almas.

*

As cenas descritas resultam de observações levadas a cabo ao longo dos últimos tempos. Andamos, entre outros motivos, para ver e ao andar por diferentes regiões da cidade, com olhos acurados é possível observar e considerar o visível e o invisível em uns e outros trechos percorridos. O que e quem está em determinados espaços ou lugares? Perguntas cujas respostas podem indiciar questões fundantes quanto a composição da cidade concernentes a classe social, raça, etnia, gênero e aqui pretendo reparar as faixas etárias, e nelas as crianças. As cenas orientam a escrita desse ensaio, a qual, poderia afirmar, foi realizada diante de um turbilhão de diferentes acontecimentos que nos passam a sensação de estar dentro de um furacão de ordem política que parece nos deixar sem saídas, sobretudo ao considerarmos as soluções dadas à certas questões sociais e políticas que ressaltam apenas o poder judiciário, pelo menos em médio espaço de tempo, desconsiderando instâncias tradicionais nos processos decisórios e mais, apoiando-se em intervenções militares como forma de minimizar os problemas e enfraquecendo as forças democráticas. Relações cada vez mais embrutecidas se espraiam ferindo direitos trabalhistas e conquistas dos trabalhadores. Atingem diferentes grupos e setores da sociedade em prejuízo a todos e numa demonstração de que não cumprimos boa parte das promessas modernas, como afirma Boaventura de Sousa Santos, em Esquerdas do mundo, uni-vos!. Em meio a tamanha urgência de lutas e resistências críticas tomo, nesse ensaio, o desejo de acrescer mais um elemento/problema objetivando provocar a pensar em um determinado grupo, que como outros, está afastado dos processos decisórios e das preocupações relativas às políticas públicas, mas bastante implicado a seus resultados, trata-se das crianças e numa questão específica, sua relação com a cidade. Longo processo histórico de segregação, desqualificação de práticas sociais e de suas vozes, hierarquização de relações que engendram o lento aprendizado da subalternidade por muitos grupos sociais e por caminhos nos quais a infância também está incluída, ou, podemos dizer, encontra-se também entre muitos excluídos que passam por processos semelhantes. Desse modo, ao chamar a atenção para a infância pretendo incluir as diferentes infâncias compondo o concerto das desigualdades, mas também da diferença, objetivando fazer vir à tona algumas questões que, por vezes, passam ao largo de nossa compreensão quando essa se encontra bastante concentrada no universo adulto e seus desígnios.

Medo. Disputas. Ruas. Desigualdade. Adultocentrismo. Segregação. Privatização. Espaço público. Todos esses conceitos e noções encerram questões também relacionadas às crianças as quais gostaria de colocar a lume. Contudo, por não caber nos limites do que aqui chamo de ensaio, um muito pequeno ensaio, não tomarei para mim essa tão árdua tarefa para a qual são necessários tempo e afinco. A partir de observações do e no cotidiano temos fios condutores de reflexões de uma pesquisadora-professora paulistana que se propõe a conhecer, refletir e reconhecer alguns espaços buscando os usos da cidade de São Paulo, colocando em destaque as presenças e ausências de um grupo frequentemente desconsiderado: as crianças, e desde os bebês. Esses últimos por sua condição de não falantes são considerados ainda mais desqualificados à participar e não encontramos formas respeitosas de modo a que deixem suas marcas nos processos de decisão. As crianças acabam por constituir grupos disputados, por vezes exaltados em diferentes campos, por outras, omitido quanto a políticas públicas para a cidade, seja envolvendo escolas, seja na relação com o entorno. Entre algumas das propostas recentes pode-se considerar o envolvimento com processos, por vezes velados, de privatização do ensino público, em todos os níveis, num grande leque que abarca a terceirização de creches e pré-escolas, força a grandes corporações supostamente preocupadas com o ensino, crianças e juventude, isso para escrever o mínimo. Ao mesmo tempo vimos crianças encapsuladas em diferentes shoppings onde vagarosamente aprendem a arte do consumo, ao mesmo tempo, em que num breve percurso e em distintos bairros podemos encontrar praças e seus brinquedos descuidados, ora pouco frequentadas pelas crianças, ora, entre grades e fortemente zeladas por suas babás, numa alusão possível à prática inspirada no modo casa grande e senzala de tratamento ao outro. Sendo assim, nesse cenário, faz-se necessário afirmar que é preciso falar sobre elas e com elas, sobretudo no contexto político em que estamos vivendo.

