Simón Bolívar (Parte I)

14.11.21_Izaías Almada_Bolivar IPor Izaías Almada.

No mais das vezes citada como sendo alguma coisa ruim, perversa, a expressão “bolivarianismo” vem ganhando relevância em alguns feudos da direita brasileira, introduzida que foi pela portas dos fundos de redações, parlamentos e tribunais. Sem contar a idiotia generalizada das chamadas redes sociais.

Usada nesse sentido, a expressão demonstra o grau de ignorância e atraso mental de seus disseminadores, cuja imagem mais candente se materializou com a foto de um dos diretores do jornal O Estado de São Paulo em passeata golpista pró intervenção militar em que segurava um cartaz com os dizeres “foda-se a Venezuela”.

Dou aqui, modestamente, um pequeno contributo a tamanha ignorância, sem esquecer um pequenino e relevante fato: o de lembrar que um dos primeiros atos de Hugo Chávez como presidente eleito democraticamente na Venezuela em 1998 foi uma profilaxia de natureza ética no Poder Judiciário do país.

Para compreender, pois, essa Venezuela que entrou no século 21 eliminando o analfabetismo de suas fronteiras1, entre outras importantes conquistas sociais, será necessária uma exegese e o estudo para o conhecimento mínimo daquilo que ouso denominar de tripé histórico, político e econômico, cuja base é hoje formada por uma população de 25 milhões de habitantes.

Dois nutrientes desse tripé se identificam com duas personalidades, dois homens de inegável poder carismático e que estão separados por 124 anos de história do país, Simón Bolívar e Hugo Chávez.

O terceiro suporte do tripé é o petróleo, riqueza natural que vai ajudando a construir a riqueza da nova Venezuela, embora não seja inesgotável, e que com a chegada de Chávez ao poder deixou de ser monopólio da burguesia local e internacional. Em todas as análises, ensaios, revistas, vídeos e livros a que já tive acesso, dos mais superficiais aos mais verticalizados, o denominador comum subjacente a cada um deles passa necessariamente pela citação de um desses três vetores ou quase sempre dos três. Não fujo à regra.

O presidente Hugo Chávez tinha por costume dizer que a seiva de que se nutria ideologicamente a Revolução Bolivariana era proveniente de três raízes de pensamento e ação: Simón Rodríguez, Ezequiel Zamora e Simón Bolívar. Dos três, o mais reverenciado ainda nos dias atuais, não só na Venezuela, é Simón Bolívar.

É quase impossível para um turista que vá hoje à Venezuela ficar indiferente à presença constante, em pinturas, gravuras, estátuas, nomes de ruas e praças, impressão em cédulas e moedas, camisetas, cartazes, publicações das mais variadas, museus, desenhos animados, da figura de Simón Bolívar, o Libertador, como é carinhosamente chamado.

E não é um fenômeno atual, que diga respeito somente à Revolução Bolivariana. Trata-se de uma tradição histórica cultivada praticamente desde a sua morte em 1830. Governantes, os mais diversos no século 20, sempre reverenciaram a memória do Libertador.

Tal reconhecimento e respeito pela figura do herói da independência conquistada ao colonizador espanhol têm sua maior expressão, a meu ver, no fato de haver a Constituição da V República, elaborada por uma Assembléia Nacional Constituinte em 1999, se consagrado como Constituição da República Bolivariana da Venezuela e dizer em seu artigo 1º:

“A República Bolivariana da Venezuela é irrevogavelmente livre e independente e fundamenta seu patrimônio moral e seus valores de liberdade, igualdade, justiça e paz internacional na doutrina de Simón Bolívar, o Libertador.” 2

Lamento não existir sentimento semelhante no Brasil, até porque muitos dos que entre nós lutaram pela independência em relação a Portugal nem sequer são estudados com o devido apreço por suas ações. O mais famoso deles, Tiradentes, durante muitos anos foi ironicamente o nome de um não menos famoso presídio na cidade de São Paulo.

Ainda carecemos de patriotismo, infelizmente. Ou, pelo menos, ele fica mais evidente de quatro em quatro anos, quando o país se ufana nas copas mundiais de futebol. O grito do Ipiranga está condenado a ser um grito de gol ou um quadro famoso na parede e o seu protagonista, para aqueles que não se dedicam ao estudo da história pátria, alguém que apenas consumou uma situação de fato ao bradar “Independência ou Morte!”

