Retalhos da memória (III)

retalhos izaias iii[Parque Municipal de BH , de Alberto da Veiga Guignard]

Por Izaías Almada.

“Meu caminho é de pedra, como posso sonhar?”
– M. NASCIMENTO/F.BRANT

LEIA”RETALHOS DA MEMÓRIA (I)” E “RETALHOS DA MEMÓRIA (II)“, DE IZAÍAS ALMADA.

Feitas essas observações iniciais, peço aos leitores que invadam as minhas memórias. Não se preocupem: não tem zika.

E começo por desafiá-los a responder uma pergunta que me incomoda há anos desde a adolescência, para ser mais preciso, vivida em meio a outros adolescentes da Igreja Metodista Central de Belo Horizonte.

Quais serão os pensamentos de Deus quando Ele está sozinho? Reflexão para mentes desocupadas como a desse escriba, concordam? Mas que tem a lá a sua razão de ser.

Então, não sabem? Pois eu respondo: Ele pensa bobagens, abobrinhas com certeza, ou quem sabe os fundamentos que deram vida ao movimento surrealista, concordam? Diverte-se ouvindo as pataquadas do Diogo Mainardi? Não?

Respeito o ponto de vista de cada um dos leitores, mas para mim, ele deve pensar um monte de abobrinhas, com certeza!

Posso garantir que mulheres bonitas ou jogar na bolsa e gozar férias numa praia tropical com direito a uma caipirinha não serão as Suas fantasias. Até porque, segundo dizem, foi Ele mesmo quem as criou, as mulheres e as praias, pelo menos, pois a caipirinha ou ficou por nossa conta ou é coisa do diabo. O velho e divertido Satanás.

E ao que parece, Ele também não tem grandes perspectivas ou necessidades de usufruí-las. Quanto a jogar na bolsa, dizem as más línguas que o seu maior adversário, o diabo, o mesmo da caipirinha, é bem melhor no ramo… Sobretudo com o índice Nasdaq.

 Muito menos esteve Deus preocupado em saber com quantos votos anulados de eleitores negros em Miami, Bush filho chegou à Casa Branca; ou onde se esconderam e o que fizeram um dia Osama Bin Laden e a Al Qaeda, ou Saddan Hussein, até ser encontrado naquele buraco do triângulo iraquiano sunita…

E também não estará nem um pouco preocupado comigo, com absoluta certeza, ou com a porra desse maravilhoso país onde vivo (e não estou sendo cínico), chamado Brasil, apesar de estarmos a toda hora – alguns de nós pelo menos – a dizer que Ele é brasileiro.

Considero, aliás, que neste assunto de tão prosaica e barata teologia (ou metafísica para os mais intelectuais), todos os povos, mesmo com as suas diferenças, agem e pensam da mesma maneira.

Quer estejam vivendo lá nas suas aldeias e vilas, as mais longínquas de que se tenha notícia ou porventura nos corredores de alguma famosa universidade europeia; nos assentos dos parlamentos e Congressos ou mesmo ajoelhados em confessionários; porventura caminhando pela 5ª Avenida ou ainda admirando um bar de putas em Amsterdã ou Macau; homens e mulheres estarão todos dizendo ou imaginando a mesma coisa: Deus é mexicano ou Deus é dinamarquês, é angolano, australiano, chileno, vietnamita, turco ou uma porra qualquer!…

Às vezes, com todo respeito aos cidadãos desses países, acho difícil é Ele ser do Burkina-Faso, etíope ou mesmo afegão, por exemplo, lugares – por muitas injustiças e desequilíbrios sociais milenares – onde nem o diabo gosta de frequentar, esse seu famoso ex-sócio antes do Paraíso e daquela serpente que fala, segundo a lenda. Maçã, aliás, é uma das frutas que mais gosto, ao lado do pêssego e da manga…

Mas como se trata de alguém que é onipresente, onisciente e onipotente, é bom que nenhum de nós tenha lá tantas certezas sobre a matéria… Nem mesmo os muçulmanos ou os budistas, lá com a sua versão para os desígnios divinos e duvidosas profecias.

