Uma Boitempo para crianças

"Um elefante incomoda muita gente": relato sobre a roda de conversa de lançamento dos primeiros infantis da Boitempo!

ldePor Thaisa Burani.

Outro dia, o Boitatá ganhou um presente: fomos avisados que a coleção de estreia do nosso recém-nascido selo infantil, a coleção Livros para o Amanhã, ganharia um lançamento, com direito a roda de conversa e tudo, numa livraria em Sorocaba. Caramba! Quem é da área editorial sabe o trabalho que dá organizar um evento desse tipo. Além dos horários em livraria serem disputados, existe toda a questão logística de organização e divulgação do evento, ainda mais se ele envolve convidados (cada qual com sua própria agenda) que irão debater sobre determinado assunto. Aqui na Boitempo, por exemplo, temos uma equipe (bárbara!) para poder dar conta de todos esses detalhes. E de repente, não mais que de repente, recebíamos assim de bandeja um evento prontinho, com tudo arranjado, incluindo até reportagem de meia página publicada no jornal local. Como se não bastasse, descobrimos que quem estava organizando tudo isso era Silvana Rando, nome conhecidíssimo no meio literário infantil brasileiro e agora proprietária da charmosa Livraria do Elefante, totalmente dedicada aos pequenos.

Silvana Rando é ilustradora e autora de livros infantis há dez anos, com mais de trinta livros ilustrados (muitos de autoria própria) e um Jabuti no currículo. Seus livrinhos sobre a turma do Gildo, o simpático elefantinho, são um pedido certeiro nas livrarias do país. E agora ficávamos sabendo que essa mesma Silvana não só abrira uma livraria como vinha transformando esse espaço num pequeno mas verdadeiro centro de cultura, leituras e encontros entre pais, educadores e crianças. E era lá que iria promover o tal lançamento da nossa coleção, com uma roda de conversa entre três palestrantes ligados à educação.

Como não poderia deixar de ser, assim que soube dessa novidade, fiz os arranjos necessários na minha agenda, convoquei o namorado e, dois dias depois, numa quinta-feira às 17h, estávamos na rodovia Castelo Branco rumo a Sorocaba e à já querida Livraria do Elefante. Silvana, feliz em saber que eu dera um jeito de comparecer, aproveitou e abriu um espaço na roda para eu poder falar também.

E assim chegamos. Numa plaquinha de ferro em estilo retrô e perpendicular à rua, vimos os dizeres “Livraria”. Na vitrine, o tal elefante – enorme, de pelúcia – sorri para a rua, cercado por pilhas de livros coloridos. Lá dentro, mais cores: bandeirinhas penduradas no teto, almofadas espalhadas pelo chão, luzinhas decorativas, desenhos nas paredes e, pipocando pelas prateleiras, os personagens dos livros, materializados em bichos de pelúcia e feltro pelas mãos da própria Silvana. Como não amar?

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Aos poucos, os convidados vão se achegando. Pais, crianças, professores e universitários, todos já “de casa”, conhecidos e se conhecendo, que vão, em meio ao bate-papo, puxando livros das estantes para dar só uma olhadinha e em seguida esquecendo-se do mundo ao redor. Nossa coleção está num lugar de destaque, com os quatro títulos dispostos lado a lado num pomposo aparador antigo de madeira. Silvana, a proprietária-ilustradora-fazedora-de-bichinhos, entre cumprimentos e conversas, vai logo ajeitando as almofadas, dispondo-as num semicírculo voltado para os quatro pufes coloridos, reservados aos debatedores.

E assim a mediadora da noite, a pedagoga Maria Cristina Perez Vilas, convida todos os presentes a se ajeitarem, para em seguida apresentar os debatedores dos pufes: a socióloga amapaense Marcélia Valente, mestre em educação pela Universidade de Sorocaba e especialista em lazer e animação sociocultural pela Fundação e Escola de Sociologia e Política (Fesp); Vidal Dias da Mota Junior, natural de Itaoca (SP) e também sociólogo, doutor pela Unicamp e professor da Universidade de Sorocaba; e Thaisa Burani (euzinha), paulistana, editora-assistente do selo Boitatá e tradutora da coleção Livros para o Amanhã.

