Notas sobre Anti-Dühring, de Engels

Boitempo 35 musse[Fotografia do artista plástico Elyeser Szturm feita especialmente para esta coluna de Ricardo Musse]

Por Ricardo Musse.

Mediação incontornável entre a teoria de Karl Marx e os desdobramentos posteriores da tradição marxista, deve-se a Friedrich Engels as premissas que possibilitaram a compreensão do marxismo como um todo homogêneo e “orgânico”, como um “sistema” apto a englobar em uma só palavra um método, uma visão de mundo e um programa de ação. A versão legada por Engels, primeira estação de uma série cujas diferentes etapas reivindicam o nome e a tradição do marxismo (mesmo que seja para redefini-la), foi denominada, por ele mesmo, em contraposição ao “socialismo utópico”, de “socialismo científico”.

Apoiado no reconhecimento de sua contribuição para a gênese e fundamentação teórica da concepção materialista, ressaltada por Marx em inúmeras oportunidades, Engels se esforçou por atualizar a teoria de acordo com as exigências oriundas das mudanças conjunturais, no que satisfazia, aliás, uma demanda inerente ao próprio caráter do marxismo, assumidamente histórico. Mas também se permitiu avançar, como um desbravador audaz, sobre áreas e fronteiras bastante distantes da configuração delimitada pelos textos que até então constituíram o materialismo histórico.

A ascendência de Engels nesse período deve muito a esse trabalho de expansão dos limites do marxismo, desenvolvido mais em função do ambiente intelectual da época, marcado por avanços da ciência e pelo anseio cientificista de ordená-los de maneira enciclopédica, do que propriamente em decorrência de necessidades internas da teoria. Mas também dependeu, em certa medida, da sua posição incontestável (numa época em que a difusão do marxismo processou-se principalmente por meio de textos de divulgação e só esporadicamente pelo contato com as obras do próprio Marx) de principal sistematizador e intérprete do marxismo.

A sincronia, e mesmo o embaralhamento, dessa duplicidade de funções, em vez de ser percebida como uma interferência nociva, contribuiu, ao contrário, para reforçar a legitimidade da obra de Engels. Na época, a atividade de ordenar em um conjunto sistemático as descobertas do marxismo, o empenho em esquematizar e sumariar um pensamento prenhe de nuanças (contrariando uma exigência da dialética), em suma, a tarefa de divulgação – hoje associada à idéia de empobrecimento – ajudava a corroborar e ratificar o esforço de Engels para ampliar e complementar o materialismo histórico.

A primeira obra estruturada segundo esse amálgama foi, sem dúvida, Anti-Dühring. Inicialmente um mero escrito de circunstância, redigido por Engles meio a contragosto para satisfazer um pedido da social-democracia alemã, o conjunto de artigos reunidos no livro tornou-se o primeiro trabalho importante desenvolvido por Engels depois de um interregno de quase duas décadas (1850-1869), dedicados à administração dos negócios da família, em Manchester.

O saldo desse exercício crítico, a refutação científica e política do sistema de Eugen Dühring, acabou por mesclar, ainda que em doses desiguais, momentos de simples divulgação, isto é, de interpretação e sistematização, com capítulos dedicados a incursões em novos terrenos, que contribuíram para a expansão da teoria marxista. Nessa medida, Anti-Dühring marca, tanto pela forma quanto pelo conteúdo, um importante ponto de viragem na trajetória intelectual de Engels, inaugurando, numa definição peremptória, a última fase de seu pensamento.

Engels justifica, no Prefácio à primeira edição, a ampla extensão dos assuntos ali tratados, como uma necessidade ora inerente à coisa, ou seja, à crítica pontual ao pensamento de Dühring, ora exterior, moldada pelo anseio de se posicionar frente às questões controvertidas da época. Mesmo que se admita uma interseção entre esses dois conjuntos, é possível detectar nas justificativas de Engels uma certa ambigüidade recorrente. Num extremo, após se desculpar por acompanhar Dühring em regiões em que ele próprio não passa de um mero diletante, atribui isso a uma imposição da crítica imanente. No pólo oposto, explica a origem do livro como um esforço para evitar a disseminação de divergências e confusão no âmbito do então recém-unificado partido operário alemão (em cujo jornal foram publicados inicialmente os textos que compõem o livro), ou então, em chave positiva, como uma ocasião para expor as posições do marxismo acerca dos assuntos mais diversos sobretudo acerca de questões atuais de interesse científico e prático.

Mais reveladora é a explicação para a demanda por uma segunda edição desenvolvida no Prefácio de 1885. Lá, Engels afirma que, ao seguir Dühring por domínios tão amplos, opondo-se ponto a ponto às suas concepções, “a crítica negativa se converteu em crítica positiva, e a polêmica se transformou numa exposição mais ou menos coerente do método dialético e da concepção de mundo comunista defendidos por Marx e por mim, o que ocorreu numa série bastante abrangente de campos do conhecimento” (p. 35). Torna-se evidente assim o empenho em romper com os procedimentos do passado, corporificados nos textos de juventude. O tom polêmico, a negatividade e a crítica imanente que os caracterizam, e que ainda estão, de certo modo, presentes no Anti-Dühring, serão, doravante, substituídos pela exposição positiva, por uma apresentação sistemática e ordenada das idéias, de preferência em uma linguagem acessível.

