As minhas revoluções soviéticas

Esta crônica é uma homenagem ao Comunista Desconhecido.

Por Flávio Aguiar.

1. Na infância.

Meu primeiro envolvimento com a Revolução Soviética foi precoce. Não me recordo da idade, mas certamente eu tinha bem menos do que dez anos. Eu e minha família morávamos na rua Demétrio Ribeiro, bairro do Gasômetro, em Porto Alegre, a um quarteirão e meio do rio Guaíba, que naquela época ninguém disputava que fosse um rio. E também naquela região não fora aterrado para a construção de novos prédios de gosto duvidoso.

Na rua General Auto, uma das mais antigas da cidade, que cruza com a Demétrio, morava uma família de tradicionais comunistas, coisa de pai para filho não sei desde quando. A tal da rua homenageia um militar nascido em Porto Alegre, que lutou do lado Imperial durante a Revolução Farroupilha, José Auto da Silva Guimarães, Barão de Jaguarão. Mas na minha primeira infância eu imaginava que a rua homenageava mesmo o automóvel, que crescia em importância na cidade. Pois a família comunista gostava de comemorar o começo da Revolução de Outubro, ou melhor, da tomada do Palácio de Inverno, que ocorreu a partir da noite de 25 de outubro no calendário juliano-ortodoxo, 7 de novembro no nosso calendário gregoriano. O assalto ao Palácio do Tsar, hoje parte de um dos museus mais importantes do mundo, o Hermitage, começou a partir das dez da noite, em Moscou, quando o cruzador Aurora, ancorado nas margens do rio Neva, disparou um tiro de canhão. Era a senha para o ataque.

Pois a família comunista comemorava a data com um foguetório de ensurdecer vivo e acordar morto. Transpunham a hora de Moscou para a de Porto Alegre sem levar em conta a diferença de fuso horário. Dez horas da noite em Moscou hoje equivalem a três da tarde em Porto Alegre, pelo fuso de Brasília. É possível que houvesse alguma diferença devido às mutações de horário de verão, etc. Mas pros comunas da General Auto não importava: às dez da noite de 7 de novembro o foguetório infernal irrompia pela noite adentro. Eu não entendia o que era aquilo. Perguntei pra minha mãe, e ela me respondeu: “são os comunistas comemorando o aniversário do Prestes”. Naquela época, a resposta me satisfez. Eu já tinha ideia de que o Prestes era alguém importante. Uma prima de meu pai era casada com um ex-ferroviário e ex-comunista que se transformou em pequeno-burguês, dono de um armazém no Bairro da Assunção, onde a gente comemorava o Ano Novo com churrasco e tudo. Quando seu primeiro filho nasceu, embora já não fosse do Partido, ele lhe pôs o nome de Luis Carlos, em homenagem ao Cavaleiro da Esperança. Além disto outro primo de meu pai, o Wilson (que, aliás, foi quem me ensinou os truques de ser goleiro), trabalhou como garçom num bar que era do Partido Comunista (apesar da clandestinidade o PC tinha bar e até livraria, a Vitória, do saudoso Arnaldo Campos), no centro da cidade. Mais proleta que isto, convenhamos, impossível.

