Aonde colocam o acento e o assento?

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Por Mouzar Benedito.

Eu pensava que, apesar de o odiar, o acordo ortográfico era para mim um assunto acabado. Mas, surpresa! Não é que a Câmara dos Deputados me trouxe o maldito à memória?

Bom… Antes de chegar ao fato inspirador dessa lembrança, algumas considerações.

Uma coisa que me irrita é gente defendendo fim dos acentos gráficos na nossa escrita, argumentando que em inglês não tem. Sou do tempo de uma reforma ortográfica anterior a esta recente, que não pegou em Portugal nem em lugar nenhum fora do Brasil, e que é uma porcaria mesmo. Como podem acabar com o elegante e prático trema?

Uns que defendem o fim dos acentos “para facilitar a escrita” (e dificultar a leitura – isso não dizem) argumentam que é coisa só da língua portuguesa, “por isso” inútil. Nada mais fácil de contestar. Basta ver o alemão. Tem trema, sim, e não é só na letra u. Vejam os sobrenomes Köhler, Müller… E no francês? Tem na letra i, como em arte naïf e no nome da escritora Anaïs Nin…

E mesmo que fosse só em português valeria. No espanhol, e acho que só no espanhol, existe o ñ com pronúncia de “nh”, e isso virou um charme desse idioma. Vá falar em acabar com o ñ!!!

Bom, falei que sobrevivi a uma reforma ortográfica anterior. Foi quando acabaram com vários acentos diferencias e com os de sílabas subtônicas. Acredito que hoje pouca gente saiba o que é uma sílaba subtônica.

Acento diferencial é fácil lembrar. Na última reforma tiraram o acento agudo de pára, do verbo parar. Ficou uma porcaria. Vejam: “Em determinado lugar o sujeito pára para descansar”… Quem não entende de primeira? Agora “para para descansar” fica esquisito, não?

E tem os acentos agudos nas terminações -éia, -éio, -óio e -óia, que também caíram. Idéia agora é ideia. Tetéia é teteia. Paranóia é paranoia. Jóia virou joia. Estas são palavras manjadas, mas podem aparecer muitas palavras nova para nós, terminadas em eia, eio, oio e oia, que não saberemos como se pronuncia. Êia ou éia? Ôia ou óia? E na escrita informal a coisa se complica quando, por exemplo, um caipira fala de um veio. Estará falando de véio, de veio do verbo vir ou então um veio de metal, por exemplo. E a veia? É véia muié ou veia onde corre o sangue?

Enfim, é uma chatice. Mas tem os radicais da má formação escolar que querem o fim de todo e qualquer acento: “Em inglês não tem, então não é preciso ter em português”. Perguntei, então, a um deles como escreveria uma frase que a gente já citava no meu tempo de criança: “A sábia sabia que o sabiá sabia assobiar”.

Bom, ele não era nenhum sábio, e não sabia quase nada. E nos Estados Unidos não tem sabiá, né? Não sei. Ele garantiu que não. E que sabiá também não faz falta, que acabem com ele, assim não será preciso escrever sabiá com acento nem de jeito nenhum.

Repito: e as sílabas subtônicas? Será que algum jovem sabe o que é? Vejam um exemplo: em café, palavra oxítona, fé é a sílaba tônica. Se a gente põe café no diminutivo, cafezinho, a sílaba fé é subtônica, pronuncia-se com o é aberto, quase como uma sílaba tônica. Nesses casos, “antigamente” usava-se o acento grave para indicar essa pronúncia de fé, aberta: cafèzinho, e não “fê”. Valia também para quando a gente vai jogar na loteria (ou no bicho), “fazer uma fèzinha”, e para Zèzinho, chàzinho, goròzinho… Tornava-se claro como a palavra deveria ser pronunciada. No caso de palavras em que a sílaba tônica recebia o acento circunflexo, como cocô, o acento permanecia quando o “cô” virava subtônico: cocôzinho. Já vi gente lendo e pronunciando palavras semelhantes a essa sem a pronúncia subtônica. Fica esquisito. Cocozinho, por exemplo, pode ser confundido com o diminutivo de coco, uma variante de coquinho, não de cocô. Diminutivo de bebê era bebêzinho.

Havia também acentuação em sílabas subtônicas no caso de adjetivos que viravam advérbios. Por exemplo: o advérbio derivado de débil era dèbilmente; de fácil era fàcilmente; de dócil era dòcilmente…

Aquela reforma, pro meu gosto, já foi ruim. Esta atual – que foi feita para “unificar” a escrita em todos os países de língua portuguesa mas só pegou no Brasil – arregaçou de vez.