Sabe-se que a cidade é produtora e produto de segregação social, racial, econômica, de gênero, mas resta ainda nos debruçarmos em reflexões sobre as segregações e o apartar das crianças de inúmeros espaços urbanos, ao mesmo tempo em que são confinadas a outros. Isso ganha tonalidades ainda mais fortes deixando antever um processo de rupturas políticas, com caminhos ainda desconhecidos, na construção de um autoritarismo que se faz valer, entre outras formas, calando vozes, o que não é novidade entre nós, ou aprimorando suas formas de combate às lutas sociais, criminalizando-as, associando a isso uma forma aparentemente sutil de apagamento de nossas memórias social e histórica. Considerando isso, é desse contexto que gostaria de aproximar-me, e ao leitor, de temática sobre a qual ainda carecemos de pesquisar e discutir: as crianças, desde tenra idade e suas distintas práticas sociais nas grandes cidades. Onde e em que condições elas estão vivendo sem esquecer dos diferentes contextos sociais, econômicos da constituição dos bairros? Ainda mais, como estão construindo a si e a própria cidade onde vivem? Quais marcas têm sido deixadas por elas? Preocupa, e muito, compreender as crianças nesse processo, não por acreditar que são o “futuro do país”, tese tão justamente refutada, mas pela inquietação causada devido ao processo de apagamento de suas falas e pontos de vista hoje, o que, seguramente, implicará noutros apagões ou manifestações futuras. Alguns dirão tratar-se de composição de grupos invisíveis, outros afirmarão que são invisibilizadas cotidianamente. Afirmo aqui a urgente necessidade de considerar e valorizar a escuta e a fala de todos, assim sendo, defende-se aqui a oportunidade de pensar que nada há de natural na ausência das crianças com seus corpos e vozes na cidade, ou em sua presença explorada em distintas formas que envolvem a todas, indiscriminadamente como consumidoras e consumidas em processos extorsivos que fundamentalmente não as reconhecem como criadoras, capazes e donas de vozes que nos apresentam também uma pluralidade de lugares de fala, como oprimidas, assujeitadas, mas também agentes, compondo-se em diferentes formas nas estruturas de poder e de opressão num universo com primazia adulta, cujo discurso ignora sua imaginação, suas propostas e modos de ver espaços e lugares onde vive e cria. Ainda mais, seus direitos, deixando-os atrelados àqueles dos adultos, já tão esgarçados ultimamente. Urge falar sobre elas e com elas, nesse momento em que temos como tarefa desenhar formas de pensar politicamente que se contraponham a modos autoritários de governar, ou a um fascismo renovado, que se apresentam diariamente diante de nossos olhos e, quem sabe, nos engajarmos em frentes que discutam e disputem projetos de caráter coletivo e inclusivo. Ou seja, propondo que se avance nas discussões sobre segregação social e urbana considerando as diferentes infâncias que ocupam – visível ou invisivelmente – as cidades. Meninas e os meninos são ou podem ser bem-vindos, com suas vozes, sua imaginação, seus pontos de vista, suas sugestões, seus corpos, e desde que nascem.

Busca-se, a cada passo dado, encontrar as crianças, ainda que na ausência, representadas em diferentes espaços e contextos. Afirma-se sim, que são agentes e, como tal, estão presentes, mesmo em pequenas brechas, nas transformações mais recentes que envolveram mudanças nas cidades e que têm mostrado suas presenças ainda que por detrás de um véu camuflante que ao longo da história, mesmo com a descoberta do sentimento da infância, vem obliterando nossos olhares e nossas práticas e investigações acadêmicas que considerem as crianças como sujeitos de direitos e esses extensivos aos direitos à cidade.

