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jesus izaíasDetalhe da pintura A Santa Ceia, com trabalho de restauro, de Leonardo DaVinci.

Por Izaías Almada.

O Brasil está refém de grupos hostis à democracia. Grupos corporativos e até mesmo alguns chantagistas no Congresso Nacional. De juízes descompromissados com a justiça, em particular aqueles que ganham as primeiras páginas dos jornais e entrevistas no rádio e na televisão.

Conseguirá o país reagir ou sucumbirá de vez a essa investida conservadora fundamentalista e fora da lei? Como a patética ignorância de alguns vereadores de Campinas sobre citação da filósofa e escritora Simone de Beauvoir a propósito do quesito de redação no último ENEM.

A ser verdadeiro, mesmo que parcialmente, o noticiário do dia a dia da vida política brasileira que se procura destacar, seja em jornais, revistas, emissoras de televisão e de rádio, todos comprometidos com a perspectiva de destruição do atual governo e sua presidente, bem como do ex-presidente Lula e do Partido dos Trabalhadores, estamos à beira da insanidade. Se é que nela já não estamos metidos.

O paroxismo da irresponsabilidade política da oposição e de bolsões de alguns débeis mentais a serviço de seus próprios interesses corporativos em órgãos policiais, em tribunais de primeira e segunda instância (ou de instância nenhuma), em órgãos do Ministério Público, atinge perigosos indícios de desrespeito ao país e sua Constituição, de desobediência a hierarquias aceitas no convívio sadio, democrático e harmônico da ordem institucional, transformando a democracia numa colcha de retalhos ou em rotos tapetes onde cada um limpa o pé como bem entende.

Não gostaria aqui de apontar o dedo acusador para o governo e para a presidente Dilma e seus ministros, tornando-os, mesmo que não façam por isso conscientemente ou até com segundas intenções, cúmplices de uma situação que parece se encaminhar para um beco sem saída. Até porque, queiram ou não a oposição e o próprio governo, toda crise tem uma saída, mesmo que não seja aquela que mais nos agrade.

Por qual razão o país tem que viver sob a pressão diária, imposta pela mídia, de que temos um governo corrupto, quando os verdadeiros corruptos têm suas contas bancárias abertas em paraísos fiscais? Por qual razão milhares de brasileiros, acometidos de farisaica honestidade, sonegam milhões e milhões de dólares anualmente? E muitos deles tomados pelo mais vergonhoso caipirismo de mostrarem que têm quatro ou cinco carros das marcas mais caras em suas garagens? Ou que passam férias ou têm negócios em Miami, como se essa cidade servisse de exemplo para qualquer coisa de útil para o ser humano menos idiotizado?

Por qual razão juízes de um poder judiciário que não dá mostras de entender bem o que é a própria justiça, de sequer aplicá-la com equidade, alguns até com suspeitas de estarem envolvidos em negócios ilícitos, por qual razão – repito – se arvoram em homens e mulheres de moral ilibada a distribuir acusações e sentenças sem provas, impedindo não só o contraditório, mas a sua própria defesa?

Ou ainda pior: usando a chantagem ou instituindo o dedodurismo (agora sutilmente chamado de delação premiada) com o objetivo cada vez mais claro de atingir o coração de um governo e de um partido que, bem ou mal, ajudaram a construir um programa social que tirou milhões de brasileiros da miséria e procurou dar alento e fortalecer uma infraestrutura industrial de suporte nacional com autonomia e independência? E que com isso ajudou, inclusive, a resgatar a dignidade de nossas Forças Armadas, sucateadas na época em que governaram os arautos e incivilizados revoltados que agora querem o impeachment presidencial.

Uma baba viscosa de cinismo e irresponsabilidade escorre pela boca de membros da oposição, apoiados pelos Savonarolas e os Torquemadas do Tietê e alguns candidatos a Mussolinis do Vale do Paraíba e pinheirais paranaenses, todos a escancarar a sua mediocridade, sua incompetência e sua pobreza intelectual, fazendo vir à tona parte daquilo que o país tem de pior.

Se assim continuar e o país democrático, progressista, responsável não reagir, as eleições municipais de 2016 se transformarão num vendaval de disparates, golpes abaixo da cintura e de cenas provavelmente ainda não vistas entre nós.

Não é nada difícil prever tal cenário quando, na lista de candidatos em São Paulo, só para ficarmos num único exemplo, entram pela raia oposicionista os candidatos Datena, Russomano, João Dória, Marta Suplicy e outros menos votados.

Ainda sou daqueles a considerar que o Brasil não merece tal castigo interno e vexame internacional. Ou, a continuar nessa toada irresponsável, talvez mereça. Porque não? Quando se está à beira do abismo é preciso muito cuidado com o próximo passo.

Mas tenha fé, irmão, Jesus pode ajudar…

***

Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mim, O medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

7 comentários em #jesus.com.br

  1. Antonio Tadeu Meneses // 05/11/2015 às 15:32 // Responder

    O próprio artigo do Izaias Almada se torna uma contradição ao apontar o dedo acusador para grupos hostis à democracia, corporativos, chantagistas e inclusive de juízes descompromissados com a justiça, a irresponsabilidade da oposição e interesses de outros grupos, etc. Ao mesmo tempo que não quer apontar o dedo ao governo, que por ação ou omissão, sob o qual esta situação foi gerada.