Dom Pedro I está longe de se tornar um mito, um personagem em que o cidadão mais humilde se reconheça em sonhos de igualdade, liberdade e fraternidade. Talvez até nem tivesse estatura para tanto, concordo, mas outros tiveram e nem por isso são reverenciados.

Não tivemos nem grandeza e nem heroicidade na nossa independência e por isso, talvez, é que carreguemos ainda nos dias de hoje, amortecidos dentro de cada um, a esperança e o desejo de uma verdadeira libertação. Ou de um sadio orgulho patriótico. Tentativas nessa direção invariavelmente são abafadas pelo aculturamento de nossas “elites”, sempre prontas a tirar os sapatos (e se preciso for até as calças) em alfândegas no exterior.

Algum orgulho patriótico, contudo, permeia boa parte da história da América espanhola com os feitos e as lutas de Bolívar e não só contra os espanhóis, ao tentar criar a sua Grande Colômbia.

Entretanto, o que chama a atenção em Bolívar, quando se começa a ler um pouco da sua história, não é o aspecto factual ou a descrição das batalhas e conflitos políticos em que se envolveu, mas é – sobretudo – a sua visão de estadista, escrita em muitos documentos e cartas, adquirida, sobretudo, em meio aos inúmeros combates que travou. Muitos deles na companhia de um digno militar de origem brasileira, José Inácio de Abreu e Lima.3

Suas reflexões, em particular, sobre o então incipiente conflito com os Estados Unidos da América, já no decorrer do século XIX nos dão a dimensão de sua ação política libertadora e visionária. Em muitos dos seus discursos e cartas, ele costumava chamar a atenção para esse fato, sendo já famosa uma frase sua: “Os Estados Unidos parecem destinados pela providência para encher de fome e miséria a América em nome da Liberdade”.

Tão logo saíram os espanhóis de cena, na primeira metade do século XIX, o espaço político e mesmo geográfico da América espanhola, confirmando a previsão de Bolívar, foi sendo aos poucos ocupado pelos norte-americanos, cuja política expansionista avançou pela América Central e Caribe, desde a anexação de Estados como a Califórnia e o Texas, tomados em tratados de “mão grande” aos mexicanos.

Conhecer os conceitos e a prática dessa política expansionista desde os seus primórdios me parece um cuidado que se deveria tomar para o embasamento de propostas políticas alternativas dentro do panorama geopolítico contemporâneo, onde nenhum povo ou país deve se submeter à supremacia de quem quer que seja.

Nesse aspecto, a bibliografia citada pelo escritor venezuelano Carlos Méndez Tovar em seu livro Conoce Usted a su Enemigo? nos remete a um conjunto de obras sobre o tema.4

Continuarei em próximo artigo.

NOTAS

1 No dia 28 de outubro de 2005, a Venezuela foi reconhecida e declarada oficialmente pela UNESCO como tendo erradicado o analfabetismo de seu território. Para isso, muito contribuiu o governo cubano.

2. Constitución de La República Bolivariana de Venezuela, artigo 1, Principios Fundamentales.

3. CHACON, Vamireh, ABREU E LIMA, General de Bolívar, Editora Paz e Terra, 1983 – Coleção ESTUDOS BRASILEIROS.

4. TOVAR, Carlos Méndez, Conoce Usted a su Enemigo? Pablo de La Torriente Editorial, Cuba. 2001.

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Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mim, O medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

3 comentários em Simón Bolívar (Parte I)

  1. Porque não uma foto de Simón Bolívar na matéria?

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    • boitempoeditorial // 21/11/2014 às 18:50 // Responder

      Neste caso a sugestão de foto foi uma indicação do próprio autor. A justificativa foi de que uma pintura de Simón Bolívar seria batida demais; e que além de mais criativa, uma imagem de Gilmar Mendes daria tanto uma ideia da discussão atual na qual a coluna se insere quanto da posição do autor no seu interior.

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  2. Izaías Almada // 22/11/2014 às 12:40 // Responder

    Caro Bule Verde. Mesmo com a resposta do editor, gostaria de acrescentar umas palavrinhas sobre a ilustração. GM é um antípoda de Bolívar. São dois extermos dos pensamentos e ações humanas. Além do mais, Simón Bolívar já está na História. Se você olhar com outros olhos verá que o ministro está tentando entender o que lê na Constiuição Brasileira, mas pela expressão parece que está difícil entender… Grando abraço.
    Izaías Almada

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