Atentado à democracia na Folha

souto folha

Por Jorge Luiz Souto Maior.

O jornal Folha de S. Paulo dedicou dois de seus editoriais, publicados em menos de um mês, para criticar a greve na USP. A insistência no tema é, no entanto, reveladora do quanto a ausência de conhecimento faz mal, principalmente para quem se arvora na tarefa de informar e de formar opinião. Com seus editorais a Folha apenas provou que o desprezo pela educação de qualidade gera grave dano às pessoas, às instituições e à sociedade.

No último editorial, o jornal parte do pressuposto de que os professores, alunos e servidores que não compareceram às respectivas assembleias para deliberar sobre a greve e que querem continuar suas atividades normais estão agindo dentro dos padrões democráticos, enquanto que aqueles que comparecem às assembleias, votaram ou simplesmente acataram a deliberação coletiva estão na ilegalidade e ferem a democracia.

Na concepção invertida da Folha, as formas institucionalizadas do exercício democrático não valem nada. Ah, mas “as assembleias não são representativas” e “alguns grupos dominam as assembleias”, dirão a Folha e seus correligionários silenciosos. Então, como sugere o editorial, desprezem-se as assembleias e faça-se a vontade da Folha e dos grupos a ela aliados, uma vontade que, assim, não precisa passar por nenhum debate ou crivo de votação. Qualquer semelhança com o que se passa na política nacional seria mera coincidência?

O que a Folha faz, mais uma vez em sua trajetória, é inverter o sentido da democracia, contribuindo para a difusão de práticas autoritárias. Ora, quando professores, mesmo diante de uma greve, querem continuar dando aulas, ainda mais por meios não autorizados no projeto pedagógico, reproduzem, mesmo sem intenção de fazê-lo, uma lógica autoritária, traduzida na prevalência das próprias razões. Ao considerarem que sua vontade individual vale mais que a vontade coletiva aniquilam a experiência democrática.

Mas, segundo a Folha, os “fura-greves” são democráticos e os grevistas não são. Aliás, conforme sugere o editorial, os professores que estão dando aulas por internet só o fazem porque foram impedidos, por coerção antidemocrática, de dar as aulas nas Faculdades.

Entretanto, se o coletivo deliberou pela greve, o ato de querer continuar dando aula é ilegal e antidemocrático. Assim, aqueles que tentam impedir essa atitude ilegal exercem o legítimo direito de resistência, defendendo a ordem jurídica e os princípios democráticos.

A Folha e seus aliados, de fato, desconsideram que a democracia é um preceito que requer participação pelas vias institucionalizadas, de onde se extrai, inclusive, a vontade coletivamente construída.

Dentro desse contexto, aliás, nada menos democrático do que um jornal, que não tem qualquer legitimidade para representar nenhum coletivo de quaisquer segmentos da USP, se colocar no debate dos problemas que ensejaram a greve com uma autoridade decisória, condenando e absolvendo. Dirá, talvez, que representa a sociedade, mas ao que se sabe, institucionalmente, a Folha não representa nenhum segmento organizado da sociedade. Representa apenas a si mesma e nesta condição possui, claro, todo o direito de se manifestar. O problema é que o faz com o recurso retórico de falar em nome de outras pessoas, não reveladas.

Surge, então, a grande questão a ser analisada: quais interesses impulsionam a Folha de S. Paulo nesta questão? Pode ser mera ojeriza ao instituto da greve ou aversão à classe trabalhadora, porque, afinal, sempre se manifesta dessa forma em toda greve de qualquer categoria.  Mas essa hipótese por si não explica a dedicação específica, mais intensa, que a Folha tem com a USP.

Estaria defendendo a USP e a qualidade de ensino? Pode-se aventar. No entanto, posicionar-se contra quem quer receber salário digno pelo trabalho exercido vai em direção contrária à lógica da excelência, pois sem salários dignos não se pode manter profissionais competentes, fomentando a atitude de ir buscar fontes de sustento, de forma paralela e às vezes promíscua, no setor privado, deixando em segundo (ou último) plano as atividades na universidade.

O que surge, pois, como hipótese mais provável é que a Folha fala, de fato, na qualidade e com o espírito de um ente privado, repercutindo os interesses que giram em torno da privatização da USP, que se faria também para favorecer a difusão da racionalidade ideológica de cunho liberal, que parte da necessidade dogmática de expressar a superioridade da iniciativa privada sobre a atuação dos entes públicos.