O esforço mimético inerente ao projeto de contestar o “sistema filosófico integral” de Dühring (mesmo que sua obra não passasse no fundo, como afirma Engels, de uma “pseudociência presunçosa”), a necessidade de se defrontar e de opinar sobre quase tudo contribuíram para que, à revelia da intenção do autor, Anti-Dühring e, por extensão, o próprio marxismo, então em processo de delimitação enquanto um movimento distinto das demais correntes socialistas, fosse tomado, no mesmo registro das disciplinas burguesas rivais e na acepção própria da época, como um sistema, isto é, como uma teoria unitária do homem e da natureza.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ENGELS, Friedrich. Anti-Dühring. São Paulo, Boitempo, 2015.
MUSSE, Ricardo. “O primeiro marxista”. In: BOITO, Armando, TOLEDO Caio Navarro et alli (orgs.). A Obra Teórica de Marx, p. 81-89. São Paulo, Xamã, 2000.

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Elyeser Szturm é artista plástico. Professor da UnB e doutor em artes visuais pela Université de Paris VIII. Ganhou o Prêmio de viagem ao exterior do XVI Salão Nacional da Funarte e o VII Salão da Bahia. Participou da Bienal 50 Anos, da 25a. Bienal de São Paulo, das mostras Território Expandido 3 e Faxinal das Artes, entre outras. A partir de hoje, passa a ilustrar a coluna mensal de Ricardo Musse, no Blog da Boitempo.

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Ricardo Musse é professor no departamento de sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo. Doutor em filosofia pela USP (1998) e mestre em filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1992). Atualmente, integra o Laboratório de Estudos Marxistas da USP (LEMARX-USP) e colabora para a revista Margem Esquerda: ensaios marxistas, publicação da Boitempo Editorial. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas.

4 comentários em Notas sobre Anti-Dühring, de Engels

  1. Alexandre Braz e Silva // 29/04/2016 às 21:18 // Responder

    O texto foi interrompido no momento em que começou a ficar ótimo.Aguardo a continuação ou uma afirmação .Afinal,o que é marxismo?Faltou apenas isso.

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    • Alexandre, o marxismo na sua forma acabada é o livro O capital. Ou seja, a previsão de que não há saída. A crise de 1930, aquela de 2008, são apenas sintomas de uma crise estrutural que economistas ditos “marxistas” acharam que tinha sido superada com o período pós-II Guerra. Na verdade, apenas se repunham as forças produtivas que haviam sido destruídas. Cada guerra, mesmo localizada, nada mais é do que a destruição de forças produtivas para depois reconstruir o que se destruiu. As forças produtivas pararam de crescer desde 1930 e a crise contemporânea nada mais é do que a repetição ampliada daquela crise. O que é o marxismo? A organização da classe operária e tendo como projeto fundamental a abolição das classes. Leia-se o capítulo XXIV do livro I e o capítulo 52 só esboçado do livro III, onde Marx pretendia retomar o XXIV e acabar, como ele diz em carta a Engels, com toda essa “merda”. Mas, para isso, a classe operária precisa de uma vanguarda que a organize e a relembre, ou desvele (alétheia, em grego) toda essa história que é dela mesma e que ela mesma, classe operária, tem que se “recordar”. O problema é que essa vanguarda não existe, os chamados “marxistas”, na sua maioria, nem sequer leram os três livros de O capital.
      Isso se chama “crise da direção revolucionária”. Este é o problema: CRISE DA DIREÇÃO REVOLUCIONÁRIA. Ditos “marxistas” que nem sequer leram os três livros de O capital e que não compreenderam o caráter dialético dessa crise, a crise da humanidade.

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  2. Caro Musse, sabe-se que o próprio Marx teria escrito algumas partes do Anti-During. Por exemplo, a parte que se refere a Platão, como aquela que teria descoberto a noção de “divisão do trabalho”. Mas, penso que o pior destino deste livro foi que o Anti-During, na verdade, foi um dos textos mais lidos pelos “marxistas” e poucos leram Das Kapital. Mesmo entre os sociólogos da Unicamp e da USP, poucos leram os três livros de O capital. Triste fim ´para o chamado “marxismo ocidental”! Pela minha longa experiência orientando teses sobre O capital, descobri que, paradoxalmente, poucos ditos “marxistas”, leram os três livros da obra principal de Marx. Quem leram os três livros foram os economistas burgueses e souberam aproveitar as suas compreensões lúcidas do sistema capitalista de produção. E procurar os “remédios” ou “anestésicos”. Na crise que explodiu em 2008, Das Kapital, foi um dos livros mais lidos e que todos os economistas sérios se voltaram para compreender a noção de “crise estrutural” do sistema capitalista. Das Kapital, na época, esgotou em vários países da Europa. Enquanto a chamada “esquerda”, em sua maioria, não leu jamais os três livros de O capital e apenas repetia frases frágeis de “O manifesto comunista” e do “Anti-During”, assim como textos isolados de Lênin, Trotsky e Stálin, acredito, que todo esse processo criou o chamado “marxismo vulgar”, esse fenômeno trágico que está nos levando à barbárie.
    Nesse sentido, o “Anti-During” é um manual “infeliz” do marxismo. Como você mesmo apontou, esse livro fez um certo desvio do marxismo dialético para uma concepção simplista e positivista do marxismo e é uma das causas principais da crise do marxismo no mundo contemporâneo.

    Hector Benoit
    Professor Livre-docente da Unicamp

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  3. Sem dúvida o Musse é um dos intelectuais mais brilhantes do Brasil. Uma das coisas que ele desvelou foi justamente essa “virada” positivista do último Engels.

    abs
    Hector Benoit

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