2. Na escola.

Voltei a me encontrar com a Revolução Soviética, rebatizada como “Revolução Comunista” ou “Revolução Bolchevique”, no Colégio Anchieta, onde entrei no 5* ano Primário em 1957. Fiz nele o Ginásio e o Colegial (termos daqueles tempos), este até o 2* ano dos 3 que tinha. O Anchieta, então sito em enorme e vetusto prédio de vários andares, tinha duas entradas: uma, a principal, pela Rua Duque de Caxias, no alto; a outra, morro abaixo, na rua Fernando Machado, antiga Rua do Arvoredo. Era um colégio jesuíta, e a Ordem, naquele tempo, tinha superiores extremamente reacionários no Rio Grande do Sul. Eram ferozes militantes anti-tudo que havia de bom: o getulismo trabalhista, o brizolismo idem, e, é claro, o comunismo. Havia uma revista, que recebíamos gratuitamente, “O Eco”, dirigida por um denodado anti-comunista, o Pe. Leonardo Fritzen, S. J. que, na década de 40, denunciara e polemizara com Erico Veríssimo, acusando este de ser comunista e pornográfico, termos que, aos olhos reaças de então, eram sinônimos. Nesta revista, de interesse apostólico, havia um colunista (seria Mr. Eco… a memória me trai, ou me subtrai…) que escrevia sistematicamente contra os comunistas. Seus pratos prediletos eram os republicanos espanhóis e o governo laico do PRI mexicano. Mas sobrava para os bolcheviques russos também. Ali a gente lia que os republicanos espanhóis, na Guerra Civil, violentavam freiras, invadiam igrejas, arrebentavam os sagrados tabernáculos, jogavam as hóstias no chão e as pisoteavam até que vertessem sangue (milagre! milagre!). Já os franquistas eram heróis abnegados da religião e do amor à pátria. Os governantes mexicanos perseguiam impiedosamente os padres. O livro ideal da biblioteca do Anchieta, muito boa, por sinal, era chamado de “Despistou mil secretas”, romance biográfico de Afonso de Santa Cruz sobre a vida e a execução do padre Miguel Pro, SJ, acusado – ao que parece injustamente – de participar de uma conjura para assassinar o ex-presidente mexicano Álvaro Obregón em 1927 (que terminaria morto por um ex-seminarista no ano seguinte). Quanto aos bolcheviques, faziam mister de arrebentar igrejas, despedaçar criancinhas, assassinar aristocratas (o que, pelo menos quanto à família do Tsar Nicolau II, de fato aconteceu). Toda aquela retórica anti-comunista começou a se chocar com outras percepções que me entravam pelas orelhas e pelas retinas, naquela altura nada fatigadas. Yashin, o Aranha Negra, imortal goleiro da seleção soviética de 1958, 1962 e ainda em 1966, era um dos meus ídolos, ao lado de Gilmar (titular da Canarinho em 58 e 62) e Castilho, do Fluminense, titular em 54 e reserva em 58. Idem, o goleiro Schroiff, titular da Checoslováquia em 62, goleiro de país comunista. A TV, com video-tapes a partir de 1962, nos mostrava cenas imperdíveis do Balé Bolshoi e do conjunto Beryoska, ambos russos. Em 1957 os soviéticos espantaram o mundo com o lançamento do primeiro satélite artificial, o Sputnik I, em 1957. Em seguida puseram em órbita a cadelinha Laika, também em 1957, a comunista mais simpática da década, primeira vítima sacrificial da corrida pelo espaço, posto que morreu envenenada diante da impossibilidade de trazê-la de volta. Mas houve quem considerasse a morte de Laika um exemplo da crueldade comunista. Para completar este torneio que me girava na cabeça, alguns barbudos cubanos, com a ajuda de um argentino aloprado, arrebentaram com uma das ditaduras mais cruéis do continente latino-americano, a de Fulgencio Batista, em Cuba, na virada de 1959 para 1960. E logo depois se declararam comunistas.

Ainda neste período fui assistir um filme num escritório nos altos do cinema Cacique, na Rua da Praia, que, diziam, pertencia ao Partido. O filme era sobre o Muro de Berlim, e… era a favor do Muro. Justificava a barreira dizendo que Berlim Ocidental recheava Berlim Oriental de contrabando ilegal, e que fazia propaganda nefasta para atrair cérebros (médicos, engenheiros, intelectuais, etc.) para abandonarem o “outro lado” e passarem para o “seu lado”. Lembro-me que lá encontrei algumas figuras – mais velhas, e neste tempo da vida uns poucos anos a menos ou a mais fazem toda a diferença – de quem mais tarde me tornaria amigo e até correligionário-simpatizante, embora já não no Partidão (nome que começou a ser cada vez mais usado), que eles tinham abandonado, formando a “Dissidência” e depois o POC (Partido Operário Comunista). Este foi, durante muito tempo, confundido algo injustamente com um movimento trotskista.

