Antônio Maria, Brasília e a cadela Laika

O que têm a ver o compositor e cronista pernambucano com o primeiro ser vivo a ser mandado para o espaço e a capital brasileira?

Por Mouzar Benedito.

O que têm a ver o compositor e cronista pernambucano com o primeiro ser vivo a ser mandado para o espaço e a capital brasileira? Nada, aparentemente.

Mas depois de reler o quadrinho Laika, de Nick Abadzis, publicado pelo Barricada (selo de quadrinhos da Boitempo), misturei a cadela, o cronista, Yuri Gagarin (primeiro cosmonauta da história), Di Cavalcanti, sexo grupal, Oscar Niemeyer e Brasília. Maluquice, né?

É que lendo a história da criação do programa espacial soviético, contada de maneira muito bonita nessa revista, eu me lembrei de quando tinha 10 anos de idade e ouvia notícias do lançamento do Sputinik (“companheiro de viagem”, em russo) pela União Soviética. Foi no dia 4 de outubro de 1957 (e é claro que esta data exata não estava na minha memória – consultei um livro!). Os Estados Unidos alardeavam que construíam um satélite para mandar para o espaço, mas quem lançou primeiro, na surdina, foi a União Soviética. Surpresa geral! O fato gerou até mudanças na política educacional dos Estados Unidos, pois atribuíram o sucesso soviético a um programa de ensino mais eficiente.

Até na cidadezinha minúscula de Minas Gerais em que eu morava, o Sputinik tornou-se assunto discutido em muitos lugares, incluindo a barbearia do meu pai, onde eu era engraxate e ouvia adultos que acompanhavam as notícias pelo rádio e, alguns, por jornais e revistas. Todos fascinados.

Um mês depois, foi lançado o Sputinik II, que levava o primeiro ser vivo mandado ao espaço, a cadela Laika. Foi e não voltou. Mas os russos não queriam só isso: decidiram mandar também um cosmonauta (a mesma coisa que astronauta – os russos preferem usar esse nome), para ir e voltar. Yuri Gagarin, no dia 12 de abril de 1961, na Vostok I, foi então o primeiro homem a ir para o espaço. E voltou mesmo! Lá de cima ele disse pela primeira vez uma frase que hoje não é novidade para ninguém: “A Terra é azul”.

Poucos meses depois, no dia 3 de agosto, Gagarin esteve no Brasil, onde foi condecorado pelo presidente Jânio Quadros. Chegando em Brasília, com seu traçado e arquitetura originais, Gagarin fez piada, disse algo mais ou menos assim: “Parece que estou em outro planeta”.

Então, juntei tudo isso com uma historinha que li num livro.

Pernambucano radicado no Rio de Janeiro Antônio Maria foi um dos principais cronistas do que muitos consideravam a “geração de ouro” dos jornais e revistas cariocas, nos anos 1950 e 60. Teve programas de rádio e compôs músicas que fizeram sucesso e até hoje gosto de ouvir, como Ninguém me ama, cantado por Nora Ney. São dele também Canção para ninar gente grande (em parceria com Evaldo Gouveia), Menino grande (também cantada por Nora Ney), Suas mãos (em parceria com Pernambuco, cantada por Maysa e, anos depois, por Caetano Veloso) e dois sambas para o filme Orfeu do carnaval (de Marcel Camus, que ganhou Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1960): a lindíssima Manhã de carnaval (que até Frank Sinatra gravou) e Samba do Orfeu.

Em 1970, foi homenageado com o show Brasileiro, profissão esperança, com textos e composições de sua autoria.

Gordo e não tão bonito, namorou mulheres belíssimas. “Tomou” até a mulher do seu patrão, Samuel Wainer, Danuza Leão. Wainer era editor do jornal Última Hora, onde Antônio Maria era colunista. Danuza, cobiçadíssima na época, disse sobre seu conquistador: “Mulato de pele clara, erra gordo, muito gordo, e de bonito não tinha nada”. Que charme ele tinha?

