O homem que falava inglês

Filadelfo era vítima do próprio talento. A sua via-crúcis fora construída pelo inegável gênio de que era possuído. Mas como? Mas como assim, se isso vai de encontro, é uma oposição a tudo quanto nos ensinam sobre o valor da educação e do trabalho? Se as ideias gerais, abstratas em conceito irrefutável, faltam a esta narração, não deve faltar o entendimento do que aumentou a desgraça de Filadelfo. Para um, digamos, simples mestiço, neto de escravos, que fora guia de cego na infância, possível abusado por adultos, para esse gênero de ser, era uma vitória ter atingido o ponto em que o vemos em 1958.

Muita água, muita concessão, muita vileza, daquela que possui toda sobrevivência, que se faz à custa da própria honra, Filadelfo havia passado. De servidor para todas as horas de mariners durante a guerra, de agenciador de putas a criado de quarto, vale dizer, serviçal de camarote, de limpador de escarro em lixeira a pequeno ladrão, de testemunha de homicídios a explorador da própria mãe, essas coisas fundas que sem voz embargada não se falam, o Filadelfo que agora sai dos conselhos e purificações do padrinho Manoel de Carvalho já havia passado. Se retiramos da palavra toda carga irônica, ele era um vitorioso. Se conseguimos expurgar a destruição que implica a palavra, o seu corpo era uma vitória. Vitória pelo esforço, sorte e circunstâncias, seria bom termo, se fosse verdadeiro. A essa vitória o espírito do padrinho, se lesse estas linhas, sorriria fino, contido: “hum, hum…”. Para chegar a este ponto, a esta casinha, de onde ele sabe estar pronto para vôos mais altos, houve um acúmulo de informações, de safadezas, que também fazem uma educação, apesar de não escrita nos livros didáticos da escola formal. Ninguém jamais lerá: “Homem, trai o teu pai, a tua mãe, teus amigos, teus melhores sentimentos. Homem, trai tua pátria. Trai, trai, e teu será o mundo”. Isso não se diz, pelo contrário, isso escreve como uma tentação do Diabo a Jesus Cristo no alto do monte, mas como uma promessa enganosa que a sabedoria divina vence. Ou seja, onde se lê por metáfora há um fundo virtuoso, mais enganoso que o mundo de riqueza descortinado por Satanás.

Mas ora, não ora, de rezar. Ainda que pouca, aquela casinha às seis horas da manhã era lugar e condição de vitória. Se mascarada, como nos relatos dignificantes, seria prova do quanto a instrução – o aprendizado prático do inglês – pode erguer um homem. No entanto, é da natureza do conhecimento não se conter em limites provisórios. É da sua irreprimível pulsão o querer mais, o ir adiante, inesgotável e incessante. Assim é, sempre insatisfeito, ou conhecimento não será. Estava, portanto, escrito. Mas com algumas advertências, que o gênio de Filadelfo jamais adivinharia, pois não era o gênio de Deus em sua infinita onividência: o sistema que premia o saber é o mesmo sistema a impor limites que estão na sua própria natureza de brutalidade, morte e violência. O prêmio social é pela exclusão. Se não antes, depois. E sempre nos limites de cor, história e classe, pensava Jimeralto, ao receber na reflexão um cheiro de Filadelfo, do suor de Filadelfo, de carne de gente que se mistura à processada em latinhas da Wilson.

Mas como, se os limites estavam diluídos? O que é um sistema, uma máquina de etiquetas classificadoras? Miseráveis aqui, pobres ali, proletários neste lugar, burgueses  adiante? Não, a coisa – a separação de gente – não se dava nem como no poema de João Cabral, que fala de gavetas funerárias, de ruas diferentes de pobres e ricos no cemitério de Santo Amaro. Restos de mercadorias caras e baratas, não é isso. Um homem podia então, como pode ainda hoje, ascender, mudar de posição, sair da miséria e se tornar, até, um burguês. Ainda que exceção, tal vitória, sob o riso de Manoel de Carvalho, hum, hum, hum…, é possível. Os limites de Filadelfo não se davam nem pela cor que, desejasse ou não, o acompanhava aonde fosse, pois a cor era uma roupa que o vestia por cima da sua camisa de seda. “Aquele negro metido a lorde”, diziam-no. O gênero negrinho chic, se era um limite à vista, não foi bem a causa da sua desgraça. Pois há negrinho chic, negrinho metido a lord, negrinho até presidente de Academia de Letras. Mesmo que não se integre como um indivíduo normal em um grupo seleto, pois é acintosa a presença de uma ovelha negra em um rebanho de ovelhinhas brancas, terminam por lhe conceder a honra, cercado de olhares atravessados. “Sim, é um negro, mas…”, e a conjunção adversativa o salva da vala comum. Aquela aceitação eivada de constrangimento, sob invocação disciplinadora, “eu não tenho preconceito, ele pode ser uma boa pessoa”, ou a frase do virtuoso non-sense “coisa mais natural, um negro dono de um Mercedes”, sim, do cômico ao odioso fingimento, tais manifestações não foram o daqui não passarás, volta a teu lugar, negro safado.