No embalo politizante dos anos 50 e 60 o Colégio Anchieta não fugiu ao “Zeitgeist”. Politizados (eu estava na quarta-série do ginásio), um grupo de estudantes, comigo no meio, fundou em 1961 o Grêmio Estudantil Anchieta, animados que estávamos pelo catolicismo de esquerda que levaria à fundação da Ação Popular (AP), entre 1962 e 1963. Passamos a ler livros do Padre Lebret, Theilhard de Chardin, Emmanuel Mounier, Morris West (“O advogado do diabo”, “As sandálias do pescador”), éramos fãs do padre Josaphat Marinho e do jornal alternativo Brasil Urgente. O Gêmio foi se politizando, reunindo então jovens que mais tarde se notabilizariam em diferentes correntes políticas e acadêmicas. Isto significou um empenho cada vez mais social e potencialmente socialista (talvez fosse mais adequado dizer social-democrata, mas tudo naquela época ganhava tintas extremadas). Em 1962/1963 o Grêmio se radicalizou. Eu cursava o segundo ano do curso colegial. Nesta onda virei presidente do Conselho Deliberativo e o colega e amigo até hoje Edgar Magalhães (na atualidade professor aposentado da UFMG e assessor de políticas públicas em BH), presidente. O confronto com a direção reacionária do colégio foi inevitável. No fim de 1963 fomos chamados, com mais alguns colegas, à sala do Reitor, Padre Nunes, a quem apelidávamos de “Sabonete”, por sua voz e atuação melífluas e sinuosas, mas sempre pela direita. Em suma, estávamos “convidados” a nos retirar do Colégio. Éramos “personas non gratas”. Devo dizer, a bem da biografia, que foi minha primeira expulsão de uma série de três.

Foi um escândalo. O grupo convidado a se retirar (cerca de 8 estudantes) faziam parte da nata do colégio, tendo ganho quilos das medalhas que o educandário distribuía como prêmios por boas notas a cada fim de ano. Os pais foram chamados, a secretária de Educação do governo estadual entrou na dança, houve reuniões… Finalmente, dos oito, restamos três com o “convite” renovado: eu, o Edgar e o “Gordo Raimundo” (cujo nome completo não lembro) que fora candidato a presidente do Grêmio com um programa talvez considerado como mais subversivo pela direção do colégio do que a leitura do Manifesto Comunista: Educação Sexual para todos (todos: o Anchieta, então, era exclusivamente masculino). Falou-se na assinatura de uma carta-compromisso, em que nos comprometeríamos a não nos envolver em política estudantil no próximo ano, que seria nosso último na escola. A ideia não prosperou, e acabamos saindo mesmo do Colégio Anchieta. O professor Hubertus, de Francês, que era muito conservador (votava na UDN) mas decente, vice-diretor do Colégio Júlio de Castilhos (um conhecido antro de estudantes e professores comunistas), nos conseguiu vagas de transferência (o que era difícil) e lá nos fomos, três mosqueteiros alçados a heróis exilados, para o Julinho (como era conhecido o colégio laico).

Numa das altercações deste momento, vi-me a sós com o Sabonete, o padre Reitor. Ele então me explicou, com sua voz de Cashmere Bouquet: “Flávio, vocês são bons rapazes. Mas acontece que vocês estão REIVINDICANDO (grifo dele) e REIVINDICAR É UMA TÁTICA COMUNISTA (idem) (sic)”.

Para mim, aquilo foi uma revelação uma epifania, um estalo de Vieira, uma bomba atômica na minha tranquilidade cristã: eu era comunista e não sabia!

3. Intervalo norte-americano.

Em 1964, logo depois do golpe, o destino me ofereceu a oportunidade de um exílio voluntário. Ganhei uma bolsa de estudos do American Field Service para os Estados Unidos, em Burlington, estado de Vermont, vivendo com uma família.

