Princípio, meio e fim

Evolução humana[Ilustração de André Almada]

Por Izaías Almada.

O que viria antes do Big Bang inicial? Segundo vários cientistas, o nada. Mas, também segundo a ciência e outros renomados cientistas, tudo no universo tem princípio, meio e fim, o que incluiria o próprio universo.

Logo, se tudo tem princípio, meio e fim e o Big Bang é o início do universo tal qual o conhecemos (conhecemos?), o que existiria antes do Big Bang, apesar dos que contestam essa dúvida? E qual será o fim desse mesmo universo?

E nessa toada, que tenta encontrar um significado para a vida, sem que tal questão nos leve à demência prematura, não será absurdo afirmar que esse mundinho, tal qual o conhecemos, terá também o seu princípio, meio e fim.

Como será isso? Nenhum de nós tem a menor ideia a respeito, mesmo os cientistas mais estudiosos e interessados no assunto.

Distraía-me com tais “maluquices” enquanto bebericava meu cafezinho no balcão de uma cafeteria de Shopping Center e observava o vai e vem dos vários funcionários que trocavam de turno ou vinham de seus escritórios nas redondezas para o almoço, da azáfama das compras, de mães com seus filhos menores a curtir o final das férias de verão. Posto de observação privilegiado de tipos e comportamentos para quem, como eu, gosta de rabiscar algumas letras de vez em quando.

Foi quando comecei a reparar e contar o número de pessoas que passava com seus aparelhinhos eletrônicos, tablets e celulares menos ou mais sofisticados. Distraídos e pouco interessados com o que passava à sua volta, concentrados nas mensagens que liam ou escreviam, sérios ou com sorrisos iluminados, num balé impensável há dez anos, inseriam-se todos nesse novo mundo que dá também os seus primeiros passos em novas formas de comunicação. E de comportamento.

Comunicação que, paradoxalmente, começa a provocar o isolamento das pessoas. Como?

Não sei quantas vezes vi em mesas de restaurantes: famílias, casais de namorados, quatro amigas ou amigos onde a maioria, senão todos tinham celulares nas mãos e não conversavam entre si. Festas infantis onde boa parte dos adultos fica com um mini cachorro quente numa mão e o celular na outra. Porteiros e seguranças de edifícios (imaginem, seguranças) não largam seus celulares.

Já é conhecida a anedota que após uma reunião de condomínio, dois dos participantes que quase iniciaram um diálogo à saída da reunião combinaram terminar a conversa através de seus ifones. Ou trocar e-mails: o whatsapp era uma novidade.

Quantas horas o leitor passa por dia com celulares de última geração ou mesmo num iPad ou num PC caseiro à procura de saber o que se passa à sua volta, ou misturando trabalho e lazer? Tem caído consideravelmente o número de leitores de jornais diários e revistas semanais. E também a audiência de canais abertos de TV. Baixado o rendimento de funcionários em empresas mais moderninhas.

Não é por acaso que sociólogos e psicólogos e muitos estudiosos do comportamento humano investigam a causa de mudança tão brusca na forma de comunicação do homem contemporâneo.

A linguagem cifrada nas redes sociais, em particular no facebook e no twitter começa a empobrecer a escrita. Seus usuários começam a se viciar em incontáveis entradas diárias na internet e começam a ter dificuldades em comunicação verbal frente a frente. E podem ter a certeza de que não estou exagerando.

Se um de nós consegue reunir amigos e travar um diálogo olho no olho, basta a primeira dúvida surgida quanto a determinado assunto, por exemplo, e pimba, todos aos celulares para entrar no Google e procurar as respostas. A partir desse momento a maioria corre aflita para as últimas do facebook, uma das maiores fontes de narcisismo e hipocrisia criadas pelo homem. Alguém ainda se lembra de como surgiu o facebook? A motivação do seu inventor?

Calma, calma. Como toda invenção do homem, o facebook e o twitter têm também o seu lado bom, não é verdade? Como a imprensa, os aviões, a energia nuclear e muitas outras coisas que também destroem. Mas isso já é uma conversa desinteressante e para muitos, sob certos aspectos, ultrapassada.

Voltemos àquela dúvida inicial: nosso planetinha tem princípio, meio e fim. Qual seria o ponto de inflexão entre o princípio e o fim? Já foi superado e não o percebemos? Estamos entrando nele? Ainda demora?

A comunicação e principalmente a falta dela pode ser um indício. A falta de comunicação costuma gerar falta de informação ou informação propositalmente distorcida ou falsa, chegando a provocar crises, revoluções, guerras, com suas fomes, epidemias e desempregos.

O avanço da tecnologia eletrônica deixa a mundo mais informado e cada vez mais confuso, pois em segundos recebemos notícias que em outros segundos são contestadas, gerando uma “síntese”, que também pode ser contestada em segundos depois. Em quem acreditar? Em qual jornal, emissora de rádio, revistas, telejornais e reportagens sensacionalistas?  