A desgraça, a expulsão de Filadefo direto para o inferno, foi destino do gênio e gênero do seu talento. Onde outros, de sua cor e classe, chegavam a um patamar elevado e se recolhiam modestos e humildes – com esperteza, é certo, porque um homem tem consciência do próprio valor –, onde indivíduos de passado de exclusão pediam desculpas nos gestos, na fala, no tom, uma vez que estavam em uma posição tida como inadequada, Filadelfo, não: abria as portas, escancarava a entrada, sentava-se no trono e parecia dizer, em atos e feições, apontando pretendentes que reclamavam trono semelhante: 

– Os inadequados são eles. Este cetro, esta casa e este poder são meus, sob o mais estrito critério de merecimento.

Uma loucura, palavra que os privilegiados de fortuna e sangue chamavam de “uma descabida provocação”. Aquele negro, como ousava? Em guerra, a ilusão de Filadelfo se dava ao acreditar que por força da sua inteligência, do seu trabalho, da sua vontade, o mundo se abria para ele. O sol nasceu para todos, dizia, repetia-se, não bem para expressar que o sol iluminava mendigos e reis igualmente, mas para dizer que os raios do sol podiam ser arrancados por quem os conquistasse. E os conquistadores eram negros, brancos, amarelos, pardos, índios, netos de escravos, todos que tivessem suficiente força de vontade. Pois a maravilha da vontade fazia o mundo ser justo. “Hum, hum, hum…”. Como podia um homem tão machucado ser tão estúpido? Ou será, para entendimento mais exato, que existe um limite para a aceitação da dor, da merda de vida em nossa própria imagem? Naquela altura do beco, em que conversava com Manoel de Carvalho às seis da manhã, ele já era o homem que melhor falava inglês no Recife. Falar, comer, orientar navios sem megafone no cais, em lugar de um prático naval, mais beber, gargalhar, todas essas mostras e exibições de inglês ninguém fazia tão bem quanto ele no Recife.

Como um pistoleiro do oeste americano, como um herói dos filmes de faroeste, ele não cansava de se medir, de provocar, de corrigir e fazer perguntas aos mais nobres e privilegiados falantes da língua. Se cruzasse o seu caminho um acadêmico, um advogado, um médico, um doutor, enfim, lá estava Filadelfo a se mostrar, a se exibir, impiedoso para os portadores de diplomas de toda e qualquer natureza:

– Não, esta frase não se fala. Ninguém fala assim, Você aprende isso nos livros. A fala na América é outra. No Texas, em Chicago, em New York…

Era cômico, vexatório – para ele uma vitória – ver os cidadãos médicos se tornarem pálidos, brancos sem cor, diante da lição que os desarmava, e lhes dizia além da fala: “Olha, este negro aqui sabe muito mais que você. E lá vai um golpe mais de nocaute”. Eles, os privilegiados de nascimento e fortuna, iam à lona. Caíam com um olho de raiva, incrédulos: “O que vejo? Como pode? É um trapaceiro”. E beijavam o chão do ringue. Mas uma conta passavam a carregar para um acerto futuro com Filadelfo.