Os debates e pesquisas sobre cidade e o cotidiano vivido, por vezes, como problema por tantos de seus habitantes, somente muito recentemente tem se voltado para a infância, isso se dá de modo ainda mais lacunar quando nos referimos às crianças com pouca idade. A centralidade das relações sociais, concentrada sobremaneira no universo adulto, ainda preponderantemente masculino, fez com que ignorássemos conhecimentos, práticas sociais, modos de compreender e se relacionar com o mundo e suas distintas faces, quando elaboradas e apresentadas pelas crianças, sendo maior nossa ignorância quanto menor a faixa etária de meninos e meninas. Em discussões, tão importantes que têm precedência nas investigações sobre financiamento urbano e recursos, nos usos da cidade e suas áreas em constantes disputas, esquecemo-nos das meninas e meninos que as constroem, ainda que de mãos dadas com adultos familiares ou não, de cujas vozes, ao serem também caladas – silêncio que recebe matizes diferentes segundo gênero, classe social, raça, etnia – levam-nos ao desconhecimento sobre quem fala ou quem se manifesta de modo desafiador usando outras linguagens menos comuns à fácil compreensão dos adultos ou de discursos já previamente aceitos ou padronizados. Nos silenciamos ao longo do tempo o que promove confusões sobre os lugares da infância e, o pior, podem encerrar concepções essencialistas e naturalizadas que não correspondem às crianças que se apresentam diante de nossos olhos diariamente. Crianças estão, a seu modo, e dentro de muitos limites, conquistando e construindo suas vidas nos lugares onde moram. Andando a esmo em pracinhas desertas desde o bairro da Luz, como o menino Pedro aqui mencionado, enfornados em transportes escolares que mais explicitam que os desgovernos não garantem que andem sozinhos e sozinhas pelas ruas apropriando-se da cidade, do que a necessidade de cumprir longas distâncias entre casa e escola; encerradas entre muros em condomínios fechados vão aproximando-nos de entendimentos de que o viver junto nem é tão junto assim e que a segregação espacial, a espoliação urbana apartam as crianças dos espaços públicos e, afirmo, isso não se dá apenas devido a fragilidade relacionada à idade ou dependência dos adultos responsáveis. As vidas das crianças não escapam da precarização das relações sociais, econômicas, políticas e impulsionam a pensar sobre possíveis processos de emancipação com a criançada, o que urge, sobretudo, em momento histórico em que nos restam poucas ou nenhuma expectativa de transformações sociais substanciais em que se vê, de modo agudizado, a permanência e o aumento de processos de exploração e dominação, nos quais as crianças são tidas como meros alvos de políticas inócuas. Num momento em que caminhamos entre golpes que apresentam práticas políticas de reforço a acumulação de capital e, com isso, intensificam a expropriação dos direitos de todos, as crianças não ficariam de fora. Assim sendo, é preciso pensar sobre e com elas.

É necessário considerar e afirmar que há uma espacialidade que torna onipresente o masculino/adulto nas cidades em que predomina um discurso de negação de gêneros, contudo, não nos forçamos a pensar que essa negação se dá também em doses diferenciadas e reforçadas quando temos crianças e talvez com acento quando se trata de meninas, ocupando ou desocupando espaços e lugares em distintas regiões citadinas. Produção cultural de uma determinada época e grupos sociais, suscetível de alterações, é premente refletir sobre as crianças nessa produção/criação de cidade, ao mesmo tempo em que importa pensar sobre a cidade que tem sido feita para elas, colocando-se a questão do por que as cidades não são pensadas e criadas com as crianças. Cidades são espaços privilegiados para produção e circulação de poder, assim sendo, a criançada se vê posta fora desse lugar como se as relações com as crianças não fossem hierarquizadas, com base no poder exercido pelo adulto. Vale refletir sobre a presença da infância em contextos urbanísticos e se as crianças se encontram setorizadas com seus corpos vagarosamente apagados e suas manifestações expressivas em vias de silenciamento. Se podemos compreender a cidade como tessitura que muito pode nos contar pelas paredes de pontes e edifícios, jardins, calçadas e praças sobre as relações estabelecidas entre aqueles que nela vivem, torna-se crescente a indagação sobre o que nos contam sobre as crianças. Há conteúdos que nos trazem informações em toda sorte de lugares. Onde estão aqueles criados por meninos e meninas em marcas infantis – mas não infantilizadas – deixadas pelas cidades? Anuncia-se, como forma inicial de responder à pergunta tão matizada, que há uma rica, porém, obstaculizada, capacidade das crianças, ainda que não falantes, de apresentar suas complexas capacidades de manifestar-se e a seus modos de compreender o mundo, de influenciar as decisões políticas e lograr seus direitos a vingar em projetos emancipatórios de sociedade. Assim sendo, é preciso pensar sobre e com elas.

