Guilherme Boulos: Natal sem hipocrisia

guilherme boulos[Guilherme Boulos, na platéia do Seminário Internacional Cidades Rebeldes, 10/06/2015. Foto: Yumi Kajiki]

Por Guilherme Boulos.

Hoje é Natal. Quase um terço da população mundial celebra o nascimento de Jesus Cristo. Só no Brasil são mais de 160 milhões de cristãos. A data, é verdade, se tornou mais que tudo um grande evento comercial, mas vale a pena aproveitarmos a ocasião natalina para uma breve reflexão.

Jesus Cristo, do modo como nos apresenta a Bíblia, não era um apologeta da ordem e da tradição. Enfrentou os poderosos de seu tempo e defendeu ideias que a consciência dominante não podia admitir.

Não por acaso morreu na cruz, depois de perseguido, preso e torturado. Como gosta de lembrar Frei Beto, Jesus não morreu de hepatite na cama nem atropelado por um camelo em alguma esquina de Jerusalém. Morreu como preso político nas mãos do prefeito Pôncio Pilatos e dos sacerdotes judeus. Isso, as escrituras nos dizem.

Nos falam também sobre as razões que fizeram de Jesus tão odiado pelos poderosos. Defendeu a igualdade e os mais pobres, condenando aqueles que se apegavam demais às riquezas: “É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus” (Mateus 19-24).

Defendeu a divisão dos bens, como signo da igualdade social: “Encheu de bens os famintos, e despediu vazios os ricos” (Lucas 1, 53). E assim o fez, partilhou o pão e os peixes entre todos (Marcos 6,41).

Jesus enfrentou também decididamente os preconceitos, como mostra o caso bíblico da mulher samaritana (João 4, 1-42). Acolheu os marginalizados (Marcos 7, 31) e foi misericordioso com as prostitutas (Lucas 7, 36-50). Combateu o ódio e intolerância.

Hoje, mais de dois milênios depois, nosso mundo permanece profundamente desigual. Os 2% mais ricos da população mundial detêm mais da metade de todas as riquezas, enquanto os 50% mais pobres detêm apenas 1%. Os donos do poder, via de rega, continuam atuando para manter esta estrutura de privilégios e reprimir o povo quando ousa enfrentá-la.

Muitos dos que hoje se dizem cristãos consideram a desigualdade como fato imutável e a legitimam pelo discurso hipócrita da meritocracia. Sem falar no ódio e na intolerância. Defendem o linchamento público de “marginais”, silenciam como cumplicidade ante a chacina da juventude negra nas periferias, ofendem homossexuais e toleram a agressão à mulheres.

Jesus dedicou sua vida à igualdade, justiça e paz entre os povos. Se reaparecesse em 2014, no Brasil, ficaria espantado com o que dizem e fazem muitos dos cristãos. Seria achincalhado com palavras inomináveis nas seções de comentários da internet. Seria chamado de bolivariano na avenida Paulista. Certa comentarista de telejornal o mandaria levar para casa a mulher adúltera que ele salvou do apedrejamento. E alguém, de dentro de algum carro no Leblon, gritaria a ele:”Vai pra Cuba, Jesus!”

Um coisa é certa. O Jesus de que a Bíblia nos conta, se vivesse hoje, estaria ao lado dos direitos sociais e humanos. Estaria com os sem-teto e os sem-terra, com os negros, as mulheres violentadas e os homossexuais vítimas de preconceito. Estaria com os imigrantes haitianos e defendendo – como o papa Francisco – o fim do vergonhoso embargo à Cuba.

Talvez fosse preso e torturado, do mesmo modo que milhares de brasileiros que não há muito lutavam por igualdade e justiça. Seria sem dúvida crucificado, desta vez não pelas autoridades romanas e os sacerdotes judeus, mas crucificado moralmente por muitos dos cristãos que, em seu nome insistem em combater tudo aquilo que ele defendeu.

Dizem que o Natal e a passagem de ano são momentos para reflexões e mudanças. Assim seja. Espero que muitos dos que partilham da fé cristã possam aproveitar a oportunidade natalina para inspirarem-se mais no exemplo de seu mestre.

Este artigo integra o livro de ensaios de Guilherme Boulos intitulada De que lado você está? Reflexões sobre a conjuntura política e urbana no Brasil, publicada pela Boitempo em 2015. Dividido em três partes: “Barril de pólvora”, com textos sobre questões urbanas, “Estopins”, sobre questões políticas, e “Artilharia”, centrada na crítica de expoentes da conjuntura brasileira atual, o livro conta tanto com intervenções publicadas na Folha de São Paulo, quanto textos inéditos escritos especialmente para a publicação, além de um ensaio de apresentação do autor e um posfácio escrito pelo cientista político André Singer. Leia o texto de orelha do livro, assinado por Leonardo Sakamoto, no Blog da Boitempo aqui.

***

Guilherme Boulos é formado em filosofia pela USP, professor de psicanálise e membro da coordenação nacional do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto). Colunista da Folha de S.Paulo, também atua na Frente de Resistência Urbana e é um dos autores do livro Brasil em jogo: o que fica da Copa e das Olimpíadas? (Boitempo, 2014). Em 2015 publicou pela Boitempo o livro de intervenção De que lado você está: reflexões sobre a conjuntura política e urbana no Brasil.

