“Na morte de Fidel” | Um poema de Boaventura de Sousa Santos

boaventura

O sociólogo e poeta português, autor de A difícil democracia: reinventar as esquerdas, escreveu um poema por ocasião da morte de Fidel Castro: “É urgente um verso vermelho, que ponha de novo em movimento os comboios da imaginação. . .”. Leia o poema integral abaixo!

Por Boaventura de Sousa Santos

Na morte de Fidel

É urgente um verso vermelho
que suspenda a animação deste desastre
pensado para durar depois do inverno

É urgente um verso vermelho
com todas as cores do arco iris
e o vento natural do universo

É urgente um verso vermelho
que ponha de novo em movimento os comboios da imaginação
azeite puro em manivelas de razão quente
o peso da história de novo levíssimo
a rodar sobre perguntas livres e ruínas vivas
a paisagem mudar primeiro lentamente
enquanto vão entrando vozes ainda submersas
e corpos mal refeitos da desfiguração da guerra e do comércio
das crateras e promoções

É urgente um verso vermelho
que desate os nós da memória e do medo
e resgate os rios da rebeldia
a palavra cristalina inabalável
inconfundível com as mordaças sonoras
à venda nos supermercados da ordem

É urgente um verso vermelho
para anunciar barco polifónico da dignidade
pronto a navegar
os rios libertos das barragens calcinadas
dos sistemas de irrigação industrial da alma

É urgente um verso vermelho
uma luz manual portátil que vá connosco
sem esperar a que virá no fundo do túnel se vier
porque a cegueira da viagem é sempre mais perigosa
que a da chegada
talvez só entrega
talvez só paragem

É urgente um verso vermelho
que trace um território inacessível
aos vendedores de mobílias espirituais
e turismo de acomodação

É urgente um verso vermelho
vinho de bom ano para acompanhar
sonhos sãos e saborosos
preparados em brasas de raiva e a brisa da alegria

É urgente um verso vermelho
sem solenidades nem códigos especiais
para devolver as cores ao mundo
e as deixar combinar com a criatividade própria dos vendavais

15 comentários em “Na morte de Fidel” | Um poema de Boaventura de Sousa Santos

  1. washington lima silva // 28/11/2016 às 22:01 // Responder

    ??????

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  2. é urgente revisitar a memória… a da história a minha e a sua poeta… muito obrigada pela imortalidade dos versos e da história vermelha das grandes revoluções… resistamos sempre!

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  3. pode começar por escrever o dito verso vermelho com o sangue das vitimas do regime castrista. Tem por lá muita tinta para escrever os seus disparates.

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    • Jose Sousa // 29/11/2016 às 17:43 // Responder

      Inteiramente de acordo. Este sr. Boaventura Santos devia ter vergonha de ter feito um poema assim em memória de um ditador. Fico á espera dos próximos versos quando morrer o líder da Coreia do Norte

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  4. Deixem-se de piadas e mostrem lá o poema

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  5. José Ramos // 29/11/2016 às 21:10 // Responder

    O Pacóvio Sorridente, para lá do horrível “kitsch”, plagia Neruda sem pudor.

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  6. Mari Santos // 29/11/2016 às 21:55 // Responder

    Belo poema. E, ao contrário das opiniões (contrárias) acima ,comparo Fidel a Sadam , a Assad e vejo ditadores sim , que conduziram seus países com mãos de ferro , mas para mantê-los coesos e impedir que sua populacão fosse explorada por povos que vivem de sugar riquezas alheias, sejam elas quais forem . Até mesmo a Rússia depois da Perestroika não conseguiu mais ser a mesma . Paises desenvolvidos vendem modelos de falsas democracias, com o sorrateiro intuito de sugar riquesas alheias . Prova disto ? Iraque dilacerado, Siria dilacerada . Promovem a deposicão de governos , fazem com que aconteca a limpeza étnica. a diversidade cultural desaparece junto com o extermínio da populacão. E lógicamente, caminhos ficam abertos para os que promoveram a deposicão dos “ditadores”.Não estou defendendo atos de crueldade , mas devemos reconhecer que Fidel soube de alguma forma , defender seu povo e dar-lhe educacão e saúde de muito boa qualidade, sem ficar refem de modelos educacinais importados , nem de laboratórios que promovem doencas para obter lucros. Pode ser que esses governos ditos ditatoriais, mas que podemos chamar de nacionalistas, desde que não sejam entreguistas ou vendidos como os tivemos neste nosso país,não tenham sido bem intrepretados por parte de seus cidadãos que por interesses próprios, ou por terem sido iludidos , os rechacaram e sofreram com isto. Antes de julgarmos, temos a obrigacão de tentar entender o que os motivou a tomar duras atitudes. Talvez seus motivos estivessem muito aquem do entendimento do senso comum, bem como de interesses particulares de outros.E não me atreveria a comparar os que citei aqui, ao ditador este sim, ditador , coreano.