Só falta agora chegarem à conclusão que os grinfófilos têm razão e que nenhum acento faz falta. Assim, se escreveria (imagine alguém tentando ler isso) a sabia sabia que o sabia sabia assobiar, e muito mais coisas “interessantes”. Por exemplo: nao que sabia sabia e sabia sejam sinonimos. A pronuncia variaria conforme a circunstancia. O portugues ficaria, enfim, como o ingles. Esta como esta lingua, dirao os bocos. O cidadao comera jaba, lambera sabao, comera coco e depois fara coco, tomara cafe e comera pao, com frequencia morara em casa coberta de sape, na beira do Tiete, dançara forro. No quintal, tera cagado, cao, talvez pavao.

Na paroquia, os fieis catolicos rezarao um rosario por nos, orfaos da grafia que virou po. Ja os fieis evangelicos farao oraçoes aos ceus, para converter nos pagaos.

Com uma camera vamos fotografar deputados na Camara elogiando a sabia decisao dos linguistas.

Isso e basico, ne? Acento, enfim, sera fora de questao. Paciencia! Ah… No Rio, este ano havera as Olimpiadas. Vai ser otimo. Vou assistir as competiçoes de nataçao na televisao, estirado no sofa, enquanto a baba cuida do bebe.

Bom, para terminar, e voltando a escrever “normalmente”, e voltando ao fato inspirador das minhas lembranças, se um projeto para acabar com os acentos for mandado para a Câmara Federal, muitos deputados vão gostar. Primeiro, porque a escrita ficará mais adequada ao nível deles. E segundo, bem… Pode dar lucro. Afinal, corre nas tais mídias sociais a informação (ou fofoca?) de que recentemente alguns ganharam dois milhões por um votinho, com o compromisso de declarar o voto com louvações a Deus e à família. Se verdade, quem pagou? Haverá também quem pague para acabar com os acentos?

Os deputados poderão dizer que o motivo dos seus votos, de inspiração divina ou familiar, será que, de agora em diante, ninguém mais precisará se preocupar com o lugar aonde se deve colocar o acento. Só não podem votar por escrito, porque aí correm o risco de escrever que a preocupação seria aonde colocar o assento.

***

Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente, às terças.

10 comentários em Aonde colocam o acento e o assento?

  1. Antonio Tadeu Meneses // 03/05/2016 às 14:44 // Responder

    Brilhante e inteligente o texto.
    Mas, infelizmente até 2050 mais ou menos estaremos falando um “portungles” assumido. Basta verificar a evolução do nosso idioma neste sentido. No princípio cachorro quente virou “Hot dog”, pão com bolinho virou “hambúrguer”, atualmente estamos falando em “internetês”, onde se conjuga verbos do tipo “twittar”, etc.

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    • Abilio Maiworm-Weiand // 05/05/2016 às 14:00 // Responder

      Acrescentando. Quem ama não mais expressa ao amado um elegante e sincero “eu te amo”, pois se utiliza a tradução “eu amo você” (ainda com acento) do “I love you”. Em voga há algumas décadas há todo o instante é escarrado um “você tinha…” ou “você tem…” ao ponto de as pessoas terem de parar o raciocínio para explicar “agora que eu falo ‘você’ é você, mesmo” ou o contrário. Este foi o caso do último debate na TV Brasil com a presença do cientista político Marco Aurélio Nogueira. “Vosso” e “vossa”, praticamente, já desapareceu da língua falada e escrita em Pindorama. Exceção em vosso Congresso onde, com um significado muito especial, se afirma em alto e bom tom: Vossa Excelência é um f.d.p!
      “Socialismo ou barbárie”.

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  2. Gente, uma dúvida:

    O advérbio “aonde” foi utilizado corretamente nesse texto?

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  3. Nada mais chato do que jornalista metido a linguista
    Mil vezes ler Marcos Bagno, Irandé Antunes e Sirio Possenti

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    • Clovis Pacheco F. // 22/05/2016 às 11:34 // Responder

      Um jornalista, pro definição, é uma pessoa que usa o idioma, diariamente. Confusão idiomática é, para tal profissão, um tropeço dos maiores. Se ele não se preocupar com o assunto, quem irá fazê-lo? Além disso, o tema é de interesse geral, uma vez que o idioma é parte do patrimônio de todos os que o falam. Um jornalista pode não ser autoridade filológica para fazer isso, tal como não precisa ser economista formado para falar de economia. Mas vive numa comunidade me que um dado idioma é falado, e mais que tudo, utiliza tal instrumento no desempenho de suas tarefas. Daí a pertinência de que aja assim. Agora, aceitar acriticamente o que diz o Bânho é uma insensatez total!