Lá, em relação à União Soviética, descobri outra coisa: ser comunista, além de subversivo, podia ser um crime lesa-pátria, uma alta-traição. Aprendi também uma série de lugares-comuns, alguns até acomodatícios. Por exemplo: durante a Olimpíada de 1964, a equipe norte-americana ganhou o maior número de medalhas de ouro, enquanto a hoje extinta União Soviética ganhou o maior número geral de medalhas, ouro, prata e bronze. Conclusão do meu irmão americano: “we have the best guys, they have the best team”. Era a guerra fria entre o individualismo capitalista, identificado como uma qualidade nacional, e o coletivismo comunista, também identificado como uma qualidade de nação. O Brasil era apresentado por uma edição especial do Reader’s Digest como “A nação que salvou a si mesma”, com o golpe (chamado de “Revolução”) de 64, por “não ter sucumbido ao comunismo”, coisa que me torrava a paciência. Li 1984, de George Orwell, em meio ao debate sobre se aquilo era uma obra sobre um regime comunista ou sobre a sociedade moderna de um modo geral. Li também as obras de George Kennan, teórico da Guerra Fria e da Teoria da Contenção em relação aos soviéticos.

Mas sobrevivi. Não voltei direitista, como alguns de meus colegas acabaram fazendo. Pelo contrário, voltei mais esquerdista do que nunca. Uma das coisas que me jogou mais para a esquerda foi um “diálogo” com um professor de História numa das escolas em que, como estudante do AFS, fui convidado a falar sobre o Brasil. Questionado sobre a tal de história do Brasil ter “se salvado a si mesmo”, respondi que não havia a iminência do tal “perigo comunista”. O que houvera antes de 64 fora a tentativa de construir uma sociedade mais aberta, livre da pesada influência norte-americana. De modo um tanto ríspido, o referido professor me advertiu que “nós [os EUA] jamais permitiremos isto”. Bom, olhando o Brasil de hoje, depois do golpe de 2016, pode-se dizer que ele poderia ter razão.

4. O mergulho e o salto universitário.

Agora vamos dar um salto vertiginoso, de algumas décadas, correspondente a um mergulho na Revolução Soviética. Voltando ao Brasil, entrei na universidade, no curso de Letras, em 1966. Em 1969 transferi-me para a USP. E nela fiquei, primeiro como aluno, depois como professor, até 2006. Já falei sobre estas vicissitudes em outras ocasiões.

No que nos interessa aqui, o convívio com a Revolução Soviética, ele foi muito intenso. Pela primeira vez, estudei-a de modo mais ou menos sistemático e progressivo. Valeram-me, para tanto, ensaios, literatura, cinema.

Devo dizer que houve um fio da meada: Leon Trótski. Para mim, mais que Lênin, mais que Rosa Luxemburgo, ou outros e outras. Certamente isto se deveu à sua verve literária e a um de seus principais biógrafos, Isaac Deutscher. Além da famosa a polêmica trilogia deste último, obras de Trotsky “lui-même”, como A Revolução Russa, Minha Vida, A Revolução Traída, Literatura e Revolução, dentre muitas, povoaram e iluminaram minha sala interior de leitura com alguns de seus melhores momentos. Li outras coisas importantíssimas para mim, de Marx e Engels a Gramsci e Guevara, de Ho Chi Minh a Regis Debray, e muito e muito mais. Mas nada me seduziu tanto quanto as narrativas acendradas de Trótski. É claro que algumas obras literárias me seduziram por igual, como as de Maiakovski e Brecht, de Vasco Pratolini, etc., sem falar no excelente jornalismo de John Reed. E houve o capítulo dos filmes, com destaque para Doutor Jivago, o correlato Tema de Lara, que embalou muita noite amorosa, e ainda Os dez dias que abalaram o mundo, com Warren Beatty e Diane Keaton transando ao som da Internacional. Luchino Visconti também colaborou, com muitos cineastas coadjuvantes, como Jan Kadár e Elmar Klos, diretores do extraordinário “Smrt si riká Engelchen”, “A morte se chama Engelchen”, tcheco.