Com os populares, com os conhecedores de inglês como ele da beira do cais, o trato era outro. Eles apanhavam de Filadelfo por força mesmo do gênero do aprendizado deles da língua. Enquanto os consertadores de sacos de carga furados, enquanto os estivadores, os arrumadores de fardos de açúcar empunhavam um inglês imediato, do “estou com fome”, “dê-me isto” ou “tu queres sexo? eu sei onde tem sexo”, e assim falavam e se dirigiam a trabalhadores gringos de mesma condição que eles, Filadelfo, por ambição servil, aprendera a falar com os de condição mais alta, os oficiais na segunda guerra, e depois com os comandantes de navios mercantes. Ou seja, sem desconhecer o baixo inglês, conhecia os modos e frases de gente mais educada. A isso ele se impôs uma escola de língua, um aprendizado que somente 50 anos adiante Jimeralto pôde entender o acerto. Filadelfo ia ao cinema para acostumar os ouvidos. Lá chegando, encostava a cabeça no espaldar e fechava os olhos. Apesar de no começo desse método muita fala fosse incompreensível, ele captava os volteios, o ritmo, a entonação, o acento, com uma mente plástica e ágil. Assim posto, ficava com o cérebro que era ele todo, de olhos fechados e em absoluta atenção, aprendendo e pagando caro pelas imagens do filme perdido, sem se importar com as legendas na tela que poderiam dispersá-lo.

Os processos mnemônicos também eram empregados. Mesmo sem saber o nome desse caminho de aprendizagem, nem como isso se dava, a sua intuição o guiava para uma ciência antes da ciência. Pois dizia e contava para os encantados com a sua facilidade para línguas:

 A primeira palavra que aprendi em inglês foi “I”. Eu me disse: “engraçado, quando a gente tem dor, grita: ai!. Eu em inglês é ai Engraçado. Ai, eu!”.

A sua história voltava para a nova língua. Era um aprendizado que envolvia todo o ser. Às dificuldades naturais, de sua condição, ele respondia com as conquistas multiplicadas por sua vontade e inteligência. Aprender o inglês não era então uma coisa à parte, de horas arquivadas do dia, era e se tornou em determinado ponto de sua vida uma, mais que uma, a razão de viver. “No inglês ele é um maníaco, um tarado”, diziam dele os inimigos. No que, descontado o desprezo, tinham razão. Movido pela vontade de comer – atenção, abstratos, atenção, formais, atenção, só espíritos, a fome é uma pedagogia primária que move para os mais finos conhecimentos –, ele passou a misturar a língua ao leite, pão, feijão, arroz, ovos, roast beef e concluiu: “a língua é boa”. Passou a amar aquela material, desejá-la, querê-la, com todos seus lixos, caralhaços, sangue e virtudes. De cambulhada assimilou a bandeira norte-americana, pois o inglês era a pátria do império, sobre as listras vermelhas e estrelas do pano; passou a gostar dos rostos gringos dos States, aos quais assimilava sem deixar de lhes perceber a diferença; a ser fascinado pelo modo de vida da  gente dos Estados Unidos, a quem copiava com toda sorte de bugigangas que pudesse trazer dos navios; e por força da ideologia desse mundo, ganhou um novo e repugnante anticomunismo, que era a mais caricatural propaganda da guerra fria…

Do mau e do bom, do bem e do mal a sua competência linguística era feita. Em lugar da ilusão que crê no aperfeiçoamento espiritual somente pelos livros, como se a educação se desse por partenogênese, dos livros para os livros, da escola para a escola, de citações para as citações, uma autorreprodução de ensino formal, ele punha em seu aprendizado toda a ganga bruta de que é feita a sobrevivência. “Com toda a vontade”, ele poderia dedicar numa foto que espelhasse tal esforço. E nisso vinha uma dor fina em Jimeralto, uma vergonha misturada a raiva, por ter nas veias um sangue, um lodo de tamanha magnitude. Pois era fatal, inegável, o filho se diz de passagem, enquanto rola na cama lá no alto da Pensão 13 de Maio, ele se diz sem ver, enquanto tenta a leitura de John Reed com o mesmo fervor com que lia as vidas dos santos na infância, era claro que essa passagem do garçom para o intérprete de inglês se dava pela traição dos valores de seu povo e nação.   

*De O filho renegado de Deus,  prêmio de romance do Guavira de Literatura 2014.

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Soledad no Recife, de Urariano Mota, está à venda em versão eletrônica (ebook), por apenas R$10. Para comprar, clique aqui ou aqui.

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Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. É colunista do Vermelho. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, de O filho renegado de Deus (Bertrand Brasil, 2013), uma narração cruel e terna de certa Maria, vítima da opressão cultural e de classes no Brasil, e do Dicionário Amoroso do Recife (Casarão do Verbo, 2014). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

3 comentários em O homem que falava inglês

  1. Ana Lúcia // 09/12/2014 às 19:29 // Responder

    Excelente! Inspira(dor)!
    Parabéns!
    Ana Lúcia

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  2. Sem palavras para meu escritor preferido!

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