Ao andar por ruas e praças da cidade de São Paulo e em diversos centros urbanos podemos observar, com generosa atenção, distintas temporalidades e gerações na cidade. Somam-se a urgência de se pensar sobre os meninos e as meninas em diferentes espaços e que permitem visualizar infâncias que insistimos afirmar invisíveis. A pergunta é: aos olhos de quem? Que origens têm essas inexpressivas ou mesmo inexistentes preocupações com a infância? Ainda que representadas no balanço já danificado e desocupado da praça, que insistente, vai empurrado pelo vento de um lado a outro como a chamar parceiros-crianças para sua vazia jornada, as crianças estão lá, ainda que ausentes fisicamente. O que deixamos de ver ou fazemos de conta que não vimos com práticas e olhares já naturalizados em relação à sua ausência? Há uma naturalização, não somente da ausência física das crianças nos espaços públicos, mas sim uma acomodação com a inexpressiva preocupação política com as cidades e seus usos pelas e com as crianças, ainda mais, encontra-se lacunas sobre os pontos de vista das crianças em relação a seu modo de viver, de morar e relacionar-se com o espaço urbano e com os outros que estão no entorno. O fato é que nesse assunto, sempre falamos por elas, sob a alegação de sua incapacidade em fazer-se entender.

Jane Jacobs em sua obra Morte e vida nas grandes cidades apresentou preocupações em relação as crianças nos espaços urbanos. Segundo a autora que refletia sobre a questão décadas atrás, há um aprendizado e noções do mundo que são adquiridas no uso das ruas. Assim, ao segregar as crianças nos processos de socialização, são afastadas ricas oportunidades de convívio e problematizações junto ao espaço público. Christian Dunker, aproximando-se dos estudos de Tereza Pires do Rio Caldeira, apresenta em Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros o mal-estar causado pela vida em clausura em grandes condomínios, expande-se para outros espaços e relações criando vidas condominializadas, em que a convivência constante com os iguais tem gerado sofrimentos e a incapacidade de lidar com a diferença. Curioso modo de estabelecer relações entre os pares e reproduzir-se a si mesmo. Importam, e muito, esses espaços de não convívio das crianças com a diferença e os aprendizados que disto originam, privadas de relações com o diferente, supostamente estranho e amedrontador. Sob a pecha da proteção, o que resulta, certamente, é a privação. Trata-se de assunto oportuno, pois na forma como estão organizadas nossas cidades, carregadas de práticas em que a diferença se torna desigualdade, as crianças são colocadas de lado, a vida é privatizada e privada àqueles considerados incapazes. Isso aniquila, ou, no mínimo, torna mais difícil a criação de espaços, não para as crianças, mas com elas em decisões coletivas tomadas por todos, num justo acerto sobre o direito à cidade com e para as crianças. Nos anos 1970 Richard Sennett apontava para a perda do reconhecimento de universos para além daqueles em que vigoram relações pessoais. Permite perceber, cada vez mais claramente, que o que há para afora, na ordem pública, fora obliterado. Retiramo-nos ou fomos retirados do mundo de relações entre os diferentes e nos comportamos como se as agruras de um cotidiano agressivo e tirano fossem naturais.

Ao retomar as cenas aqui descritas podemos perceber que há um arranjo que passa a compor o cotidiano citadino. Faz-se necessário refletir sobre a presença ou a ausência das crianças na cidade quando percebemos sensivelmente que isso altera a paisagem ou a perspectiva de relações, ao mesmo tempo, em que, seja sua ausência ou presença em espaços confinados, ou ainda, em locais que colocam à tona as insatisfatórias condições de vida e abandono. O menino Pedro e tantos Pedros e Pedras insistentes no balanço da precária praça, ou a pintar os muros da parede no bairro periférico da zona leste paulistana, dissonantes, chamam a atenção, rompem com certos desígnios do dia-a-dia. Com seus ritmos e pontos de vista ainda tão pouco conhecidos por nós implicam mudanças. Esses outros com tão pouca idade e que podem alterar formas já cristalizadas de relações.