A greve, então, aparece como uma grande oportunidade para atacar professores, estudantes e servidores da USP que se dedicam a defender a universidade pública, afinal de contas esse “povo”, mesmo com toda precariedade que lhe tem sido direcionada, tem mantido a USP como a melhor universidade da América Latina.

Tentar desmoralizar a greve também é importante porque esses movimentos paredistas acabam difundindo na USP lógicas de organização coletiva, espírito de solidariedade e respeito à coisa pública. Neste aspecto, cabe lembrar que foram as reiteradas greves ocorridas na USP, sobretudo a partir de 2002, greves que estão sendo atacadas pela Folha, acusadas de serem “greves programadas”, que impediram o pleno sucateamento da instituição, preservando o padrão de eficiência da USP.

É oportuno registrar, portanto, que os grevistas (professores, estudantes e servidores) são, em geral, profundamente engajados com a busca de soluções para os problemas da USP e extremamente competentes em suas atividades, além de exemplarmente responsáveis, isto porque, para se envolverem em uma luta coletiva, enormemente desgastante, até por conta dos recorrentes ataques midiáticos, precisam ser necessariamente guiados pela ética democrática.

Aliás, um dos principais pontos que sempre impulsiona as greves é o da democratização da USP, vez que a universidade ainda conta com vários entulhos autoritários da época de ditadura e cultua fórmulas de relacionamento humano de cunho medieval, disfarçadas em mérito acadêmico. São inúmeros os processos administrativos, impulsionados por questões pessoais, contra estudantes, servidores e professores, sem falar na violência mais recente, tornada praxe com Rodas e copiada por Zago, do corte de ponto na ocorrência de greve, mesmo sem qualquer declaração de ilegalidade.

E mesmo com toda a repressão, as greves e as lutas não só impediram retrocessos como também proporcionaram avanços (ainda que tímidos) como o da maior abertura da Universidade para as cotas sociais e a adoção do Enem em algumas unidades, sendo que a pauta agora, uma das mais importantes da história da USP, que motiva, inclusive, a greve dos estudantes, é a inserção de cotas raciais. Vale lembrar, também, que na Faculdade de Direito uma nova grade curricular bem mais aberta e ligada às atividades de pesquisa e extensão foi fruto da mobilização estudantil.

Decorre desse extremamente resumido balanço é que a Folha de S.Paulo, com ou sem intenção de fazê-lo, está contribuindo para as ações que tentam destruir o que há de melhor na USP, no sentido da defesa da universidade pública, auxiliando, também, de forma reflexa, na ânsia de alguns segmentos em acabar com o pouco que se conseguiu avançar nas experiências democráticas no país nas últimas três décadas.

Referências

. Em igual sentido, editorial do Estadão, do mesmo dia: http://educacao.estadao.com.br/noticias/geral,greve-faz-professor-dar-aula-secreta-em-universidades-estaduais,10000058524, acesso em 28/06/16.

. http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2016/05/1774728-greve-na-torre-de-marfim.shtml, acesso em 28/06/16.

. http://www1.folha.uol.com.br/educacao/2016/06/1784399-greve-na-usp-faz-professor-dar-aula-secreta-e-diretor-questiona-violencia.shtml, acesso em 28/06/16.

. Vide, a propósito: http://www.cartacapital.com.br/sociedade/a-cronologia-da-crise, acesso em 28/06/16.

***

Jorge Luiz Souto Maior participou, junto com os juristas Marcus Orione, Flávio Batista e Pablo Biondi, do debate de lançamento de A legalização da classe operária, de Bernard Edelman, uma análise extemporânea de como o ímpeto revolucionário da classe trabalhadora aprisionou-se na armadilha do direito. Regulamentação da jornada de trabalho, férias remuneradas, reforma da dispensa, direito de greve, reconhecimento da organização sindical… E se todas essas históricas conquistas trabalhistas no âmbito jurídico representassem na verdade momentos fundamentais da captura política da classe trabalhadora? Confira a gravação integral do debate na TV Boitempo abaixo:

***

Jorge Luiz Souto Maior é juiz do trabalho e professor livre-docente da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). Autor de Relação de emprego e direito do trabalho (2007) e O direito do trabalho como instrumento de justiça social (2000), pela LTr, e colabora com os livros de intervenção Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil (Boitempo, 2013) e Brasil em jogo: o que fica da Copa e das Olimpíadas?. Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente às segundas.

10 comentários em Atentado à democracia na Folha

  1. Aída Paiva // 01/07/2016 às 12:37 // Resposta

    Vamos focar em: Volta, Dilma.

