Leandro Konder (1936-2014): marxista impenitente

14.11.24_Michael Löwy_Leandro Konder_Marxista impenitentePor Michael Löwy.

Com o desaparecimento de Leandro Konder, a cultura marxista brasileira perdeu uma de suas figuras mais significativas. Segundo Lucien Goldmann, uma grande obra – literária ou filosófica – é aquela que consegue associar a coerência com a riqueza. Profundamente generoso, humano e criativo, Leandro se distinguia pela coerência de suas ideias, e pela extraordinária diversidade e riqueza de seus interesses e curiosidades. Seus escritos incluem não só brilhantes ensaios sobre a filosofia marxista, mas também obras sobre Fourier, Flora Tristan, Kafka, Walter Benjamin, a filosofia da educação, a questão do fascismo – sem falar de seu clássico livro sobre A derrota da dialética e seus dois romances. Leandro era um espírito autenticamente universal: um bicho raro nestes tempos de especialização acadêmica, fragmentação do saber e encerramento das disciplinas em compartimentos estanques.

Leandro – Leo para os amigos – nunca abandonou, cedeu, recuou, ou capitulou, em sua adesão ao comunismo e à dialética marxista. Impenitente, segundo a teologia, é aquele que nunca se arrepende de seus pecados. Leo nunca se arrependeu do “pecado” de lutar contra o capitalismo, por uma sociedade de justiça e liberdade humana. Seja na resistência contra a ditadura militar – que o prendeu e torturou, obrigando-o a se exilar –, nas fileiras do PCB, e mais tarde, do PT, e finalmente, do PSOL, ele sempre esteve na primeira linha do combate pela democracia e pelo socialismo. Sua arma, nesta luta, era tão ou mais poderosa que o melhor fuzil: a pluma.

Seu outro “pecado” era o humor, a ironia e auto-ironia com que apimentava seus escritos, suas aulas e suas conversas com amigos. Um exemplo bem conhecido era sua proposta de completar seu Curriculum Vitae (CV) com um Curriculum Mortis (CM), enumerando todas as derrotas, fracassos e insucessos do autor… No CM de Leandro Konder figura em bom lugar sua notória incapacidade de ser um acadêmico conformista, um burocrata partidário, um intelectual bem pensante e um pensador bem visto pelas autoridades competentes.

Conheci o Leandro em meados dos anos 1970, por ocasião de sua estadia em Paris, nos anos do exílio. Embora oriundos de “capelas” diferentes – ele o Partidão, eu a POLOP – comungávamos no culto a São Jorge (György Lukács). Passávamos horas a discutir as sutilidades da dialética lukacsiana e da necessidade de salvar o marxismo das calamidades positivistas e estruturalistas que o ameaçavam.

Muitos outros encontros se seguiram, não só em Paris, mas também no Rio de Janeiro, a partir do fim da ditadura. Nossas conversas se davam frequentemente em companhia de um outro mosqueteiro da dialética, o Carlos Nelson Coutinho. Além de Lukács, Gramsci, Goldmann, Kosik e outros profetas do Antigo e do Novo Testamento Dialético, discutíamos também sobre política brasileira. Partindo, no começo dos anos 1980, de perspectivas bastante diferentes, acabamos nos aproximando muito, partilhando esperanças e decepções. Esta aproximação se traduziu, por exemplo, na redação de um texto comum, “O Socialismo Libertário de William Morris”, que serviu de introdução à edição brasileira do romance utópico de William Morris, Noticias de Lugar Nenhum (São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2002).

Nesses trinta e tantos anos de leituras, conversas e discussões em torno de um café, uma cerveja ou uma batidinha, aprendemos um com o outro. Pessoalmente, aprendi muito com o Leandro. Não só sobre a história do marxismo no Brasil, mas também sobre Kafka, Lukács, Walter Benjamin. E sobre aquele “elemento pérfido” (Bernstein dixit) do marxismo: a dialética, é claro! Nunca li um livro de Leandro sem encontrar nele ideias, hipóteses, análises que me enriquecessem e me ajudassem a refletir. Meu preferido é Walter Benjamin, o marxismo da melancolia. Neste livro aparece o seguinte comentário: “Benjamin sabia da necessidade de pensar agindo, de agir pensando.” O mesmo se aplica, palavra por palavra, ao itinerário do intelectual militante Leandro Konder.

Semanas atrás, por ocasião de uma curta estadia no Rio, Eleni (minha companheira) e eu fomos visitar Leo e Cristina. Nosso amigo se movia com dificuldade e a voz estava enfraquecida, mas o espirito nada tinha perdido de sua agilidade e de sua força. Conversamos sobre a reedição de suas obras: nossa cara Ivana Jinkings, da Editora Boitempo, estava muito interessada e esperava por propostas. Eu não podia imaginar que este seria nosso ultimo encontro…

O Leo vai nos fazer muita falta… Mas suas ideias estarão no coração e no espirito de muitas gerações de marxistas. Se algum dia a dialética tiver sua revanche no Brasil, ela terá uma grande dívida para com o Leandro, combatente obstinado por um marxismo dialético, aberto, humanista, democrático e revolucionário (no sentido gramsciano da palavra).

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Carlos Nelson Coutinho, Michael Löwy e Leandro Konder juntos em rara fotografia de 1992.

Confira também, “Um amorável marxista: Leandro Konder (1935-2014)“, de José Paulo Netto, “Chegada do manifesto“, de Leandro Konder, “Sobre o amor“, homenagem de Marcelo Freixo a Leandro Konder, e a entrevista integral de Leandro e Carlos Nelson Coutinho a Emir Sader e Maria Orlanda Pinassi para a revista Margem Esquerda.

***

Michael Löwy, sociólogo, é nascido no Brasil, formado em Ciências Sociais na Universidade de São Paulo, e vive em Paris desde 1969. Diretor emérito de pesquisas do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS). Homenageado, em 1994, com a medalha de prata do CNRS em Ciências Sociais, é autor de Walter Benjamin: aviso de incêndio (2005), Lucien Goldmann ou a dialética da totalidade (2009), A teoria da revolução no jovem Marx (2012), A jaula de aço: Max Weber e o marxismo weberiano (2014) e organizador de Revoluções (2009) e Capitalismo como religião (2013), de Walter Benjamin, além de coordenar, junto com Leandro Konder, a coleção Marxismo e literatura da Boitempo. Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

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