Moradia, saúde, educação, condições de trabalho compuseram pesquisas que em muito reverberam entre estudos de diferentes áreas, bem como, entre formuladores de políticas públicas preocupados com distintos segmentos que a compõem. Desvela e oculta uma multiplicidade de forças sociais que surgem e se mostram em vários grupos, às vezes, simultaneamente e com diferentes nuances de luta e reivindicações. Ao mencionar a urgência de refletir sobre as crianças nas cidades pergunto: quais os projetos de infância, de cidade e quais formas de relações sociais estão sendo evidenciados nas ruas e avenidas, nos parques e nas praças, nos condomínios, nas ocupações e luta por moradias? Onde estão as crianças em nossos projetos, nossas pesquisas? Ainda mais elas são vistas por nós em nosso cotidiano? Como meros coadjuvantes em cenário majoritariamente branco, adulto, masculino? Em que condições moram e vivem em grandes centros urbanos? Pergunta fundamental quando queremos conhece-las a partir de seus pontos de vista: como têm representado seus modos de vida? O objetivo aqui voltou-se tão somente por somar questões ao já tão grande leque de preocupações que temos quando buscamos refletir sobre cidade e seus usos. Acredita-se na importância de incluir as crianças para que desenvolvamos outras formas de pensar e se relacionar nas cidades com elas: nas ruas, em suas casas, nas escolas, creches e pré-escolas, na jornada de tantas meninas e meninos bebês e maiorzinhos que incluem em sua rotina a luta por moradia como verbo conjugado com adultos e adultas no desejo de uma forma mais digna e justa de viver e morar.

Referências:

Boaventura de Sousa Santos, Esquerdas do mundo, uni-vos!, São Paulo, Boitempo Editorial, 2018.
Christian Dunker, Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros, São Paulo, Boitempo Editorial, 2015
Jane Jacobs, Morte e vida nas grandes cidades, São Paulo, editora Martins Fontes
Richard Sennett, O Declínio do Homem Público, Rio de Janeiro, editora Record, 2016.
Tereza Pires do Rio Caldeira, Cidade de muros: crime, segregação e cidadania em São Paulo. São Paulo, EDUSP e Editora 34, 2010.

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Foi em contraponto a este processo que a Boitampo lançou o Boitatá, um selo infantil que não subestima a inteligência de seus pequenos leitores e procura estimular o questionamento e a reflexão crítica sobre o mundo em que vivem. Longe do fla-flu doutrinário, a proposta editorial do selo busca livros que façam pensar, que agucem a curiosidade das crianças, que façam elas se interessarem por novos temas e tenham vontade de saber mais, de questionar e de ir atrás das próprias respostas.

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O livro mais recente do selo é o poderoso e apaixonante Meu crespo é de rainha, de bell hooks. Nele, a feminista negra e educadora estadunidense bell hooks assina um sensível poema infantil, primorosamente ilustrado por Chris Raschka, que enaltece a beleza dos cabelos e penteados afro. Porque representatividade importa! 

 

“Com este livro em mãos, nossas crianças terão – muito mais cedo do que as da minha geração – mais ferramentas para reverter o processo histórico de invisibilidade. Percebi afeto e estímulo em cada palavra! E isso é transformador, é mágico.” – Ana Paula Xongani

A tradução é de Nina Rizzi, e a edição é de Thaisa Burani para o Boitatá!

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Espaço do leitor é destinado à publicação de textos inéditos de nossos leitores, que dialoguem com as publicações da Boitempo Editorial, seu Blog e obras de seus autores. Interessados devem enviar textos de 1 a 10 laudas, que não tenham sido anteriormente publicados, para o e-mail blog@boitempoeditorial.com.br (sujeito a aprovação pela editoria do Blog).

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Marcia Gobbi é professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. Cientista Social, mestre e doutora em Educação, é pesquisadora interessada em estudos sociais e infância, desenvolvendo atualmente investigações relacionadas a infância em luta por moradias nas ocupações em diferentes regiões de São Paulo.

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