    As respostas ao questionamento feito pelo autor são muito simples, em primeiro lugar porque o “medo” que o neoliberalismo tinha de Lula, do PT e dos partidos de “esquerda” que o apoiavam se desmanchou no ar. e em segundo porque o PT e os partidos de “esquerda” que compõem o governo apodreceram visivelmente, não há como negar.

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  2. GENILDO SILVA CARVALHO // 05/11/2015 às 22:20 // Responder

    Será que Izaías Almada conhece a realidade brasileira hoje, sem partidarismo, sem paixão ?

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  3. Antonio Elias Sobrinho // 06/11/2015 às 13:23 // Responder

    Acompanhei e apoiei, desde a década de 1980, as propostas principais do PT, assim como votei nele desde 1989. Passei a acompanhar, mais estreitamente a partir de 2002, quando o partido teve a oportunidade de iniciar uma série de transformações que faziam parte de seu ideário.
    Ninguém pode negar que várias coisas mudaram, para melhor, graças aos projetos sociais empreendidos, ajudados inclusive por uma conjuntura internacional favorável.
    Hoje, inclusive, em função da crise generalizada tudo está ameaçado em função da nova política econômica que o governo resolveu abraçar, não se sabe em nome de que, mas que significou uma pernada em seus eleitores, nos movimentos sociais, nas esquerdas e em toda sua trajetória, que se caracterizou pelo combate a isso tudo.
    Além disso, é bom se considerar que os governos além de não terem tentado empreender nenhuma reforma estrutural, que invertesse um pouco a lógica perversa da realidade brasileira, atingindo os privilégios dos mais ricos, ainda insistiu no aprofundamento de alianças com velhos personagens e oligarquias defasadas da política brasileira que, depois de um certo ponto, causaram mais danos do que benefícios. Por exemplo, o que ganhava o PT com sua relação estreita com Sarney, Maluf, Collor, e etc.?
    O que ganhou o governo com a adoção de um plano econômico que, além de ter falido no mundo inteiro, não contribuiu com 1 voto da direita e provocou a perda de muitos a esquerda? O que ganhou o governo com sua cumplicidade e timidez perante uma mídia que lhe atacava ferozmente?
    Então, meu amigo e grande articulista, se o governo e o PT estão passando por essas, de difícil reversão, não é simplesmente por perversão das oposições, da direita e nem da propaganda da mídia, é também por isso, mas é, sobretudo pela trajetória que resolveu trilhar, sobretudo guiado por Lula que, ao iniciar uma estratégia vitoriosa inicial para ganhar e governar, passou a paparicar as elites, cooptar as burocracias dos movimentos sociais e partidários e deu as costas para isso que você considera o Brasil democrático.
    Agora, está difícil sair dessa encruzilhada. A crise geral vai passar, porém, acho que o povo vai dar um adeus a tudo isso e, se vier um governo de direita na próxima eleição, um dos grandes responsáveis é a estratégia adotada pelos governos petistas nos últimos tempos.

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  4. O “dedodurismo” só é bom no novembro azul dos outros, né?? O articulista deixa de ser democrático e se traveste de torcedor. Assim, é compreensível seus arrazoados, qualificando-se como os PIG’s da vida alheia, só que do outro lado.

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    • izaias almada // 06/11/2015 às 21:39 // Responder

      Aproveito aqui o comentário do Adolpho para responder também aos anteriores;
      nada melhor hoje em dia no Brasil para ficar bem com a mídia, com os patrões, para não perder o emprego, para ser bem considerado pelos amigos de classe média, para se dar bem em determinados círculos, para não ter problemas com alguns amigos mais antigos, para não ser considerado apoiador de corruptos e supostamente adepto de falcatruas, para ter a imagem de honesto e justo nas “análises” que faz e por aí afora do que se mostrar um anti-petista empedernido ou arrependido.
      Em política nem sempre é bom se mudar de opinião como se muda de roupa. O problema do Brasil não é o PT. Quem viver verá!
      Saudações a todos.

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  5. Estamo vivendo uma era em que \Calabar está sendo herói. Sempre na educação positivista que tivemos os delatores foram sempre objeto de repúdio, hoje estão sendo premiados. Nossos valores estão sendoforçados a mudar.

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  6. Prezado Izaías: Sua resposta foi adequada até à medula. Digo mais. Quem pensa e age como você mencionou no comentário/resposta, são aquelas psicologicamente estreitas, econômica e socialmente interesseiras e intelectualmente limitadas pessoas das classes médias, aquelas que o historiador E. P. Thompson definiu com adequada e única expressão. Enfim, tais personagens serão os futuros (ou já são?) “Savonarolas e Torquemadas do Tietê. ” Elas apenas querem “ser felizes”, não em Pindorama e sim na amada Miami.

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