As paixões de Antonio Candido

Homenagem de Flávio Aguiar ao mestre Antonio Candido na abertura do III Salão do Livro Político

Por Flávio Aguiar.

O artigo que se segue foi preparado pelo professor e escritor Flávio Wolf de Aguiar a partir do texto-base da homenagem feita por ele a Antonio Candido de Mello e Souza na abertura do III Salão do Livro Político no dia 5 de junho de 2017. Recebida pela sua filha, Marina de Mello e Souza, a homenagem foi sucedida por uma conferência da presidente eleita Dilma Rousseff. Confira o vídeo completo da abertura ao final deste post.

* * *

Na homenagem dedicada aos 80 anos de Antonio Candido, realizada em 1998 nas dependências da antiga sede da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, na rua Maria Antonia, o professor Décio de Almeida Prado fez uma revelação que não ficou registrada no livro subsequente, Antonio Candido: pensamento & militância. Lembrando o quarteto que era parte da alma da revista Clima, Antonio Candido, Lourival Gomes Machado, Paulo Emílio Salles Gomes e ele mesmo, disse que os quatro adotaram, como apelidos, os nomes dos famosos mosqueteiros de Alexandre Dumas, Père, e que o dado a Antonio Candido era o de D’Artagnan. Não me recordo do professor Décio ter declinado os apelidos dos outros, mas conjeturo que Paulo Emilio, seria Aramis, o mais político, Lourival seria Athos e ele, Décio, Porthos. Mas isto é apenas uma conjetura. Para não cometer injustiças, deve-se lembrar que também Alfredo Mesquita, Ruy Coelho, Cícero Christiano de Sousa, junto com a ala feminina, Da. Gilda, esposa de Candido e da. Ruth, esposa de Décio, também faziam parte daquela “alma”, principal responsável pela vida da notável revista. Neste caso, Da. Gilda seria Constance Bonacieux, a amada de D’Artagnan…

Em Os três mosqueteiros, o principal protagonista é o quarto… que só vem a se tornar mosqueteiro ao final deste primeiro livro da longa série. Constance Bonacieux é a amada idolatrada de D’Artagnan, por ele tb. perdidamente apaixonada. Mas D’Artagnan guarda uma duplicidade no romance, pois também “sucumbe” aos encantos de Milady…

Antonio Candido também guardou uma duplicidade, pelo menos inicialmente, como D’Artagnan. Em sua vida – embora não no mesmo sentido do herói de Dumas Père, mas sim em relação à sua vida intelectual e profissional. Talvez uma outra anedota verdadeira possa elucidar o sentido desta duplicidade. Segundo o próprio professor Antonio Candido me contou, Fernando Azevedo, o grande Mestre de nosso grande Mestre, manifestou um temor ao seu discípulo e assistente, quando este lhe comunicou a decisão de deixar a Sociologia pela Literatura. Advertiu-lhe de que ele estava casado com aquela e nesta tinha uma bela amante. Divorciando-se da esposa para casar-se com a amante, o então jovem professor estaria arriscando perder ambas. É claro que temos de ler esta advertência dentro do espírito do tempo, logo depois do término da Segunda Guerra Mundial. Hoje, os termos usados para caracterizar o risco seriam outros, mas de qualquer modo o risco era real e a advertência era carinhosa e cheia de respeito.

Felizmente, o temor não se realizou, e o casamento entre Antonio Candido e a Literatura brindou o Brasil, a América Latina e o mundo com um dos seus maiores intelectuais do século XX e do XXI, em seu começo, ombreando com gente, além dos outros nomes da revista Clima, citados, da estirpe de Florestan Fernandes, Ángel Rama, Northrop Frye, Walter Benjamin, para citar apenas quatro exemplos, sendo um deles sociólogo ilustre, outro um brilhante re-inventor da América Latina, amigo e correligionário intelectual de Candido, um erudito extraordinário do campo das Letras, e um letrado e filósofo que uniu, com brilho também ímpar, o fulgor e o rigor da inteligência à generosa e incansável militância pela justiça social.

Na Praça da República, a equipe da Revista Clima: Décio de Almeida Prado, Paulo Emilio Salles Gomes, Gustavo Nonnenberg, Lourival Gomes Machado e José Portinari. Ao centro, Antonio Candido. Foto: Acervo Estadão

Voltemos, momentaneamente, a D’Artagnan. Sem desmerecer os outros personagens, decididamente ele é, dos mosqueteiros, o mais apaixonado e apaixonante (isto também não é um julgamento sobre os demais mosqueteiros da Clima…). E esta – a paixão – é outra marca deste intelectual – Candido – tão identificado, com justiça, com os valores intelectuais do cerebral Iluminismo…

Identificamos várias paixões no mundo de Antonio Candido, todas elas ardentes e generosas. Para começar, citemos sua paixão pela inteligência.