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  2. Ivando Bornhausen // 01/07/2016 às 16:09 // Resposta

    Folha de S.Paulo, Estado de S.Paulo, Revista Veja, presidente interino Michel Temer são apenas braços da ordem.

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  3. Antonio Elias Sobrinho // 01/07/2016 às 19:37 // Resposta

    Tenho acompanhado, com atenção, os artigos do nosso nobre articulista. Sua honestidade intelectual e sua erudição são invejáveis. A análise que faz sobre a posição da Folha, pode ser estendida para todos os órgãos da grande mídia, sobretudo da globo. Eles pertencem a pequenos grupos e representam os interesses mais mesquinhos, que se acumularam durante séculos, e que se articularam com setores privatistas e corporativos, muitos deles de origens internacionais. Por essas e outras, fica tão evidente a posição dessa gente contra todo tipo de associação e ação independente ou que ameace aqueles interesses. Nesse sentido, nada mais odioso para essa gente do que as mobilizações, organizações e ações dos setores da sociedade que se colocam na defesa dos serviços públicos e no aprofundamento da democracia.

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    • Aída Paiva // 02/07/2016 às 22:56 // Resposta

      Antonio, a forma de exploração capitalista mudou. Marx continua atual. Grande parte da mídia sofre ameaça corporal e agressões psicológicas (paranoia, angustia, dor de cabeça e vomito, sensações horríveis de morte, parece que a gente tomou alguma medicação psiquiátrica). Por favor, busque ver a realidade de forma diferente porque as coisas mudaram, essa forma de ver a realidade não está atualizada. Atualize!

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  4. Aída Paiva // 02/07/2016 às 22:22 // Resposta

    Eu penso que podemos duvidar do que está sendo apresentado. Penso que está tudo meio evidente pronto pra ser criticado e muito fácil da gente dar opiniões. O buraco é mais embaixo, senhores comentadores aí de cima.
    Eu não duvido da honestidade do Souto Maior porque cumpre o papel de analista da realidade aparente e visível.
    Eu duvido dessa realidade apresentada porque parece um teatro, parece que os participantes desse teatro têm papéis pré estabelecidos.
    Porque eu penso assim?
    Respondo: Nunca foi fácil analisar uma realidade apresentada. A realidade dos trabalhadores continua a mesma, apesar das conquistas dos governos do PT, ainda não conseguimos resolver totalmente os problemas financeiros dos brasileiros, há o problema ecológico, e a ameaça constante do retrocesso nas leis trabalhistas, etc. Porque está tão fácil analisar o que está acontecendo? Os antigos argumentos não valem mais apesar de serem de esquerda, esses argumentos não valem mais porque a representação teatral política mudou. Eu penso que a Folha não mudou, quem lembra da Folha de até 2000? O que mudou na Folha foi o jeito de se apresentar. A atitude correta em relação a esse jornal é pensar sobre o que aconteceu com a Folha? O que aconteceu com a Veja?
    A Realidade que está sendo apresentada está muito fácil de ser analisada por isso discordo que seja o que estamos vendo.

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  5. PT, LULA, DILMA, PSEUDO-INTELECTUAL:
    O PT ainda continua perfeitamente astuto e sutil, quase invisível em seu ilusionismo. Pratica qualquer NARRATIVA para estar no poder. Narrativas publicitárias e de vigilância e controle ideológico. Dentro das Universidades, nas ruas, botons, autoadesivos, blogs espertalhões, artistas puxa-sacos, discursos manipuladores, «lavagem cerebral».
       “””Golpe”””, com toda certeza, é um clichê  publicitário, é frase-pronta, imagem estereotipada e montada a priori (nessa altura, provavelmente, recomendada por algum marqueteiro, tal qual João Santana. Semelhante a ele. Senão, ele próprio): frases clichês tais quais: “Danoninho vale por um bifinho”.

    Mia, bebe leite, tudo indica que é um gato; mas o PT afirma: é um CÃO.