Admitamos, contudo, que Ele – de fato – o Todo Poderoso, como dizem as Sagradas Escrituras, se preocupe com a maioria dos mortais. Afinal, Ele os criou. Ainda assim, sou obrigado a reconhecer, com certa relutância e até alguma ponta de preocupação, é verdade, que não faço parte do seu rol de eleitos, por mais que procure me convencer do contrário.

Pelo menos, é o que sinto nesse momento, e sinto com muita força, ao iniciar de fato as minhas memórias.

Eu, Pedro, isto é, Izaías do Vale Almada, cidadão mineiro, nascido em Belo Horizonte no Hospital São Lucas e torcedor do América Futebol Clube, a viver em São Paulo há 48 anos e outros cinco em Lisboa, sou hoje e agora a minha própria ficção.

Nessas memórias, revistas à velocidade da luz, onde algumas das imagens do passado se enchem de um realismo fantástico, eu já vira de tudo um pouco: desde o corpo de um surdo/mudo esmigalhado nos trilhos da Rede Mineira de Viação, eu ainda menino, a recém nascidos abandonados pelas mães em latas de lixo; um gay com uma garrafa quase inteira de Liebfraumilch enfiada no rabo; um mendigo devorado por ratazanas num armazém de secos e molhados; os membros esquartejados de uma prostituta guardados num freezer, um bandido, segundo a polícia, e meu vizinho de pavilhão no Presídio Tiradentes, com um lápis enterrado a sapatadas num dos ouvidos.

Bem como crimes elegantes e nem por isso menos horríveis, cometidos por gente endinheirada da Casa Grande e debochadamente impune. Banqueiros e agiotas a contarem os lucros adquiridos na lavagem de bilhões de dólares do narcotráfico, na rentável e obscena privatização de telefônicas e outras empresas estatais, dos serviços impostos por seus bancos aos incautos clientes ou do simples roubo de centavos na conta de operários e empregados domésticos, principalmente quando o dinheiro mudava de nome no país e tínhamos que cortar alguns zeros quando a inflação era brava…

Industriais, em nome do progresso, a substituir operários por robôs que não reclamam por trabalhar dezoito horas por dia. Ou a financiar centros de tortura a presos políticos, quando não os torturavam dentro das próprias fábricas.

Artistas inescrupulosos e sem talento a dirigirem grandes projetos culturais… Socialites desocupadas a escrever sobre arte, moda e gastronomia para preencher o seu tempo ocioso… Jornalistas venais a escreverem sobre ética… Toda essa mistura de poder, taras, invejas, perversidades, arrogância e miséria já não me emocionam.

Os anos de jornalismo e de atividade política, muitos deles em contato ou em luta contra o lado mais sórdido e repugnante do ser humano, deixaram-me, por assim dizer, insensível, calculista e desconfiado, exageradamente desconfiado e profissional.

Eu cheguei aos setenta e três anos de idade e, apesar de casado por duas vezes, a maioria deles vivi só. Tudo indica a essa altura da vida que acabei por aceitar, com algum sofrimento, as regras definitivas de um jogo que sempre me recusei a aceitar: aquelas que sustentam que o crime e a maldade realmente compensam.

Talvez seja essa a principal herança que o capitalismo, sobretudo pelo exemplo dos dias que me são dados a viver, deixará à humanidade.

E com essa dolorosa e irrefutável consciência da vitória do mal, admitindo mesmo que já não havia mais salvação possível para minha alma que um dia imaginou um mundo mais igual e solidário, pude rever o que fizera de mim mesmo e da minha vida…

Ou melhor, o que Pedro fizera da sua vida até aos quarenta anos de idade.