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Após uma animada introdução da Cristina, educadora apaixonada, a conversa começou comigo contando um pouco como foi o processo de idealização do Boitatá, dos meses de pesquisa coletiva que fizemos ao longo de 2015 antes de lançarmos o selo, tentando entender como funciona o mercado de literatura infantojuvenil brasileiro e de que a forma a Boitempo poderia se posicionar nisso, isto é, como faríamos para publicar livros instigantes, inteligentes, transformadores e, ao mesmo tempo, viáveis economicamente. E que foi durante todo esse mapeamento que nos veio o estalo óbvio, de que o Boitatá deveria ser, simplesmente, uma “Boitempo para crianças”, que deveríamos fazer o que sempre soubemos fazer: dar voz àqueles que se posicionam criticamente, que buscam por todos os meios e com todas as forças compreender a realidade em que vivem, para poder futuramente transformá-la. Entendemos que a criança com quem conversamos hoje é o adulto que amanhã estará “do lado de lá” do sistema, sem se deixar seduzir pelos fetiches capitalistas e pelas meias-verdades do mundo excludente e superficial do neoliberalismo.

Tentei então retomar esse processo, relembrando as dúvidas e as intermináveis conversas e prospecções de originais que tivemos na editora, até o dia em que deparamos com a Media Vaca, a corajosa pequena editora de Valencia, na Espanha, que decidiu reeditar os Libros para Mañana, elaborados em Barcelona no fim da década de 1970 após a queda do ditador Franco, numa tentativa de introduzir às crianças daquela época alguns conceitos fundamentais da vida política: democracia, ditadura, classes sociais e feminismo. Mas, como bem nos apontou Begoña Lobo, a editora-chefe da Media Vaca, “si hoy podemos leer lo que dice estos libros sin que nos cause muchísima extrañeza, es porque, al parecer, ese mañana todavía no es hoy”. Não precisava de mais nada para decidirmos que esta tinha de ser a coleção de estreia do nosso Boitatá…

Depois da minha exposição, passamos a vez para a Marcélia, feminista “do lar”, da rua e da sala de aula, que de imediato relembrou a todos os presentes o mal que há tantas décadas fazem a nós e a nossas meninas as princesas da Disney, que não apenas orientam, mas muitas vezes negam seu próprio sujeito em prol do casamento com um príncipe, em geral mudo e meio bocó (não nos esqueçamos que Ariel abriu mão de seu maior dom, a voz, e colocou a própria vida em risco para se casar com um homem que ignorava a existência dela até então; aliás, na versão original, Ariel morre porque esse mesmo homem simplesmente se apaixona por outra mulher). Mãe de um menino de 13 anos, Marsélia nos contou um pouco dos inúmeros desafios que é educar um garoto partindo de valores feministas e anticapitalistas num total contrafluxo da norma, pois, como é sabido, é bastante naturalizado que os meninos frequentemente imitem atitudes machistas e homofóbicas – quando não misóginas – para se impor como “homem” perante os amigos.

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Na sequência, tivemos a fala de Vidal, o menino que cresceu em Itaoca, cidadezinha do Vale do Ribeira – “Um fim de mundo!” –, e que, por ser ruim de bola, acabou se enfiando nos livros. E foi lindo de ver o adulto sociólogo de hoje, pai de um menino pequeno e com posicionamento intelectual claramente anticapitalista e progressista, contar de suas leituras infantis, encantado com o Jesus Cristo das histórias em quadrinhos, representado não como um ser divinal, mas como um homem transgressor, capaz de sentir empatia pelos oprimidos e desfavorecidos. Não o Jesus ídolo da Igreja, mas o Jesus que questionou, que se opôs ao sistema de sua época e que dedicou a vida a mudá-lo, pregando, acima de tudo, valores comunitários e gregários. “Isso é formação de imaginário”, penso, e de repente todo o nosso trabalho de formiguinha – do Boitatá, desses educadores, da Livraria do Elefante – parece pleno de sentido.

A conversa se alonga, o público começa a participar, a perguntar, a contar de si. Dividimos nossas crenças, nosso trabalho, nossas dúvidas, mas principalmente nossa esperança em um mundo mais igualitário e uma vontade imensa de seguir em frente. Porque acredito que o que foi capaz de nos unir ali naquela noite foi nossa crença sincera de que a infância não é uma bolha de inocência, um mundo a parte e desconexo do mundo “adulto”; pelo contrário, o adulto de hoje é que é o desdobramento do que foi essa criança, de como ela experimentou, vivenciou e trocou consigo mesma e com seu entorno. A crença de que a criança, de qualquer idade ou classe social, é um sujeito – e um sujeito com potencial transformador.