Afinal, a informação, o conhecimento, o saber estão a serviço de quem? Da humanidade como um todo ou de alguns grupos econômicos e países que dominam e controlam a informação como querem, mesmo que possam ser contestados aqui e ali, mas sem que isso coloque em risco o domínio de 1% da população sobre os outros 99%?

E vai piorar, pois estamos apenas no início de uma lavagem cerebral, de um manipular de consciências no varejo, enquanto o poder de fato se consolida com a proteção, no atacado, dos arsenais nucleares instalados em alguns poucos países. Ou é a minha verdade ou não é a verdade de mais ninguém.

Catastrofismo? Falta de assunto? Pessimismo? Novo período de caça às bruxas?

Gostaria de ouvir opiniões mais otimistas.

A ilustração acima, contudo, é bem curiosa, não?

***

Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mim, O medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

6 comentários em Princípio, meio e fim

  1. Penso que já passamos do meio pro fim na mudança radical do planeta. E acredito que esta mudança, é para melhor. Nós, na faixa de 60 anos ainda somos saudosistas da querida carta manuscrita, da sincera compra sem garantia, de fazermos refeições em família, de sermos solidários com vizinhos, de, num sorriso ou franzir de testa, sabermos se estávamos agradando ou não. Como ficamos quase impossibilitados de passar para frente estas coisas e atitudes boas, pois fomos atropelados pela tecnologia e pela indiferença, só nos resta aguardar a curva descendente do planeta (fisicamente) para o ressurgimento moral do mesmo.

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  2. Luiz Orchestra // 13/03/2015 às 7:07 // Responder

    quando há 30 anos atrás começaram a surgir as musicas meio que sertanejas meio que yeyeye….siam João gilberto e tom jobim e vinicius demoraes e entravam keandro e leonardo ,teodoro e sampaio ,praça da sé e clovis bevilácqua….um amigo meu ,musico e composirotr me disse reclamando -que musicaprimaria….a gente esperando a evoluçãpo de tom e Hermeto que coisa .9mal sabia ele que viria o rap e o rapper -ritmo e poesia mas o s rappers se auto denominam musicos e nem afinar um cava co sabem ou conseguem,,,lembor que respondi ao meu amigo -vai piorar o diabo tem o rabo muito mais comprido do que a gente imagina…é isso izaias toma o seu café em paz que ,com certeza vai piorar……

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  3. Luiz Orchestra // 14/03/2015 às 16:08 // Responder

    escrevi tarde da noite….e errei muito….mas reli e dá entender…….abraços….
    Imagine só que a evolução da humanidade no Brasil vem de Machado deAssis pra jabor….de Dr Zerbini pra todos os medicos coxinhas que recebem bola dos laboratórios e só sabem diagnosticar depois que os labs enviam a cola……Antes -Sobral Pinto hoje joaca……e por aí segue a evolução brasileira….Instituto Butantã e hoje instituto millenium da rede goebbels……ahhh não dá…

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  4. Izaias Almada // 15/03/2015 às 3:55 // Responder

    E a lista do HSBC, Luiz? Quantos canalhas e hipócritas a falar em ética?

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  5. geraldopontesjr // 16/03/2015 às 14:49 // Responder

    Olá, Izaías. De fato é muito preocupante pensar em quadros como o que você descreve, a mesa em que quatro pessoas, em vez de conversar, olham para seus aparelhos nos quais leem mensagens em geral. Os estudantes na universidade hoje nem mais copiam as ideias estrangeiras, das bibliografias mais consagradas: baixam textos prontos para responder a perguntas, até entregar trabalhos, o que dá no entanto para perceber e não aceitar. Teremos que aprender a conviver com essa informação imediata, instantânea, evitando que ela seja avassaladora – ou até aprenderemos a esmiuçar a natureza do argumento e do discurso através de tanta falácia. Não sei bem se esse será o estágio final para voltarmos, quem sabe, à ágora, onde se validaria apenas o que fosse discutido presencialmente – mais uma utopia? Um comentário apenas gostaria de fazer a suas considerações sobre o big bang: um físico francês chamado Etienne Klein questiona a validade dessa teoria einsteiniana – se não me engano, atribui-se a Eistein. Para ele, acreditar que há um início no universo significa acreditar em um “antes”, em que nada havia. Traduzindo em palavras minhas, talvez inexatas, tal teoria pode ser um pouco influenciada pelas cosmogonias religiosas, atribuídas, então, a fenômenos astro-físicos – e Einstein ainda não teria sido aquele que se libertara da verdade segundo as teologias ocidentais. No entanto, o que parece bastante interessante nisso é que pensar na possibilidade de não haver um antes é assumir que o universo é realmente uma grande incógnita – e, de quebra, a vida.

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  6. Luiz Orchestra // 16/03/2015 às 15:02 // Responder

    #globohsbc ……#bandhasbc #psdbhsbc etc etc…..

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