Não à guerra das civilizações | Michael Löwy comenta as repercussões dos atentados de Paris

michael lowy capitalismo e democracia na europa[Michael Löwy na sede da Boitempo Editorial em 2015. Foto: Artur Renzo]

Por Michael Löwy.

Tradução de Mariana Echalar.

Só podemos reagir com horror à loucura assassina dos atentados jihadistas em Paris. Eles são uma “represália” aos bombardeios franceses na Síria? Ou uma punição à França “imoral e descrente”? Poderíamos discutir ao infinito, mas o essencial não é isso. Esses massacres terão como resultado político o fortalecimento da extrema direita racista e islamofóbica; eles agravarão a situação da população muçulmana na França, que em sua esmagadora maioria não tem nenhuma afinidade com o jihadismo; e dificultarão ainda mais a necessária acolhida dos refugiados, em especial os da Síria. Podemos nos perguntar se não é exatamente esse o objetivo dos mandantes do crime: criar condições para uma “guerra de civilizações” entre uma Europa racista e um Islã jihadista. A única bússola que pode nos orientar neste momento é não aceitar cair na armadilha, mantendo o rumo do antirracismo e da solidariedade com os refugiados.

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Confira os vídeos do curso Sociologia Marxista da Religião, de Michael Löwy na TV Boitempo

sociologia marxista da religião

Em tempos acirramento de fundamentalismos pra todos os lados, a Boitempo acaba de lançar o aguardado O absoluto frágil, ou, porque vale a pena lutar pelo legado cristão, de Slavoj Žižek, um ensaio explosivo que defende uma aproximação entre o cristianismo e o marxismo num projeto político emancipatório renovado. Nas palavras do esloveno: “O primeiro paradoxo da crítica materialista da religião é este: às vezes é muito mais subversivo destruir a religião a partir de dentro, aceitando sua premissa básica para depois revelar suas consequências inesperadas, do que negar por completo a existência de Deus.

absoluto frágil zizek

Neste contexto, que tal conferir os vídeos do curso “Sociologia marxista da religião“, ministrado por Michael Löwy, que acabamos de publicar na TV Boitempo? São 7 aulas completas apresentando a contribuição de alguns dos maiores nomes da tradição marxista (com ênfase aos “marxistas heterodoxos”) na compreensão do fenômeno religioso: Marx, Engels, Benjamin, Bloch, Gramsci, E.P.Thompson e Hobsbawm. Para além da fórmula da religião como “ópio do povo”, o sociólogo franco-brasileiro fornece elementos para compreendermos a dialética entre os elementos emancipatórios e os opressivos das religiões. O curso foi realizado no final de 2014 no curso de pós-graduação em sociologia da USP e foi viabilizado pelo Programa Escola de Altos Estudos da CAPES.

1. A sociologia marxista da religião
A concepção da religião como “ópio do povo” é neo-hegeliana; anterior ao marxismo. O estudo materialista histórico da religião como uma das formas da ideologia, em conexão com as relações sociais, só começa com A ideologia alemã (1848).

2. Friedrich Engels como sociólogo da religião
Engels se interessa sobretudo pelas formas revolucionarias da religião, como por exemplo em seu livro “clássico” A guerra dos camponeses (1850), que estuda as bases sociais do movimento anabaptista do século 16 e o papel do teólogo Thomas Münzer.


3. Walter Benjamin e a religião capitalista
Em um fragmento descoberto recentemente, “O capitalismo como religião“, datado de 1921, Walter Benjamin utiliza uma expressão de Ernst Bloch para analisar, partindo de Max Weber, o capitalismo como religião.


4. Antonio Gramsci: marxismo e religião
Em seus escritos de juventude Gramsci se interessa pelo potencial utópico da religião, mas no Escritos do Carcere seu tema é o papel conservador da Igreja, e em particular dos Jesuítas, na Itália.


5. Ernst Bloch e a religião como utopia
“Ateu religioso”, Ernst Bloch aborda em seus escritos a dimensão utópica da religião; seu estudo sobre Thomas Münzer, teólogo revolucionário (1921) se inspira em Engels, mas da um especial destaque ao milenarismo cristão.


6. E.P.Thompson: a religião dos operários.
Partido dos escritos de Max Weber, o historiador marxista inglês E.P.Thompson estuda o papel do metodismo na submissão dos operários ao trabalho industrial – mas também a efervescência sócio-religiosa contestaria suscitada pelos metodistas dissidentes.


7. Eric Hobsbawm: sociologia do milenarismo camponês
Em seus trabalhos sobre os “rebeldes primitivos”, Eric Hobsbawm descobre o papel subversivo do milenarismo camponês, na Itália e na Andalusia, em fins do século 19.

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Michael Löwy, sociólogo, é nascido no Brasil, formado em Ciências Sociais na Universidade de São Paulo, e vive em Paris desde 1969. Diretor emérito de pesquisas do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS). Homenageado, em 1994, com a medalha de prata do CNRS em Ciências Sociais, é autor de Revolta e melancolia: o romantismo na contracorrente da modernidade, Walter Benjamin: aviso de incêndio (2005), Lucien Goldmann ou a dialética da totalidade (2009), A teoria da revolução no jovem Marx (2012), A jaula de aço: Max Weber e o marxismo weberiano (2014) e organizador de Revoluções (2009) e Capitalismo como religião (2013), de Walter Benjamin, além de coordenar, junto com Leandro Konder, a coleção Marxismo e literatura da Boitempo. Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

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