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    • Aída Paiva // 12/07/2016 às 13:14 // Resposta

      João, ao ler seu comentário pensei que você deve estar querendo saber o que é “pseudo-intelectual”. Pseudo-intelectual é:
      * um analfabeto que tem poder
      * pessoa que ganha um cargo e não tem os conhecimentos necessários pro cargo
      * a pessoa que através da força impõe um pensamento errado
      * a pessoa que diz ser uma coisa e é outra, diz que é direita e é esquerda, diz que é esquerda e é direita
      * pessoa que o sistema econômico convence que sabe tudo mas na realidade essa pessoa não sabe de nada
      * pessoa que estudou mas não estudou certo e acha que sabe alguma coisa
      * professores universitários incompetentes pro cargo de professor universitário [Janaína Paschoal, Raquel de Almeida Moraes, Patrícia Barroca BH (IFCH-Unicamp), Manduca (IFCH-UNICAMP)]
      * meu professor de Sociologia da Educação – Educação e Transformação Social disse uma frase sobre o que se fazia no Brasil com a “inteligenzzia nacional”. As pessoas que deveriam estar formando os trabalhadores com nível superior estão fora da universidade em sub-empregos ou desempregados ou escravos.
      João, o que escrevi pra você é o que eu acho certo. Você deve procurar outras respostas e através do que você vê na realidade você decide o que é certo.

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  6. Aída Paiva // 12/07/2016 às 13:26 // Resposta

    Penso que a gente tem que sair desse conflito golpe ou não-golpe.
    Penso que a gente tem que sair do conflito esquerda ou direita.
    Penso que a gente tem que sair do conflito Deus ou Diabo.
    Penso que a gente tem que sair do conflito Escuro ou Claro.
    Penso que a gente tem que sair do conflito Capitalismo ou Socialismo.
    Penso que a gente tem que sair do conflito PT ou PSDB.
    O que é certo? O que é justo?
    O que queremos é possível? É correto? O que nós queremos não vai prejudicar milhões de pessoas no Brasil e no Mundo?

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  7. Joao Luiz Pereira Tavares // 16/07/2016 às 3:38 // Resposta

    Golpe, mas golpe mesmo é isso aqui. Veja:

    Haddad (exemplo cabal da antiga, velha e contínua crise da USP) adora dizer que ouve “golpe”, como tantos petistas.
    Mas golpe é assim. Veja:
    GOLPE é o que está acontecendo na Turquia agora, nesse momento, dia 15, noite de sexta-feira…

    Que raiva dá do Petê, com esse papo furado de Golpe. E o povo brasileiro bundão, fracóide acredita! Farsa total do PT.

    Golpe é o que está acontecendo na Turquia. Tanque na rua. Explosões nas ruas de Istambul. Saques correndo, de dinheiro. Pedidos para ninguém sair a rua. Aí sim! Instabilidade. Toque de recolher. Lei marcial. Casos de violência. Tudo de surpresa. Vizinhos REFORÇANDO as fronteiras (atenção! Digo os países vizinhos). Tiro em pessoa na rua (pelo exército). O Itamarati brasileiro falando para os brasileiros fazer contatos com suas famílias. Redes Sociais bloqueadas. Dúvida real de quem nesse momento está no Governo… Taques juntos com os carros nas avenidas. Tiros. Confronto por várias regiões do país. O Presidente está em uma ilha… Um Avião parece que abateu um helicóptero. Muitos tiros na rua. Intensos barulhos. Aeroportos fechados. Isso não é água-com-açúcar, não.
    Não é permitido andar na rua. Entende-se, aqui o que é GOLPE?
    O governo fala que continua no Governo. Mas no canal do Bósforo, gente na rua com bandeiras. Houve tiro em civis na rua… A TV saiu do ar… Bomba no Parlamento, em Ancara. Se não houve golpe, houve tentativa. Tudo, tudo isso que te escrevi aconteceu…E está acontecendo agora. Ponto estratégico geopolítico, ponte entre o oriente & o ocidente. O exército fala em Lei Marcial & toque de recolher. O Presidente, fala ou estimula para o povo sair a rua… Helicóptero atirando em civis.

    A principal rede de TV deu um comunicado, através da voz de uma repórter muito conhecida no horário noturno — mas ela foi obrigada a ler esse tal de comunicado (até parece história de HQ!). A repórter teve que ler!

    E o PT com aquele papo-furado sobre golpe. É vergonhoso. Dilma é uma completa picareta. E tanta gente cai… O Brasil é uma PIADA…

    Erdoğan (o Governo, presidente) parece que não consegue falar pela TV, mas está usando o Celular (vídeo) para comunicar com a população, de um lugar não conhecido. Não via mídia tradicional. No momento não se sabe quem está no poder. É a primeira vez na história que um Chefe de Estado precisasse utilizar um celular para se comunicar de maneira coletiva. Não se sabe quem está no comando do país. O presidente fugiu para uma ilha…

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