De bar em bar: 1° de Abril!

mouzar 1 arilPor Mouzar Benedito.

Campinas, uma das maiores cidades paulistas, tem algumas coisas muito diferentes. Uma delas, que surpreende muita gente, é o quartel do Exército.

A três quilômetros do centro da cidade, o quartel tem uma área enorme e é cercado apenas por uma mureta de menos de um metro de altura, toda pintada de cor-de-rosa. E todos os prédios lá dentro também são dessa cor, que parece não combinar bem com o verde-oliva tradicional do Exército. Mas acaba sendo uma visão agradável, um respiro da cidade grande, aquela ampla área verde (não oliva, mas do gramado extenso e das árvores) com construções da cor tida como feminina.

Dizem que a área do quartel era uma grande fazenda que pertencia a uma mulher que não tinha herdeiros, e ela a deixou para o Exército, com a condição de que todas as construções ali deveriam ser cor-de-rosa.

No final de 2003, a Célia, minha mulher, e eu fomos morar num prédio em frente ao quartel. Era um bom lugar, com aquela vista aprazível, quase no centro da cidade. Claro que no mesmo prédio e nas vizinhanças moravam muitos militares.

Em todos os lugares que moro, procuro conhecer logo algumas coisas que considero essenciais que existam nas proximidades: os bares e restaurantes, bancas de jornal, praças, padarias e farmácias, além de outros estabelecimentos comerciais e de lazer.

Então, no primeiro sábado que estávamos lá, logo de manhã saí de carro pra conhecer as redondezas, ver o que tinha por ali. O bairro era bom, tinha de tudo. Só não estava encontrando botecos atraentes – que fui conhecer depois. Existiam, sim, e muito bons.

Numa praça bonita, ao lado de uma área arborizada com vegetação original, conhecida como Bosque dos Italianos, havia uma feira de arte, livros usados, artesanato e antiguidades, o que já me interessou. Era um lugar bom para se passear aos sábados, com muita coisa para se ver (e comprar, se fosse o caso) e muita gente para conhecer e conversar. Para completar, vi num canto da praça um botecão de esquina, tipo sujinho, cheio de gente, com muitas mesas na calçada e mesmo na rua, à sombra de árvores com copas bem grandes.

Fui buscar a Célia, demos uma volta pela feira e fomos direto para o bar, que se chamava 1o de Abril. Era simpático, tipo bar de interior mesmo.

Ocupamos uma mesa do lado de fora, separada da parte interna por uma mureta baixinha. Dali, além de apreciar todo o movimento do lado de fora, do pessoal que chegava e saía da feira, podíamos ver o que rolava do lado de dentro: jogo de truco em duas mesas e de sinuca, também em duas mesas, com muita gente sapeando.

A bebida era baratíssima e farta. Pedi um Underberg, que lá custava metade do preço dos outros lugares e veio um copo duplo com uma dose também dupla! Para nossa diversão, entre os tira-gostos havia tremoços por um preço menor do que o do supermercado. A cerveja era muito gelada e tinha as marcas que a gente gostava. Na mesa em frente, um grupo de idosos, com linguagem típica de militares, interrompia seus assuntos toda vez que passava alguma mulher jovem e bonita. Nenhuma escapava dos seus comentários. Algum deles dizia “fulano já comeu” ou qualquer coisa do tipo, chegando até a comentar detalhes de supostos gostos sexuais da dita cuja. Eu estava me divertindo.

De repente, veio em direção a nós uma moça toda gostosa, de shortinho apertado e curto, e mini blusa que deixava a barriga à mostra. Vi que os velhinhos olhavam para ela engolindo saliva, mas nenhum falava nada. Chegou pertinho e falou para um deles:

– Vovô, vim te buscar para almoçar.

Um dos velhinhos se levantou e acompanhou a moça, deixando os outros com olhares cobiçosos, ainda engolindo saliva. Todos calados. Eu ri baixinho e a partir daí virei freguês do 1o de Abril!

***

Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

2 comentários em De bar em bar: 1° de Abril!

  1. Antonio Elias Sobrinho // 01/09/2015 às 17:49 // Resposta

    O mundo dos homens é muito estranho. Ele reflete, mesmo na privacidade ou em grupos, todas as contradições da sociedade erguida sob o domínio dos homens.
    Se são velhos e militares, mais ainda, porque cresceram sob o poder imperial da ditadura onde se habituaram a impor suas determinações do tipo: “sabe com quem estar falando” e, além disso, do medo que impunham.
    Ser militar significava, não só respeito, mas também benesses derivadas dos espaços que passaram a ocupar tanto no Estado como na sociedade civil.
    Isso fez com que ainda hoje sejam capazes de galhofar dos outros, sobretudo das mulheres, porém já incapazes de dobrar a ousadia das novas gerações.

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  2. Texto bastante agradável, principalmente para quem já teve oportunidade de lá estar

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