Dilma, o Recife mandou te chamar

Em 12 de março, foi o aniversário de duas meninas quase gêmeas, duas cidades quase em uma só, de tão próximas e parecidas, o Recife e Olinda. Eu gostaria de pedir uma suspensão do noticiário político, como se fosse possível haver uma trégua breve na guerra. Devo? É possível? Façamos de conta que sim, num intervalo ligeiro, para falar de passagem da cidade que na semana passada fez 478 anos.

Do Recife posso dizer que, para onde vou, sinto sempre em todas as ruas de outros lugares uma falta, ora do cheiro de mar, ora do Capibaribe, ora do suco de graviola, de cajá, de feijão com charque e jerimum, das coisas mais caras que fazem uma identidade. Se estou em João Pessoa, cidade bonita e acolhedora, na praia de Tambaú descubro com exclamações o restaurante Gambrinus, mesmo nome do bar que existia na Marquês de Olinda, em nossa juventude. O Recife traz para mim a situação daquela música de Herivelto Martins, Pensando em ti: “eu amanheço, eu anoiteço, pensando em ti”, cidade. Nos livros que tento ler em cada frase o Recife está. Santa cidade, não deixa nem espaço para eu pensar em Deus. Aliás, se existe, Ele é o Recife.

De tantos locais recifenses, poderia falar do Mercado da Boa Vista, onde todos os dias são de sol, pois não consigo imaginar um minuto sequer de tempo sombrio, de inverno pesado, de toró brabo ou de noite soturna, lá no Mercado da Boa Vista. Ou do Mercado de Água Fria, onde se apresentavam mamulengos, na pracinha em frente, ou espetáculos de fantoches, como a eles se referem os dicionários do sudeste. E para a frente do mercado descia também, lá do Alto do Pascoal, um dos maiores artistas de teatro de bonecos que já vi: Ginu, o criador do personagem Professor Tiridá. Ele era um encanto para adultos e crianças. Mas além de Ginu, que ficou conhecido como O Professor Tiridá, assim como Chaplin se transformara em Carlitos, além de Ginu havia uma excelência da arte da ilusão que era um senhor ventríloquo. Não sei o nome dele, mas sei que era ótimo em dar vida a um boneco negro, do tamanho de um menino, a quem ele chamava de Benedito. Hoje compreendo que veio dele a minha primeira e inesquecível lição de romancista. Os personagens têm vida, se tornam pessoas pela verdade que falam.

Era bom continuar a falar sobre a excelência do Recife. Mas acho que não devo pedir a trégua para um lado só, quando contra o nosso lado aumentam os tiros. Assim, eu volto, sem sair do tema do Recife, para falar da política na cidade.

Lembro que no livro A vida quer é coragem, de Ricardo Batista, assim se fala:

“[…] a uruguaia Maria Cristina Uslendi conta que em outubro de 1971, toda vez que voltava das sessões de tortura encontrava Dilma de braços abertos ‘me amparando, me ajudando a usar a latrina quando não tinha forças, me dando sopinhas de colher na boca, me cedendo a parte de baixo do beliche e pondo na vitrolinha de pilhas as melhores músicas da MPB. Cristina conta que Dilma sempre pedia a ela que prestasse muita atenção à letra de ‘Para um amor no Recife’, uma canção de Paulinho.”

Na época, diziam que Paulinho fez “Para um amor no Recife” para a secretária de Dom Hélder Câmara. As boas e as más línguas (principalmente) acrescentavam que a dedicada senhora vinha a ser a namorada secreta do arcebispo. Entre o sussurro e a maledicência, entre a repressão da ditadura Médici e a resistência serena erguia-se um poema belo, quase autônomo da melodia: “A razão por que mando um sorriso e não corro, é que andei levando a vida quase morto. Quero fechar a ferida, quero estancar o sangue, e sepultar bem longe o que restou da camisa colorida que cobria minha dor. Meu amor, eu não esqueço, não se esqueça, por favor, que voltarei depressa, tão logo acabe a noite, tão logo este tempo passe, para beijar você ”. Esta é uma canção que só fez melhorar ao longo de todos esses anos. A ditadura não existe mais, o seu motivo imediato não mais existe, mas a composição só vem crescendo, apesar da degradação do Recife, que entra quase incidentalmente no título.

E agora falo mais perto do dia seguinte, da sexta-feira 13 de março. O Recife já deu provas, quando tudo era incerteza e o céu era nuvens anunciando trovões e o mais brabo toró, o Recife já deu prova de que não falta à luta. Assim foi aqui em outubro de 2014, quando a militância e todo o povo anunciaram o que seriam as urnas, quando a cidade se tornou vermelha:

Com um convite à militância de Dilma para que comparecesse à saída do bloco de carnaval Eu Acho é Pouco, naquele dia houve um comparecimento em massa de todas as tribos de esquerda e de centro e indecisos no Marco Zero e na Rua do Apolo. Olhem, a cor dominante era a vermelha. E com alegria e com orgulho.

Todas as tribos, quero dizer, velhos, crianças, jovens, idosos, bebês carregados no colo e em carrinhos, mas nada de escadaria Odessa no Encouraçado Potemkin, apenas uma formação de militância. Essas crianças vão ser socialistas e de esquerda no futuro, eu não tenho nem dúvida. E quando eu digo todas as tribos, quero dizer também: classe média, trabalhadores, estudantes, negros, brancos, mulatos, caboclos, intelectuais, artistas e analfabetos. E moças e moças e moças de todas as cores, evangelhos e credos, num autêntico creio em deus pai todo poderoso criador da esquerda e da terra do Recife.

Aquela ideia de não-lugar, de estranhamento, de virar estrangeiro em minha própria cidade, que senti com o resultado das eleições para governador, foi embora. O Recife ontem voltou a ser o abrigo primordial do útero coletivo. A terra que nos faz crescer com novas forças, como aquele deus grego que no contato com o chão virava imortal… Mas com tanta gente de todas as cores e raças e idades, dos bebês que não estavam em Odessa, mas cujos pais iriam à escadaria se estivessem na Rússia do czar, debaixo da estátua de Chico Science na Rua da Moeda, eu soube então que ontem o Recife foi o lugar. Do Brasil.

Assim foi, na mais recente sexta-feira. E continua o mesmo ardor de antes, até mesmo depois do último domingo, presidenta, quando desejam destruir o voto das urnas. Saiba mais uma vez, Dilma, que o Recife mandou te chamar.

* Ouça aqui o comentário de Urariano Mota sobre o aniversário do Recife na Rádio Vermelho.

***

Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. É colunista do Vermelho. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, de O filho renegado de Deus (Bertrand Brasil, 2013), uma narração cruel e terna de certa Maria, vítima da opressão cultural e de classes no Brasil, e do Dicionário Amoroso do Recife (Casarão do Verbo, 2014). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

2 comentários em Dilma, o Recife mandou te chamar

  1. Texto sensato, sensível e sereno.
    Excelente!
    Ana Lúcia.

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  2. geraldopontesjr // 17/03/2015 às 14:05 // Responder

    Urariano, é excepcional começar o dia lendo seu texto, do poético e nostálgico – em muitas referências – ao político – muito urgente. E ainda mais com a lembrança dessa que uma das canções mais instigantes do Paulinho, pelos sentidos que ficam em suspense, cheios de lirismo. O pulmão respira mais forte e lhe agradece.

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