Ao mesmo tempo, ao longo desta extensa trajetória, cheguei a duas conclusões vitais. Eu não era marxista, embora tenha Marx, Engels & Cia. Ilimitada em alta conta. Sou ateu, mas não praticante. O mistério do universo me faz ficar pensativo muitas vezes, olhando as estrelas tomando mate, “solito y Diós”, como dizia minha avó pampiana. Não sou comunista, embora tenha grande admiração pelos seus ideais. As realizações me provocam menos entusiasmo, sem deixar de levar em conta as dificuldades estratégicas e táticas enfrentadas, nem o impulso igualitário. Não admiro Stalin, embora lhe dê o mérito de ter derrotado os nazis. Não lhe perdoo a picareta na cabeça de Trotsky e tantas outras barbaridades. Eu me diria mais um socialdemocrata ou socialista radical, não destes muitos descorados que sobrevivem aqui na Europa remando nos fundos da canoa neoliberal.

5. A Revolução Soviética in loco.

A aposentadoria na universidade e as vicissitudes amorosas me trouxeram à Europa a partir de 2007. E também a viagens conexas. Registro duas delas, como importantíssimas para minha visão da Revolução Soviética.

A primeira aconteceu em 2007 mesmo: São Petersburgo, ex-Petrogrado e ex-Leningrado. Foi um impacto.

É uma cidade extremamente romântica. As águas do Rio Neva a cortam por todos os lados. Pontes e mais pontes. Ali cheguei à conclusão de que o que se qualifica como o “destamanho” gigantesco das construções e monumentos comunistas é, na verdade, herdeiro da arquitetura Tsarista. Coisas gigantescas, para afirmar o poder do Tsar e esmagar o indivíduo diante dele.

Mas o mais importante foi a sensação de estar respirando a atmosfera ainda prenhe da Revolução de Outubro. Visitar o couraçado Aurora, aquele do tiro que virou foguetório na casa do vizinho, ainda ancorado no Neva, hoje transformado em museu. O Palácio de Inverno, um museu extraordinário em sua imensidão. O mausoléu dos mortos em 17, com as bandeiras vermelhas eriçadas e ao vento. A casa e o escritório de Lenin, com o balcão de onde ele arengava a multidão. O trem em que ele veio da Finlândia para a estação do mesmo nome, guardado numa espécie de imensa redoma de vidro. Foi um baque no velho coração vermelho.

A outra viagem foi ao México: a casa de Trótski, na capital. Ali foi assassinado um dos gênios da Revolução. A casa é de uma singeleza total, ainda que transformada em verdadeiro bunker de proteção, que se revelou inútil. Não muito longe, fica o museu de Frida Kahlo. Coisa curiosa, mas compreensível: em nenhum dos ambientes se encontra a mais leve menção ao rumoroso caso entre os dois. A história mais revolucionária também guarda seus silêncios e socapas.

Pois é, mas Berlim também tem seus espaços soviéticos. O mais impressionante deles se encontra no parque de Treptow. É um enorme descampado, cercado por duas estátuas gigantescas (ao gosto soviético): de um lado, a Mãe Pátria (russa) e em frente a ela, o heroico soldado soviético com uma criança nos braços. Diz-se que a estátua do soldado foi inspirada em cena real, de um soldado soviético salvando uma menina alemã dos escombros da guerra. Virou uma alegoria da União Soviética salvando a pátria alemã da sandice nazista. Todos os anos, em nove de maio, ali se realiza uma cerimônia de saudação ao fim da Segunda Guerra com milhares de rosas e cravos vermelhos. Como a que se faz em 15 de janeiro no Cemitério de Friedrichsfelde em homenagem a Rosa Luxemburgo, Karl Liebknecht e outros revolucionários assassinados pelos militantes dos Freikorps, precursores dos SS e SA nazistas, em 1919. No parque de Treptow, entre as duas estátuas há uma enorme campa coletiva, onde estão enterrados aproximadamente 27 mil soldados soviéticos, uma parte dos que morreram na tomada de Berlim, em 1945. Estão ladeados por lápides de mármore, onde estão esculpidas, em alto/baixo relevo, cenas da guerra, com citações de frases de Stalin. Mesmo depois da desestalinização da URSS e da reunificação da Alemanha, foi decidido que as frases e as lápides permaneceriam: retira-las equivaleria a uma profanação. Ainda bem. Que descansem em paz.