Era também um gozador. Carlos Heitor Cony contava que um dia Antônio Maria telefonou para ele e contou quem, indo de avião para São Paulo, viu uma mulher lendo o livro Matéria de Memórias, do escritor carioca. Apresentou-se a ela como autor do livro e ela ficou toda empolgada. Era fã de Cony, mas nunca tinha visto a cara dele. Conversa vai, conversa vem, “você foi pra cama com ela”, contou Antônio Maria. Cony ficou preocupado com a apropriação de seu nome pelo amigo para conseguir uma transa, e perguntou o que aconteceu: “Você broxou”, disse ele.

Antônio Maria morreu de enfarte poucos meses depois do golpe de 1964, em 15 de outubro daquele ano. Mas antes disso já tinha desafetos direitistas. No início dos anos 1960, escrevia no jornal Última Hora, “inimigo” da Tribuna da Imprensa do direitista Carlos Lacerda. “Empregados” de Lacerda, irritados com as críticas de Antônio Maria, um dia o pegaram e quebraram os seus dedos das mãos, para que não escrevesse mais. No dia seguinte a sua coluna desancava novamente a direita, sem citar a tortura que lhe tinham infringido, mas no final vinha a frase irônica: “Que tolos! Eles pensam que jornalista escreve com as mãos”.

Bem… entro agora no livro que citei, comprado num sebo. Grande boêmio, convivendo com músicos, políticos, mulheres bonitas e todo tipo de gente, em 1957 Antônio Maria resolveu escrever um diário, mas a experiência foi curta, só de 12 de março a 19 de abril daquele ano. Mas O diário de Antônio Maria, publicado depois, com apresentação do jornalista Joaquim Ferreira dos Santos, é revelador.

São relatos de porres, ressacas, namoros e muito mais, envolvendo inclusive gente famosa… “É um strip-tease existencial”, diz o apresentador.

Um trecho que achei muito interessante, desse diário, é datado de 13 de março de 1957. No começo desta página, assuntos de quase todas as outras: ele conta que estava exausto e deprimido, fala da mulher que estava namorando, que não queria certo tipo de comprometimento (“sou um solteiríssimo indomável”). Bebeu muito. “Aí veio o Paulinho Mendes Campos. Estava sem graça e contava histórias intermináveis. Algumas das que já me contara. Disse que uma senhora rica da UDN discutira com ele sobre mim. Dizia que eu costumava oferecer dinheiros altíssimos às mulheres. Presentes caríssimos para conquistá-las. Pobre de mim.”

Enfim, chega na parte que fez minha imaginação, puxada pela história da cadela cosmonauta, chegar a Di Cavalcanti, sexo grupal, Niemeyer e Brasília: “Veio depois o Di. Estava bêbado (menos que Paulinho). Veio de uma ‘suruba’ oferecida por Oscar Niemeyer aos arquitetos que vieram, da Europa, julgar o plano urbanístico de Brasília. Dez mulheres nuas. Di desenhou duas delas. Um desenho lindo que gostaria de ter ficado com ele […]”

O texto continua, mas paro aí. Para mim, este é o final. Glorioso, não é?

***

Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

4 comentários em Antônio Maria, Brasília e a cadela Laika

  1. Antonio Maria tem historias maravilhosas, tem uma que acho incrivel, que ele se apaixonou por uma pomba

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  2. Muito bom artigo, apenas o que eu estava procurando.

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  3. abilio carnielli filho // 24/04/2018 às 14:55 // Responder

    Mouzart sempre brilhante. Fiel às origens e dono de um humor refinado. Parabéns amigo, saudades…abração

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  4. Mouzar Benedito // 25/04/2018 às 13:16 // Responder

    Eu me lembrei agora de mais uma fala de Yuri Gagarin: “Fui ao céu e não vi Deus”

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