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  4. Alessandra // 05/05/2016 às 11:06 // Responder

    Isso mesmo, Mouzar, nem nossa rica língua portuguesa ficou isenta a toda essa simplificação. Vivemos esse momento triste…

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  5. Clovis Pacheco F. // 08/05/2016 às 9:33 // Responder

    Caro Mouzar, uma pequena correção ao seu excelente texto: em castelhano o Ñ não é letra com acento, um N diferenciado, é outra letra, diferente do N, assim como os LL e os RR são letras duplas, cada uma com seu lugar no abecedário. Daí porque, ao se separar sílabas, não se coloca o hífen entre os dois RR ou LL, como ocorre em português. Por analogia, ao separarem os SS do português eles fazem o mesmo procedimento, tal como também no caso de Matto Grosso, que não sei por que motivo, ganhou um T a mais. Outro tema que quero adicionar é o fato de que em grego todas as palavras levam acento, para indicar a pronúncia, incluindo as monossilábicas, como os artigos tó e tá. Aliás, o acento foi inventado por um erudito grego de Alexandria, que ficava chocado de ver os numerosíssimos não-gregos daquela cidade cosmopolita falando o seu idioma todo estropiado. Daí toda palavra grega ter acento, costume que passou para o latim, com o mácron para indicar vogais longas e braquia para assinalar as breves. E se for “a sábia sabia que a sábia sabiá sabia assobiar”? Com um sábia a mais, fica ainda mais difícil: “a sabia sabia que a sabia sabia sabia assobiar…” E quanto aos interesses escusos relacionados com mudanças ortográficas, há o casos das editoras de livros escolares, que terão de ser modificados, e que custarão mais dinheiro, seja o dos pais que tiverem filhos em escolas particulares, seja o dos contribuintes, em se tratando de livros editados pelo poder público, para serem distribuídos de graça nas escolas públicas. Agora um tema que não entendi é quanto à inclusão do K, W e Y no abecedário brasileiro, pois não há palavras em português que as usem. Se for para adotar todas as letras derivadas do alfabeto latino, como fazer com o L cortado existente em polonês, ou o A encimado com uma bolinha e o O cortado, do sueco? A letra Y era usada na ortografia etimológica brasileira para escrever palavras do tupi e do guarani, idiomas – ou subtroncos linguísticos, para se exato – em que que o Y tem pronúncia gutural, tal como o Ü alemão. Mas o K e o W, por que?

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  6. Clovis Pacheco F. // 08/05/2016 às 9:35 // Responder

    Irandé Antunes e Sirio Possenti eu não conheço, mas o Marcos Bânho é um pé no saco…

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    • Mouzar benedito // 10/05/2016 às 14:14 // Responder

      Obrigado pela explicação, Clóvis. Aprendi. Gozado que, sem saber, eu já tinha algo em comum com esse grego: sempre achei que todas as palavras deveriam ser acentuadas, inclusive os monossílabos. Mas nunca defendi isso porque acredito que haveria uma grita de gente que consideraria uma grande “perda de tempo” acentuar tudo. Cada vez mais temos adeptos do “time is Money”, né? Mas como dizia o Barão de Itararé: “Se tempo é dinheiro, paguemos nossas contas com o tempo”. Abraços. Mouzar

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  7. Clovis Pacheco F. // 17/05/2016 às 11:23 // Responder

    Caro Mouzar, para cada coisa da vida o Barão tem uma frase de profunda sabedoria… E com relação às letras de outros alfabetos, como o cirílico dos russos, ucranianos, búlgaros e sérvios? Existe o som kha, representado por uma letra idêntica ao nosso X, e cuja pronúncia equivale ao J castelhano e ao CH alemão. Durante muito tempo, o nome do Nikita S. Khrushev era lido como Cruxóv, enquanto nos países de língua castelhana pronunciava-se corretamente, porque era transliterado como JRUCHOV. E a pronuncia certa – se ainda me lembro bem das aulas da velha Tatiana – é KHUSCTCHIOF… – isso porque em russo o V em final de palavra soa F. Além disso, no citado sobrenome do velho Nikita, havia a confusão com a pronúncia do E, que é lido em russo como IO, e muitas pessoas ainda liam Cruxév. Nos livros russos de ensino do idioma para estrangeiros, coloca-se trema nesse caso, assim como acentos agudos nos demais, pelo mesmo motivo que os gregos de Alexandria o fizeram. E o caso do nome do general que tom ou Berlim? O sobrenome do homem é JUKOV, e o J é idêntico ao nosso. Mas a transliteração para o português, em textos vindos do castelhano, usava o ZH, para o som DA jota – os nomes das letras, em castelhano são femininas -, e daí líamos ZÚCOV!

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