Saímos de lá felizes, na certeza de termos encontrado uns nos outros pontos de interlocução. Nestes tempos em que assistimos a um golpe descarado, com seus infames algozes sendo aplaudidos à luz do dia, em que vemos tanta má-fé, tanto ódio e tanta ignorância profundamente enraizados nas estruturas sociais e políticas desse país, essa democracia disfarçada que pode ser e talvez nem é, a única coisa que consigo desejar é que muitos boitatás e muitos elefantes não apenas cresçam e resistam como se proliferem por aí.

***

Semana que vem o debate é em São Paulo! No sábado, dia 30 de abril, Thaisa Burani participa de um debate com Dolores Prades na livraria Blooks do Shopping Frei Caneca. Intitulado “Livro infantil e política em debate”, a mesa integra a série de encontros abertos promovidos pela Revista Emília para discutir literatura infantil hoje a sério. Não perca: saiba mais sobre o evento clicando aqui.

***

Thaisa Burani é editora-assistente e uma das coordenadoras do selo infantil Boitatá, da Boitempo, onde também colabora na edição da revista acadêmica Margem Esquerda. É tradutora da coleção “Livros para o amanhã” que. Formada em comunicação social com especialização em editoração, tem passagem pelas editoras Edusp e GG Brasil e pela produtora editorial Jogo de Amarelinha. Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

3 comentários em Uma Boitempo para crianças

  1. Ivando Bornhausen // 24/04/2016 às 13:56 // Responder

    Maravilhoso. Que estes elefantes se reproduzam feito coelhos. Meus parabéns!

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  2. Republicou isso em Blog Tuppan +e comentado:
    ~ * ~

    Muito bom o texto de Thaisa Burani no Blog da Boitempo!

    E bela Livraria do Elefante, parabéns a todas!

    Duas observações sobre o escrito de Thaisa:

    1- A compreensão crítica da realidade possibilita que se comece a mudar o mundo imediatamente (e não apenas “futuramente”, como está no texto), a partir da própria mudança interior com o desenvolvimento da Consciência Crítica que realiza-se na práxis e ~ assim como a vigilância, para a Liberdade ~ necessita de um contínuo exercitar, pois tanto essa como aquela não é um estado perene que se atinge definitivamente, muito bem nos ensina Paulo Freire, ao explicar os processos e as diferenças entre consciência ingênua, transitiva e crítica.

    2- Acreditamos na Utopia ~ entendida como um Sonho que lutamos para realizar, tornando-o concretude ~ de um mundo igualitário (não “mais igualitário”, posto que vivemos a cruel realidade de injustificáveis desigualdades abissais), com “tudo totalmente para tod@s” (Omnes Omnia Omnimo), na lição de Comenius.

    Vibrações Poéticas!

    S. R. Tuppan.

    P. S.: Não vimos os créditos de quem tirou as fotos.

    *

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  3. ~ * ~

    Muito bom o texto de Thaisa Burani neste ótimo Blog da Boitempo!

    E bela Livraria do Elefante, parabéns a todas!

    Duas observações sobre o escrito de Thaisa:

    1- A compreensão crítica da realidade possibilita que se comece a mudar o mundo imediatamente (e não apenas “futuramente”, como está no texto), a partir da própria mudança interior com o desenvolvimento da Consciência Crítica, que realiza-se na práxis e ~ assim como a vigilância, para a Liberdade ~ necessita de um contínuo exercitar, pois tanto essa como aquela não é um estado perene que se atinge definitivamente, muito bem nos ensina Paulo Freire, ao explicar os processos e as diferenças entre consciência ingênua, transitiva e crítica.

    2- Acreditamos na Utopia ~ entendida como um Sonho que lutamos para realizar, tornando-o concretude ~ de um mundo igualitário (não “mais igualitário”, posto que vivemos a cruel realidade de injustificáveis desigualdades abissais), com “tudo totalmente para tod@s” (Omnes Omnia Omnimo), na lição de Comenius.

    Vibrações Poéticas!

    S. R. Tuppan.

    P. S.: Não vi os créditos de quem tirou as fotos.

    *

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