Há outras evocações: a placa marcando o lugar onde o corpo de Rosa Luxemburgo foi jogado no Landwehrkanal; os tanques soviéticos no mausoléu na hoje avenida 17 de junho, onde estão enterrados os quase 3 mil soldados soviéticos que morreram na tomada do Reichstag. Há outras evocações não tão boas: o próprio nome desta avenida, 17 de junho, lembra a data do levante de trabalhadores em Berlim Oriental contra a ocupação soviética, em 1953, que rendeu a Bertolt Brecht um poema satírico em suas Elegias de Buckow*. E há mais, como os marcos que lembram os que morreram tentando driblar o Muro e passar para o “outro lado”.

Mas a evocação mais pungente e pessoal dos tempos soviéticos, em Berlim, se deu em conversa com um velho professor de História e militante comunista, no jardim onde estão enterradas as vítimas da repressão de 1848 e também algumas de 1919. Perguntado se ele tinha saudade do regime comunista, ele disse que não (isto em 1996, cinco anos depois da queda do Muro). Disse que o regime virara algo policialesco, mais ocupado em controlar seus cidadãos do que em combater “o outro lado”. Mas acrescentou: “eu tenho saudades dos sonhos que tive, e hoje não tenho mais”.

Esta crônica é dedicada, como homenagem, a este velho militante, o Comunista Desconhecido, cujo nome não sei, e a seus sonhos. Que eles possam renascer das cinzas em que hoje estamos mergulhados.

* As Elegias de Buckow são uma série de poemas escritos por Brecht em sua casa de campo (e de Helène Weigel), nesta cidade, perto da fronteira com a Polônia. Em particular, esta a que me refiro se chama “Die Lösung”, “A solução”, e diz, em tradução de autoria não identificada que encontrei na internet, no site “Transtrazendo”: “Depois da revolta do 17 de junho/Mandou o secretário da Associação de Escritores/Distribuir panfletos na alameda Stalin/Onde se lia que o povo/Tinha perdido a confiança do governo/E que só poderia reconquista-la/Mediante trabalho redobrado. Não seria/Mais fácil se o governo/Dissolvesse o povo/E elegesse um outro?

dossiê especial “1917: o ano que abalou o mundo“, reúne reflexões de alguns dos principais pensadores críticos contemporâneos nacionais e internacionais sobre a história e o legado da Revolução Russa. Aqui você encontra artigos, ensaios, reflexões, resenhas e vídeos de nomes como Alain Badiou, Slavoj Žižek, Michael Löwy, Christian Laval, Pierre Dardot, Domenico Losurdo, Mauro Iasi, Luis Felipe Miguel, Juliana Borges, Wendy Goldmann, Rosane Borges, José Paulo Netto, Flávio Aguiar, Mouzar Benedito, Ruy Braga, Edson Teles, Lincoln Secco, Luiz Bernardo Pericás, Gilberto Maringoni, Alysson Mascaro, Todd Chretien, Kevin Murphy, Yurii Colombo, Álvaro Bianchi, Daniela Mussi, Eric Blanc, Lars T. Lih, Megan Trudell, Brendan McGeever, entre outros. Além de indicações de livros e eventos ligados ao centenário.

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel (2012). Seu mais novo livro é O legado de Capitu, publicado em versão eletrônica (e-book). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

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