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    • Mari, depois de lê-la, volto a crer que mesmo aqueles que não simpatizam com nosso ideário vermelho de igualdade, quiçá utópico entre ‘primatas superiores’, têm alguma coisa de humano em seus corações, que não cheira a ranço totalitarista nem a simples ódio fascista. É difícil, no mundo moderno, discernir entre o bem e o mal; lembro passagem do último filme de Sergio Leone (que nunca aprendeu a falar inglês, como protesto mudo por sua não aceitação de Tio Sam e seus métodos), Meu Nome é Ninguém, estrelado pelos monstros sagrados, Terence Hill e Henry Fonda, na passagem em que se encontram no bilhar e o fã incondicional do delegado Beauregard lhe conta uma estória e pede que lhe devolva o moral: um passarinho cai do ninho, no meio da neve; pipilando, uma vaca o encontra e, penalizada, joga-lhe o produto de seus intestinos, quentinho, e o passarinho fica contente; logo após vem uma raposa e se penaliza de ver o bichinho atolado, literalmente, na merda; pega-o, limpa-o, bafeja-o e, uma vez limpinho e aquecidinho, o come; o delegado não entende e cada qual segue seu caminho; no final do filme, com o delegado indo para a Europa, em navio de carga, morto (porque ambos fingiram sua morte) êle entende a símile moral da questão: nem sempre quem parece estar te prejudicando, realmente está e, em versa-vice, nem sempre quem parece estar te ajudando, realmente está; aceite, amiga, meus respeitos e meu bom dia.

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  7. Mari Santos // 30/11/2016 às 0:58 // Responder

    Corrigindo meu texto acima; 1-riqueza 2-talvez seus motivos estivessem muito alem do entendimento do senso comum 3-não sei onde foram parar os cedilhas do meu LT.

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  8. versos a um assassino. Talvez sejam por deixar Cuba na miséria. Ou entao o sr boaventura SSantos nao passa de alguém que prefere idolatrar um assassino a reconhecer que está errado. Socialismo/Comunismo falhou em todo o lado. O resto é conversa para enganar.

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  9. Mari Santos // 01/12/2016 às 16:08 // Responder

    Sr Flavio Ataliba, agradeco suas palavras. Conhecia já a história do passarinho que reviveu em condicões tão , digamos, degradantes, mas o fato é que reviveu. Muitas vezes penso que estou só, no modo de analisar fatos que ofendem a dignidade que todo ser humano deveria carregar consigo Mas não sei onde, muitos entre nós, perdem seu senso crítico, ou nunca o tiveram(?) e sua capacidade de discernir o que ou quem ,merece crédito.Prova disto , a QUASE metade da nossa populacão que votou em pessoas que não dignas da nossa confianca nas ultimas eleicões para presidente. E tambem a mesma grande parcela que acreditou que a deposicão da nossa presidente fosse para melhorar a situacão do povo brasileiro.

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  10. Mari Santos // 01/12/2016 às 16:14 // Responder

    E por favor poemas sim , muitos poemas aos que tiveram coragem para mudar as tristes realidades de seu povo e resgatar sua dignidade.

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  11. Cuba é uma ditadura? Os Estados Unidos da América são uma democracia?
    Não sei. Acho mal fuzilar pessoas em Cuba mas também acho mal matar pessoas nos EUA na cadeira elétrica. Sinceramente, não vejo qual é a diferença.

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  12. João Cunha // 05/12/2016 às 13:59 // Responder

    Este “poeta” está liru ou então está a mangar com a gente. Não há maior cego do que aquele que não quer ver, ou então lavaram-lhe o cérebro em pequenino

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  13. É urgente que não aceitemos as imposições do Estado que é formado pela burguesia que continua a nós açoitar e tema em nós deixar permanecer na censala.

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4 Trackbacks / Pingbacks

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