10 Comments on Guilherme Boulos: Natal sem hipocrisia

  1. Eduardo Alvares // 24/12/2015 às 11:57 // Responder

    Mesmo tendo razão no que diz, porque as pessoas tem que ser populistas?
    Porque não simpleslmente escrever o que pensa sem argumentos divisórios, tipo “alguém do Leblon”…. Podem saber que grande parte das pessoas que querem linxamento de bandido são trabalhadores pobres que enfrentam uma diária desumana e se sentem ofendidos quando veem um marginal roubando, isso os fere na carne, destrói sua autoestima, é uma cusparada no seu sacrifício cotidiano. É óbvio que justiça com as próprias mãos é um ato não civilizado. Mas não é patrimônio dos ricos, é resultado de uma indignação que não cabe mais dentro das pessoas. O rico se sente somente ameaçado, com medo de perder seu relógio de estimação. O pobre ofendido no seu sacrifício cotidiano para sobreviver. Acreditem na capacidade de reflexão das pessoas! Argumentos panfletários não funcionam mais, o caminho é outro, não tratem seus potenciais leitores como deficientes!

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    • Vladimir Batista // 26/12/2015 às 15:33 // Responder

      Só não enxerga quem não quer ver, pois todos sabemos que os ricos e poderosos, que são os verdadeiros criadores das desigualdades sociais, são também os que estimulam os pobres desinformados a conceberem a prática do linchamento público como ato de revolta e justiça, mal sabem esses pobres coitados que com isso estão contribuindo, não só, pra alimentar a violência, como também pra defender o patrimônio dos ricos. Rico só gosta de pobre pra explorar a mão-de-obra barata e pra ser usado de “bucha de canhão”!

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  2. Antonio Elias Sobrinho // 24/12/2015 às 12:43 // Responder

    É impressionante como um conjunto de pessoas, mesmo conhecendo as palavras e as posições de Jesus praticam o oposto. Afinal, as classes dominantes, através de uma ideologia poderosa, conseguiram, à revelia da realidade e da história criar um imaginário absurdo, onde as próprias pessoas humildes e humilhadas transferem, para outros, toda a carga de ódios e preconceitos de que são vítimas. Assim, mesmo com o crescimento da divulgação das palavras de Jesus, o mundo parece cada vez mais violento e opressor.

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  3. É impossível esquecer este lado revolucionário de Jesus Cristo. Na verdade, as igrejas neopen e católicas se esquecem disso seletivamente. Já que não é interessante mudar a situação do capitalismo, já que é possível seguir a vida com a teologia da prosperidade, então que se dane o cristo rebelde.

    De qualquer forma, belo texto.

    Como presente de natal para os leitores da Boitempo, eu deixo o link da biblioteca marxista, com mais de 1300 livros pra download: https://colunastortas.wordpress.com/marxismo/

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  4. “…O Jesus se vivesse hoje, estaria ao lado das mulheres violentadas…”
    Curiosamente o Natal aumenta a violência doméstica:
    http://saudepublicada.sul21.com.br/2015/12/21/o-natal-aumenta-a-violencia-domestica/

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  5. Rita Maria Alves Vasconcelos // 26/12/2015 às 14:58 // Responder

    Parabéns ! Identificação total com a fala do autor. Imagino o quão prazerosa deve ser a leitura de seu livro, agora é correr para comprar o meu. Oxalá essa postagem nas redes sociais possa contribuir para alguma mudança em muitas mentes fechadas.

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  6. Igrejas neopentecostais e católica da renovação carismática é uma coisa, católica e algumas evangélicas da teologia da libertação é outra, que comunga com o Cristo do autor, não podemos generalizar, inclusive o Papa Francisco está tentando mudar essa igreja dos poderosos e corre risco de vida!!!!!

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  7. A reflexão deve ser constante. A busca por melhora e mudança pessoal ñ deve ter data marcada. O sentimento natalino precisa e deve ser diário!

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  8. Beatriz Pedras // 29/12/2015 às 2:22 // Responder

    Excelente! Parabéns Jesus ainda não pode vir a terra. A postura do papa Francisco tem conseguido mudar um pouco a mentalidade de cristãos,que sem acesso a uma boa educação formal, nem mesmo conhecem a palavra de Deus.

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  9. Hugo Pequeno Monteiro // 31/12/2015 às 14:26 // Responder

    Prezado Marcos,

    Parabéns pelo excelente texto que com muita simplicidade e clareza lembra a todos que o igualitarismo, a justiça social e a idéia de que o poder deve estar nas mãos daqueles que produzem todas as riquezas, os trabalhadores, eram princípios defendidos por este indivíduo que em sua época se levantou contra o império romano e seus acólitos, os judeus que aceitavam o domínio romano. Todas as formas de documentação, as escrituras, as evidências históricas, foram unânimes em afirmar que Jesus foi torturado e executado de forma bárbara por se opor aos privilégios dos nobres romanos e judeus colaboracionistas. Um fio condutor une aqueles que vêem na mensagem de Jesus uma grande motivação para continuar a lutar pelos princípios acima mencionados a marxistas como eu que também lutamos pelos mesmos princípios.
    O nascimento de uma esquerda ecumênica que seja capaz de entender que o capital nacional e internacional e seus acólitos são os INIMIGOS a ser combatidos irá encontrar os pontos de convergência necessários para a criação de uma frente mundial que congregue trabalhadores religiosos ou não religiosos neste bom combate. O bom combate que irá nos levar ao mundo imaginado tanto por Jesus e Francisco de Assis, quanto por Karl Marx, Engels, Lênin.
    Este é o meu sonho de Natal.

    Hugo Pequeno Monteiro

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