A paixão pelo jornalismo de alta qualidade. Em termos de livro, Brigada Ligeira está aí para nos lembrar dela. A atividade intelectual de Candido desmente a falsa dicotomia que atribui ao texto acadêmico a profundidade, de um lado, e a chatice, de outro; e ao texto jornalístico a leveza aliada à superficialidade.

A paixão pelos estudos literários no mundo acadêmico, redigidos ou apresentados em aulas, arguições,  ou em outros espaços e meios, com rigor e erudição na pesquisa, elegância e clareza na comunicação, distante de jargões, de estreiteza pseudamente teórica, sem a adoção a-crítica de cacoetes de escolas, paróquias e modas. Ele conseguia realizar a máxima, em suas aulas e em outras intervenções, de Northrop Frye para o professor universitário, mas que poderíamos transpor para os professores de modo adequado a todos os níveis da atividade: a improvisação erudita, tão distante do círculo da desinformação quanto da quadratura da rigidez esquemática decorada e decorativa. Qualidade esta que ele compartilhava com o brilhantismo das aulas de Da. Gilda, que também tive a fortuna de acompanhar.

A paixão pelo Brasil e sua literatura, compartilhada com seu interesse ardente pelo povo brasileiro e suas manifestações culturais, manifesto naquele brilhante Parceiros do Rio Bonito, estudo lapidar e seminal sobre a cultura caipira da região. Nesta esteira ele deixou-nos monumentos memoráveis, como Formação da literatura brasileira: momentos decisivos, Literatura e sociedade, A educação pela noite e outros ensaios e tantos e tantos outros. A amplitude da visão e do coração de Antonio Candido levou-o a se empenhar pela construção de um horizonte latino-americano para a Literatura Brasileira, lado a lado e ombro a ombro com Ángel Rama e a amizade que cultivaram, que frutificou, entre outras coisas, no projeto da Biblioteca Ayacucho, na Venezuela.

A paixão pela justiça social aliada indelevelmente à democracia em todos os seus aspectos: culturais, políticos, sociais e econômicos, aborrecendo todas as formas de discriminação e injustiça, paixão que o levou ao socialismo, ao Partido Socialista, ao Partido dos Trabalhadores. Esta paixão aliou-se indelevelmente à paixão pelo compromisso com a ética em toda sua amplitude. Não quero fazer de Antonio Candido em santo, porque seria uma injustiça para com ele, mas ele foi e é dentre as pessoas que conheci, uma das que mais se aproximou do ideal do “Chevalier sans Peur et sans Reproche”, sem que isto o transformasse num santarrão – figura hoje tão comum nestes que, hoje, com uma mão brandem a luta contra a corrupção como ideal e com a outra acariciam o bezerro de ouro do arbítrio, do estado policialesco, do assalto aos diretos do povo e dos povos de forma despudorada, sem reconhecer que, como o rei do conto, estão desnudados perante o mundo inteiro.

Last but not least, mas sem pôr fim ao mundo das paixões de Antonio Candido, ressalto sua paixão acendrada pelo prazer de viver e pelo bom humor. Confidenciou-me ele, certa vez, que depois do golpe de 1964 nunca mais rira como antes. Imagino o quão delicioso ente “antes” deve ter sido, a julgar pelos exemplos de graças e ironias – jamais sarcásticas ou desrespeitosas – que pude presenciar e compartilhar com ele. Antonio Candido era dos melhores imitadores que já vi “atuar”, digamos assim, imitando de modo inigualável, colegas, estudantes, personalidades do mundo intelectual e político, o que demonstra, também, o extraordinário poder de observação que ele detinha – e inspirava.

Quero terminar estas observações – esta “Brigada Ligeira” em torno da personalidade e da persona de Antonio Candido – com uma de caráter pessoal. Com seu passamento fiquei mais órfão. Mas compartilho esta condição – além de com seus familiares – com a Universidade, o Brasil, a América Latina, o socialismo democrático – AC afirmava que o socialista sem valores liberais termina sendo despótico e o liberal sem valores sociais termina sendo reacionário – e o povo brasileiro e os povos de um modo geral. Que ele continue vivo e lembrado entre nós como o intelectual de raiz iluminista a nos iluminar com o universo generoso e vasto de suas paixões imorredouras. Muito obrigado.

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel (2012). Seu mais novo livro é O legado de Capitu, publicado em versão eletrônica (e-book). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

1 comentário em As paixões de Antonio Candido

  1. Marcos Tavares // 26/06/2017 às 14:22 // Responder

    Um homem e o tempo

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