***

Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mim, O medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

4 comentários em Retalhos da memória (III)

  1. Cesar Bahia // 11/02/2016 às 15:54 // Responder

    Depois de tanta idade acumulada na carcaça, agora é possível falar tantos palavrões. Aff

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    • izaias almada // 12/02/2016 às 18:06 // Responder

      El ex sacerdote mexicano Alberto Athié Gallo reveló que México tiene los peores casos de pederastia y abuso a menores dentro de la Iglesia Católica
      pederastia.jpg
      (Foto: Archivo)

      Caracas, 12 de febrero de 2016.- Ante la inminente llegada del papa Francisco a México, vuelven a cobrar notoriedad los casos de pederastia en la iglesia católica y que han sido ocultados por la jerarquía de la santa sede.

      Desde 1994 el ex sacerdote de la Arquidiócesis de México, Alberto Athié Gallo, no cesa en su lucha contra de la pederastia en la Iglesia Católica, cuando una víctima del fundador de los Legionarios de Cristo, Marcial Maciel Degollado, le contó su historia.

      Por denunciar y luchar los casos de pederastia en México, Athié Gallo fue atacado por la jerarquía eclesiástica representada por Arzobispo Primado de México Norberto Rivera Carrera.

      Actualmente Alberto Athié Gallo se encuentra en Estados Unidos desde donde continúa luchando por dar a conocer a los sacerdotes que incurren en pederastia, En entrevista para el medio mexicano Sin Embargo el ex sacerdote sostiene que México tiene a los pederastas más crueles e importantes de la Iglesia. Todos impunes y libres, “gracias a un mecanismo protector, diseñado desde la Santa Sede, que les permite encontrar en el clero el lugar perfecto para violar niños”.

      Personas cercanas a Athié mencionan que él ha librado en muchas ocasiones amenazas de demandas por parte de la Iglesia Católica. Gracias a la constante denuncia del hoy ex sacerdote se han dado a conocer casos como el del cura Eduardo Córdova Bautista, en San Luis Potosí, quien presuntamente violó a más de 100 niños durante sus 30 años de ejercicio.

      Los Escándalos del Padre Maciel

      En la entrevista para Sin Embargo, Alberto Athié Gallo reveló cómo se enteró de los escándalos del padre y fundador de los Legionarios de Cristo, Marcial Maciel Degollado, Athié cuenta que fue a través de una de las víctimas del reconocido padre Maciel que conoció de los casos de violación a menores de edad.

      “Fui a visitar a un enfermo que era mano derecha del Padre Maciel y me cuenta todo lo que le había hecho desde que había sido niño en el seminario. Cómo había abusado de él en la enfermería. Cómo después había abusado de él varias veces en otro contexto y lo había utilizado a él para conseguirle drogas en España y dinero para la construcción de las escuelas”, relata Alberto Athíe.

      Desde ese instante de 1994 el aún sacerdote se comienza a interesar e investigar las denuncias de pederastia contra el fundador y líder de los Legionarios de Cristo y otros escándalos de abuso a menores dentro de la iglesia en México.

      En la entrevista el ex sacerdote Alberto Athié Gallo asegura que el Vaticano solo ha atendido 4 mil casos de denuncia de pederastia de los cuales solo 400 han sido reconocidos por la Santa Sede como Pederastia. Según Athié ha existido mucha manipulación dentro la Iglesia para ocultar los escándalos de abuso a menores. MCM

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  2. Antonio Tadeu Meneses // 11/02/2016 às 18:03 // Responder

    Depois de tantos problemas do realismo fantástico, por que muitos se deixam explorar por tão poucos?
    O proletariado não tem nada a perder, a não ser suas algemas, mais tem um mundo inteiro a conquistar. como disse Marx.
    Por que não chutam o balde, uma vez que são a imensa maioria?

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  3. A não ser que algo mude muito rápido na educação deste País, nos próximos cinquenta anos só teremos decadência.
    Quando, no principal estado da federação, se fecham centenas de escolas e abrem-se presídios, que são apenas depósitos de seres humanos, é o fim do fim.
    O deus do Almada realmente não está nem aí. Tanto é que ele não faz nada para conter políticos e nem mesmo, a proliferação de safados que criam religiões a cada dia, convencendo o povo que, tendo o que comer hoje, já está ótimo.

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