Daniel Galera escreve sobre PSSICA | “Do horror acelerado ao máximo brota uma estranha poesia”

daniel galera pssica

Só se fala em Edyr Augusto. Depois de um sucesso estrondoso na França, onde foi apontado como um dos autores de literatura policial mais importantes de 2013 e 2014, com três de seus romances traduzidos lá em apenas dois anos, e tendo sido agraciado com o Prix Caméléon 2015 de melhor romance estrangeiro (concorrendo com Milton Hatoum, Adriana Lisboa e Frei Betto), Edyr retorna ao Brasil pára lançar seu novo livro Pssica. Considerado um dos melhores livros do ano pela Folha e um dos melhores romances policiais já publicados no Brasil pelo Estadão, o livro vem colecionando críticas elogiosas e leitores ávidos – entre eles, o escritor Daniel Galera, que acabou assinando o próprio texto de orelha do livro, reproduzido integralmente abaixo. Confira!

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Uma adolescente patricinha é acusada de ser uma vagabunda pelos próprios pais e expulsa de casa depois que um vídeo em que pratica sexo oral com o namorado circula nos celulares de seus colegas de escola. Antes que o leitor possa assimilar a violência da cena, ponderar sobre a injustiça moral e respirar um pouco, os desdobramentos da trama já incluíram pedras de crack, prostituição infantil, rapto. Ainda estamos nas primeiras páginas desta vertiginosa novela de Edyr Augusto, uma narrativa que nem se dá ao trabalho de arrancar para depois acelerar. O velocímetro está no vermelho no instante em que a sentença de abertura nos informa: Era para ser um dia normal.

A escrita de Edyr parece consciente de que a violência e a miséria encontradas em obras como o conto Feliz ano novo, de Rubem Fonseca, ou o romance Cidade de Deus, de Paulo Lins, deixaram legados positivos para a representação da nossa sociedade na literatura, mas também uma armadilha: a estética do choque como um fim em si mesma. Dentre as estratégias possíveis para a superação dessa armadilha, Edyr faz a opção radical de levá-la ao paroxismo. O resultado é uma narrativa feita de episódios terríveis dispostos em rajadas de frases curtíssimas.

Desse horror acelerado ao máximo brota uma estranha poesia. Isso ocorre, talvez, porque o motor do texto é silencioso e eficiente. Os personagens, entre eles um imigrante angolano que busca vingar o assassinato da esposa e um garoto que assume uma operação de roubos de carga nos rios sem lei do Pará, nunca deixam de ter uma desejável ambiguidade. Vítimas e bandidos se confundem à medida que suas paixões, sofrimentos e crueldades convergem para uma série de acertos de contas, desencontros, fins abruptos. Mesmo nos picos de maldade, seus destinos evocam tristeza, quando não uma incômoda empatia.

A jornada alucinatória de Pssica leva o leitor a Belém do Pará, à ilha de Marajó e a Caiena, capital da Guiana Francesa, cenários pouco vistos na literatura contemporânea de maior destaque. O realismo de Edyr, liberdades ficcionais à parte, mostra a urbanidade e os costumes muitíssimo brasileiros dessa região, mas também a configura como o reduto de uma barbárie e um primitivismo que atingem dimensões góticas. Dos personagens que sobrevivem a essa história, alguns encontrarão algo parecido com a redenção. Resta saber o que ela de fato significa na velocidade brutal e sobre-humana dos tempos que vivemos.

Daniel Galera

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